Histórias de amor
9 Annabeth tenta explicar o dia que eu surtei
Notas iniciais
Na maioria das vezes, se você quiser debater sobre um pouco de tudo, desde política a programas de TV, ou quem sabe (aceito convites) um ted talk sobre arquitetura ou urbanismo... Tudo que seja lógico: estou aqui para isso.
Agora, eu não sou muito boa para falar sobre relacionamentos amorosos, ou garotos, ou sentimentos, principalmente se forem os meus.
Então contar este dia em específico não vai ser tarefa fácil, mas tudo começou quando meu namorado surtou.
Normalmente Percy não é a pessoa mais serena do mundo. Veja bem, seu pai é Poseidon. Deus dos Mares, tempestades, terremotos... Como seu pai, Percy não é muito bom em ser contido. Mas naquele dia, ele foi especialmente difícil.
Era um sábado de manhã, e eu estava fazendo alguns reparos em alguns dos meus projetos arquitetônicos, que eram a única coisa que me faziam não se sentir solitária. Morar sozinha é legal se você quiser andar seminu pela casa ou ouvir a música que quiser na altura que quiser, mas às vezes batia algum tipo de sensação de estar muito sozinho, que era exatamente como eu tinha acordado naquele sábado.
E então, meu telefone tocou.
Meu telefone só toca quando coisas realmente sérias estão acontecendo. Você só terá meu número se for algum meio-sangue, Sadie Kane, meu pai ou a família Jackson. Então rapidamente atendi.
—Bom dia querida — falou uma voz suave, que reconheci rapidamente como de Sally. Ela era um amor de pessoa, mas também era minha sogra. Então imaginei rapidamente várias coisas que poderiam ter dado errado — o Percy está com você?
Me levantei num pulo, aquela conversa não era boa e da última vez que a tive meu namorado desapareceu por meses. Percebi que estava andando de um lado para o outro quando respondi:
—Não, porquê? — a voz dela afastou um pouco, percebi que ela estava falando com outra pessoa -... Sally?
—Oh, querida. Desculpe-me
—Aconteceu alguma coisa?
—Bom... — ela parou por um segundo, agora eu já devia ter percorrido o mesmo caminho em ziguezague umas milhões de vezes — o Percy deveria ter feito suas provas finais agora pela manhã, mas ele acabou de sumir e não terminou, e a escola teve alguns encanamentos rompidos... Paul já resolveu o problema dos encanamentos mas...
Eu parei de prestar atenção nela depois da palavra "encanamentos", Percy poderia ter sido atacado por alguns monstros, e por isso provocou o estouro no encanamento.
—Sally, eu vou tentar falar com ele por MI — disse, foi uma mentira, até porque não tinha como contatá-lo se eu não sabia aonde ele estava. Mas pelo menos serviu para acalmá-la, que era meu objetivo.
Quando desliguei o telefone, percebi que minhas mãos suavam. Meu coração batia rápido. Tentei não me sentir ansiosa enquanto trocava de roupa rapidamente, enchi minha mochila de suprimentos, minha faca e meu boné.
Ao encarar os táxis que buzinavam quando abri a porta do meu prédio, percebi que não fazia ideia de onde Percy poderia estar. Eu tinha me tornado bastante expert em tentar encontrá-lo, mas sem saber porque ele tinha sumido daquela vez fazia tudo ficar bem mais difícil.
Pensei rapidamente nos lugares favoritos de Percy: a loja de discos perto da quinta avenida e a pista de skate no Hudson River Park. Se ele estivesse bem (e eu o mataria se não tivesse) seria em algum destes dois lugares que ele estaria.
Chamei um táxi, fazendo-o correr até a loja de discos.
Mesmo não querendo, acabei tentando pensar em todas as possibilidades possíveis que poderiam ter feito meu namorado estourar os encanamentos da sua escola e sumir. A primeira e mais óbvia era monstros, mas também poderia ter acontecido outra coisa... Tinha lembrando da última conversa que tivemos, por mensagem de Íris, dois dias atrás:
—Ei — falei, esperava que ele não visse a bagunça que meu quarto estava, mas ele parecia distraído.
—Oi, Sabidinha — respondeu, abrindo um sorriso que tinha um efeito muito eficaz em me deixar desconcertada. Ele usava blusas de pijamas e shorts samba canção. O que fez meus pensamentos voarem um pouco. Fiz o meu melhor para me concentrar, então foquei na tatuagem em seu braço do acampamento Júpiter.
—Como estão os estudos? — perguntei, tentando fazer meu sorriso mais legal. Aquele não era seu assunto favorito.
—Agh, terrível — ele coçou sua nuca, como fazia quando estava nervoso — Queria que você estivesse aqui...
