Olhos nos olhos

Minha felicidade, porém, não podia durar muito. Eu não encontrei membro algum do Shinhwa em nenhum lugar daquele hotel, e ninguém me sabia dar informações sobre os rapazes. Fiquei decepcionada e frustrada com a desilusão de não vê-los aquela tarde, e voltei para o quarto sem sequer almoçar. Coloquei o aviso de “não perturbe” na maçaneta e fiquei por lá, deitada e triste.

Quando anoiteceu, tomei um banho e resolvi fazer o estilo femme fatale. Retirei as traças de um vestido preto irresistível, passei gel no cabelo e usei maquiagem. Ninguém me reconheceria, eu não costumava me vestir daquela forma esdrúxula. Causei risos em Bob e um sorriso em minha mãe, que sempre sonhou em ver sua única filha se vestir como mulher. Eu achava que me vestia bem, mas não era, decididamente, uma mulher excessivamente feminina. Me faltavam alguns atributos, como vaidade. Meu cabelo era curto, pois não dava trabalho. O batom que eu conhecia era o brilho labial, somente para evitar rachaduras. Não gostava de hidratantes, e perfume existia somente para ocasiões muito especiais. Aquela deveria ser uma, então utilizei minhas armas.

A família toda resolveu jantar, incluindo Bob, em um restaurante chique que havia nas proximidades do hotel. Não entendi por que precisávamos sair daquele lugar maravilhoso para comer, mas quem era eu para discutir com Brad. Pendurado no celular, ele nos levou ao Chateau D’Or. Pelo que entendi, era o restaurante mais caro e metido a besta de Seul, especialmente para estrangeiros bobos como nós. Precisei me ver novamente em meio aos vinhos, couverts e pratos enfeitados que lá serviam, e que eu sempre detestava. Limitei-me a provar a pasta de camarão com as torradas do couvert, e a beber água com gás. Não gostava daquele luxo todo, daquela coisa de aparências. Inventei que estava me sentindo indisposta e voltei para o hotel sozinha.

Sobre um salto alto que eu não conseguia me equilibrar direito, e já com o rímel meio borrado, sentei no balcão da lanchonete do bar do hotel e pedi um sanduíche com bastante maionese e uma Coca Light. Fiquei brincando de afogar as pedras de gelo no líquido espumoso do refrigerante quando notei uma presença ao meu lado. Alguém havia se sentado no balcão também.

_Boa noite. – Uma voz masculina invadiu meus ouvidos.

_Noite. – Não tirei os olhos do copo de bebida.

_Um sanduíche com maionese e Coca cola, por favor. – A voz pediu ao garçom. Depois, voltou a conversar comigo.

_Está sozinha aqui?

Caí na risada.

_Isso é uma cantada meio velha. – Levantei os olhos e imediatamente fiquei muda. Ao meu lado estava ninguém mais do que Kim Dongwan.

_Não é cantada... – ele sorriu. – É curiosidade.

O garçom me salvou de parecer idiota trazendo nossos sanduíches exatamente iguais. Pão, carne, alface, presunto de peru e muita maionese. Olhei para os dois pratos e sorri.

_Não acredito que você pediu isso. – Eu disse.

_Por que? Você também pediu!

_Exatamente por isso. Kim Dongwan comendo a mesma gororoba que eu... daria até um livro.

Notei que Dongwan baixou os olhos e encarou sua Coca Cola por alguns instantes. Havia um sorriso transparente em seus lábios. Ele estava exatamente como eu mais gostava: os cabelos despenteados, um óculos imenso e vestindo preto.

_Você já assistiu Stigmata?

_Que? – Surpreendi-me com a pergunta.

_Aquele filme, que fala de um padre que lida com a stigmata... é religioso, mas muito bom.

_Gabriel Byrne. Sim, já assisti. Mas... de onde tirou esse filme, agora? Da maionese ou da Coca?

Dongwan deu uma gargalhada.

_Você tem senso de humor... legal isso. É que você mal me olhou e já me reconheceu. Mal falamos e meu nome, minha stigma, já está aqui no meio. Gostaria que as pessoas me vissem simplesmente como um cara.

_Desculpe. – Foi minha vez de baixar o olhar e me sentir constrangida. Não pude evitar, mas fiz exatamente aquilo que considerava um saco. Comprei o livro pela capa, e não pela sinopse.

_Tudo bem... isso acontece sempre.

Olhei para Dongwan e pensei que precisava fazer alguma coisa para melhorar sua estima.

_Isso é uma cantada bastante velha. – Fiz gênero. – Débora Mendes, muito prazer.

Dongwan me olhou surpreso, mas resolveu entrar no jogo.

_Kim Dongwan, ao seu dispor. Está hospedada aqui?

_Desde hoje. Estou com mamãe, padrasto, irmãos e babá.

_Meus pêsames. Veio a passeio conhecer a Coréia?

_Eu sim, meu padrasto veio a trabalho. E você?

Dongwan gargalhou novamente.

_Vai mesmo fingir não me conhecer?

_Mas eu não te conheço.

_Tudo bem, tudo bem. Eu estou a trabalho, infelizmente. Mas nada que não se possa resolver em uma boa noite de música.

_Isso foi um convite?

_Depende de como você entender. Sei que o video-bar do hotel é fantástico... gosta de cantar? Dançar?

_Falou com a música em carne e osso.

