Histeria - Interativa.

7 Continuação - O que fizeram com vocês? II


Notas iniciais
Fiquei culpada. O capítulo era minúsculo gente! Então vou continuar ele aqui. Comentem plz!

POV Annelise.

Aquela era só mais uma noite normal no acampamento. Ruiz e eu conversávamos enquanto eu refazia minha trança e ele me contava sobre a vida em El Salvador.

Para falar a verdade, na maioria das vezes em que resolvíamos falar sobre nós mesmos e nossas vidas antes disso, eu o deixava falar à vontade. A vida de Ruiz na sua cidade natal era bem mais interessante do que as minhas idas e voltas da Argentina.

Eu morava no Pará desde que me entendia por gente, numa cidadezinha pequena do interior onde havia vários imigrantes. Quando eu fui gerada, na Argentina, meu pai e minha mãe já eram casados, porém não me esperavam. Eles não tinham ainda a estrutura financeira para criar um bebê, então combinaram de me deixar com meus parentes brasileiros assim que eu nascesse.

Meus pais sofreram ao ficar longe de mim quando nasci. Mesmo morando longe, não posso dizer que a atenção que recebia deles não era suficiente, afinal nós nos falávamos todos os dias e eles eram meus melhores amigos. É claro que seria magnífico e muito melhor se nós morássemos juntos, mas quando eles finalmente puderam se estabelecer na Argentina eu já tinha uma vida construída no Brasil e fiz a difícil escolha de ficar.

Logo quando completei doze anos, passei uma temporada por lá para curtir a minha irmã recém-nascida, Lauren (nome em homenagem à vovó). Ela sempre foi um anjo de criança, e me separar dela foi doloroso para mim. Víamos-nos apenas nas férias, e enquanto isso eu ficava com minha avó no Pará.

Vovó sempre tentou dar o melhor de si para mim, mas a verdade é que ela nunca levou muito jeito com crianças. Ela pode ser considerada uma viciada em trabalho, considerando que ela já podia estar aposentada há muito tempo. