História De Amor
1 O Primeiro Dia É Sempre O Mais Difícil
Notas iniciais
Boa leitura e obrigada.
Cheguei faz pouco tempo na cidade, dois dias para ser mais preciso, meu irmão Ikki conseguiu um bom emprego aqui na capital e na verdade, eu até estou gostando de ficar longe do meu local de origem. Aquele lugar me traz lembranças tão boas, mas que ainda machucam, provocam uma dor no peito, causada pela saudade que sinto dos meus pais. Há seis meses os perdi em um acidente de carro. Eu lembro como se tivesse sido hoje, os dois sempre saiam para trabalhar juntos, minha mãe tentou várias vezes sem sucesso tirar a sua carteira de motorista e por esta razão meu pai sempre a deixava na loja em que trabalhava antes de seguir para seu emprego. Ainda vivo em minha mente o momento em que recebi a noticia, sobre um caminhoneiro que por pressa de entregar seu carregamento, tomou alguns comprimidos para não dormir e por desinformação consumiu uma bebida junto, resultando em um efeito colateral oposto ao que o medicamento era indicado. E por puro descuido e irresponsabilidade dormiu ao volante, causando um grande engavetamento e por consequência levando os meus pais.
Eu ainda não conhecia o real significado das palavras dor e sofrimento, aprendi da pior da maneira o que elas representam. Tantas lágrimas, noites mal dormidas e sonhos perdidos. Perdi grande parte de mim naquela noite, não consigo descrever a dor insuportável que assolou a minha alma e meu coração, acredito que só quem lidou com a dor da perda conheça. Ikki sempre foi mais forte do que eu, mas ainda tenho a imagem dele ajoelhado chorando no chão da cozinha, corri para abraçá-lo, pois não tinha noção da desgraça que acabará de acontecer. Perguntei com medo o que estava o afligindo, pois meu irmão não é de chorar por besteira, foi uma das poucas vezes que o vi desabar. Depois de muita resistência ele me contou a tragédia, meus olhos se desfaziam em lágrimas, eu só queria que fosse um pesadelo, não poderia crer que duas das pessoas que mais amava nessa vida tinham partido, eu sufocava, meu coração foi esmagado, perdi completamente o chão.
Na despedida dos meus entes queridos, prometi que seria forte e motivo de orgulho para eles e meu irmão. Beijei docemente a mulher que me dera à vida e em seguida o homem que cuidou de mim, junto a ela. O momento mais triste que já vivi. Mas morte faz parte do ciclo da vida, embora dolorosa, ela sempre existiu, contudo só é percebida quando nos visita, levando o que nos é precioso.
O tempo passou, as coisas se tornaram mais confortáveis. Ikki cuidou de tudo e principalmente de mim, mesmo com todo esse jeito rude dele, sempre foi um ótimo irmão, me dando toda a atenção que precisei. Sempre muito esforçado, tinha gosto pela independência, desde muito novo gostava de conquistar as coisas pelo seu próprio esforço, por isso, assim que entrou na universidade conseguiu empregos e estágios, onde recebia diversos elogios e recomendações. Aprendeu a administrar tudo muito bem, nossos bens e o que sobrou de nossa família. E eu sempre fui muito dedicado aos estudos, levo muito a sério meu futuro, para que dessa forma consiga cumprir a minha promessa.
Continuo me aprontando para o primeiro dia na nova escola, quando escuto a porta do quarto abrir, apenas Ikki me avisando que o café da manhã estava servido.
-Shun, o café ta pronto.
-Ta bem mano, eu não demoro. Só vou pegar a minha mochila e desço.
-Vou ficar te esperando. –diz saindo do quarto e fechando a porta.
Confiro se tinha pegado tudo e desço para tomar café com meu irmão, ele me esperava sentado à mesa, lendo o jornal como de costume. Eu sento e me sirvo café, puxando assunto:
-Dormiu bem?
-Dormi sim, só preciso me acostumar com a casa, é menor. –responde ainda com os olhos atentos a leitura.
Fico em silêncio para não atrapalhá-lo, tomo alguns goles de café e me retiro da mesa. Ouvindo meu irmão me chamar:
-Shun! Você não vai sair sem tomar café. –fazendo sinal para o irmão voltar a mesa.
