Na Coréia

Viajar de avião sempre foi minha parte predileta de qualquer viagem. Como eu sempre tive dinheiro, sempre viajei de avião. Mas nunca consegui me divertir menos. Mesmo indo de classe executiva, eu sempre conseguia enlouquecer as aeromoças e metade dos passageiros. A outra metade, me adorava. Quando eu chegava no balcão da American Airlines, todos já me conheciam. Era como aqueles cadastros de pessoas que não podem viajar porque têm restrições judiciais. Eu não tinha nenhuma, mas as companhias me... repudiavam.

Minha mãe quase teve um ataque quando me viu pegar o violão e ensacolá-lo.

_Onde pensa que vai com isso? – Ela indagou, terminando de orientar os empregados.

_Vou levar, oras!

_Levar violão para viagem de negócios?

_Os negócios são de Brad, mamãe... eu vou a passeio. E... o que vou fazer no avião, se não tiver meu violão?

_Pretende mesmo tocar essa coisa na viagem? Da última vez, quase fomos expulsos do avião.

_Claro que vou tocar.

Eu raramente fazia alguma coisa diferente do que queria. Não importava o quanto minha mãe falasse, eu era natural. Talvez natural fosse uma palavra eufêmica; eu era impossível. Preparei uma mala imensa, com tudo que eu achava que podia precisar. Estaria em outro continente, eu precisava levar minhas coisas. Os asiáticos eram diferentes; totalmente diferentes, eu sabia. Eu jurava que era totalmente o oposto deles, e precisava dos meus “acessórios” para fazer sucesso na Coréia. Eu precisava fazer sucesso, era a verdade.

Como de costume, Brad viajou com o laptop ligado. Não entendia como ele podia trabalhar sem parar, e fazer tudo ao mesmo tempo. Ele não tinha tempo nem para conversar. Bob ignorava que estava sendo ignorado e contava histórias da escola, histórias dos animais e histórias mentirosas que ele inventava quando ficava sem histórias para contar. Era uma criança muito inteligente, e muito irritante também. Luke deu trabalho à babá e mamãe preocupou-se apenas com o que iriam servir. Eu achava que ela tinha espírito suburbano, sempre se preocupando com coisa minúsculas.

Já o meu violão foi o sucesso da viagem. Eu não sabia cantar, mas adorava. Era sim, daquelas desafinadas que não têm o menor senso do ridículo e soltam a voz em qualquer ocasião. Sempre causava amor e ódio aos passageiros, irritando solenemente aqueles mais bem comportados e entretendo os menos formais. As aeromoças me pediram trezentas vezes para parar, mas eu tinha até backing vocal. Não decepcionaria os meus fãs.

Chegamos muito mais cedo do que eu achava que chegaríamos. Meu estômago roncava de fome, poque a comida foi pouca e ruim. Nunca pensei que poderiam servir tão mal por tanto dinheiro! Ainda bem que não era do meu suado trabalho que aquela companhia aérea vivia. Fomos direto para o hotel, mesmo sob os meus protestos porque queria conhecer a cidade. Aliás, eu sequer sabia em que cidade estávamos. A única coisa que me importava era estar respirando o mesmo ar que o Shinhwa.

_Não entendo por que essa necessidade de se enfiar em um hotel. – Reclamei. Luke e Bob lutavam dentro do carro e sobravam pernadas para qualquer um.

_Você quis trazer as crianças para vir junto. Não pretende que saiamos com estes dois, pretende? – Brad me interpelou. Nem imaginava que ele poderia estar ouvindo.

_Não. Mas vamos sair?

_Tenho duzentos compromissos hoje.

Quando Brad dizia que tinha compromissos, podia querer dizer duas coisas: ou que não queria companhia ou que precisava de companhia. Como nunca se sabia qual era a sua intenção, desisti de tentar alguma coisa e grudei o nariz no vidro da janela, a fim de observar a Coréia um pouco melhor.

Nada me deslumbrou, porque tudo já era do meu costume. O magnífico hotel, a belíssima suíte que me fora reservada, o luxo que todos pareciam hostentar deliberadamente. Nada daquilo me animava, pelo contrário. Tornava tudo muito enfadonho e artificial. Minha mãe, ao contrário de mim, parecia um pinto solto no melado. Quase morri de rir secretamente ao pensar nessa expressão, “pinto no melado”. Meu pai costumava falar muito isso, e eu não me esquecera. A babá não entendeu por que eu ria, mas também não perguntou.

Joguei minhas coisas no quarto e desabei na cama. Estava me sentindo meio enjoada desde o desastre com o livro de Consuelo no sótão. Pensei que fosse por causa da viagem, mas eu nunca enjoava em aviões. De qualquer forma, eu não acreditava que nada estranho pudesse ter acontecido. Mamãe apareceu para dizer que ia passear pela cidade, e que a babá ficaria com os meninos em um “lugar para eles brincarem”. Entendi que ela pagaria seus pecados com Bob e Luke naquela tarde, mas nada podia ser feito. Eu não estava interessada em cuidar dos meus irmãos, só conseguia pensar no Shinhwa. Como Brad passaria o tempo todo trabalhando, mamãe estaria fora e as crianças ocupadas, nada me restava a fazer a não ser desbravar aquela cidade interessante.

Encostei-me no balcão da recepção e um rapaz empertigado veio me atender. Se eu tivesse sorte, ele falaria inglês.

_Bom dia, em que posso ajudá-la? — Eu tinha sorte!

_Gostaria de saber onde estamos. – Falei, sorrindo.

_Não entendi.

_É que vim para cá com minha família e não sei em que cidade estamos.

O rapaz riu. Depois adquiriu novamente a aparência séria, como se rir para ele fosse proibido.

_Estamos em Busan, Seoul, senhorita.

_E como eu encontro o Shinhwa aqui?

_Shinhwa? Não tenho como saber.

_Oras... vamos! Eles são os reis da Coréia... todo mundo conhece o Shinhwa por aqui, certo? Claro que você, recepcionista deste hotel maravilhoso sabe onde eles estão.

O rapaz se aproximou de mim como se fosse me revelar um segredo. Eu tinha um sorriso estampado e a malandragem de um brasileiro. Vestia jeans surrado e camisa, minha bolsa enorme a tira-colo mais parecia que eu ainda não tinha guardado a mala.

_Vou contar, mas só porque você já está hospedada aqui. Eles... eles estão neste hotel.

_DEUS DO CÉU! – Gritei, dando uns saltinhos e agarrada ao colarinho do recepcionista.

_Psst... ninguém pode saber que te contei. Eles não querem publicidade agora.

_Não vou contar. Meu padrasto veio trabalhar com a produção deles, não estou de penetra aqui. Como é seu nome?

_YunJuyk.

Agarrei novamente o colarinho do rapaz e lhe beijei a face. Notei que ele ficou vermelho. Os homens, sempre tão ingênuos!

_Obrigada, Yunny. Você salvou minha tarde.

Saí da recepção muito feliz, cantarolando canções do Shinhwa e fui procurar o bar. Talvez eu os encontrasse no bar; talvez eu os encontrasse em qualquer lugar. Tinha que passear pelo hotel todo e rezar para que nenhum deles estivesse trancado no quarto pensando na vida. Eu podia encontrar Minwoo, ou Hyesung... claro que podia, eles adoravam um trago. Pelo menos eu achava que eles adoravam beber. Ainda era meio cedo para se almoçar, e eu imaginava que encontraria alguma diversão se me movimentasse bastante.