—Vai dar tudo certo, essa é só a primeira prova. Você vai se sair bem — ele suspirou, mas senti que tinha ficado um pouco mais aliviado.
—Ainda não sei porque tenho que estudar para passar nesses malditos testes, eu já tenho uma bolsa em Nova Roma — ele fez um biquinho, que honestamente, era bem adorável — Vai ser uma sacanagem se eu não ir para universidade por causa disso.
—Quando você pensar em desistir, lembre-se que é só passar por isso e estaremos juntos em São Francisco — mesmo sem querer, percebi que meu tom era levemente malicioso
—Curtindo as praias da Califórnia... — ele falou sonhador. Não consegui não sorrir. Ele parecia mais confiante agora. Passou seu cabelo que caía nos seus olhos para trás, meu coração deu uma leve derretida pelo charme — Já estou com saudades, Sabidinha.
Dei uma risada.
—Nós nos vimos ontem! — ele deu de ombros, como se aquilo fosse um mero detalhe — Boa noite cabeça de algas, a álgebra te espera
—Ah, cara...
Eu balancei a mensagem de Íris, e tudo parecia bem.
Mas absolutamente não estava, não é?
Foi o que eu pensei quando entrei na loja de discos, o vendedor felizmente me reconheceu. Era um homem de meia idade, os cabelos ralos pela calvície. Parecia usar roupas diretamente dos anos 80, como se tivesse acabado de sair do Lótus Cassino.
—Por acaso o Percy esteve aqui? — perguntei, tentei ser o mais firme possível. Os vendedores normalmente não te reconhecem, mas Percy vinha naquela mesma loja há anos, comprava discos das bandas de rock que ele gostava. Enquanto limpava as capas dos discos de vinis o homem deu de ombros.
—Ele nem veio aqui essa semana — respondeu.
Estranho. Percy normalmente ia pelo menos umas duas vezes por semana ali, era seu caminho da escola para casa. Agradeci mesmo que confusa, agora eu sentia que estava perdendo uma parte importante, estava brava por não perceber que Percy poderia estar com algum problema já há alguns dias.
Minha busca estava errada. Eu estava indo para os lugares que Percy normalmente ia quando estava bem, e ele claramente não estava bem. Me forcei a pensar, para onde meu namorado iria se não estivesse bem com alguma coisa?
Então uma ideia veio até a minha cabeça, e automaticamente me senti a maior otária de todos os tempos.
Chamei um táxi desesperadamente.
Estava me amaldiçoando abrindo a porta do prédio quando o vi de cabeça baixa, sentado no banco em frente ao meu porteiro.
—E aí Hernandez- falei, acenando com minhas chaves na mão. Hernandez me respondeu com sua típica expressão de "quer que eu me livre desse garoto?". Dei um sorriso em resposta.
Percy levantou seu rosto até mim, estava vermelho e com uma expressão um pouco envergonhada.
—Oi — ele disse apenas, dei um tapa em seu braço em resposta — Ai
—Não suma, cabeça de algas! — respondi, mesmo percebendo que provavelmente tinha o machucado, pois as chaves estavam na minha palma — Regra número um, lembra?
Ele pegou no meu pulso, checando a hora no meu relógio.
—Eu sumi por uma hora — ele semicerrou os olhos — Minha mãe te ligou, não é?
Eu bufei.
—Óbvio que sim. Você sumiu por seis meses, lembra? — me virei para Hernandez, meio desconcertada — Hm, nós vamos subir. O nome dele é Perseu Jackson.
Percebi que gesticulava de nervoso, mas tentei esconder que estava tudo ok, normal, suave. Hernandez olhou para nós desconfiado, mas não disse nada. Esperava que ele não ligasse para meu pai, senão teria uma situação desconcertante para lidar.
Percy me olhava um pouco surpreso. Eu nunca, nunca, o deixava entrar no meu apartamento (era o apartamento do meu pai, então eu... Eu estava certa, ok?) e ele nunca nunca pedia para subir. Era um acordo tácito entre nós.
Puxei ele pelo elevador. Nós dois entramos, e por algum motivo eu me lembrei das vezes que subimos o Olimpo pelo elevador do Empire State Building. Olhei para os números subindo, mas não consegui me conter.
—O que Hades você estava pensando?
Ele deu uma risadinha, como se esperasse eu perguntar aquilo.
—O que minha mãe te contou?
Saí do elevador, agora a apreensão tomando conta de novo. Peguei as chaves com as mãos trêmulas, Percy encostou seu corpo na parede ao lado da porta. Tentei não o encarar, ele usava roupas de sempre que o faziam parecer um garoto rebelde, as calças jeans largas, a blusa do Led Zepellin, os all stars surrados e uma blusa xadrez na cintura, caso fizesse frio. Infelizmente, ele parecia tão bonito como sempre. Um garoto problema que poderia complicar bastante sua vida.