Eu volto e como um pedaço de bolo, meio forçado, pois realmente estava sem fome, na verdade meio nervoso, pois na antiga escola já conhecia os professores, tinha amigos e me dava bem com todos. Ser aluno novo nunca é fácil, afinal já estão todos acostumados com os mesmos rostos e um novato acaba por ser o centro das atenções, sobretudo no meio do ano, tenho medo de ficar sozinho ou então de ser motivo de piada para meus colegas.
-Ikki vou escovar os dentes e depois podemos ir?
-Podemos sim. Vou pegar as chaves e te espero ali fora. Não esquece de trancar a porta. –fala enquanto deixa o jornal na cadeira, retirando o café da mesa.
Subi e fui até o banheiro, escovei os dentes e mais uma vez conferi se tudo estava em seu devido lugar. Peguei minhas chaves na mesinha da sala, sai fechando a porta. Meu irmão já me esperava dentro do carro, acredito que também se sinta um pouco ansioso, hoje é seu primeiro dia no novo emprego. Entrei no carro, coloquei o cinto e imediatamente Ikki partiu, já estávamos razoavelmente atrasados.
-Nervoso? –perguntou ao perceber o mais novo inquieto.
-É um pouco.
-Não se preocupe, eu sei que você vai se sair bem. –responde sorrindo para o garoto.
-E você? Nervoso?
-Um pouco sim, mas tenho que aparentar estar tranquilo. Tenho que passar segurança. –diz enquanto vira a esquina, de onde já dava para ver a entrada da instituição.
Meu irmão para o automóvel perto do portão principal. Descemos e eu reparei que o pátio estava praticamente vazio, provavelmente o sinal havia sido dado e os que chegavam estavam atrasados como eu. Direcionamo-nos para a sala do diretor, no intuito de verificar que estava tudo certo, quanto à transferência e a matricula. Ao entrarmos na sala vejo um homem muito simpático, que passava uma segurança enorme, parece gostar muito do que faz. O encontramos sentado em sua mesa, muito educado se levanta para nos cumprimentar e nos convida para sentar.
-Bom dia! Muito prazer, Camus o diretor da escola. –fala para meu irmão. –Seja bem vindo. –deseja olhando para mim e eu agradeço.
-Bom dia! Ikki, prazer é meu. –responde Ikki. Mas e então tudo pronto? –pergunta.
-Tudo sim. Até dei uma olhada no seu histórico, ficamos felizes por receber um aluno tão bom em nossa instituição.
Eu fico vermelho, meu maior defeito sempre foi a timidez. E por esta razão sempre demoro muito para fazer amigos, por ser acanhado não costumo puxar assunto, muitas vezes sendo taxado de metido.
-Obrigado. –agradeço.
-Então ele começa hoje? –volta a perguntar.
-Imediatamente. Você vai ficar na sala 303 no bloco E. Vou com você até lá, se não me engano sua turma está tendo aula de matemática com o professor Aldebaran.
-Sendo assim, eu deixo ele em suas mãos. –despede-se levantando, eu compreendo, se ficasse mais acabaria atrasado. –Shun me liga quando sair. –fala me dando um abraço.
Ikki sempre foi resmungão, mas desde o acidente ele tem se comportado de maneira tão madura e adulta, assumindo completamente a posição de nossos pais.
-Ligo sim.
Vejo ele saindo da sala e o diretor ficando em pé para me acompanhar, o observo até chegar na porta e estender a mão para fora.
-Vamos? –falou me convidando para conhecer meus novos colegas.
-Claro! –respondo o acompanhando.
-Fique calmo. O primeiro dia é sempre o mais difícil. E se ocorrer qualquer problema pode vir falar comigo, com os professores ou com o conselheiro da escola.
-Obrigado.
Caminhamos por pouco tempo até encontrar a sala. Camus bate na porta chamando o professor para me apresentar, fui recebido bem pelo mestre. O diretor diz que precisa voltar a seus afazeres, me deixando com o educador. Entro na sala e fico parado olhando para meus novos colegas enquanto o professor Aldebaran dizia:
-Muito bem gente! Vamos dar boas vindas ao novo colega.
-Seja bem vindo! –exclama a classe toda para mim.
-Obrigado. –agradeço em voz baixa, sentindo meu rosto corar, se não me engano essa foi a palavra mais dita por mim hoje.
