Hold me Tight

9 Deus abençoe a cerveja


– Jimin POV -

Todo o tempo livre que eu tinha entre a faculdade e o trabalho era usado para treinar os passos de dança que me fariam ganhar a competição. Esta tarde não era diferente. Batidas altas e fortes de hip-hop ecoavam pelas paredes do estúdio de dança vinculado à academia que eu costumava frequentar. No momento, eu tentava concluir uma série de movimentos rápidos com perfeição, mas eu estava nisso há tanto tempo que sentia minha regata colar nas costas, completamente encharcada de suor. Frustrado, me dei ao luxo de uma pausa de cinco minutos enquanto procurava por uma garrafa d’água bem gelada. O que eu não esperava encontrar era um garoto estranhamente familiar parado na porta do estúdio, me observando com um leve sorriso no rosto.

– Oh, me desculpe se te assustei. – disse o garoto, abrindo mais o sorriso ao notar minha expressão confusa enquanto se aproximava de mim. Ele era tão baixo quanto eu, senão mais. Trajava roupas leves de academia, uma regata e shorts largos, como eu. Seus cabelos negros estavam presos por um boné virado para trás e sua fala tinha um leve sotaque. – Olá, meu nome é Jackson. – disse ele, me estendendo a mão, que aceitei. – Você frequenta a mesma turma de dança que eu, não? Eu me lembro de ter te visto pelo campus antes.

– Ah! – estalei os dedos, reconhecimento caindo como uma pedra sobre mim. – Foi você que humilhou a turma inteira semana passada com as suas piruetas, não foi? – brinquei, arrancando deliciosas risadas do meu colega de classe. – Muito prazer, eu me chamo Park Jimin.

– Culpado. – ele levantou as mãos em sinal de rendição, num tom de brincadeira. – Você por acaso vai participar da competição em Hongdae? Por isso tá treinando tanto?

– É tão óbvio assim? – assenti, tomando um gole d’água. – E quanto à você? Vamos ser concorrentes?

– Pode apostar que sim. – sorriu. – Sabe, eu tava aqui observando sua dança e pensando que uma pirueta ou outra não faria mal. Com certeza daria um final digno de aplausos.

– Ah, se ao menos eu soubesse como dar esses giros mortais. – ri, um pouco envergonhado. – Sempre que eu tento eu acabo com dor nas costas.

– Não seja por isso, eu te ensino. – Jackson abriu o sorriso mais encantador que eu já vira. Encarei-o, piscando os olhos diversas vezes, incrédulo.

– Por que você faria isso? Não me leve à mal, é que... – adicionei, tentando me desculpar diante do sorriso que morria levemente no rosto do moreno. – Nós vamos competir um contra o outro.

– E daí? O meu lema na vida é “que vença o melhor”. – ele disse, voltando a colocar um sorriso confiante no rosto. – Eu vejo que você tem muito potencial, e se eu puder te ajudar a melhorar, eu ajudarei. Mas não se engane, eu não vou deixar você ganhar assim tão fácil. – riu.

– Nossa, eu sinceramente não sei como agradecer. – soltei uma risada constrangida.

– Me pague uma tigela de rámen mais tarde. – ele riu, começando a se aquecer. Ele mexeu por alguns segundos no rádio à procura de uma música mais adequada, e assim que ficou satisfeito começou a se mexer. Ele dançava com movimentos fortes e precisos e antes que eu pudesse acompanhá-lo ele já estava dando saltos e giros no ar. Notando meu desespero, ele riu e desacelerou o ritmo para me guiar através da música. Ao final da tarde estávamos ambos ofegantes, suados e famintos.

Tomamos um banho rápido no vestiário da academia e fizemos caminho até um pequeno restaurante especializado em macarrão, que apesar de não ser muito famoso, possuía um cardápio impecável. Com pouco tempo de conversa me vi sendo amigo de Jackson. Descobri que ele nascera em Hong Kong, mas se mudou para a casa da tia aqui em Seoul quando era mais novo. Descobri também que ele tinha um melhor amigo chamado Mark, que também era estrangeiro assim como ele, e por alguma razão Jackson não parava de falar no rapaz. Ele possuía uma natureza extrovertida e engraçada, por isso o tempo voou diante dos meus olhos sem eu nem ao menos perceber. Me despedi dele apressado, super atrasado para o trabalho, prometendo uma nova sessão de treino durante a semana.

A noite passara sem problemas na loja de conveniência em que eu trabalhava. Tive que lidar apenas com alguns menores de idade tentando comprar álcool com documentos falsos, um homem tão embriagado que vomitou no chão da seção de salgadinhos – me obrigando a colocá-lo pra fora e limpar tudo – e a clientela usual comprando as mais variadas coisas. Num determinado momento de quietude, pouco depois da meia-noite – e quase na hora do meu turno acabar – eu me distraí com a lembrança do assalto que ainda estava bem vívida na minha mente, ponderando o fato de que após o incidente a vizinhança parecia bem mais tranquila, quando ouvi o leve toque do sino da porta da frente que me indicava a chegada de um novo cliente. Quase engasguei com a minha própria saliva quando vi uma familiar cabeça adornada com fios loiros fazendo caminho até a seção de bebidas alcóolicas.

