Desgraça pouca é bobagem

Minha mãe me ensinara a não dizer a palavra “desgraça”. Ela achava que atraía maus fluídos. Eu era cética e não acreditava naquelas coisas, mas estava começando a mudar de idéia sobre alguns aspectos. Apesar do ceticismo, eu me acostumara a não falar coisas que desagradassem minha mãe, e esta palavra foi riscada do meu vocabulário.

Já Consuelo balbuciava “desgracia” por todos os cantos. Uma vez cheguei a implicar com ela, dizer que não conseguia um namorado porque vivia praguejando. Mas ela também me dizia que uma“desgracia” nunca vinha sozinha, e que a gente sempre se machuca no mesmo lugar. Eu ria, mas o infernal feitiço que ela me lançou fez com que minhas risadas se transformassem em desespero.

Após conseguir controlar Dongwan e Hyesung e finalmente vestir alguma coisa, precisávamos voltar para Seul, inventar uma mentira bastante convincente e voar para o México o mais rapidamente possível. Comemos alguma coisa na espelunca em que nos hospedamos e pegamos a estrada novamente. Ficamos meio mudos durante uma grande parte do trajeto, pois não sabíamos o que falar um para o outro. Hyesung sentia-se perdido em meio a aquilo que ele considerava um casal. Dongwan, eu não conseguia decifrar o que seus olhos me diziam, mas ele segurava minha mão, com força. Ao mesmo tempo que me passava uma energia imensa. E eu, estava completamente atordoada. Além da noite maravilhosa que tivera, ainda todos os meus credos estavam jogados à lama e morrendo afogados.

_O que vamos dizer aos outros? – Hyesung finalmente falou alguma coisa.

_Não consigo imaginar. – Dongwan estava pensativo. – Pior é explicar o que fazemos com... a morta.

Não achei graça da brincadeira. Estiquei-me sobre o banco do carona e liguei o rádio, querendo ouvir uma música, ou qualquer coisa que fosse.

_Não contamos nada sobre Debby. – Hyesung teve a idéia. – Simplesmente a escondemos e fugimos para o México. Quando tudo estiver resolvido, dizemos que vocês se apaixonaram e quiseram um tempo juntos.

_Nos apaixonamos? – Pulei para trás, quase batendo a cabeça no teto do carro. – Quem disse que...

_Não? – Dongwan completou.

_Não sei... estou...

_Eu também estou, se isso te consola. Mas... talvez Hyesung tenha razão, por mais que me doa dizer isso.

Dongwan abriu um sorriso contagiante, que me fez sentir calafrios. O momento mágico tinha que ser interrompido por um aviso especial no rádio. Hyesung meteu a mão no controle e aumentou o volume. “E os dois homens foram identificados como Kim Dongwan e Shin Hyesung, membros do Shinhwa. Segundo a recepcionista, eles entraram e saíram com uma mulher, que posteriormente ela reconheceu ser Débora Mendes. Ninguém ainda sabe como eles retiraram o cadáver do hospital, ou por que fizeram isso, mas a polícia quer explicações. Os dois estão foragidos, e sendo procurados.”

_Estão falando de nós? – Hyesung pareceu abobado.

_Sim... e mal. Estamos ferrados. – Eu deixei escapar. – Mato Consuelo, assim que tiver oportunidade de ter seu pescoço em minhas mãos.

_O que fazemos, agora? Se aparecermos, vamos ser presos! – Dongwan desesperou-se. Aproximei-me dele, ternamente.

_Ninguém vai ser preso, eu garanto. – Cochichei em seus ouvidos. Era um sensação muito esquisita.

_E depois querem me convencer que não tem nada entre vocês! – Hyesung resmungou. – Parem com isso, temos mais com o que nos preocupar.

_Vamos para o México, direto. Pegamos um avião e vamos, não precisamos falar nada com ninguém. Quando eu aparecer viva, ninguém vai ligar para vocês, só vão querer me estudar e investigar. – Foi a vez de eu ter uma idéia tresloucada.

_Faz sentido. – Dongwan concordou. – Mas... podem nos pegar no aeroporto. Estamos sendo procurados.

_Nos disfarçamos. – Hyesung pensou.

_Disfarce é boa idéia. – Pensei alto.

_E vamos comprar disfarces aonde? Somos conhecidos; todos querem nosso pescoço, agora.