-Você pode sentar naquele lugar vago, atrás do Hyoga. –fala apontando para a classe vazia atrás do menino loiro.
Dirijo-me até o meu lugar, percebo todos me acompanhando com os olhos, sento puxando meu caderno e o livro para copiar a matéria e resolver os exercícios. Considero matemática uma matéria fácil e por isso terminei logo as tarefas, pego a mochila tirando um livro de dentro dela para ler, enquanto espero o momento da correção dos mesmos.
Leio alguns parágrafos e logo reparo na agitação do garoto da frente, ele olhava para meu caderno e virava para a sua classe escrevendo algo, acho que estava copiando a resolução, não me importei e continuei concentrado na leitura. Fique assim até sentir algo tocando na minha mão, usava seu lápis para chamar minha atenção.
-Tudo bem? –fala ele baixinho, provavelmente para não atrapalhar os demais.
-Tudo e você? –respondo voltando meus olhos para baixo.
-Também. Escute, você parece bom em matemática, pode me ajudar com essa conta? –pergunta colocando o caderno sobre minha classe.
-Posso sim. Vejamos... –começo a analisar o cálculo. –Você multiplicou, esqueceu o dois ao cubo.
-Poxa eu nem me dei conta. Obrigado. –fala corrigindo na minha mesa. –Eu sempre faço isso, preciso prestar mais atenção.
Sorrio e volto a abrir o livro. Novamente me interrompe.
-Qual seu nome?
-Shun e o seu?
-Hyoga.
Ficamos quietos, como eu disse, sou travado e mesmo não querendo, encerro o assunto várias vezes, mas desta vez não. Ele volta a me perguntar algo:
-Você é daqui?
-Não, sou novo na cidade.
-Hm, você parece inteligente.
-Obrigado, apenas me esforço.
-Não me pareceu quebrar a cabeça como o Seiya ta fazendo. –fala apontando para o amigo que estava com as duas mãos na cabeça, parecendo apavorado.
Não me contive e ri baixinho. E ele continua a falar:
-Primeiro dia é o mais difícil né?
-É sim. –por mais que não quisesse, era natural eu não dar respostas muito longas, principalmente para pessoas que por hora, eram desconhecidas para mim.
-Você não é de falar muito. To te chateando?
Eu ainda não tinha o olhado bem e quando levantei o rosto para me desculpar por minha atitude fiquei fascinado com o que vi. Aqueles olhos azuis me olhando com uma expressão de indagação e de uma forma aérea acabei encarando ele sem querer.
-Você ta bem? –volta a me perguntar, fazendo-me acordar num estalo.
-T-to sim... e... não você não ta me chateando. –senti meu rosto pegar fogo, odeio ficar vermelho, mas é comum acontecer.
-Tem certeza? Olhando para você até parece com febre. –diz pondo a mão sobre a minha testa. –Não está febril. Ta com calor ou alguma coisa o tipo?
-Não. Por... por quê? –sabia a resposta, mas fiz a pergunta só para me fazer de desentendido.
-Ficou vermelho de repente. Quer um pouco de água?
-Não obrigado... eu to bem. –novamente viro a cabeça olhando para o chão.
O professor levanta perguntando se há dúvidas nos exercícios, o menino da fila do meio, amigo de Hyoga responde:
-Todos.
E a turma toda começa a rir, mas realmente ele estava com dificuldades, ficou muito claro isso quando o professor começou a corrigir e perguntar suas dúvidas. Termina de passar as respostas no quadro e toca o sinal para o intervalo. Eu guardo meu material e pego minha carteira, agora a fome já batia.
-Hyoga, onde tem lanchonete por aqui?
-Finalmente falou comigo por livre e espontânea vontade. –fala puxando seu dinheiro de dentro do bolso de sua mochila.
-Me desculpa por mais cedo. –respondo envergonhado.
-Não se preocupe e venha comigo, eu também quero comprar algo para comer.
Segui o loirinho sem dizer uma só palavra, por alguma razão eu estava mais envergonhado do que o normal e ele também não falava, apenas seguia pelos corredores, não demorou muito e logo estávamos lá. Ele me olha, dizendo:
-Aqui estamos. O que acha de conhecer meus amigos depois?