Foi muito fácil e natural conversar com Dongwan naquele momento. Foram minutos de um papo descontraído e simples, em nada parecia com a imagem que eu tinha do encontro fã x ídolo. Aliás, eu nem sabia se tinha uma imagem fã x ídolo... eu era tão devagar! Claro que as coisas fluíram facilmente porque ele era uma pessoa especial, ele pareceu não se prender à mascara de ídolo pop e preferia não ser reconhecido. Mas eu, que pensei ficaria totalmente sem palavras frente a um integrande do Shinhwa, consegui ser bastante... espontânea.

Dongwan levantou-se, fez uma reverência e me ofereceu o braço para mudarmos de lugar. A lanchonete, o bar, tudo estava tranquilo demais. Não era exatamente aquele ambiente que preferíamos. Agradeci silenciosamente por ter colocado aquele vestido preto, e por ter abandonado aquele restaurante de almofadinhas. Eu sabia que minha mãe estaria enlouquecida, e que me comeria o fígado no dia seguinte. Ela realmente não entendia meu jeito de ser e nem sempre eu entendia por que escolhera morar com ela. Talvez porque ela já tivesse sido preterida pelos outros filhos... ela era mãe.

Deixei os pensamentos melosos de lado no mesmo instante em que entrei no video-bar, braços dados com Kim Dongwan, causando sensação nos presentes. Estava me achando o máximo, totalmente deslumbrada e me equilibrando para não cair daquele maldito salto agulha. Encontramo-nos com mais dois membros do Shinhwa, para meu delírio e deleite. Lá estavam Shin Hyesung, aquele por quem procurara a tarde inteira, e Eric Mun. Aqueles dois juntos... e depois vinham com aquela conversa de que não se misturavam!

_Boa noite, rapazes... quero que conheçam Débora. – Dongwan me apresentou aos amigos. A iluminação era precária, e havia muita fumaça. Nada que me atrapalhasse, diga-se de passagem.

_Encantado. Eric Mun. — Eric beijou minha mão.

_Um prazer. – Hyesung me beijou a face.

_Onde estão os outros? – Dongwan olhou em volta, provavelmente a procura dos demais integrantes.

_Devem estar zoando por aí... – Hyesung brincou.

_Devem estar atrás de mulheres. Lembrem-se, eles estão com Lee Minwoo.

Dongwan pescou o garçom que entregava bebidas em outra mesa e pediu que ele nos trouxesse álcool. Eu não era nada acostumada a beber, menos ainda à noite com pessoas estranhas. Mais uma vez, ri secretamente por pensar no Shinhwa como “gente estranha”, mas eles o eram, na verdade. Conhecia o grupo, as músicas, mas não os integrantes individualmente falando. Deixei que ele escolhesse por mim, preferi encantar-me com os três homens que me cercavam.

_Vamos cantar? – Hyesung intentou levantar-se.

_Não estou a fim. – Dongwan foi direto.

_Mas eu estou. – Eric resolveu acompanhar o amigo. – Vamos detonar esse video-bar.

Dongwan balançou os ombros como se não pudesse impedir os amigos de fazerem aquilo. Hyesung e Eric invadiram o palco do karaokê e monopolizaram o microfone. Avisaram para o “público” que eles dariam show grátis naquela noite. Percebi que os dois já estavam embriagados o suficiente para dar um pequeno vexame em Busan.

O garçom chegou com as bebidas que Dongwan pedira e ficamos alguns instantes no mais absoluto silêncio. Eu não tinha me dado conta ainda que estava com o Shinhwa, e só pensava que Consuelo morreria de inveja quando eu contasse minhas estrepolias. Molhei os lábios com o líquido adocicado da marguerita que me fora posta à frente, e fitei Dongwan por alguns instantes. Instantes aqueles nos quais Hyesung resolveu ficar romântico e atacar de baladas bem ao estilo Shinhwa. Fechei os olhos, tentando me concentrar no inconcentrável. Dongwan me sorriu, e eu amoleci feito manteiga.

_Como consegue usar estes óculos à noite? – Perguntei. Eu precisava de assunto.

_Acostumei.

_Assim, como vou ver seus olhos?

Dongwan sorriu novamente, e retirou os óculos. Lindos olhos iluminaram o ambiente, mesmo sendo tão negros. Olhei para ele, e não resisti em levar minha mão até seus lábios.

_Tem sal! – Justifiquei.

Dongwan segurou meus dedos e os colocou na boca, retirando todo o sal da marguerita que lá estava com a língua. Foi algo totalmente sexual; senti todos os meus nervos eriçados como se eu tivesse tomado um choque elétrico fortíssimo. Eu costumava me sentir meio assexuada porque raramente me interessava naqueles termos por homem algum. Mas Dongwan despertou em mim todos os neurônios que estavam há muito adormecidos com um simples gesto.

Naquele momento, olhei profundamente em seus olhos e, sem palavra alguma, ele me levou para dançar. Dançamos a noite inteira, até cairmos de cansados ou Hyesung e Eric ficarem bêbados demais para nos entreter. Nossos olhos não conseguiram se desgrudar, foi um magnetismo instantâneo. Coisas que vimos no cinema, aquelas vezes em que os personagens ficam únicos na tela com uma linda música de fundo.

Não sei se me lembro a hora em que fui dormir, mas foi tarde. Esperava, por sorte, que minha mãe também não percebesse a hora, ou que achasse que eu já estava dormindo mais cedo. Detestava ter que ouvi-la reclamando no dia seguinte às minhas peripécias noturnas. Como se fossem muitas...