Possuídos

Nunca pensei que tanta coisa pudesse dar errada ao mesmo tempo. Dizem que você sempre se machuca em cima das cicatrizes, mas eu achei que um raio nunca caía duas vezes no mesmo lugar. Desde que eu chegara à Coréia, todos os raios tinham resolvido usar minha cabeça como alvo. Nem sabia que tinha tantas cicatrizes para machucar sobre.

Hyesung nos guiou até um lugar habitado novamente, e paramos em um albergue. Um hotel simples e simpático, que serviria para não sermos reconhecidos. Eu não seria, mas eles... eram celebridades, e na cidade natal. Estacionamos em uma rua lateral, e Hyesung pediu dois quartos. Ele e Dongwan dormiriam juntos, por menos interessante que achassem aquela experiência. Eu continuava sem roupas, mas durante o dia poderia conseguir alguma coisa.

Não conseguimos nos falar muito, depois de mais uma vez tudo ter ido por água abaixo. Ficamos frustrados e o melhor a se fazer era mesmo dormir. Até o dia seguinte, todos achariam que estávamos na mesma: Hyesung e Dongwan com suas famílias e eu no necrotério. Com um sorriso desanimado, despedi-me dos dois rapazes e tranquei-me no quarto. Pelo menos pensei ter me trancado.

Diferente do que eu pensava, a noite foi tão confusa quanto fora o dia. Não consegui dormir direito, rolava de um lado para o outro na cama. Enrolava-me no lençol, como se quisesse me proteger de alguma coisa. Mal sabia eu que deveria proteger-me de mim mesma. Estar de volta ao meu corpo não aliviou o sentimento esquisito que me perseguia desde que encontrara Dongwan no bar do hotel. Era esquisito porque eu achava Dongwan o membro menos atraente do Shinhwa. Meus sonhos pervertidos tinham sempre Lee Minwoo ou Shin Hyesung como personagem principal. Seus olhos, sua pele... eles pareciam gostosos, macios, desejáveis. Quando eu não me derretia de amores por Hyesung ou Minwoo, também pensava em Eric Mun e aquele cabelo que ele insistia em deixar despenteado. Ou Park Junjin, com aquela boca deliciosa. Até mesmo Andy eu podia dizer que me atraia mais fisicamente.

Mas Dongwan estava lá, comigo, naquele bar, tão natural, tão sozinho. Não fazia a menor idéia do que me abatera, mas o atropelamento foi forte. Minhas lesões eram graves. Não sabia o quanto, mas naquela noite imaginei a profundidade dos ferimentos. Desisti de lutar contra mim e contra as forças do destino, que estavam muito abusadas. Não lhes dei autorização para interferirem em minha vida. Levantei-me e muni-me com uma tesoura, improvisando uma ‘linda’ roupa com o lençol do necrotério.

Fui até a varanda do quarto, observar as estrelas e a última lua cheia do mês. Ela estava linda, redonda, brilhante. E, ao meu lado, estava Kim Dongwan também a admirar sua beleza.

_Dongwan, o que está fazendo aí? – Perguntei. Dongwan esticou a cabeça para me ver do outro lado da parede, e os lindos olhos de Hyesung me alcançaram.

_Como sabia que era eu?

_Ouvi sua respiração.

_Não... como sabia que era Dongwan.

_Ai... isso é muito complicado! Eu simplesmente sabia que era você, oras.

_Não consigo dormir.

_Nem eu. Estou com a cabeça cheia de minhocas.

_Eu estou como Hyesung. Só isso já é motivo demais para ficar confuso. E...

Fiquei aguardando a conclusão de Dongwan, mas ele desistiu de terminar sua frase. Olhávamos para o céu, na mesma direção. Conversávamos através de uma parede, que separava as duas varandas. Aquilo era patético.

_Ainda não disse isso, mas gostaria de me desculpar.

_Por quê?

_Você tem coragem de perguntar? Talvez porque eu tenha vindo para cá com esse maldito feitiço, e transformado sua vida em uma maluquice só. E ainda por cima envolvi Hyesung nisso tudo. Ou seja, um fracasso. Tudo que eu queria era ver o Shinhwa, conhecer vocês pessoalmente. E olha só no que deu.

_É mesmo nossa fã?

_Não, estou inventando. Eu vim para cá com intenções de destruir a banda.

Caí na risada, achando graça da minha própria piada sem graça. Dongwan riu também, não sei se foi gentil ou se estava distraído e não percebeu a quantidade de bobagens que eu dizia por minuto.

_Você não precisa se desculpar. Eu... gostei que você veio para a Coréia. Gostei ainda mais de ter te encontrado no bar. Apesar de tudo.

_Não precisa ser gentil. – Eu disse, encabulada. Ser elogiada por um Shinhwa era meu sonho de consumo.

_Não estou sendo gentil, eu...

Ao invés de terminar sua frase, como já era costume seu, Dongwan resolveu aproximar-se. Escalou a mureta da varanda e, com habilidade, aterrisou no meu quarto. Eu jamais faria nada tão arriscado, e tive certeza que ele estava maluco.