Concordei com um sorriso e um balanço de cabeça. Compramos nossos lanches e seguimos para a parte do pátio onde havia várias árvores e bancos, encontramos os amigos dele sentados conversando e comendo. O de cabelos castanhos era engraçado, se divertia fazendo piadas e falando muito, o moreno, era bem mais sensato, muito compreensivo e calmo no jeito de se expressar. Hyoga me apresenta a eles:
-Seiya, este é Shun. Shun, este é o cabeça de vento do Seiya.
-Muito prazer em conhecer. –falo estendendo a mão e ele a aperta em sinal de cumprimento.
-E este é o Shiryu.
-Prazer em conhecer Shun. –me saudando com um aperto de mão também.
-Prazer é meu.
-Quanto prazer hein! Para um menino tão novinho como você. –fala Seiya se mostrando o palhaço do quarteto. Na verdade ele realmente é engraçado, tenho que admitir isso.
-Seiya está constrangendo ele. –repreende Shiryu.
-Só to descontraindo.
-Você descontrai demais. –diz Hyoga para o amigo.
Conversamos um pouco, todos muito legais, mas eu continuei sendo reservado, por pura timidez, sempre fico desconcertado, sem saber direito o que fazer, mas eu sei que no fundo esse sou eu. O sinal toca anunciando o termino do recreio.
-Ah não acredito já bateu? Esse intervalo ta diminuindo cada vez mais. –resmunga Seiya.
-Vamos Seiya, não podemos nos atrasar. E agora é educação artística você gosta lembra?
-É a única que eu vou bem, Afrodite sempre elogia meus trabalhos.
-Afrodite? –pergunto a Hyoga.
-É o professor. Ele é legal, você vai ver. –responde dando uma piscadinha.
Ao entrar na sala, me deparo com a figura do professor que me dá as boas vindas. Dizendo que cheguei em uma das aulas favoritas dele. Colocou expostas várias telas de pinturas famosas, pedindo releituras com um toque particular de cada aluno. Eu nunca fui bom desenhista, sabia que a particularidade do meu desenho seria a destruição de uma peça tão linda como aquelas obras de arte. Porém não sabia do horário e não levei nenhum material de pintura, estava apenas com meu estojo convencional, chamei o professor em minha classe explicando a situação.
-Eu entendo querido. Mas não há problemas, vamos fazer o seguinte, fará com algum colega então. –responde compreensivamente a minha situação.
-Faz comigo. –diz Hyoga assim que termina de ouvir o professor falar.
-Isso Hyoga, ajude Shun. Esse é o seu nome certo? –respondi com um sinal positivo e ele continuou. –Sei que farão uma pintura linda.
Coloquei minha classe ao lado da sua e agradeci a gentileza. Não fiz muito apenas alcancei alguns pincéis e os limpei, pintei um pouco quando Hyoga ficou com a mão cansada. Meu colega desenha muito bem, eu por outro lado quase não fazia nada e mal abria a boca, sempre fui um péssimo desenhista e me sentia constrangido por ajudar tão pouco.
-Shun por que ta tão calado? –pergunta molhando o pincel em um dos potes de tinta.
-É... ah eu... não sei desenha e eu gosto de ajuda.
Ele ri e me responde:
-Eu acho que acabei fazendo tudo, me desculpa.
-Tudo bem. –falo voltando os olhos para baixo.
-Você é tímido não é? Por isso fala tão pouco.
Sinto meu rosto esquentar, com certeza estou ficando vermelho, detesto quando isso acontece.
-Sim.
Depois de mais uma resposta curta, eu fico calado, olhando ele terminar de pintar a paisagem da nossa tela.
-Quer terminar?
-Não, vai estragar a pintura.
-Não vai não. Toma. –diz me alcançando o pincel.
Meio desajeitado começo a pintar, passando o objeto no canto da tela, realmente tinha medo de estragar tudo, ainda mais no primeiro dia, ele estava sendo legal comigo e eu um chato, com todas essas respostas curtas, já me sentia um mal educado, acredito que é melhor me soltar um pouco e sair desse casulo, não quero parecer um bicho do mato. Então fecho os olhos, como se ninguém estivesse ali e respiro fundo. Os abro no momento em que sinto a mão dele pegando na minha que segurava o pincel, me ajudando a pintar, me auxiliando a passar as cerdas mais suavemente do que com força como estava fazendo.
