Histórias de amor
8 Digo três palavras difíceis
Notas iniciais
—Não sei se isso vai ajudar muito...
Annabeth me ignorou completamente. O frio do fim de outono fazia a cidade gear, todos estavam com casacos pesados, as bochechas vermelhas pelo vento gelado que batia em nossos rostos, correndo de um lado para o outro para chegarem rápido em suas casas quentinhas.
E eu também ansiava por isso, pelos cookies azuis da minha mãe com chocolate quente, mas pelo jeito o pé de Annabeth tinha outros planos.
—E-eu.. aggh!!
Ela estava vermelha, e não era pelo vento frio, era da mais profunda raiva. Estávamos num típico sábado, decidimos ir no cinema, eu estava indo pagar pelos nossos ingressos quando plac.
Eu retesei na hora, esperava que ela fosse explodir em 3,2,1...
—Oops — falei, dando um passo para o lado me afastando. Ela tirou o pé esquerdo lentamente, os olhos fechados e a expressão de nojo.
Annabeth estava especialmente bonita neste dia, talvez por causa do inverno: Seus cabelos loiros estavam escondidos por uma touca cinza, usava um moletom branco com uma gola que cobria seu pescoço e calças jeans claras por dentro de uma bota bege que era bem legal, o que me fez imediatamente ficar com muita dó dela.
—Onde, raios, apareceu uma vaca no meio de Manhattan?
Ela olhou em volta, esperando que aparecesse subitamente uma vaca que deixou seu presentinho de Hera. Foi a terceira vez naquela semana que um acidente daqueles acontecia, e eu entendi que a terceira definitivamente definiu seu ponto máximo de paciência. Eu esperava que o fato de Annabeth ter salvo o Olimpo no último verão fizesse Hera deixar essa pequena rixa de lado, mas deuses sabem ser persistentes em sua antipatia.
Ela foi até o meio fio e começou a arrastar sua bota por lá raivosamente, o que fazia as pessoas que passavam na calçada nos olharem mal encaradas (só para se ter uma ideia o quão esquisita era a situação) o que é um grande feito já que raramente as pessoas em Nova York prestam atenção em qualquer coisa ao seu redor quando andam na rua.
Aquilo não estava sendo muito efetivo. A geada fez a calçada estar totalmente molhada, então não só a sola mas o resto da sua bota começaram a se sujar. Foi nesse contexto que voltamos para o início, em que eu disse pesarosamente:
—Não sei se isso vai ajudar muito...
Mesmo assim ela continuou mais um pouco, para entender só bem depois que estava piorando a situação.
—Não tem como eu entrar numa sala fechada com 100 pessoas assim! — cocei meu rosto, tentando pensar numa solução que nos fizesse sair do meio da calçada e não virar picolé.
—Está tudo bem — coloquei uma mão em seu ombro, me esticando para não chegar perto do resto do seu corpo — Estamos no melhor comércio do mundo, nós entramos numa loja, vou te presentar com um sapato novo e voltamos para o cinema.
Estava ansioso para ver a estreia, era um desenho de peixes, eu sabia que ia gostar. Ela negou com a cabeça, totalmente derrotada.
—Não precisa...
—Ah, precisa sim — tratei de interrompê-la.
Aquela parecia ser uma caca sagrada. E ela pisou com tudo, foi nojento.
Annabeth entendeu que eu não iria ceder naquela discussão, então fomos andando para o shopping do outro lado da rua, felizmente tinha uma loja logo na entrada, que ela se recusou a entrar.
Aquela missão foi difícil (eu não fazia ideia qual seria o estilo ideal de Annabeth (algo com corujas?), apenas neste ano a vi algumas vezes sem a blusa do acampamento meio sangue).
Também foi a primeira vez que eu refleti que, mesmo minha namorada sendo alta esguia e forte, seus pés eram minúsculos. O pensamento me fez rir. Quando saí da loja, Annabeth me esperava no banco do corredor do shopping, os pés estavam balançando no ar apenas com meias de coruja. Estava encolhida de vergonha.
Entreguei para ela a caixa, que abriu toda desesperada.
—Azul? — ela perguntou um pouco confusa. Dei de ombros.