Suga pareceu não me notar, então eu aproveitei a invisibilidade momentânea para analisar suas feições. Ele vestia jeans surrados, uma camiseta branca com outra camisa de botão xadrez por cima, grande o suficiente para acomodar dois dele, e coturnos nos pés. Reparei que ele apresentava olheiras profundas embaixo dos pequenos olhos e, apesar de estar preocupado, tive que conter o riso ao lembrar da imagem de um panda. Sua expressão estava fechada numa careta enquanto tentava se decidir entre marcas de cerveja, uma pequena ruga de concentração se formando entre as sobrancelhas. Depois de passados alguns segundos, ele caminhava satisfeito na minha direção com um engradado de latinhas de cerveja em mãos. Só então seus olhos encontraram os meus.

– Você aqui de novo? – perguntou, tentando esconder a surpresa enquanto jogava o dinheiro amassado sobre o balcão.

– Eu trabalho aqui, esqueceu? – suspirei, mexendo na caixa registradora para lhe devolver o troco. – É você quem sempre volta pra cá aparentemente sem motivo.

– É que... – pigarreou, tentando disfarçar o leve rubor que eu via subindo por suas bochechas. – Eu gosto dos preços dessa loja.

– Claro, não poderia ser outra coisa. Os preços são arrasadores mesmo. – brinquei, mantendo contato visual enquanto lhe entregava a sacola com a mercadoria e o troco. Ficamos alguns segundos assim, imóveis, apenas um olhando nos olhos do outro. De repente Suga pareceu acordar de algum transe, pigarreando novamente e desviando o olhar para o lado.

– Seu turno já está acabando? – sua pergunta me pegou de surpresa.

– Quase. Por quê?

Ele levantou a sacola que tinha em mãos. – Quer dividir uma cerveja?

Fiquei um longo tempo encarando seus olhos, analisando suas feições, desconfiado. Suga definitivamente não estava agindo como de costume. Seu rosto que normalmente apresentava expressões duras e fechadas estava agora adoravelmente constrangido, uma de suas mãos coçava a nuca distraidamente, e não pude deixar de pensar que ele queria me compensar por alguma coisa. – Me espere lá fora. – sorri, enxotando-o para que eu pudesse atender outro cliente que acabara de entrar.

Esperei impacientemente pelo colega de trabalho que iria assumir meu turno e, assim que ele entrou pela porta, corri para a área dos funcionários afim de trocar o uniforme para roupas casuais. Quando saí para a noite que estava levemente fria comparada com o ambiente agradável da loja, avistei Suga encostado sobre o capô de um carro antigo e preto que estava estacionado em frente à loja, sacola de compras no colo e concentrado demais em algum jogo no celular para notar minha presença.

– Que carro é esse? – perguntei, desconfiado. – Nunca vi esse carro antes.

– Ah, essa lata velha aqui? Ganhei de presente. – sua resposta fora um pouco vaga, mas eu acho que não estava em posição de insistir. – E ai, pra onde vamos? – perguntou, pegando as chaves do carro e se dirigindo para o lado do motorista.

– Deixa o carro ai. Nós podemos caminhar até aquela pracinha aqui perto. – sugeri. Suga apenas deu de ombros e guardou a chave no bolso, me seguindo enquanto eu liderava o caminho. Nós caminhamos num silêncio levemente desconfortável, mas assim que chegamos ao local e nos sentamos num banco próximo, não consegui segurar a pergunta que estava martelando na minha cabeça a semana toda.

– Por que você não respondeu minhas mensagens? – Suga levou um tempo para me responder, abrindo uma lata de cerveja para mim e logo em seguida outra para si. Eu estava começando a cogitar a ideia dele não ter me escutado quando ele finalmente suspirou.

– Eu tava ocupado. – disse, bebericando sua cerveja.

– Com o quê? – insisti.

– Não te interessa. – suspirei. Suga era tão difícil de manter uma conversa, que chegava a dar raiva.

– Por acaso tem algo a ver com as olheiras enormes que eu posso ver embaixo dos seus olhos? – isso definitivamente atraiu sua atenção. O loiro sustentou meu olhar por um longo momento antes de dar de ombros.

– Isso realmente não é da sua conta. Não estou apenas sendo rude, é realmente melhor você não saber.

– Tá, você venceu. – suspirei. – Mas você não teve nem um minuto na sua oh, tão lotada agenda pra mandar um oi? Ou um foda-se, o que seja?

