Hocus Pocus
11 Capítulo 11
Fuga da Coréia
O que aconteceu depois, não presenciei. Claro, eu estava no México, tendo que aguentar minha amiga Consuelo a me dar sermão sobre os perigos da magia; e Shin Hyesung, totalmente perdido, me fazendo desejar cada dia mais Kim Dongwan. Mas fizeram questão de me contar em todos os detalhes, até porque, se não contassem, eu não deixaria ninguém em paz. Enquanto eu chorava no quarto, Hyesung comia os dois pratos e Consuelo desvendava os mistérios do livro da avó, Dongwan tentava convencer Minwoo e Eric de quem ele era.
_Vão acreditar em mim, agora?
_Não sei... a morta falou com a gente, é isso? – Eric divagava.
_Ela não morreu. Como convencer vocês que fomos enfeitiçados? Não percebem que eu não posso, definitivamente, ser Hyesung? Se eu fosse Hyesung, não saberia que Dongwan tem uma cicatriz no púbis de um acidente que ele sofreu quando era criança.
Minwoo olhou para o amigo, confuso.
_Você não sabe isso!
_Sei, eu não sou Hyesung. Me levem até Acapulco e saberão.
_Hyesung... Dongwan... sei lá! Que confusão! – Eric não se decidia. – Você está preso, como vamos fazer para te levar?
Dongwan deu de ombros, porque ele não tinha a resposta. Nos últimos dias, ele não tinha nenhuma das respostas que gostaria de ter. Minwoo e Eric trocaram olhares cúmplices, e fizeram um telefonema para Andy. O amigo não estava interessado em se envolver com confusão, e obviamente achou que todos estavam ficando malucos com aquela história de feitiço, roda de sal, troca de corpos. Mesmo assim, aceitou encontrar-se com Minwoo e Eric.
Deixaram Dongwan na cadeia – tadinho! – e se encontraram na casa de Eric, que era a mais próxima.
_Vocês não podem acreditar que isso é sério. Não percebem que Dongwan e Hyesung estão brincando com vocês?
_Mas eu falei com a menina que morreu, Andy... se ela morreu e falou comigo, não posso duvidar de mais nada.
_E, além do mais, Hyesung... Dongwan... um dos dois está preso. – Protestou Eric. – Não podemos deixar um amigo na mão.
_E o que sugerem? – Andy desistiu.
_Vamos tirar Hyesung da cadeia e levá-lo até o México, como ele quer. – Minwoo decidiu.
_Não é Dongwan que está preso? – Eric questionou.
_Tanto faz! – Minwoo estava a ponto de ter um ataque. – O importante é que, agora, quero confirmar essa história!
_E como pretende tirar Hyesung de lá? E chegar até o México?
_Você, Andy, compra as passagens. Eu e Eric vamos confundir a polícia, com a ajuda de Hyesung... Dongwan... – Minwoo parou e respirou. – Com a ajuda de quem está no México. Assim que tirarmos o que está preso da cadeia, encontramos você no aeroporto e voamos para Acapulco.
_Ainda bem que temos Minwoo para nos ajudar a bolar um plano desses! – Ironizou Eric. – Mãos à obra, então.
Os rapazes começaram a executar o plano de Minwoo, cada um cumprindo sua parte. Na hora, pensei que todos tinham ficado loucos. Logo depois de desligar o celular, eles ligaram de novo para Hyesung, contando do plano completamente destrambelhado. Minwoo pretendia tirar um preso pela porta da frente da cadeia... descabido!
_Então eu vou ligar para o detetive e vou marcar um encontro com ele para devolver o cadáver de Debby? – Hyesung tentava entender. – Minwoo... meio sem noção esse seu plano. Acha que vão cair nessa? E acha que vão ser tão tontos assim a ponto de levar Dongwan com eles?
_Vai tentar ou não?
_Vou, claro... me dê o número que tenho que ligar.
_82 234 5543 908. Peça para falar com o detetive JungPil.
