Acho que todos deveriam desmaiar após saber da morte de alguém, torna a coisa toda um pouco mais suportável. A ultima coisa da qual me lembro foi de olhar para eanine com incredulidade e depois minha visão embaçando gradualmente até tudo escurecer por completo. Com a luz foi-se tudo que eu entendia a respeito da vida e a respeito da morte.

Pra mim a vida sempre fora algo lógico, complexo e controlável. Tudo com uma certa ordem. Você nasce, cresce, estuda, trabalha, se envolve com alguém – eventualmente pode gerar filhos — e. por fim, morre. Algumas pessoas escolhem avançar ou repetir etapas, mas esse é o máximo que se pode fazer.

Considerava impossível alguém morrer antes de completar essas etapas e meu pai estava longe de acabar a do trabalho, ele estava indo bem em sua carreira, ele trabalhava como cientista na área de gases e soros, mas aquilo era só o começo, logo ele revolucionária o sistema de simulações.

Acordei com o bip da máquina de batimentos cardíacos, mas não abri os olhos, não podia suportar ver a dona da respiração calma e calculada ali presente, porém ela precisava de mim e (odiei assumir, mas) eu também precisava dela.

– Está melhor? – perguntou ela, escondendo seu tom de voz choroso e tentando soar o mais calma e comum possível, o que a fazia parecer um robô.

– É mentira, não é, mãe? – perguntei como uma criança e, quando vi seus olhos inundados pelas lágrimas, notei que era verdade.

– Vou chamar a enfermeira – limitou-se a dizer.

Indignei-me.

– Ele não faria isso, mãe, é completamente ilógico.

– Talvez você que não esteja sendo lógica. – respondeu ao fechar a porta, deixando-me novamente só.

Ganhei alta uma hora depois e fui direto ao meu quarto, com a desculpa de que estava cansada. Nem me importei de acender a luz, deitei na cama e tentei tomar coragem pra tomar banho.

Quando pequena costumava olhar pras estrelas pregadas no teto do meu quarto e achar que podia voar pra junto delas, fugir da tristeza, das dores de cabeça, de toda a idiotice de permanecer viva. Esse pensamento me pegou de surpresa e pensei se meu pai também se sentia assim, com vontade de fugir de tudo e todos, de fugir do mundo.

Ouvi algo batendo na janela, alguém tentava abri-la. Tomei um susto ao ver que era o garoto que esbarrara em mim na escola.

– Você — cochichei — meu Deus, o que está fazendo aqui?

Ele parecia tão pasmo quanto eu, como se não fosse ele que tivesse invadido meu quarto. Notei uma tatuagem tribal em seu braço e o sutil peixe no canto de seu pescoço. Audacia, sempre marcando seu corpo sem motivo nenhum além de se exibir.

– Saia ou vou chamar a policia — ameacei.

Um sorriso presunçoso transbordou em seus lábios.

– Eu sou a polícia.

– Saia. Daqui. — ordenei.

ele apenas ri, divertindo-se com minha irritação. Ele já deixara de me assustar, agora eu só queria ficar sozinha.

– Por favor, você deve estar numa aposta de roubar calcinhas de alguma garota ou algo assim, vá fazer essas coisas estupidas em outro lugar e deixe eu sozinha. — disse, esgotada.

Ele me olhou com algo parecido de pena e me abraçou. de inicio tentei me soltar, mas chegou um momento em que eu desisti. Soluços subiram em minha garganta e não os contive, eu só quera meu pai de volta, só queria que a vida voltasse ao normal.

– Eu sei que ele não se matou — cochichou ele pra mim — e sei que você sabe disso, você é esperta demais pra não notar.

Assenti, não sabia o que dizer.

Ele sentou na cama e escorreguei até o chão, mas não consegui me soltar e acabei apoiando a cabeça em seu colo.

– Estou tentando descobrir quem fez isso, suspeito que seu pai sabia de algo que não podia saber.

– O que ele poderia saber? Não temos nada a esconder. — disse, franzindo o cenho.

– Eu não, sei. — ele admitiu. — a propósito, nunca fomos oficialmente apresentados, sua puta enxerida — mesmo me xingando, ele pareceu simpatico, deve ser maia da audacia xingar as pessoas — Henry Benert, iniciando da audacia.

Estendi a mão e disse, tentando não me enrolar com o choro:

– Jamile Falt, mas todo mundo me chama de Jamie. Agora poderia me soltar e ir embora?

Ele pigarreou e se levantou.

– Só não acredite neles, está bem? Estão mentindo.

– Não sou idiota, eu sei.

E, com um salto ágil, ele pulou da janela e se foi na escuridão.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.