—É a melhor cor
Eu imaginei que ela fosse me xingar, mas ela deu uma digna risada. Que acabou me fazendo rir também.
—Você é um cabeça de algas — ela disse divertida, colocando botas agora azuis.
Eu achei que tinham ficado ótimas, mas Annabeth parecia estar se divertindo, como se estivesse fantasiada ou algo assim. Sua expressão se suavizou um pouco.
—Certo, eu chequei e perdemos a sessão. A próxima é só daqui a uma hora.
—Ah, cara...
Ela estudou minha expressão decepcionada; não era fácil ler os olhos de Annabeth, mas eu diria que tinha uma pontada de culpa.
—Então, eu sei de uma coisa que podemos fazer enquanto isso, e depois eu te pago um chocolate quente para compensar, pode ser?
Concordei, mesmo com minha cabeça lá na sala de cinema, no balde de pipoca amanteigado e peixes em desenho nadando desesperadamente de um lado para o outro.
Caminhamos pelo shopping de mãos dadas, ela teve que me empurrar quando parei numa loja de skate, já que tínhamos somente uma hora. Ela me puxou para dentro de uma livraria, o que me fez imediatamente revirar os olhos.
Uma livraria é o mais próximo do terror que qualquer pessoa com dislexia pode ter; as palavras se embaralham loucamente fazendo sua cabeça doer. Mas Annabeth continuou puxando, até que subimos uma escada e chegamos num terceiro andar pouquíssimo movimentado, que tinha apenas uma meia luz alaranjada. O lugar era tão silencioso que nem parecia que estávamos no centro de Manhattan, as pessoas cochichavam como quando estão na sala de espera do hospital.
Annabeth me puxou para um corredor específico, e automaticamente as coisas começaram a fazer sentido. Percebi que estávamos numa sessão de livros em grego antigo. Fomos até o fundo, e ela simplesmente se sentou no chão, como se ali fosse sua casa.
Ela gesticulou para que eu me sentasse ao seu lado, e mesmo extremamente confuso, assim fiz.
—Sabe como descobri que não era igual um mortal comum? — ela sussurrou, a bala de menta fazia seu hálito ficar gelado. Era gostoso. Eu neguei com a cabeça — Quando eu estava aprendendo a ler… Tudo era tão frustrante, eu queria muito entender o que estavam nessas frases…
Ela pegou um livro, apontando para as palavras. Eu infelizmente não me identificava com essa frustração, o maior livro que li foi O menino do dedo verde na terceira série.
—... Mas então, quando peguei um tipo este na biblioteca do meu pai — ela se inclinou um pouco, pegando um livro bem encima da minha cabeça, tinha vários edifícios e desenhos e enfim, coisas de arquitetura. Algumas poucas legendas em grego, e entendi que era um livro de arquitetura clássica — Eu entendi que talvez pudesse existir algum lugar para mim
Seus olhos brilhavam. Eu nunca tinha sacado que para uma pequena criança disléxica filha de Atena, analisar edificações deveria vir tão natural quanto respirar. Annabeth passava os dedos lentamente pelos livros, como se pudesse absorver as informações pelas digitais.
De repente, entendi que deveria ser horrível saber que não pertencia ao mundo mortal, mas não saber qual exatamente é o seu lugar então. Eu nunca soube de fato, mesmo sendo levemente desconfiado. E minha mãe sempre me fez se sentir acolhido. Mas Annabeth, ela soube desde sempre; o quão solitário poderia ser uma infância assim?
Ficamos em silêncio, e por algum motivo as visões que tive de Annabeth com apenas sete anos, fugindo de monstros, ficaram muito vívidas na minha mente.
—Desculpa pelo cinema — ela disse, ainda encarando os livros. O que me fez demorar um pouco para processar que ela estava falando comigo e não com Análise estrutural: resistência dos materiais.
—Ah, hum, tá tudo bem — eu dei uma pequena risada, o que na verdade pareceu um grito naquele lugar sepulcral — O cinema não vai sair do lugar
Annabeth assentiu, mas ainda sim me olhou como se eu fosse uma coisa muito estranha. Nossos ombros se encostavam naquela biblioteca em meia luz, e ela me olhava tão intensamente… Estava sentindo alguma coisa apertando no meu peito, meu coração batia mais rápido do que deveria. Foi ali que percebi que Annabeth seria muito mais que uma paixão de adolescência.
