Histórias do Desapego
10 4.
Notas iniciais
Dessa vez, Valquíria que havia viajado. Hospedara-se no apartamento de Demas, que era bem mais espaçoso que o dela.
Estavam em um bar com dois amigos dele. Pareciam ser amigos desde antes da faculdade.
“Não aguento mais dar aula” um deles, que possuía uma voz grave e rouca, falava “Aquele bando de adolescente não entende e nem quer entender nada!”
“Te disse que geografia era furada.” Demas disse, dando risada.
“Eu gosto, cala a boca. E você só não está dando aulas também por um golpe de sorte.” O mesmo respondeu.
“Acho que se estamos falando de trabalho é porque não bebemos o suficiente.” O que possuía o cabelo encaracolado e preso em um rabo de cavalo dizia. Ergueu a mão, pedindo para o garçom mais uma garrafa de cerveja.
“Devo dizer que estou feliz em finalmente conhecer a tão comentada Valquíria.” O de voz grave dizia.
“Comentada é?” Valquíria sorria, observando Demas com o canto dos olhos.
“Fica tranquila, não falei nada dos seus podres.” Ele terminou a cerveja de seu copo.
“Você roubou nosso amigo. Toda vez que o chamo pra beber alguma coisa, ele está na sua casa.” O de cabelo encaracolado reclamava num tom de zombaria.
“Nem vem. Te chamei pra sair as ultimas quatro sextas-feiras e só hoje você pôde.” Demas retrucou.
“De sexta eu estou com a minha esposa, ué.”
“Então! Qual a diferença?”
“A diferença é que eu não sou sua esposa.” Valquíria riu. “Muito feio parar de sair com os amigos.”
“Não acredita neles! Já me deram muito bolo já.” Demas se defendeu, também rindo.
***
“A consciência foi um acidente, eu acho.” O de cabelos encaracolados dizia.
“Acho que foi o plano maligno bem executado de alguém.” Valquíria respondeu, gerando risos.
“Consciência... do quê a gente sabe? Não dá pra ter certeza de nada!” O de voz grave disse.
“A certeza é a dádiva dos que pouco pensam.” Demas riu ao dizer.
“Concordaria com você, mas tenho que pensar mais sobre.” Valquíria pontuou. Riram de novo.
Por alguns segundos, Valquíria se preocupou com o que estava acontecendo. Agora ela conhecia os amigos dele. Já conhecera a mãe de Demas em uma viagem anterior. Se lembrou que ele dissera que a amava, o que gerou um leve frio na espinha.
***
Os amigos de Demas já tinham ido embora. Agora ele e Valquíria se divertiam no balcão do bar. Uma garota ao lado dos dois tocava ukulele e cantava algumas músicas que faziam os que estavam em volta felizes. Não demorou muito, Valquíria engatou uma conversa com um desconhecido ao seu lado.
A garota do ukulele começou a cantar uma música que Demas gostava, ele cantava junto. Isso fez com que Valquíria o olhasse. Ele olhava para a garota do ukulele, sorria e tinha o sorriso retribuído. Quando já acabavam a música, voltou a falar com o desconhecido.
“Ah, você não é daqui.” Ele falava, era calmo, os olhos estavam pequenos. “Mas você tá sozinha? Não paga hotel, não, cola lá em casa.”
“Não, eu já tenho onde ficar.”
“Ah, mantenho o convite mesmo assim.” Ele sorriu, se aproximando. “Você parece bem legal.”
Valquíria o dispensaria naquele momento, mas não precisou fazer isso. Demas terminara de cantar e se voltara pra ela.
“Você quer beber mais alguma coisa?” Ele se aproximou e colocara uma de suas mãos na cintura de Valquíria. Isso deixou o rapaz desconhecido um pouco tímido.
“Não.” Valquíria respondeu.
“Tá, vou pegar mais uma dose de alguma coisa.”
Quando Valquíria olhou novamente para o rapaz, ele já estava distante de novo.
“Seu namorado?”
***
Acordaram no outro dia no apartamento de Demas, ambos com suas roupas, apenas tiraram os sapatos. Demas se levantou e andou até a cozinha quase rastejando pelo chão. Não se demorou, trouxe com ele remédio para dor de cabeça e um copo de água.
“Quer?” ele murmurou, mostrando o remédio para Valquíria.
“Por favor.” Ela respondeu.
Depois de quase uma hora, a dor de cabeça característica da ressaca havia sumido. Infelizmente, algum mal humor sobrara nos dois.
“E a menina do ukulele?” Valquíria perguntou.
