Histórias do Desapego
18 6.
Notas iniciais
Andavam. Os dois estavam muito cansados, mas já chegavam no final da trilha. Valquíria agradeceu aos céus quando vira a lagoa e ouvira a cachoeira. Estavam no topo. Dali, observavam a queda da cachoeira e o rio que se formava, cortando a mata fechada e a imensidão montanhosa.
“Isso é incrível.” Ela dizia.
“É.” Ele admirava a paisagem, perdido em alguns pensamentos. Seus olhos brilhavam.
Valquíria não resistiu, tomou fôlego e soltou um grito o mais alto que pudera. Ouviu sua voz ecoar e viu um grupo de pássaros mudar de árvore, incomodados. Cris a olhou, sorrindo, e fez o mesmo. Ela também o observou, dava risada. Gritaram mais uma vez, os dois juntos. Os pássaros se incomodaram ainda mais. O grito dela deu lugar a uma risada, quando Cris anunciou pela primeira vez, ainda gritando:
“Eu te amo, Valquíria!”
Ela parara de rir, mas ainda sorria. Olhava para Cris, surpresa.
“Você disse.” Ela sorriu.
“É, eu disse.” Ele recuperava o fôlego.
“Eu já sabia!” Ela gritou mais uma vez.
***
Cris acabara de chegar no apartamento de Valquíria. Bateu e abriu a porta. Ela estava deitada no sofá novo que ele a ajudara a carregar na semana anterior. Conversava com alguém pelo celular, pelo sorriso no canto dos lábios, apostava que era Demas. Ela baixou o celular e deu um sorriso para Cris. Levantou-se e foi até ele, lhe dando um beijo nos lábios.
“O que faremos esse final de semana?” Ela perguntou, esperando ideias como escalar ou acampar em algum lugar.
“Não sei, todo mundo foi pra um encontro jipeiros em Terra das Águas.” Ele disse a abraçando. “Pensei em sairmos com suas amigas de novo, mas acho que elas não gostam de mim.”
“Elas não gostam do meu relacionamento.” Ela deu um sorriso tímido. “Uma acha que estou traindo Demas, a outra diz que estou traindo você.”
“Então um filme?”
Procuravam um bom filme para ver. Valquíria fora até a cozinha, colocou um saco de pipoca no micro-ondas e olhou seu celular mais uma vez.
“Vão fazer uma festa de despedida aqui pra mim.” Demas lhe mandara.
“Estão felizes em se livrar de você.”
“Aposto que sim” Ela riu. Outra mensagem veio em seguida. “Você devia vir pra cá um dia. É até injusto você não poder ver as artes aqui.”
“Acho que vou mesmo, só não sei quando.” Ela dava um sorriso tímido. A pipoca ainda levaria mais um minuto para ficar pronta. “E a data da sua volta? Você já sabe?”
“Acabei de comprar a passagem. Chego aí no próximo sábado.”
“Mal posso esperar.” A pipoca ficou pronta. “Vou assistir um filme com o Cris. Acho que a gente se fala quando você acordar amanhã.”
“É, já vou dormir. Bom filme pra você pra ele.”
Valquíria pegara o saco de pipoca, queimou a ponta dos dedos no papel quente. Abriu a embalagem e despejou tudo em uma tigela. Levou até a sala, onde Cris já escolhera uma boa comédia. Assistiram a maior parte dela antes de Valquíria dizer:
“Demas chega em uma semana.”
Cris a olhara assustado. Tirou seu braço de trás de Valquíria e se ajeitara no sofá para encará-la. Parecia preocupado.
“E agora?”
“A gente vai descobrir junto. Mas eu não quero te deixar, não pense isso.”
“Vocês não iam morar juntos?”
“Não decidimos, isso ficou para resolvermos depois.”
“Mas e se você for, você acha que vai sobrar tempo pra...”
“Você não fica com as sobras do meu tempo, Cris.” Valquíria o interrompeu. Ela ficou de joelhos no sofá, se colocando sobre ele. O mirava no fundo dos olhos. “Você consegue lidar com escaladas, tirolesas, paraquedas, mas não consegue lidar com o acaso?”
“Amo você. Só isso.”
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