-Vai com calma. –diz sorrindo para mim. –Tem certeza que está bem?
-Tenho sim, obrigado. Acho que se eu tivesse feito isso sozinho, a reação do professor seria exatamente o nome do quadro, de tão feio que iria ficar. –disse me referindo à obra que escolhemos: O Grito. Hyoga ri percebendo que estou menos tenso e chama o professor para mostrar que terminamos.
-Shiryu... Shiryu... –chama Seiya pelo amigo.
-Fale Seiya. –responde pintando o seu trabalho.
-Você viu como o Hyoga ta atencioso com o garoto novo?
-E o que tem demais? Só esta sendo gentil. –fala vagamente sem dar importância ao parceiro.
-Como o que demais? Nem com as meninas ele é assim. –diz se virando pro completo para trás.
- Você deveria parar de cuidar o Hyoga e continuar a fazer o que o professor mandou. Ou quer tirar nota baixa como nas outras matérias?
-Você é muito estraga prazer. –revida virando para frente contornando seu desenho.
Eu volto ao meu lugar depois do elogio do professor dizendo que tinha ficado perfeito, até melhor do que o original, obviamente exagero seu para nos agradar, mas não posso discordar que realmente ficou muito bonito. Ajudo Hyoga a guardar as tintas, limpar os pincéis e jogar na lixeira os papéis sujo. Logo o sinal toca anunciando o termino da aula, nem percebi o tempo passar. A maioria dos meus colegas na pressa de ir embora logo, deixou algumas coisas desorganizadas como classes e sujeira no chão. Eu já havia guardado o material e me juntei a algumas meninas para com o professor deixar tudo limpo.
-Qual seu nome? –pergunta uma menina de cabelos loiros e compridos.
-Shun e o seu? –pergunto recolhendo uma tampa do chão.
-June. E essa é a Saori, muito prazer em conhecer. –se apresenta sorrindo e apontando para a amiga que muito educada também me cumprimenta.
-Mas e então o que achou da escola a primeira vista?
-Eu achei muito legal, na minha antiga escola os meus colegas não eram tão simpáticos assim.
-Nossa! Aposto que eram um bando de metidos, sem querer ofender.
-Não me ofende não. –respondo sorrindo.
-June eu já terminei aqui, vamos? –pergunta Saori colocando sua bolsa.
-Vamos sim.
-Por que você não vem conosco Shun. – me convida Saori.
-Obrigado, eu aceito sim.
Nos despedimos do professor que nos agradece a ajuda e saímos da sala, converso com as duas até o portão da escola.
-Vimos você conversando com o Hyoga. Ele é muito legal, mas é amigo do Seiya, ele é o palhaço da turma, então se ele ficar te incomodando ou fazendo piadinha, não leve para o lado pessoal, é só porque ele é assim mesmo. Não perde uma oportunidade de cuidar e dá palpite em tudo, vai ver só nas aulas de sociologia. –me informa June sobre meu colega.
-É o jeito dele. Mas ele não é mal, às vezes ele passa sim dos limites, mas está sempre disposto a ajudar. –completa Saori.
June olha para ela com aquele olhar de quem sabia alguma coisa e continua:
-Bem... a Saori tem razão, mas é só para você não ficar chateado com ele, ta bem?
-Ta bem, mas meninas eu vou ficando por aqui. Vou ligar para o meu irmão vir me buscar. –falo parando na frente do colégio, mexendo na mochila para pegar meu celular.
-Tudo bem então, até amanhã. –despede-se dando um beijo no meu rosto.
-Cuide-se e mais uma vez seja bem vindo, se precisar de algo, saiba que já fez duas amigas. – diz Saori também me dando um beijo no rosto.
Vejo as meninas virando a esquina e encontro na agenda o número de Ikki.
-Oi Shun, já acabou a aula?
-Já sim. -escuto barulho de telefones e teclados enquanto ele fala comigo.
-Me espere que logo to chegando.
-Mas Ikki, eu não quero criar problemas por você ficar saindo logo no seu primeiro dia.
-Você em primeiro lugar.
-Não irmão, é melhor você vir na hora do seu intervalo para o almoço. Assim já almoçamos juntos e não falta muito.