Abri a porta, o puxando para entrar comigo. Ele olhou ao redor, levemente impressionado.
—É a sua cara — ele falou, observando atentamente a estante de livros que tomava a parede da sala. Encolhi os ombros, não imaginei que teria alguém analisando minha intimidade daquela maneira. Muito menos Percy.
Cruzei os braços, tentando me focar.
—Agora é a hora que você começa a se explicar — fui até o balcão que separava a cozinha da sala, pegando dois copos.
—E-eu... Eu não sei o que aconteceu — ele estava com as sobrancelhas juntinhas, como se tivesse tentando se lembrar de alguma coisa. Enchi nossos copos de água, voltando e lhe entregando. Depois de beber tudo em apenas um gole, ele parecia melhor — Q-quando comecei a ler aquelas malditas questões, e-eu não fazia ideia do que estava ali. Fiquei... eu não sei. E então o cano estourou... E, eu pensei… Que era melhor perder a prova…
Observei seu rosto atentamente, ele tinha as bochechas levemente vermelhas e parecia claramente nervoso. Tentei não fazer uma expressão surpresa quando percebi que ele tinha ficado totalmente inseguro em relação a uma prova. Eu o conhecia o suficiente para saber que era difícil para ele admitir que uma coisa mortal poderia ter o afetado.
—Percy... -coloquei a mão no seu joelho, agora que ele havia sentado no sofá — O que aconteceu? Porque você estourou os encanamentos?
Tentei parecer o mais suave possível. Ele bufou.
—Eu não sei, quando eu percebi que ia zerar aquela maldita prova... -ele se levantou num súbito — Eu pensei que era aquilo, eu ia zerar e não vou conseguir ir para a universidade neste outono. Então você iria para lá sem mim, e ficaria nas praias da Califórnia sem mim. E aí ia aparecer um californiano estúpido bronzeado e... Ei!
Eu não pude conter minha risada, mesmo sabendo que Percy tinha surtado de vez.
—Você não pode estar falando sério — respondi, colocando as mãos no seu pescoço. Ele bufou, olhando para a janela que cobria a parede da direita, as bochechas ainda vermelhas. Fiz ele olhar para mim quando coloquei minhas mãos nas suas bochechas — Acho que ao tentar te tranquilizar eu posso ter piorado as coisas, desculpa.
Ele negou com a cabeça, fechando rapidamente os olhos.
—Eu não estou no meu melhor... — seus olhos verdes pareciam melancólicos. E eu me forcei a lembrar que havíamos derrotado Gaia há poucas semanas — Eu sei que você não gosta quando falo sobre o Tártaro, m-mas
—Ei — interrompi.
Pensei como eu não havia percebido que ele estava mal a semana toda, e o quão estúpida eu fui tentando encontrá-lo em lugares que ele absolutamente não estaria. Entendi que não estava sendo uma boa namorada.
—Você pode falar comigo sobre tudo — passei a mão em sua bochecha, lembrei da missão que tive com Piper: não devemos fugir dos nossos medos — Inclusive sobre o Tártaro... Foi aterrorizante. Mas você não estava sozinho lá e não está sozinho agora.
Ele deu um leve sorriso, e me senti mil vezes melhor em reconforta-lo, mesmo que fosse difícil para mim também.
—Você é demais, Sabidinha
Dei de ombros, mas ele foi com suas duas mãos na minha cintura. Percebi que enfrentar nossos medos não era só sobre missões. Pigarreei um pouco.
—Eu estava pensando... -falei, coçando meu braço esquerdo — Eu estava analisando como funciona a organização da Universidade, em Nova Roma.
—Naturalmente
—E bem, eu estava pensando se... — ele levantou uma sobrancelha — Se você quiser, nós podemos morar no mesmo prédio... A cidade é bem grande, mas se colocarmos na aplicação eles podem conceder, e aí...
Ele se afastou um pouco, analisando meu rosto. Deu aquele sorriso malicioso que eu sempre odiei amar.
—Você está me chamando para morar com você? — perguntou, seu sorriso abrindo mais. Senti meu rosto queimar.
—Não! Isso é impossível, porque os dormitórios são separados por gênero e por outros requisitos de matrícula...
—Annabeth
Bufei.
—Só queria certificar que queríamos ficar perto um do outro — olhei para baixo, me sentia uma bobinha.
Você é uma filha de Atena, você não pode se envergonhar por fazer planos.
—Você sabe que provavelmente terá que me ajudar com isso — ele disse, voltando a nos aproximar. Dei um sorriso.
