Histórias de Algum Lugar em Chicago
1 Uma Droga de Dia
O mundo parece um lugar seguro quando se tem a minha vida. Um lugar lógico, controlável.
Eu acordava, comia torradas e bebericava meu café ao lado de meus pais, depois ia pra escola, estudava, voltava pra casa, almoçava, lia alguns livros ou fazia testes de QI, jantava, tomava banho e ia pra cama. Enfim, o dia-a-dia típico de qualquer adolescente da erudição.
Meus 16 anos estavam chegando e como todo sabem, vem o Dia Da Escolha. Eu, obviamente deveria escolher erudição, e estava pensando justamente em qual dos trabalhos escolher quando o sinal da escola tocou. Era no meio de uma das aulas de história da facções e eu já havia acabado a lição quando o sinal cortou todos os meus pensamentos.
Três toques.
Um quer dizer intervalo. Dois: teste pra incêndio. Três é algo como "vá agora para o auditório o mais rápido possível".
Três toques. Que diabos estaria acontecendo?
Recolhi minhas coisas e fui andando o mais rápido possível ao lado de Dorothy, uma menina baixinha da abnegação que parecia uma boneca. Suas roupas cinza sempre estavam largas demais e seu rosto lembrava porcelana. Ela era tão pequena que eu poderia carrega-la nos braços e nem sou tão forte assim.
Um menino passou correndo entre nós duas, indo na direção oposta. Meus livros caíram e Dorothy ajudou a pega-los.
Minha curiosidade as vezes é maior que o bom senso, não resisti e segui o garoto. Suas roupas pretas e sua rapidez deixavam claro sua facção, mas eu sempre corri rápido então não tive dificuldade em alcança-lo. Parou ao lado de fora, no meio da rua.
– Mas que porra você pensa que está fazendo? — perguntou sem olhar pra mim, suas mãos seguravam os joelhos e ele estava levemente ofegante.
– Te seguindo.
– E pra que?
Boa pergunta. Alias, ótima pergunta. Nem eu sabia.
– Curiosidade — assumi, num sussurro.
– Maldita mania da erudição essa, não precisa sair por ai seguindo qualquer um só pra saber o que ele está fazendo. Eu podia ser perigoso, porra, se quisesse te sequestrar ou estuprar agora, conseguiria e ninguém ia saber.
– Cala a boca. — limitei a responder e dei meia volta.
Não ia ficar ali pra ser humilhada por um idiota do qual nem sabia o nome. Fui correndo até o auditório a tempo de ouvir apenas a despedida de Jeanine.
– O que aconteceu? — cochichei para Andy enquanto voltavamos pra sala. Seus olhos azuis estavam vermelhos e ela tentava inutilmente controlar as lágrimas. Passou a mão pelos cabelos escuros e lisos, tentando controla-los ou controlar a si mesma.
– Sinto muito. — sussurrou e iniciou um ciclo de lágrimas e soluços — ela... ela mostrou as imagens.. você podia... podia ter me contado... entendi porque não... não...contou... mas podia ter contado.
Quis chacoalha-la. Mas apenas mantive a calma.
– O que aconteceu?
Ela fez que não com a cabeça e saiu andando. Fiquei parada enquanto pessoas passavam por mim dando tapinhas no meu ombro e murmurando um "sinto muito" as vezes.
– Mas que droga está acontecendo aqui? — quase gritei.
Jeanine, com seus cabelos loiros e rosto cansado se aproximou, tocou meu ombro e disse:
– Thomas, seu pai se matou. Encontramos ele em seu escritório há um tempo atrás.
Todas as imagens de meu pai passaram como um flash em minha cabeça. Ele na mesa de café. Ele me buscando em seu carro para darmos uma volta. Ele indo se deitar. Ele beijando minha mãe depois de chegar do trabalho. Ele e minha mãe debatendo no café da manhã. Meu pai não podia estar morto, simplesmente não podia. Com certeza ele estaria lá em casa quando eu chegasse.
Lágrimas embaçaram meus olhos antes de tudo ficar escuro.
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