As palavras de Dongwan fizeram com que desanimássemos totalmente. Claro que eles sequer poderiam se disfarçar, e que seriam reconhecidos por qualquer estúpido que os visse. Mas precisávamos fazer alguma coisa, dar explicações do que era inexplicável poderia ficar para depois. Tínhamos que ir ao Monte Cuervos, eu não aguentava mais olhar para Dongwan e ver Hyesung, olhar para Hyesung e querer beijar a boca de Dongwan, estava tudo uma bagunça na minha cabeça.

Lembrei-me, então, de alguns filmes que costumava assistir, daqueles em que os mocinhos sempre se davam bem e conseguiam fugir dos malvados perseguidores. Era preciso tentar, e sugeri que despencássemos para o aeroporto internacional de Shinhwa. Eu compraria a passagem para o México, afinal ninguém sabia quem eu era. E duvidava que as balconistas do aeroporto estivessem esperando encontrar um cadáver pedindo passagens para a América. Pelo menos eu era um cadáver, para quem quer que fosse. Os rapazes ficavam escondidos atrás de revistas e jornais até a hora do embarque, e eu também duvidava que as agentes de embarque conseguissem pensar em chamar a polícia quando os vissem.

Entramos no aeroporto de óculos escuros, eu estava vestindo a roupa mais esquisita que poderia existir. Hyesung conseguiu algumas peças com a filha do dono do hotel, e nada parecia combinar. Era eu no pior estilo clubber, e eu detestava clubbers. Mas sorria tentando ser natural, mesmo quando Dongwan abriu a carteira e me deu um cartão de crédito brilhante para comprar as passagens. Aproximei-me do balcão da American Airlines carregando o pedaço de plástico como se ele pudesse desintegrar em minhas mãos, sorrindo sempre automaticamente.

_Três passagens para o México, por favor. Primeira classe. – Fui esnobe. A atendente nem me olhou e já foi emitindo os bilhetes.

_Forma de pagamento?

_Cartão de crédito. – Empurrei o cartão para a mulher. Ela olhou o cartão e depois olhou para mim, franzindo as sombrancelhas.

_Senhorita... posso perguntar onde conseguiu este cartão?

_Com o dono dele, claro. Ele está ali nas cadeiras, não quer ser reconhecido. – Imaginei que a mulher vira o nome no maldito cartão.

_Ah, sim... compreendo. Só um momento que vou passar o cartão.

A balconista ausentou-se por alguns instantes e voltou com o comprovante do cartão e minhas passagens. A primeira provação parecia transposta, ela provavelmente tinha mais o que fazer, ao invés de ficar ouvindo o noticiário no rádio. Eu suava em bicas, parecia prestes a derreter. Não que me fosse difícil inventar uma mentira que nem era mentira, mas eu tinha muito a perder, naquele instante. Hyesung e Dongwan não podiam ser reconhecidos, de maneira alguma.

Levei os bilhetes até os dois rapazes. O vôo era em duas horas, muito tempo para se ficar perambulando por um aeroporto; tempo o suficiente para que todos soubessem do ‘sequestro do cadáver’ e começassem as buscas por nós três. Eu podia intervir, aparecer, contar a história. Mas precisávamos ser rápidos, a situação Hyesung x Dongwan precisava acabar.

Não conversamos, não olhamos para o lado, não fizemos nenhum movimento brusco por duas horas seguidas. Nos escondemos atrás de jornais e revistas e lemos notícias velhas. Eu já sabia de todas as fofocas da E!, já tinha assistido a todos os filmes que figuravam em cartaz nos cinemas e já me inteirara de tudo que acontecera no mundo, mas estava novamente engrandecendo meus horizontes e adquirindo conhecimentos repetidos. Hyesung parecia interessado, e imaginei que os rapazes não tinham muito tempo disponível para leitura de jornais.

Quando nosso vôo foi anunciado, comemorei secretamente. Aquele pesadelo iria acabar, finalmente. Eu tinha certeza que daria tudo certo, pois estávamos no aeroporto há tanto tempo e ninguém sequer parecia procurar por Hyesung ou Dongwan. Mas os deuses estavam conspirando contra mim, talvez por culpa do meu ceticismo. Acho que queriam me provar que eu estava errada, que eu tinha que acreditar na existência de um poder superior. Seja lá o que fosse, eles estavam cumprindo bem a parte deles. Esperamos a última chamada para nos levantarmos e caminharmos até o embarque. Estava perto do avião sair, já podíamos ouvir as turbinas ligadas. Enquanto as pessoas se despediam e apresentavam seus bilhetes, tentávamos nos misturar. Afastei-me dos rapazes; se ficássemos separados seria mais difícil nos encontrarem.