– Eu não tenho tempo pra papo furado, garoto. – disse ele tomando outro gole de cerveja, olhos treinados nos carros passando à distância.

– Mas agora tem? – brinquei, escondendo o sorriso na latinha que eu tinha encostada nos lábios.

– Cala essa boca. – minha brincadeira pareceu pegá-lo desprevenido. Ele esvaziou sua latinha toda num gole só, tentando disfarçar o constrangimento, enquanto abria outra em sequência. Não consegui controlar o riso, meia latinha de cerveja sendo suficiente pra me deixar mais alegre. Suga fez uma careta pra mim, mas isso só causou mais risadas da minha parte. Logo eu estava dobrado ao meio, sentindo cãibras nas bochechas de tanto rir. Até Suga soltou uma risada curta com a visão, sua até então segunda latinha já quase no final.

Quando me acalmei da crise de risos, terminei minha primeira latinha num silêncio bem mais confortável que o anterior. Mexi na sacola à procura de outra e enquanto a abria, lembrei de algo que queria lhe pedir.

– Ya, Suga-ssi. – minha fala saiu levemente enrolada, atraindo um olhar divertido da parte do loiro. – Eu estive pensando. – pausei, tentando me lembrar sobre o que eu estive pensando exatamente.

– Jura? – brincou, escondendo o riso atrás do punho.

– Shh, me deixe terminar. – ralhei, expressão de concentração no rosto. – Ah! – dei um forte tapa no seu ombro assim que a lâmpada se acendeu na minha mente, lhe proporcionando uma careta de raiva. – Eu vou participar de uma competição de dança mês que vem. Você, Jin-hyung e Namjoon-hyung estão convidados. – continuei, orgulhoso de mim mesmo por ter me lembrado de tudo.

– E quem disse que eu quero ir? – Suga ainda mantinha uma expressão levemente irritada no rosto. Para convencê-lo, mostrei meu melhor aegyo: olhos grandes e inocentes, mãos fechadas em punho dando leves soquinhos no seu braço, e lábios formando um bico irresistível enquanto barulhos manhosos escapavam deles. – Para com isso. Seu aegyo é ridículo. – ralhou.

– Ah~ por favor, hyung~ — implorei de forma manhosa. Suga estava com cara de quem queria arrancar meus dentes.

– O que eu falei sobre me chamar de hyung?

– Ops. – tapei a boca com as mãos, num gesto de falsa inocência. – Me desculpe, Suga-ssi. – sentindo que ele ia ignorar o assunto, comecei a saltitar no banco ao seu lado, partindo pro plano b. – Vamos na competição me ver? Hein? Vamos? Por favor, vamos? Vamos! Vai ser divertido!

– Aish, que criança irritante! – ele se virou pra mim de supetão, pronto pra me dar um soco na cara, mas de última hora pareceu mudar de ideia. – Tá bom, eu vou na porcaria da sua competição. Agora cala essa boca e bebe o resto da cerveja.

– Vai mesmo? – exclamei, mal conseguindo conter a animação.

– Vou.

– Jura?

– Vou, caralho, já disse! – dessa vez ele não se conteve e me deu um tapa atrás da cabeça. Doeu. – Agora fica quieto e bebe essa porcaria!

Obedecendo suas ordens, escondi o sorriso na latinha novamente ao notar que quando ficava nervoso, Suga deixava transparecer mais o sotaque que possuía. E também xingava bastante.

Ficamos novamente em silêncio, meu cérebro tentando descobrir de onde era o sotaque que Suga apresentava enquanto minha terceira latinha de cerveja estava pela metade. Tarde demais eu senti meus olhos ficando pesados, e a próxima coisa que eu senti foram os ombros do loiro se agitando para me acordar.

– Vamos embora, guri. Você não tá parando em pé mais. – ordenou, sacola cheia de lixo numa mão enquanto ele me puxava com a outra. – Onde você mora? Eu te dou uma carona. – balbuciei meu endereço pra ele, o sono tornando difícil até mesmo a simples tarefa de segui-lo até o carro. Mal notei quando ele me colocou no banco do carona e puxou o cinto de segurança, logo em seguida tomando seu lugar no banco do motorista. Algo no fundo da minha mente dizia que eu deveria me preocupar com o modo rápido e descuidado que Suga dirigia, passando por quase todos os sinais vermelhos, mas o sono era mais importante naquele momento. Só registrei quando o carro estacionou na frente do meu prédio, a familiaridade do local me despertando levemente.

– Boa noite, Suga-ssi. – murmurei, soltando o cinto de segurança e me inclinando na sua direção, pousando um leve beijo sobre sua bochecha pálida. No momento, meu cérebro trabalhava completamente no automático, e enquanto eu saía do carro, não pude notar o forte tom de vermelho que aquelas bochechas adquiriam.