Hoje lembrei do teu amor | Drarry.
1 Lembrei de coisas que eu nunca esqueci.
Notas iniciais
Uma ida ao Beco Diagonal jamais parecera tão assustadora.
Draco Malfoy tinha passado boa parte da vida aperfeiçoando a arte de esconder qualquer emoção atrás de um olhar indiferente. Naquela manhã, porém, não havia indiferença capaz de salvá-lo.
Estava nervoso.
E Harry sabia.
Draco acabara de vestir o sobretudo e permanecia parado no meio do quarto, os dedos ainda presos a um dos botões, quando sentiu uma mão quente envolver a sua.
— Ei...
Harry se colocou à sua frente e ergueu o rosto dele delicadamente pelo queixo.
— Relaxa. É só uma ida ao Beco Diagonal. Vamos comprar algumas coisas, andar um pouco e voltar para casa. Até parece que você nunca esteve lá.
Draco lançou-lhe um olhar impaciente.
— Eu já estive lá milhares de vezes. Nunca com você.
Harry perdeu um pouco do sorriso.
Draco respirou fundo.
— Isso não te preocupa?
— O quê?
— Ser visto comigo.
Harry franziu a testa.
— Draco...
— Ao lado de um ex-Comensal da Morte — continuou, antes que perdesse a coragem. — Você sabe o que vão dizer.
O silêncio durou apenas alguns segundos.
Então Harry segurou seu pulso.
Draco percebeu o que ele pretendia fazer antes mesmo que a manga do sobretudo fosse puxada para cima.
— Harry...
Mas Harry não respondeu.
Abaixou a cabeça e depositou um beijo sobre a Marca Negra.
Depois outro.
E outro.
Draco fechou os olhos.
Harry sempre fazia aquilo quando percebia que ele estava se afundando novamente naquele lugar. Na culpa. Na vergonha. Na certeza de que existiam coisas que jamais poderiam ser desfeitas.
E, todas as vezes, Draco sentia o mesmo arrepio quando aqueles lábios quentes tocavam algo que ele considerava tão sujo.
Harry provavelmente jamais entenderia o tamanho daquele gesto.
Quando terminou, levantou os olhos.
— Eu te amo — disse simplesmente. — E a única coisa que me preocupa em aparecer com você em público é alguém olhar demais e perceber o quanto você é lindo.
Draco arqueou uma sobrancelha.
— Essa foi uma tentativa terrível de me tranquilizar.
— Funcionou?
Draco tentou conter o sorriso.
Não conseguiu.
Puxou Harry pela gola da camisa e o beijou.
Foi um beijo apressado, quase desesperado, carregado de tudo aquilo que Draco ainda não sabia dizer em voz alta.
Quando se separaram, Harry continuava sorrindo.
— Melhor?
— Um pouco.
— Ótimo.
Harry entrelaçou os dedos aos dele.
Poucos segundos depois, os dois desaparataram.
♦
As batidas na porta do escritório trouxeram Draco de volta à Mansão Malfoy.
Ele piscou algumas vezes antes de perceber onde estava.
— Entre.
Um dos elfos domésticos colocou a cabeça para dentro.
— O senhor Malfoy irá jantar à mesa ou deseja que o jantar seja servido aqui?
Draco olhou vagamente para o relógio.
Nem sequer havia percebido que já era noite.
— Obrigado. Estou sem fome.
O elfo hesitou.
— Tem certeza, senhor?
— Tenho. Se precisar de alguma coisa, eu chamo.
A pequena criatura assentiu e fechou a porta atrás de si.
O silêncio voltou.
Draco permaneceu imóvel por alguns instantes.
Então sua mente fez aquilo que vinha fazendo havia semanas.
Voltou para Harry.
Fazia quase um mês e meio desde que haviam se separado.
Um mês e meio.
Parecia ridículo.
A dor ainda tinha a mesma intensidade da primeira noite.
Naquele dia, especialmente, parecia impossível fingir que estava tudo bem.
Draco só percebeu que chorava quando sentiu o gosto salgado alcançar seus lábios.
Passou a mão pelo rosto, irritado consigo mesmo.
Não adiantou.
As lágrimas continuaram vindo.
Sem pensar muito no que fazia, puxou um pergaminho para perto e molhou a ponta da pena na tinta.
Ficou alguns segundos encarando a folha vazia.
Depois começou a escrever.
"Hoje lembrei do teu amor."
Parou.
Só aquela frase já doía.
Continuou.
"Lembrei de coisas que eu nunca esqueci. E como poderia esquecer? Você me marcou pela vida inteira."
A pena deslizou mais devagar.
"Lembrei do gosto da tua boca antes de dormir."
Draco ficou olhando para aquela última frase.
Boca.
Dormir.
Harry.
E, de repente, seu escritório desapareceu.
♦
Harry estava deitado ao seu lado.
Naquela época, Draco ainda insistia que aquela era "a cama de Harry", embora já tivesse roupas no armário, dois frascos de perfume no banheiro e livros espalhados por praticamente todos os cômodos da casa.
Estava recostado contra a cabeceira, vestindo apenas uma cueca preta e lendo um livro de Poções.
Ou tentando.
O colchão afundou ao seu lado.
Draco continuou olhando para a página.
— Dray...
Nada.
— Dray...
Harry passou os dedos lentamente pelo braço dele.
Draco mordeu o interior da bochecha para não rir.
— Pois não, Harry?
— Você realmente prefere ler esse livro chato a dar atenção a um moreno extremamente bonito, usando apenas uma cueca, que está deitado ao seu lado?
Draco abaixou o livro.
Harry estava fazendo um bico tão exagerado que seria impossível levá-lo a sério.
— Por Merlin.
— O quê?
— Eu sabia que você era carente. Só não imaginava que fosse tanto.
— Eu não sou carente.
— Evidentemente.
— Estou falando sério!
Draco fechou o livro e o colocou sobre a mesa de cabeceira.
— Venha aqui.
Harry não precisou ouvir duas vezes.
Acomodou-se contra o peito dele, satisfeito.
Draco passou um braço por sua cintura.
— Isso não prova nada — murmurou Harry.
— Claro que não.
— É obrigação contratual.
— Ah, é?
Harry levantou o rosto.
— Quando você aceitou namorar comigo, deveria ter lido as letras miúdas. Depois de um dia inteiro longe do seu amado, é obrigatório oferecer carinho e atenção em quantidade ilimitada.
Draco soltou uma gargalhada.
— Vou precisar consultar meus advogados.
— Consulte.
— Talvez eu peça a anulação do contrato.
Harry estreitou os olhos.
Draco sorriu e tocou seu queixo.
— Mentira.
Harry o encarou.
E, por um instante, Draco esqueceu completamente a piada.
Aqueles olhos.
Merlin.
Como ele amava aqueles olhos.
— Eu te amo — disse.
O sorriso de Harry mudou. Tornou-se menor, mais íntimo.
— Eu também te amo.
Beijou-o devagar.
Depois voltou a se aconchegar contra seu peito.
Pouco tempo depois, Harry já respirava de maneira mais lenta, o sono vencendo.
— Boa noite, amor — murmurou.
Draco apertou os braços em torno dele.
— Boa noite.
♦
De volta ao escritório, Draco respirou fundo.
Merlin.
Aquelas lembranças ainda acabariam com ele.
Olhou novamente para o pergaminho.
E continuou escrevendo.
Fale com o autor