Entreguei meu bilhete, e Hyesung veio logo atrás. Dongwan ficou para trás na fila. Senti um nó na garganta, mas não olhei para trás. Respirei fundo e caminhei lentamente para a escada, esperando que uma mão conhecida repousasse sobre meu ombro. Mas Dongwan não veio, e pude ver Hyesung escondendo-se em um boné atrás de uma senhora obesa. Já estava dentro do avião quando Hyesung chegou. Fiquei na porta, nervosa, não conseguia ver Dongwan. Eu o avistei ao mesmo tempo que vi quatro policiais se aproximando.

_DONGWAN! – Eu gritei, na porta do avião. – DONGWAN!!!! CORRE, DONGWAN!!!

Uma aeromoça chegou até mim e me pediu para não gritar, pois todos embarcariam. Eu sabia que não... Hyesung chegou por trás e viu o amigo sendo abordado pelos policiais.

_Temos que fazer alguma coisa! – Ele disse, querendo descer.

_Vamos até lá! – Eu disse.

_Não podem! – A aeromoça tentava nos conter. – O avião está prestes a decolar.

_Mas Dongwan está lá fora!!!

_Sinto muito, preciso fechar a porta.

A imensa porta pressurizadora começou a baixar, obrigando-nos a ir para nossos assentos. Corremos para a janela, e só pudemos ver Dongwan ser carregado pelos policiais. Ele se debatia, mas não conseguiu resistir. Ainda olhou para trás, mas não conseguiria me ver dentro daquele monstro de metal fundido. Desabei na cadeira e comecei a chorar, inconsolável. Hyesung se sentou ao meu lado e me abraçou, mas ele também estava nervoso.

_E agora, o que vamos fazer? – Ele perguntou, mais para si mesmo do que esperando uma resposta.

_Não sei... Consuelo deve saber. Ela entende desses feitiços.

Continuei a chorar por mais bastante tempo. Eu ainda não tinha compreendido o quão esquista era aquela situação. Conhecera o Shinhwa, grupo que tanto adorava; mais precisamente, conhecera Kim Dongwan. Ele era perfeito, era fantástico, era quase um sonho. E eu, que não acreditava em quase nada, criei uma situação horrível para nós dois, envolvi Shin Hyesung naquilo tudo; e nenhum dos dois queria me esfacelar. Eu tinha vontade de me matar, mas eles não.

Passei a viagem vendo os olhos de Dongwan ao meu lado, e rezando. Encontrei alguma religiosidade na pior situação que já vivera, e entendi por que as pessoas procuravam as Igrejas quando passavam por maus bocados. Eu costumava ser agnóstica. Podia acreditar em um Deus, mas não da forma como pregavam e tentavam me fazer crer.

Chegamos ao México quando havia novamente a luz solar. A viagem foi longa e cansativa, e teve diversas escalas. Eu e Hyesung não nos atrevemos a sair do avião, não éramos trouxas. Ficamos lá, um segurando a mão do outro, até aterrisarmos definitivamente.

_Lar doce lar... – Falei, ao respirar mais uma vez o ar mexicano. Antes mesmo de deixar a zona de desembarque, peguei o celular e comecei a discar para Consuelo. Ela tinha que ter uma solução, ou eu teria um ataque. – Consuelo?

_Fala, chica! – Consuelo reconhecia sempre minha voz. – Está no México com os rapazes?

_Mais ou menos.

_Ai... o que pode ter dado errado dessa vez?

_Dongwan não veio.

_Como assim não veio? – Consuelo desesperou-se. – Ele não quis vir? Explicou a ele que...

_Consuelo... – interrompi a enxurrada de palavras que estava por vir. – Estamos sendo procurados na Coréia. Acham que Hyesung e Dongwan roubaram meu cadáver... eu te explico isso depois. Quando estávamos para embarcar, Dongwan foi pego pela polícia. Vou com Hyesung para casa, e você nos encontra lá, ok?

_Si, chica.