Hyesung anotou os números na mão e desligou o celular.
_Deseje-me sorte, Débora. – Ele disse, respirando fundo.
_Ligue do meu telefone. O seu pode estar sendo rastreado.
_Se estiver, agora já era.
Hyesung ligou para o tal detetive, e eu e Consuelo ficamos apreensivas, uma agarrada na outra. Ele ia falar com o tal detetive que estava com o corpo que deveria ser o meu e que queria se entregar. Marcaria um local e, pelas contas de Minwoo, todo o destacamento policial de Seoul iria atrás dele. Não fazia o menor sentido aquele plano louco, mas era melhor tentar do que nada. O que poderia acontecer era todos os membros do Shinhwa serem presos por compactuar com uma sandice daquelas.
Pelo menos o detetive acreditou em Hyesung. Ele marcou um encontro em um local bastante afastado, para fazê-los demorar a chegar. Enquanto isso, Minwoo, Eric e Andy ficaram esperando a delegacia ficar somente com dois guardinhas para colocar o plano em ação. Entraram Eric e Minwoo brigando, como se fossem duas lavadeiras. Gritavam e se estapeavam na frente dos policiais, trocando acusações mentirosas e fingidas. Pareciam duas moçoilas. Os policiais, sem saber o que fazer, tentaram apartar a briga. Enquanto o grupo se engalfinhava, Eric se utilizou de alguns atributos para pegar a chave do policial. Com a chave, seria muito fácil tirar Dongwan de lá.
Depois de alguns tapas e de muita gente descabelada, os dois pararam a briga. Recompuseram-se e, depois de devidamente advertidos, foram para a rua novamente. Eric, com sua habilidade de escalar coisas, subir em beiradas e passar por gretas aproveitou-se para ir aos fundos do departamento policial. Ali havia uma entrada de ar que dava certinho na sala de Dongwan. Bem, se eu estava enfeitiçada e os membros do Shinhwa também, qualquer coisa poderia acontecer, por mais improvável que parecesse. Claro que não estamos falando de um filme, portanto Eric não entrou engatinhando pelo duto de ar e chegou até Dongwan. Para isso eles não precisavam de chave! Minwoo deu apoio para Eric se aproximar, e ele, com a cara enfiada no duto, tentou se comunicar com Dongwan.
_Dongwannie! Dongwannie! Aqui em cima... é o Eric!
Dongwan comia um sanduíche quando ouviu o que considerava parecer a voz de Eric. Franziu a sobrancelha, mas ignorou.
_Kim Dongwan! Responde, droga! Vamos, está me ouvindo?
_Eric? – Dongwan resolveu ver o que era. – Por que eu estou ouvindo você?
_Porque eu estou no duto de ventilação, anta. Olhe para cima... vê a grade?
_Sim.
_Então. Vamos jogar as suas chaves, e um casaco para você se esconder. Depois vamos fazer um barulhão aqui fora... quando ouvir, abra a porta e saia correndo, venha para os fundos.
_Como vai jogar as chaves?
_Não pergunte, apenas execute. Débora e Hyesung estão aguardando nossa chegada ao México, e Andy já está no aeroporto. Até chegarmos lá e embarcarmos, ainda não terão percebido sua fuga. Vamos! Aja!
Eric parou de falar e jogou as chaves. Ouviu o ruído metálico e depois jogou o casaco. Minwoo começou a bater queixo, pois esquecera de levar um casaco e teve que emprestar o seu. Depois, Eric correu para a frente da delegacia e atirou diversas vezes com uma arma de mentira. Ele nunca pensou que espoletas pudessem ser úteis para tirar o amigo da cadeia. Escondeu-se atrás de alguns latões de lixo e viu quando os policiais sairem pela porta, procurando pelo autor dos disparos. Não muito espertos, ele rodearam o prédio atrás do suposto bandido, mas não encontraram ninguém. Antes de voltarem para seu posto, Dongwan apareceu nos fundos, onde Minwoo o aguardava, roxo de frio.
