Após aquele final de semana, mais um passou sem que pudessem se ver. Só então puderam se encontrar mais uma vez. Passaram uma tarde tranquila e cheia de sorrisos. Demas vez ou outra era pego olhando para Valquíria. Ela sorria pra ele quando percebia, ele sorria de volta.

No fim da tarde, chegaram ao apartamento de Valquíria. Com o aumento que ela recebera, comprara uma cama nova. Demas se jogou no colchão de braços abertos.

“Você merecia isso.” Ele comentou.

“Concordo.” Ela se ajoelhou sobre a cama ao lado dele. Mais uma vez, ele a observava. “O que foi?”

“Como assim?”

“Você está me olhando diferente.” Ela sorriu, intrigada. Deitou-se ao lado dele.

“Você acha?” ele mirou o teto.

“Sim. Tenho certeza.” Ele parecia confuso, um tanto tímido. “Você tá interessado em outra pessoa?” Ela perguntou, olhando para o teto também. “Porque não tem problema, eu não fico com ciúmes nem vou me afastar por causa disso. A não ser que você...”

“Senti sua falta essas semanas.” Ele a cortou. Ela pareceu confusa com a mudança de assunto.

“É?”

“Se lembra quando você me perguntou se eu me permitia apaixonar o tempo todo?” Ele a olhou pelo canto dos olhos.

“Sim, aquela foi uma boa noite.” Ela sorriu. Ele voltou a olhar o teto.

“Eu senti sua falta, porque, de um tempo pra cá, eu andei me permitindo.”

De repente, Valquíria sentiu o coração disparar. Pensava não ser uma boa sensação.

“Demas...” ela não sabia o que dizer, apenas suspirou.

“Eu não quero que você se sinta presa. Se você não quer nada sério,” ele fazia um sinal de aspas com os dedos, “eu entendo.” Ele fez uma pausa, a olhando pelo canto dos olhos novamente. “Só acho que você devia saber no que está se metendo.”

“Então nada muda?” ela havia fechado os olhos.

“Acho que não.” Ele respondeu.

Valquíria queria respirar aliviada, mas não conseguia. Ela sabia, tudo mudava a partir daquela declaração.

“E se eu quiser sair com outra pessoa, como ficamos?” ela perguntou.

“Do mesmo jeito que ficaríamos se eu quisesse. Sem compromissos ou falsa fidelidade.”

Ainda não estava aliviada, mas sorriu.

“Você não existe, Demas.” Ela se colocou por cima dele. O beijou.

***

“Ele te disse isso?” A ruiva quase gritou no bar.

“É, você estava certa quanto a ele.” Valquíria disse.

“E o que você vai fazer?” A amiga que possuía olhos verdes e cabelos aloirados questionou.

“Nada. Por que eu faria alguma coisa?”

“Ele tá louco por você, se você não o corresponde, não é injusto?” A mesma voltou a perguntar.

“Ela corresponde sim.” Como boa prima que era, a ruiva partia na defesa de Demas.

“Que seja,” Valquíria ignorava “Não mudaremos nada por agora.”

Os meses passavam rápido. Com o tempo, algumas pequenas coisas de Demas foram se acumulando pelo apartamento de Valquíria. Ela gostava da abóboda celeste que pendurou na parede. No pequeno copo de plástico sobre a pia do banheiro, descansavam duas escovas de dentes. Ele deixara alguns livros na estante dela, que sobrava espaço. O telescópio ele resolvera deixar por ali, pois pouco o usava durante a semana.

***

Havia finais de semana que não se viam, mas se comunicavam pelo celular nestes dias. Valquíria aproveitava estes finais de semana para sair com os amigos, em um desses ajudou um casal de amigos a se mudarem para um grande apartamento no centro da cidade.

“E esse boy com quem você tá saindo?” um deles, que era magro, negro e usava óculos, perguntava enquanto desencaixotava algumas coisas.

“Ele está na cidade dele.”

“Quanto tempo faz, Val? A gente não se via há tanto tempo!” o outro, mais forte e dono de um cavanhaque castanho, também se mostrou curioso.

“Acho que cinco meses.”

“Tá sério já, então!” o primeiro disse.

“Não.” Valquíria sorriu.

“Por que não?” Questionaram em uníssono.

“Porque não.”

***

No meio da tarde de um sábado, estavam deitados na cama de Valquíria. Não se sabe o que passava na cabeça dela quando ela franziu o cenho, se virou para ele e perguntou:

“Você acha que é apaixonado por mim ainda?”

Demas estranhou a pergunta, a olhou erguendo uma de suas sobrancelhas.

“Sou sim. Por quê?”

Valquíria se deitou novamente, segurando na mão dele. Talvez ele estivesse esperançoso agora, a olhava enquanto ela pensava no que dizer.

“Val?”

“Conheci um cara esses dias.” Ela disse, observando a reação dele pelo canto dos olhos. Ele continuou a encarando.

“Tá.”

“Só ‘tá’?”

“Você é livre.”

Ela fez silêncio, o observando. Ele ficou quieto, ainda a encarando.

“Não tem cara nenhum, só queria ver sua cara.”

“Não deve ter tido muita graça.”

Ele estava sério, o que a fez se sentir culpada. Não devia brincar daquele jeito com os sentimentos de Demas.

“Gosto muito de você.” Ela disse, se aproximando.

Ele passou seu braço por baixo da nuca dela. Soltou um suspiro.

“Te amo.” Ele disse.

Ela congelou. Sentiu que devia abraçar Demas, mas tinha medo de fazer o mesmo. Ela abriu a boca pra responder alguma coisa, mas não sabia o que falar. Gaguejou alguma coisa.

“Tudo bem.” Demas a confortou “Eu não esperava uma resposta pra isso.”