Desliguei o celular e olhei para Hyesung, que parecia meio perdido. O aeroporto de Acapulco não era o que se podia chamar de limpo e organizado. Um monte de gente circulava por lá todos os dias, e o México era um país pobre. Claro que Hyesung não deveria estar acostumado com aquela desordem, ele parecia mauricinho demais para tanto falatório, cheiro de animais, poeira, tumulto. Consegui um táxi que não me arrancasse os olhos para nos levar até em casa. Já havia lua no céu quando abri a porta dos fundos da mansão de Brad, silenciosamente. Não queria chamar atenção, afinal, éramos fugitivos. Se algum dos vizinhos intrometidos me visse, poderia ligar para Brad e me dedurar, ou pensar que era um ladrão. Eu pensaria...

_Bem vindo à minha humilde casa. – Zombei um pouco. Precisava de humor, distração.

_Seu conceito de humilde é um pouco diferente do meu. – Hyesung riu.

_Vou arrumar alguma coisa para comer. Se quiser tomar um banho...

_Gostaria. Estou Dongwan há muito tempo.

Caímos na risada com a brincadeira. Levei Hyesung até meu quarto, arrumei toalhas limpas para ele e deixei que tomasse um banho na minha hidromassagem cheia de sais aromáticos estimulantes. Eu também queria um banho, mas não conseguia me concentrar em outra coisa que não Dongwan na cadeia. Dongwan sendo interrogado, Dongwan sendo constrangido, Dongwan sendo humilhado. E eu lá, sem nada para fazer, era uma grande droga. Tirei dois pratos prontos do freezer e coloquei no microondas. Nem pensei que Consuelo apareceria a qualquer momento; assim que ela pisasse os pés naquela casa eu a estriparia com minhas próprias mãos.

Hyesung se encontrou comigo após o banho. Estava terrivelmente cheiroso. O maior problema naquele momento era que ele era Hyesung mas estava no corpo de Dongwan, e eu desejava aquele corpo mais que tudo. Olhava para Hyesung recém saído do banho, cabelos molhados escorrendo pelos ombros, e só conseguia ver Dongwan. O ‘filtro’ de mentira que criei para conseguir separar um do outro estava quebrado ou descalibrado. Aproximei-me demais, como se fosse permitido chegar tão perto assim de Hyesung.

_Estou fazendo algo para comermos – Afastei-me quando percebi que ia ficar paranóica.

_Meu celular tocou enquanto estava no banho. Era o número de Minwoo...

_Ligou de volta para ele?

_Não sei o que dizer.

_Talvez esteja na hora da verdade... eles estão com Dongwan pensando que ele é você, não vai demorar muito para perceberem que você está meio diferente.

_Totalmente diferente. – Hyesung sorriu. O microondas apitou, anunciando que a comida estava pronta, no mesmo instante em que a campainha tocou. – Pode deixar que eu sirvo os pratos, sei me virar na cozinha.

Deixei Hyesung um instante e fui até a porta. O sorriso indecente de Consuelo me fez desejar estripá-la ainda mais. Ela não tinha o direito de sorrir ou de ficar alegrinha, eu estava passando por péssimos bocados por culpa daquele feitiço estúpido. Agarrei a camisa dela e puxei Consuelo para dentro. Ninguém podia nos ver, ou ligariam para Brad ou a polícia.

_Chica! – Consuelo livrou-se dos meus dedos irados. – O que deu em você?

_O que deu em mim? Que tal um feitiço que você me colocou? Que tal Kim Dongwan trancafiado em uma cela por causa dele? Que tal um homem na minha cozinha que parece uma pessoa e é outra?

_Calma... trouxe o livro. Aqui tem um contra-feitiço que vamos poder fazer.

_Espero que funcione dessa vez, ou juro que vou matar você.

_Calma... – Consuelo olhava para dentro, tentando encontrar Hyesung. – Onde ele está?

Fechei a cara e levei Consuelo até a cozinha. Hyesung sorriu ao ver minha amiga, e a cumprimentou educadamente. Era um cavalheiro, se fosse eu teria tido um chilique. Ela era a responsável por toda aquela confusão. Na verdade, eu sabia que eu também era responsável. Se não tivesse desacreditado na magia, se não fosse tão cética, poderia ter evitado tudo que aconteceu. Mas eu jamais assumiria, preferia colocar a culpa em outra pessoa.

Enquanto ficávamos mudos e constrangidos na presença um do outro, o telefone de Hyesung novamente tocou. Ele segurou o aparelho nas mãos por alguns instantes, como que adquirindo coragem para atender. Devia realmente ser complicado explicar aquela história a quem quer que fosse; eu ainda não tinha certeza de como faria com minha mãe e Brad. Não queria estar na pele de Hyesung, mas ele comprimiu os lábios e atendeu.

