Histeria - Interativa.
8 O que fizeram com vocês?
Notas iniciais
Alguns dias se passaram desde o incidente no supermercado e eu e Sávio decidimos esquecer isso. Sequer comentamos com o grupo sobre os outros, e estávamos aproveitando muito bem a comida que havíamos conseguido.
Eu sentia que, a cada dia que se passava, estava ficando mais difícil imaginar que logo eu iria embora. É óbvio que não havia esquecido meus pais. Durante o dia, enquanto eu estava entretida nas tarefas e quando estava com o grupo, quase não sentia a falta deles. Porém de noite e quando estava sozinha, me pegava pensando nos nossos momentos bons, no sorriso de minha mãe e no abraço de meu pai, e a dor era quase insuportável. Hugo, que estava dormindo comigo, estava sofrendo também. Ele não me dizia, mas muitas vezes eu o via chorando durante o sono, murmurando e pedindo por eles, e isso cortava meu coração de uma maneira cruel.
Na noite em que as coisas aconteceram tudo estava sendo o mais agradável que poderia ser. Eu estava sentada no tapete com as costas apoiadas na parede, tendo meu irmão ao meu lado. Um cobertor quente e felpudo nos cobria o colo, e ele estava se deliciando com um biscoito recheado. Markus e Melissa se encontravam também no tapete, porém encostados no sofá, e Sávio estava paralelo a mim. Yasmim, devido a sua idade avançada, sentava-se no sofá.
A chuva lá fora estava fazendo um ruído preguiçoso, e nós relembrávamos a vida antes dessa bagunça.
– ... E então João disse “mãe, ela está querendo dizer que quer seu título, não uma tartaruga”. – Eu estava com a barriga doída de tanto rir de Yasmim. Era sua vez de contar as histórias antigas, e nós estávamos realmente nos divertindo. – Sabe como é, título e tartaruga tem uma fonética muito parecida no inglês, não foi minha culpa!
Até Markus estava rindo.
– Minha vez, minha vez! – Pediu Hugo levantando a mão. – Teve um dia que eu, Sérvia e nossos pais resolvemos visitar o zoológico quando ela tinha oito anos.
– Hugo, não! – Eu ri. Essa história essa muito constrangedora.
– Nós estávamos andando quando vimos o local onde estava o peixe boi. – Ele continuou, ignorando meus apelos. – Sérvia disse para o meu pai que ela era parecida com ele e que queria sentir como era nadar com um igual.
Todos explodiram de rir, inclusive eu.
– E antes que alguém pudesse impedi-la, ela saltou do colo do meu pai e se atirou na água. – Sávio tomou um ar e disse “não brinca!” – Juro! E eu fiquei lá com cara de paisagem enquanto os seguranças e meus pais desciam para resgatá-la.
Quando meu irmão ia continuar a história, ouvimos alguém batendo na porta. Era uma batida forte e desesperada, nos deixando claro que não era um zumbi. Eu e Sávio trocamos um olhar significativo e assustado.
As batidas continuaram e o silêncio dentro de casa era grande. Markus se levantou e pegou a faca, se esgueirando lentamente até a porta. Depois de sinalizar para nós que a iria abrir, destrancou-a e subitamente a abriu, a faca empunhada com força.
Lá fora, uma Isabel machucada estava apoiando-se no batente da força quase sem forças. Encharcada pela chuva, seu olho estava inchado e quase negro, ela chorava e sua roupa estava rasgada em certos pontos com marcas de sangue. Havia um corte superficial em seu braço, ensanguentado, e seu boné estava com as inscrições quase apagadas.
Mas o pior de tudo era a menina que se apoiava nela.
Ela estava prestes a desmaiar. Usava apenas uma jeans folgada com manchas negras e uma blusa rasgada. Seu rosto estava quase irreconhecível. Era como se alguém o tivesse espancado sem dó. O nariz estava ensanguentado e as bochechas vermelhas. Havia um hematoma no supercílio e a respiração estava forte e com ruídos. Mas o que mais me abalou foi ver que o cabelo ostentava uma trança quase totalmente desfeita com uma faixa vermelha encardida amarrada no final.
Era a moça do interrogatório.
– O que...? – Markus ia perguntar, mas eu o interrompi.
– Deixe-as entrar. São minhas amigas. – Pedi indo em direção à Isabel e a ajudando a entrar, enquanto Sávio pegava a moça da faixa vermelha no colo.
– Ruiz. – Ela balbuciou. – Meu irmão está caído lá fora.
Vi que Sávio depositava a menina no sofá onde antes Yasmim, que agora estava indo pegar o kit de remédios, sentava.
– Hugo, desligue as luzes. – Ele pegou as muletas de Yasmim e fez o indicado. – Melissa, acenda velas e feche as cortinas.
Isabel sentou na poltrona e eu me agachei para ver os ferimentos de perto. Seu olho parecia doer e tinha uma aparência horrível, como uma ameixa amassada. Ela chorava de soluçar e tremia violentamente.
– O que fizeram com vocês? – Foi tudo que consegui expressar.
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