_Dongwan! – Esbravejei. – Ficou doido? Estamos a sei lá quantos andares do chão! Se você cair vai se esborrachar, e eu ainda vou ser responsável por acabar com o Shinhwa!

Dongwan novamente caiu na risada.

_Sem drama, senhorita Débora. – Ele aproximou-se de mim. Todo o desconforto que sentia enquanto tentava dormir voltou, de uma só vez, como se um milhão de formigas estivesse passeando por minha pele. – Acho melhor conversarmos olhos nos olhos.

_Foi porque eu quis ver seus olhos que tudo isso aconteceu. – Resmunguei.

_Desistiu?

_Claro que não. Seus olhos são lindos.

_Mas estes olhos aqui são de Hyesung.

_Os seus olhos são lindos. Você entendeu.

_Bem, já que vamos ao México mesmo, acho que preciso conversar com sua amiga feiticeira.

_O que você quer com Consuelo? – Fiquei curiosa. Dongwan aproximou-se ainda mais de mim e fiquei tonta. Ele tinha um sorriso maroto. Por um momento, não sabia se era Hyesung ou Dongwan quem estava ali.

_Quero que ela me cure. Eu acho que estou possuído.

_Claro que está. Você e Hyesung estão de corpos trocados.

_Estou falando de outra coisa. Estou possuído porque não consigo parar de pensar em você desde aquele encontro no bar.

Antes que eu pudesse engolir, mastigar e digerir as palavras de Dongwan, para ter certeza que um membro do Shinhwa me dizia aquelas coisas, ele me segurou com seus braços e me beijou. Foi como uma cena de filme romântico meloso. Ele me beijava e eu me derretia em seus braços como uma manteiga fora da geladeira. Foi mais uma vez patético. Como estava sendo tudo, desde que aterrisei na Coréia. Mas foi indescritivelmente delicioso.

Eu não era a mulher mais experiente do mundo no quesito homens. Afinal, eu vivia de um lugar para outro com minha família completamente desmiolada, e não tinha tempo para namorar. Nem ligava muito para os rapazes, eles eram, em sua maioria, um bando de molóides. Era mais divertido apaixonar-me pelos famosos, pois eu tinha certeza que eles nunca, mas nunca mesmo, me dariam bola. Era como eu sentia pelo Shinhwa. E Kim Dongwan, naquela noite, estava estragando tudo!

De qualquer forma, nunca pensei que ele pudesse beijar tão bem. Mais uma vez fiquei sem saber se beijava os lábios de Dongwan ou Hyesung, e achei de mais sanidade ficar com os olhos fechados. As mãos de Dongwan passearam pelas minhas costas e desamarraram o lacinho que levei minutos fazendo. O top tão estrategicamente idealizado caiu no chão frio da varanda. Em poucos minutos, estávamos sobre a cama, com o mínimo de roupas que poderíamos usar. Os olhos sempre fechados não me deixavam dar conta do tempo e do espaço, mas tudo que fazia diferença era Dongwan.

Não me lembro quando adormecemos, ou se já era dia ou ainda era noite. Acordei um tanto assustada, com o sol que invadia o quarto, pela porta da janela aberta. Dongwan estava estirado na cama, de bruços, adormecido como um bebê. Eu me sentia massacrada, muito pior do que me sentira na manhã seguinte ao feitiço. Tomei um banho morno, esperando lavar de mim tudo que significasse Kim Dongwan, mas não consegui. Desconcentrei-me do mundo e concentrei-me nas batidas da porta, que faziam meus ouvidos zunirem como tambores.

_Debby!! Vamos, acorde!! – Hyesung berrava do outro lado da porta. – Consegui roupas para você! E precisamos achar Dongwan, ele sumiu.

Eu estava sob o chuveiro, mas ouvi quando a porta se destrancou.

_Pare de gritar, Hyesung! Vai acordar o hotel inteiro!

_O que você está fazendo aqui? E... vestido dessa forma?

_Não estou vestido, Hyesung! Estou de cuecas! Nem imagina o que estou fazendo aqui?

Dongwan não me pareceu bem humorado, mas achei graça da forma como ele colocou a situação. Tive vontade de rir, mas silenciei-me para continuar a ouvi-los.

_Caramba, Dongwannie! Você não perde tempo, hem? Já deu um jeito de... se bem que fui eu quem dormiu com ela, né? E então, funcionei bem?

_Se você veio aqui para apanhar, está conseguindo me tirar do sério. Você não fez nada, o corpo não faz diferença. Quem trabalhou aqui fui eu, Dongwan, e nenhuma contribuição de Shin Hyesung foi contabilizada.

_Ih... está mal humorado.

_Não estou, nem teria como ficar.

_Onde está Debby?

_Além de isso não interessar a você, não adianta ficar olhando. Ela está no banho, posso ouvir o chuveiro. Aliás, eu também preciso de um banho. Vou até nosso quarto, se não se importa.

Após a conversa cessar, desliguei o chuveiro e saí do banho. Eu ainda sentia Dongwan por todos os lados, estava completamente possuída.