—Naturalmente
—Eu mal posso esperar para morar com você
—Se você passar em álgebra
—Ah cara...
Eu lhe beijei. O beijo que queria desde que ele havia aparecido no saguão do meu prédio. Percy beijava bem, então normalmente era aquela a hora que ele nos juntava mais colocando as mãos nos meus cabelos, mas daquela vez ele se afastou rapidamente.
—Annabeth — ele sussurrou, ainda olhos fechados.
—Sim?
—Nós estamos sozinhos aqui? — perguntou, agora levantando os olhos para mim.
O nervoso voltou. Eu entendia as implicações da sua pergunta. Tentei suavizar minha expressão.
—A não ser que o lugar seja assombrado, acredito que sim — respondi, tentando parecer o mais natural possível. Ele assentiu, absorvendo tudo que estava ao seu redor.
—Aquele é o seu quarto? — perguntou, apontando para o corredor no fim da sala. Eu sabia que não conseguia disfarçar minhas pernas trêmulas.
—Uhum — respondi.
Ele assentiu com a cabeça de novo, um pouco distante. Então ele me puxou, agora para um beijo sedento.
Queria dizer que minhas pernas ficaram menos vacilantes, mas isso seria mentira. Era impossível permanecer durona quando ele me beijava daquele jeito, seus dedos longos massageavam a base das minhas costas por baixo do suéter, e sua língua massageava a minha com fervor. Sem querer percebi que soltei um suspiro.
Nós dois caímos no sofá, ele estava beijando meu pescoço de um jeito que fazia minha espinha se arrepiar, os movimentos dos seus lábios eram no mesmo ritmo que seu quadril contra mim.
Deuses.
Tentar ser a racional naquele casal era um desafio à parte, e muitas vezes me vi concedendo aos meus instintos, o que não era algo que me orgulhava. Mas era impossível ser diferente quando eu sentia seus olhos verdes ficarem mais escuros, como se fossem de um verde musgo, o jeito que ele agia era arrebatável. Era como estar vendo um tsunami bem na sua frente, mesmo sabendo que você deveria se mexer, a grandiosidade e o jeito que tudo acontecia te deixa estática.
—Percy...- murmurrei, quando o senti massagear uma parte específica da minha virilha que sempre me deixava excitada.
Ele olhou para mim, os olhos verdes naquele tom escuro. Seu rosto parecia uma estátua de um deus romano, as sobrancelhas negras e grossas arqueadas para mim, as bochechas salpicadas de vermelho e as maçãs do rosto marcadas, os lábios vermelhos dos beijos. Ah, era difícil.
—Sim?
Reuni toda a força de vontade que tinha em mim e me afastei um pouco, fechando minha mão num soco em seu peitoral para me certificar que ele não se aproximaria.
—Você deveria ligar para sua mãe, ela está preocupada — ele arregalou os olhos, se levantando em seguida.
—Claro, eu... não sei como me esqueci
Ele ajeitou os cabelos, e eu lhe emprestei o telefone. Quando ele afastou até o corredor, tentei ao máximo me controlar. Sabia que sentia algo incômodo em todo o meu corpo, e que era de excitação.
Totalmente irritante.
Ele voltou alguns segundos depois, uma expressão envergonhada no rosto.
—Ela está brava — falou, os ombros encolhidos — Tenho que ir
Assenti enquanto ele entregava meu celular. Peguei na sua mão.
—Me mande uma mensagem de íris para conversarmos — me certifiquei de falar num tom que não o deixasse outra saída. Ele deu um leve sorriso em resposta.
—Pode deixar, chefe
Acompanhei ele até a porta, o que foi cerca de 10 passos. Íamos nos ajeitar, eu não ia deixar que nossas experiências terríveis nos abalasse. Quando ele girou a maçaneta, me lembrei novamente da minha missão com Piper, não tem como enfrentar o medo com lógica.
—Percy — chamei, ele se virou rapidamente — Volte aqui sábado que vem, vamos continuar onde paramos. Sem interrupções dessa vez.
Ele abriu a boca, surpreso. Balançou a cabeça.
—Você está dizendo...? — dei meu melhor sorriso malicioso.
—É isso aí
—Oh... — ele abriu a porta, agora parecia que tinha tomado um coice na cabeça. Mas depois, quando ele saiu para o corredor e parecia ter processado a informação. Seu sorriso foi de longe a coisa mais molha calcinha que já tinha visto na vida — Vai ser divertido.
Ele entrou no elevador, piscando para mim antes das portas fecharem.
Deuses.
Fechei a porta do meu apartamento, me arrastando por ela e me sentando, as pernas vacilando. Eu, de fato, não sou muito boa com coisas de garotos e relacionamentos. Mas como tudo que já fiz na vida, estava me esforçando para aprender.
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