Histeria - Interativa.
9 Continuação - O que fizeram com vocês? III
Notas iniciais
– Para!
–--
Quando saí consegui ver quatro pessoas. O primeiro que vi foi Ruiz estirado no chão. Seu rosto estava terrível, os olhos inchados, o nariz quebrado, a boca sangrando. Aquilo me chocou de tal maneira que detive meu olhar nele por um segundo e nossos olhares se encontraram. “Porque você saiu de lá?” era o que praticamente me dizia silenciosamente.
– Ora, ora, ora. – Reconheci Juan pela voz. Ele ostentava um sorriso pervertido no rosto magro e senti ânsia de vômito. – Saca só isso Pedro.
Seus cabelos eram negros e assimétricos, como se tivessem sido cortados com uma tesoura cega. Ele era alto e magro, como se a pele se assentasse diretamente nos ossos, porém aquela aparência parecia ter lhe pertencido desde sempre. Vestia uma regata laranja suja e com marcas de suor, uma jeans surrada e tênis em péssimo estado. Seus dedos ostentavam vários anéis e o pescoço, vários cordões.
– Ei Juan, ganhamos na loteria. – O tal Pedro disse. Ele era gordo, suado e moreno. Seus olhos me analisavam como se eu fosse um pedaço de carne. Ele tentou vir em minha direção e recuei assustada. – Não fique acuada, amor. A gente pode se divertir um pouco.
– Eu irei encher as sacolas. Parece que temos bastante comida aqui. – A mulher olhou ao redor com uma expressão de admiração e com as mãos na cintura, indiferente a mim.
Dentre todos ela era a mais normal quanto à aparência. Ela usava uma camisa com algumas inscrições em inglês que era branca. Seu rosto tinha traços indígenas e os cabelos lisos, negros e curtos estavam num corte Chanel preso com uma tiara. Ela também estava magra, porém ao contrário de Juan ela parecia nunca ter passado fome antes.
A mulher estava se aproximando da prateleira.
Faltavam alguns passos.
Só mais um...
– Olha isso! – Falou divertida e surpresa ao mesmo tempo. – Achamos alguém aqui. Levante-se, querida.
Mas Isabel parecia estar estática.
– Não ouviu? – Perguntou a mulher. – Levanta.
Isabel não se mexeu. Ela se irritou e deu um pontapé direto no olho de minha amiga, que gritou agudamente e caiu de costas no chão.
– Meu pedido é uma ordem. – Falou a indígena friamente. – Pedro, tem uma aqui pra você.
E saiu do depósito.
Essa era a deixa que Juan esperava. Ele tentou investir contra mim, porém eu fui mais rápida e desviei, fazendo-o cair de cara no chão.
Rapidamente corri até Pedro e o puxei. Mesmo assim, eu era fraca demais e só consegui afastá-lo um pouco de Isabel, que tentava se livrar de seu abraço.
Pelo menos eu o distraí, e ele me encarou com raiva, me fazendo perceber seu tamanho muito superior ao meu. Sua mãozorra se levantou e me atingiu com força uma, duas vezes. Senti uma dor excruciante no rosto. Pus as mãos em cima e senti o sangue escorrer enquanto desabava no chão.
Naquele momento eu rezei. Pedi para que fosse salva e que eu pudesse sair de tudo aquilo com vida, que Deus me enviasse uma luz. Mas só ouvi os gritos de Isabel e resolvi me render à dor terrível no meu rosto e deixar as coisas acontecerem. Eu estava exausta emocional e fisicamente.
Mas de repente ouvi um baque surdo e alguém caiu no chão. Esse alguém era muito mais pesado que Isabel, com certeza. Ouvi logo depois mais uma pancada e mais um peso morto caiu no chão. Tentei me sentar ou abrir os olhos, porém não consegui. Meu rosto estava em frangalhos.
Mãos leves me içaram do chão pelas axilas.
– Vamos pela porta dos fundos. Ruiz, vamos. – Ouvi a voz doce, porém embargada de Bel.
E minhas preces foram atendidas, afinal.
–
POV Isabel.
Foi muito difícil percorrer dois quilômetros com Annelise apoiada em mim. Ruiz também mal conseguia caminhar, mas a chuva lavava seu rosto e isso facilitou sua visão. Lembrei-me de Sérvia falando “dois quilômetros ao leste” e tudo que eu queria era chegar lá o mais rápido possível. Acreditava cegamente que aquilo era verdade.
Fomos longe da estrada. Matei alguns andarilhos que vinham até nós com a faca em uma mão, atraídos pelo cheiro de sangue de meus companheiros. Sinceramente, eu estava orgulhosa de mim. Não acreditei que eu realmente conseguira sair dali, afinal toda vez que eu me desesperava eu ficava realmente catatônica. Muito catatônica mesmo.
Ruiz nocauteara Pedro com um pé de cabra sem que nós ao menos o víssemos. Fez o mesmo com Juan, e eu esperava que eles tivessem morrido. Porém eles não haviam. Ao menos Juan não. Eu sentia isso.
Demorou quase uma hora para chegarmos perto da casinha. Como fomos pela mata foi mais difícil e ganhamos alguns arranhões a mais devido aos galhos, mas era mais seguro ir por lá devido à dificuldade de visão para o outro grupo. Faltando apenas alguns metros para chegarmos até a casinha meiga de madeira no meio do mato, Ruiz colapsou. Larguei Annelise suavemente no chão e corri até ele, me agachando e colocando seu rosto no meu colo. Ele estava desacordado e com ferimentos nada agradáveis.
– Ruiz. – Chamei, a voz embargada. Balancei sua cabeça. – Ruiz, acorda.
Ele não acordou. Minha cabeça não conseguia raciocinar direito. Sei apenas que tentei arrastar os dois, mas o peso era demais. Lágrimas geladas se misturaram com a chuva em meu rosto, e alcei Anne novamente deixando Ruiz ali.
Ao chegar ao batente da porta, um homem abriu e vi Sérvia ao fundo.
Então comecei a chorar copiosamente de alívio.
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