_Fala, Minbong. – Pude notar que seus dedos tremiam. – Sim... é claro que é Hyesung que está falando. Se você ligou para mim, é porque sabe que o Hyesung que está aí, preso, não sou eu, certo?

Eu e Consuelo assistíamos ao diálogo com cara de monólogo bem atentas. Ela estava fascinada em ter Kim Dongwan em sua frente, por mais que tivesse certeza que ele era Shin Hyesung. Não fazia muita diferença, era verdade. Bastava pertencer ao Shinhwa.

_Minwoo... tenho certeza que Dongwan já te contou isso, então vou tentar ser rápido e objetivo: quem está na cadeia é Dongwan. Pode conferir, ele está com o celular dele, fala e age como uma mocinha. Eu estou em outro lugar. Se você não consegue perceber a diferença entre nós dois, está mal! Claro!!!!! Sei que é absurdo, imagina como eu me sinto. Não, não vou dizer onde estou. Porque não, Minbong! Vocês vão acabar vindo atrás de mim, e preciso resolver isso primeiro. Como está Dongwan?

Aproximei-me de Hyesung, também nervosa. Eu queria saber como estava Dongwan, eu precisava. Deixá-lo lá não foi uma opção, mas foi a pior coisa que já poderia ter feito. Sentia culpa, sentia remorso, era como se eu o tivesse colocado nas mãos dos policiais.

_Deixa eu falar com ele! – Pedi. Implorei, na verdade.

_Calma... estou falando com Minbong.

_Por favor, Hyesung...

O homem me olhou nos olhos, me fazendo naufragar naquela imensidão.

_Está bem... fale. É Minwoo.

Tomei o telefone das mãos dele desarvorada.

_Minwoo?

_Sim... você é...

_Débora Mendes. E Dongwan? Ele está aí? Posso falar com ele?

_Débora... não é a morta? Que brincadeira é essa que vocês estão fazendo?

_Não tem brincadeira, Minwoo. Me deixa falar com Dongwan, por favor! Sei que, se ele estiver preso, está em algum lugar especial. Então me deixa falar com ele...

Minhas palavras um tanto desesperadas assustaram até mesmo a mim. Eu queria realmente, indubitavelmente, falar com Dongwan. Era como uma necessidade que precisava ser suprida.

Minwoo fez alguns ruídos no telefone e em instantes ouvi uma voz conhecida.

_Debby? – Era Dongwan.

_Dongwan!!! Como você está? Onde você está? Eu...

_Calma... – Dongwan me interrompeu. – Fique calma, não precisa se preocupar comigo. Fui trazido para o departamento de investigações, e eles me interrogaram. Não soube o que dizer, então não disse nada. Quando Minwoo e Eric chegaram eu contei a eles. E... bem, não acreditaram, claro. Então eu peguei o celular de Minwoo e mandei que ligasse para Hyesung. Está tudo certo, aí?

Enquanto eu falava, Hyesung beliscava a comida e Consuelo lia o livro, em busca do contra-feitiço. Ela sabia que ele estava ali, não exatamente onde.

_Não, claro que não! Somos fugitivos, deixamos você aí...

_Sobre o feitiço, Debby.

_Sim, eu acho. Consuelo apareceu em casa com o tal livro, vamos ver o que fazer.

_Chica... – Consuelo interrompeu. Mostrou-me a página do contra-feitiço, e senti-me assitindo um episódio de Charmed. – Tem um problema. Precisamos de Dongwan aqui.... sem ele, não vai funcionar.

Li rapidamente a parte que mostrava duas pessoas em um círculo de sal.

_Mas que inferno esse negócio de sal! DETESTO ESSE NEGÓCIO DE MAGIA! – Gritei, o mais alto que pude. – DETESTO!

_O que houve, Débora? – Dongwan perguntou. Sua voz suave me fez ter ainda mais raiva. Tive vontade de para em frente a um espelho e me jogar contra ele até quebrar.

_Você precisa vir para cá, Dongwan. Enquanto não chegar, não podemos fazer o contra-feitiço. Você precisa vir... não sei o que fazer, mas é isso.

Entreguei o telefone para Hyesung e subi as escadas. Fui fazer o que sempre fazia quando me sentia triste, ou deprimida: jogar-me na cama e chorar. Não sabia mais como resolver aquela situação maluca, e estava ficando cada dia mais nervosa. E pensava em Dongwan; pensava em Dongwan o tempo todo, até quando tudo que eu menos queria era pensar nele.