Histórias do Desapego
19 7.
Valquíria estava com Cris no saguão do aeroporto. Ela reconhecera Demas de muito longe, corria para lhe dar um abraço. Ele soltou as malas que puxava e abriu os braços para recebê-la. Depois de um ano, tinham mudado pequenas coisas fisicamente. Se olhavam de cima a baixo, matando a saudade de cada pedacinho. Então se beijaram, ele a apertava pela cintura e ela laçava seu pescoço. Parecia que nunca o soltaria.
“Finalmente de volta na casa dos seus braços.” Ele sussurrou em seu ouvido.
Ela sorriu e o beijou mais uma vez. Cris se aproximava de vagar, parecia não saber muito bem o que fazer.
“Você deve ser o Cris.” Demas sorriu e estendeu a mão quando soltou Valquíria.
“Sim. É um prazer.” Eles se cumprimentaram. “Bom, vamos? Vocês tem muito que conversar. Vou deixar vocês na Val.” Ele dizia pegando as chaves do carro.
***
Cris os deixou em frente ao apartamento de Valquíria. Só desceu do carro para dar um beijo nela, mais rápido do que de costume. Disse que voltaria mais tarde. Ela e Demas subiram até o apartamento.
“Não mudou quase nada.” Ele dizia ao entrar. “Sofá novo, cama nova, mas tudo do mesmo jeito.”
“Consegui barato.” Ela contou se jogando no sofá.
“E ele já tem deixado as coisas dele aqui?” Demas perguntou. Por mais que não sentisse ciúmes, sentia que as coisas tinham mudado.
“Uma coisa ou outra.” Ela respondeu. Foi até ele e lhe deu um abraço.
“Quando você me contou dele, tive medo de ele impedir que ficássemos juntos.” Ele desabafou, afagava os cabelos de Valquíria.
“Eu não deixaria que isso acontecesse.” Ela o acalmava.
“E olha só pra você, tinha medo de uma pessoa e agora tem duas!” Ele ironizou.
“Devo isso a você.” Fizeram silêncio. Continuaram abraçados.
“E o que temos tanto a conversar?” Demas disse depois de um tempo.
“Cris tem medo que ao começarmos a morar juntos eu não tenha tempo pra ele.” Ela explicou.
“Bom, talvez morar sozinha seja o melhor por enquanto.” Ele opinou, ela parecia concordar.
***
“Val!” Ouviram Cris gritar na porta do apartamento de Valquíria. “Eu não consigo abrir a porta!”
Quem abriu para Cris foi Demas, revelando o homem pouco mais novo que ele que carregava uma sacola de bebidas em uma mão e equilibrava uma pizza na outra. Valquíria fora até a porta também.
“Tem que pegar mais alguma coisa?” ela perguntou.
“Não.” Cris respondeu.
“Tem uma velha olhando pra gente.” Demas murmurou.
Valquíria observou, era sua vizinha de porta. Odiava aquela senhora. Ela deu um beijo em Cris, que entrou logo em seguida carregando a caixa de pizza. Depois deu outro beijo em Demas, que fechava a porta de vagar. Ela observou pelo canto dos olhos, a senhora entrava no elevador fazendo o sinal da cruz. Cris observava a mesma cena de dentro do apartamento. Valquíria terminou de fechar a porta, Demas já havia entrado com as bebidas. Ela olhou para trás, mirando seus dois amantes, deu um sorriso malicioso, seguido de gargalhadas.
Comeram pizza juntos, assistiam uma comédia, davam risada. Valquíria decidiu que deveria tomar um banho, deixando os dois na sala. Cris se dispusera a lavar os copos que sujaram. Demas o observava, conversavam um pouco, mas o silêncio entre eles era inevitável. Foi Cris quem fez o esforço inicial.
“Tenho que te agradecer por ter entrado na vida dela.” Ele disse. “Se não fosse você, provavelmente eu também não teria a conhecido. Ela fala como se você tivesse a salvado, de certa maneira.”