Então ela olhou para suas botas, e deu um sorriso tão bonito que eu senti que poderia derreter de deslumbramento.
—Eu te amo, Percy — ela disse, ainda olhando para as botas. E então eu senti todo o aperto no meu peito se aliviar de uma só vez, como se eu estivesse respirando pela primeira vez. Ela finalmente me olhou, as sobrancelhas arqueadas e as bochechas um pouco vermelhas. Entendi que eu deveria ter falado alguma coisa.
—Ah, Annabeth… E-eu…
—Não precisa responder — ela me cortou risonha e deu de ombros — Eu só senti que queria dizer isso
O que eu estava fazendo? Minha língua parecia enrolada. Eu peguei na mão dela, que estava repousada nos livros.
Estava pensando naquela Annabeth de sete anos, e depois ela um pouco mais velha, quando ela me olhava preocupada na primeira vez que nos vimos, e depois no Mar de Monstros, quando ela me confessou seu defeito fatal… E entendi que mesmo eu amando o fato que minha namorada era a pessoa mais badass que conheci na vida, eu me apaixonei justamente quando ela se mostrou vulnerável. Porque quando isso acontecia, mesmo que raras vezes, quando ela se abria e mostrava um pouquinho do que era… Ali era o suficiente para qualquer pessoa se apaixonar por ela.
—Eu não sou muito bom com palavras então não sei se consigo expressar o quanto eu te amo — a minha língua, ainda bem, decidiu se desenrolar — Bom, eu te amo. E não é só porque você disse… É impossível te conhecer e não te amar.
Ela continuou me olhando, e parecia um pouquinho surpresa. Esperava ter falado as palavras certas, mesmo me sentindo o namorado mais desajeitado da face da Terra.
Quando ela me beijou, fiquei feliz de pelo menos não ter feito algo de errado, até porque parecia o melhor beijo de todos; mesmo que eu seja um cara suspeito para falar, já que todos os seus beijos pareciam o melhor beijo de todos.
Esperava não parecer muito bobo quando ela se afastou de mim, porque ela estava olhando bem nos meus olhos, a testa encostada na minha. Ela tinha uma expressão divertida.
—Nunca vou entender seu fetiche com azul — ela disse por fim, eu dei uma risada.
—Não é um fetiche, é só a melhor cor de todas
Ela passou uma das suas pernas entre as minhas enquanto dava uma risadinha.
—Aham, e se eu disser que… — ela chegou no meu ouvido, sussurrando algo tão devasso que eu não poderia reproduzir aqui. Arqueei uma sobrancelha, olhando para ela chocado.
—Então eu diria que talvez eu tenha um fetiche com essa cor — respondi, olhando para aquelas botas de um jeito totalmente diferente.
—Só isso? — ela perguntou, seus cílios loiros piscavam de um jeito falsamente inofensivo.
—Ei, eu estou me esforçando para permanecer inocente por aqui — argumentei, ela deu uma gargalhada em resposta — Temos um desenho infantil para ver daqui a pouco.
Então ela olhou para o relógio, estupefata.
—Droga, vamos nos atrasar.
Ela deu um solavanco, e enquanto nos afastamos do corredor em passos rápidos, olhei novamente para todas aquelas estantes. A verdade é que eu imaginei o quão seria legal se ficássemos juntos e eu a visse remexer naqueles livros todos os dias, indo a caminho do trabalho ou qualquer coisa assim.
Mesmo sabendo que poderia chegar o dia em que seria desafiado para algo que talvez eu não conseguisse vencer, e que eu não sabia como fazer aquele sonho se concretizar, me dei ao luxo de pensar naquele futuro. O futuro ideal.
—Tudo bem, cabeça de algas? — perguntou Annabeth quando saímos novamente para as ruas frias de Manhattan, entendi que minha cara poderia não estar das melhores. Forcei um sorriso, passando meus braços envolta dos seus ombros. Decidi não pensar muito no futuro, estava agradecido que havia enfrentado um titã no último verão e sobrevivido, e agora podia ir ao cinema com uma bela garota ao meu lado.
Ah claro, sempre olhando atentamente para o chão antes de andar.
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