_Que idéia foi essa de vocês? – Dongwan falava baixo. Eric logo se juntou aos dois. – Se formos pegos, vamos todos para a cadeia. Cadê Andy???
_Já disse que está no aeroporto. Vamos para lá, correndo.
Os três fugitivos entraram no carro que os esperava estrategicamente e Minwoo acelerou tudo que podia até o aeroporto internacional de Seoul. Todos os carros pelos quais passavam se pareciam com carros da polícia. Dongwan esfregava os dedos de Hyesung, nervoso. Encontraram-se com Andy na sala de partida. Dongwan escondia-se com um capuz que Eric lhe dera. Parecia até coisa de filme Hollywoodiano, os quatro armando uma fuga cinematográfica para o México.
Enquanto isso, eu e Hyesung acompanhamos Consuelo até sua casa. Não podíamos ficar na minha por muito tempo, porque Brad e mamãe poderiam voltar mais cedo da Coréia. Apesar de eu achar difícil, enquanto meu corpo continuasse desaparecido. Era uma situação constrangedora... mas fomos com Consuelo para Río del Puerto, a cidade que ficava aos pés do Monte Cuervos. Aquela montanha me dava nos nervos, e me irritava cada dia mais. Só de pensar em ter que ir lá, de noite, passar por aquela de feitiço novamente... tinha vontade de dar um chilique. Mas precisava ser forte, por Dongwan.
A mãe de Consuelo era uma simpática mexicana de nome Dolores, a típica matrona latina.
Usava sempre avental colorido e lenços nos cabelos. Fomos muito bem recebidos, como era de se esperar. Consuelo não havia contado à mãe que estávamos lá por causa de um feitiço errado, se Dolores soubesse que Consuelo havia mexido no livro da avó... Eu não queria ser minha amiga! Ela pensou que estivéssemos lá porque Hyesung era famoso e precisava ficar incógnito. Foi uma desculpa esfarrapada e furada, mas acabou colando. E Dolores não se ligava mesmo em boybands e não fazia a menor idéia de quem era Shinhwa. Afinal, meu padrasto lidava com produção de famosos, nada demais em eu conhecer gente importante.
O tempo que ficamos aguardando contato dos rapazes foi doloroso. Eu sentia cada vez mais meu estômago se revirar, como se fosse pular pela boca. Mesmo fazendo um calor infernal, eu tremia incontrolavelmente. A casa de Consuelo não era muito grande, e precisei ficar acomodada no mesmo quarto que Hyesung. Ou que Dongwan. Resolvemos dormir um pouco, pois dormir não era coisa que estávamos fazendo muito naqueles dias. Mas dormir também não foi a opção correta, pois nem eu nem Hyesung conseguimos pregar os olhos. Mas a culpa foi dele... como não tínhamos levado roupas, arrumei um short de Brad para Hyesung dormir. E ele usando só aquele short... era Dongwan; eu queria o corpo de Dongwan! Não foi isso que tive na noite que passamos juntos, e ali, sobrando na minha frente, estava Kim Dongwan. Aquilo era demasiadamente confuso!!!
_Se eu contar para alguém essa história, ninguém vai acreditar. – Disse Hyesung, divagando. Eu também estava olhando para o teto. A noite já estava alta há tempos.
_Mas você já contou...
_Eles não contam. São nossos amigos, nos conhecem melhor que nossa família. Tá na cara que eu não sou Dongwan e vice-versa. Mas SamMi... quando souber...
_SamMi?
_Uma garota. Estamos saindo, nos conhecendo.
_Legal. Ainda bem que ela não estava lá, ou seria outra mulher confusa. – Eu ri, constrangida. Pensei duzentas vezes se deveria fazer a pergunta que fiz, mas ela me escapuliu sem querer. – Hyesung... e Dongwan? Ele é comprometido também?