“Ela toca bem, não é? Ela me passou um link com onde posta as músicas dela.”
“Não vi se toca bem.” Valquíria pareceu querer ofender. “Mas também acho que não me lembro muito bem.” Ela tentou se corrigir. Demas franziu o cenho, estranhando o como ela falava.
Tomaram banho juntos, se vestiram.
“Acho que vou ali comprar almoço pra gente.” Ele disse. “Quer ir junto?”
“Acho que vou ficar dessa vez.” Ela disse, se jogando na cama de Demas.
Ele saiu. Ela ficou ali, observando as coisas dele. Algo estava errado, ela sentia. Demas a abraçara antes de ela dispensar aquele rapaz. Agiu por ciúmes, ela tinha certeza. Mesmo que ela quisesse ficar com aquele rapaz, não seria possível, porque Demas a abraçara. Ele marcara seu território. Valquíria não gostava disso. Ele se deixava conversar com outras mulheres, cantar com elas, mas não poderia sequer recusar um rapaz sem que ele interferisse?
Começou a arrumar suas coisas, como se estivesse fugindo. Pegou sua escova de dentes, suas roupas jogadas no chão do banheiro e colocara em sua bolsa.
“Esqueci minha carteira.” Demas entrara no quarto, de repente. “Arrumando tudo agora? Seu ônibus só sai daqui oito horas.” Ele estranhou.
“Tem outro daqui a pouco.” Ela não sabia se tinha mesmo, mas disse mesmo assim.
Ele ficou quieto, imóvel, a olhando pegar seus últimos pertences e calçar os sapatos.
“Você não vai me dizer por que...?”
“Chegou o momento que a gente já sabia que chegaria.” Ela parecia confusa, talvez um pouco desesperada.
“Do quê você está falando?”
“Eu não gostei do como você me abraçou quando eu estava falando com aquele cara no bar. Eu não sou terra pra você ficar marcando.”
“Ontem?” Ele parecia confuso. “Eu estraguei suas chances com ele? Não era a intenção.”
“Eu não ia ficar com ele, mas mesmo assim.” A voz de Valquíria estava um pouco alterada, ficara mais aguda. “A gente já sabia que uma hora isso ia acontecer. Você age como se a gente fosse algo que a gente não é.”
“Olha, eu não estou nem aí pra o que a gente é ou deixa de ser...” ele se explicava.
“Está sim, você se importa e sabe disso.” Ela o interrompeu. “Não dá mais.”
“Espera, você tá indo embora porque eu te abracei?”
“Não, Demas.” Ela suspirou. “O problema é que você tá apaixonado por mim. Talvez você não deveria ter me contado! Parou pra pensar que eu não queria saber?”
“Como assim? Isso é definitivo?” Ele se assustou. Pareceu triste e raivoso ao mesmo tempo.
“É.” Ela engasgou para dizer. “Me desculpe por isso.”
“Não.” Ele ria, nervoso. “Eu que peço desculpas por não saber que estava envolvido com uma criança. Ao menos admita, Valquíria!” Ele a assistia sair do quarto. “Você está indo embora porque tem medo! É uma covarde.”
Valquíria se sentiu ofendida. De um jeito diferente. Não ofendida como quando um de seus antigos affairs lhe humilhou em publico. Não ofendida como na noite em que conhecera Demas, quando seu ex insinuou que ela era uma puta. Valquíria se ofendeu profundamente, pois sabia que Demas estava certo.
Ela não disse mais nada até chegar na porta da sala, ainda ouviu a voz de Demas:
“Você tem certeza disso?” Ele já parecia arrependido pelas verdades ditas, mas ela ficou em silêncio.
Não respondeu, só saiu. Caminhou pensativa até a rodoviária, que não era distante. Talvez ele viesse atrás dela. Vez ou outra olhava para trás, esperando ver a figura de Demas correndo atrás dela. Ela não voltaria, sabia disso.
Comprou uma passagem para sua cidade, o ônibus sairia em minutos. Quando o transporte chegou, ela olhou ao redor. Nada de Demas. Pegou o celular e colocou os fones, procurando a música que precisava. Os violinos começaram, seguidos da voz que dizia não se arrepender de nada.
Acomodou-se no ônibus. Nada, não se arrependia de nada. Fechou os olhos, sentindo o ônibus sair. Uma lágrima a escapou dos olhos, nem se lembrava mais porque estava fazendo aquilo. Colocou as mãos no rosto, se permitindo mais lágrimas e soluços.
Non, je ne regrette rien.
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