-Tem certeza Shun? Por mim não tem problema sair rapidinho e deixar você em casa.
-Tenho sim, vou te esperar sentado naquele banco bem da frente.
-Eu te encontro ali então e ligue caso precise de algo.
-Amo você.
-Eu também.
Desligo celular e me viro para sentar no banco ao qual me referi enquanto falava com meu irmão, para minha surpresa Hyoga estava atrás de mim, me olhando. Realmente me surpreendi, arregalando os olhos e ficando com uma expressão de duvida no rosto. Ele sem jeito me diz:
-Ah eu sai para lavar minhas mãos... vi você ficar para ajudar o professor, mas quando voltei não estava mais lá.
-Se tivesse me dito eu teria esperado. –respondo com os olhos voltados para o chão.
-Deixei minha mochila, mas acho que você ainda não conhece ela. –fala muito sem graça.
- Me desculpe. –falo dando um sorrisinho sem jeito.
-Não tem o que se desculpar. Bem eu vou indo, você vem?
-Vou esperar meu irmão. Ele vai vir me buscar, sou novo na cidade, não sei nem voltar para casa sozinho por enquanto.
-Sendo assim... eu te faço companhia.
-Poxa, sério? Vai ser muito legal. –eu sou um bobo por agir assim, mas estava tudo indo tão bem, logo no primeiro dia alguém me achou interessante o suficiente para sentir vontade de ficar comigo após a aula.
Nos sentamos embaixo da árvore onde se localiza o assento, conversamos sobre os mais diversos assuntos, a maioria deles sobre o que tínhamos de parecido como gostos musicais e filmes, enfim, nada demais, porém pude notar que Hyoga embora estivesse sendo legal, desviava por diversas vezes o rumo da conversa, principalmente quando perguntei por que ele veio da Rússia para cá. A resposta foi um pouco seca: “Assuntos familiares.” Então não persisti, não gosto de ser desagradável, continuamos bem o diálogo até ver Ikki se aproximando, meu irmão cumprimenta ele.
-Olá! É colega do Shun? –pergunta estendendo a mão, sem nem deixar eu falar nada.
-Oi, sou sim. –responde retribuindo o gesto.
-Como foi a aula Shun? –me pergunta esfregando minha cabeça e bagunçando meu cabelo.
-Foi legal.
-Vamos então?
-Claro mano. Hyoga vem com a gente, pega uma carona.
-Eu acho melhor não, pode ficar longe para vocês e eu gosto de caminhar. –responde levantando e colocando a mochila nas costas.
-Deixa de besteira moleque, entra no carro e te damos uma carona.
-Eu agradeço, mas deixo para uma próxima. Até depois Shun e prazer em conhecer. –fala para meu irmão.
-Igualmente. –diz Ikki educadamente, enquanto acompanha o loiro seguir pela calçada. –Garoto estranho esse não é?
-Ele é legal, só acho que é meio reservado em algumas coisas pelo que conversei com ele. –falo pegando minha pasta.
-Bom, então vamos, eu to morrendo de fome.
-Eu também estou.
Entramos no carro e Ikki conversa sobre como foi o trabalho e me pergunta da escola, respondi que tinha sido bom, que havia conhecido alguns colegas, relativamente muitos para alguém novo e tímido como eu, meu irmão acha engraçado eu me misturar assim tão rápido, mas posso sentir a alegria dele com isso.
-Shun.
-Pode falar.
-Seu colega esquisito de novo. –diz apontando para Hyoga do lado oposto ao nosso.
-Ikki ele não é esquisito, só na dele. –respondo me debruçando na janela do veículo, abrindo um sorriso bobo ao ver o menino loiro atravessando a rua. Permanecendo mudo e estático por alguns minutos.
-Shun? Shun? –fala Ikki pegando no meu braço e eu desperto da minha linha de pensamentos, olhando para ele. –Você ta bem? Parece tão distante. –termina de falar voltando a colocar a mão sobre o volante.
-E-eu to sim Ikki, só pensando... acho que esse lugar vai ser legal. – dou um meio sorriso para ele, voltando a admirar a paisagem que passava por mim, mas por algum motivo, aqueles olhos azuis tão gentis comigo, não saiam de minha cabeça.
Continua...
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