_Não que eu saiba... e se eu não sei, é porque não é. – Hyesung riu. – Ele não é de abrir a vida pessoal, mas somos como irmãos.
Fiquei vermelha como uma pimenta.
_É... parece.... – desconversei – será que ele está bem? Será que conseguiram vir para cá?
_Não duvide de Eric quando ele está empenhado. É um terror, faz tudo como quer. Mas... está mesmo preocupada com Dongwan?
_Claro! Eu coloquei vocês nessa, a culpa foi toda minha. Eu duvidei da capacidade dos feitiços da Consuelo e... pronto! Quero que isso acabe logo.
_Você me entendeu, Debby. – Hyesung levantou-se me encarou. Fiquei travada. – Quero saber se você se preocupa com Dongwan de uma forma diferente. Você está interessada nele?
Minha máscara caiu, e não pude mentir para ele. Era como se Dongwan estivesse na minha frente, e tudo que eu queria era beijá-lo. Eu tinha certeza que era Hyesung, mas meu cérebro me pregava peças vez ou outra.
_Sim, estou. Ridículo, eu sei... afinal, ele é um ídolo pop e eu sou uma fã qualquer; mais uma. Ele nunca vai querer nada demais comigo, mas eu nem tenho do que reclamar. Já passamos um tempão juntos, ele foi super gentil comigo, e... – pensei em falar da noite que passamos juntos, mas achei melhor deixar de lado – bem, eu o meti em uma grande confusão. Não será difícil entender se ele ficar bravo e não quiser mais falar comigo. Uma fã muito intrometida eu sou, muito abusada.
Falei tudo em um fôlego só, rezando para a voz não morrer no meio. Hyesung me olhava, havia brilho no azul daquele céu.
_Não acho... você é uma fã diferente. Nos meteu em uma enrascada, devo confessar. Mas você despertou alguma coisa em Dongwan, pois ele te levou para dançar... nos apresentou a você... ele é muito reservado. Você não nos trata como ídolos, isso é legal.
_E você ainda é bonzinho comigo... eu pensava tão diferente do Shinhwa. Achava vocês intocáveis.
_Quase todo mundo acha. Por isso temos tanta dificuldade em nos relacionarmos com as pessoas. Mas deixe... você já nos vê como normais, aos poucos todos entendem.
Sorri para Hyesung, e ele voltou a examinar o teto. Ficamos meio sem ter o que falar. Eu já estava quase adormecendo e o dia já era dia quando o telefone celular de Hyesung tocou. Pulei da cama como se tivesse caído água quente em mim. Hyesung arrancou o aparelho do bolso da calça, assustado.
_Alô?? – Ele não conferiu o número. Pude sentir o alívio que Hyesung teve ao descobrir quem falava. Mil toneladas saíram de seus ombros. – Fala Dongwan... onde vocês estão?? Não... eu não sei onde estou, vou passar para Debby.
Hyesung me ofereceu o aparelho. Respirei fundo, também estava aliviada.
_Dongwan??? Como você está? Onde está?
_Em Acapulco... nosso avião acabou de chegar. Foi relativamente fácil sair da Coréia... mas agora temos que nos encontrar.
_Façam o seguinte: peguem um táxi e vão para o Las Fuentes. É o melhor hotel daqui, e tem um bar 24 horas. Eu não posso explicar onde estamos, pois vocês não acertariam. Em meia hora encontramos vocês lá, ok?
_Ok... você está bem? E Hyesung... ele te respeitou?
_Claro que sim... por que pergunta?
_Nada. Nos vemos em meia hora.
Desliguei o aparelho e encarei Hyesung. Era hora da verdade. Vesti minha roupa, fui pé-ante-pé até o quarto de Consuelo e a acordei. Pegamos meu carro e fomos o mais rápido que podíamos para o Las Fuentes. Eu e Hyesung tínhamos dedos cruzados, e eu estava tão nervosa que deixei Consuelo dirigir. Sabia lá que besteiras eu faria no volante!
Fale com o autor