“Foi você quem terminou o trabalho?”
“Não.” Ele riu. “Ela me salvou.”
“Mas tenho que te agradecer também. Valquíria estava bem triste sozinha. Se não fosse você aqui, acho que eu não teria ficado lá tanto tempo.”
“Se você falar que isso que foi graças a mim, ela vai acabar me matando.” Demas riu. Gostara de Cris.
***
A partir daquela noite, passavam várias horas como aquela juntos. Demas se mudara para a cidade e vez ou outra acabavam passando noites em claro antes de um deles ir embora. Naquele dia, Valquíria tivera muito trabalho e acabara adormecendo antes que os outros dois tivesse sono.
Demas e Cris abriram duas cervejas e bebiam juntos, encostados a janela. Observavam a paisagem urbana. Já podiam se dizer alcoolizados quando começaram a falar sobre Valquíria, sobre como a conheceram e sobre antigos relacionamentos.
“Daí fiquei um mês mais ou menos, com aquele cara.” Demas contava “Mas ele era meio maluco, ficava fazendo cena.”
“A primeira vez que saí com alguém, foi com um cara.” Cris ria e ficava um pouco vermelho. “Era uma festa de quinze anos de uma prima minha, em uma chácara, minha família toda estava lá, foi horrível.”
“Traumatizante, eu diria.”
“Sim, mas saí com mais um cara depois de um tempo.”
“Então você também é bi.”
“Sei lá, nunca parei pra pensar sobre isso. Eu ainda olho mais para mulheres.”
“Entendi.” Deram mais um gole na cerveja. Demas se virou para observar Valquíria por um minuto. Ela parecia dormir profundamente. “Ela comentou que você estava namorando sério uma menina antes.”
“É. Conheci Valquíria quando o outro relacionamento acabou.”
“Ela me disse que você já não gostava dela fazia um tempo.”
“Sim. Ficamos três anos juntos, e os primeiros dois foram bons, mas as coisas foram ficando mornas e de repente a gente não tinha assunto mais. E aí agora ela tá praticamente casada com a ex da Val.”
“Cômico. Só consegui ficar com Val por causa da fossa em que essa menina ficou. Ela chegou para falar com alguns amigos, essa menina estava com eles, de repente todo mundo foi indo embora e nos deixaram sozinhos.”
“Lembro desse dia.” Cris riu. “Ela viu vocês ficando do lado de fora do bar, voltou puta de raiva. Era triste, mas era engraçado também.”
“Você era amigo dela?”
“Sim.” Cris riu.
“Sua namorada te deixou pra ficar com sua amiga?” Demas segurava uma risada mal educada.
“Sim.” Ele fechou o sorriso. Procurou o maço de cigarro no bolso. “Você se importa?” Cris colocava o cigarro na boca e pegava o isqueiro.
“Não. Até aceito um.” Demas respondeu. Recebeu um cigarro, Cris acendeu para ele. Tragavam e sopravam a fumaça para o lado de fora da janela. Seus olhares se encontraram pelos cantos dos olhos, deram um pequeno sorriso. Observaram Valquíria, que continuava dormindo. “Isso está prestes a ficar bem interessante” Demas disse antes de tragar mais uma vez o cigarro e encarar Cris.
“Muito.”
O cheiro do cigarro acordou Valquíria. Quando abriu os olhos, viu as silhuetas de Demas e Cris conversando na janela. Estavam um pouco próximos, mas o sono não a deixou perceber o que acontecia. Se mexeu na cama, o que chamou atenção deles. Não custou a adormecer novamente.
No dia seguinte, ela foi a primeira a acordar. Percebeu estar entre Demas e Cris, o que a surpreendeu. Compartilhavam os três a mesma cama, pela primeira vez. Os dois dormiam ali, virados para ela, suando álcool e com cheiro de cigarro nos cabelos. Ela sorriu, observou que o sol começava a nascer pela janela e que se dava ao luxo de, naquele momento privado, amar como amava.
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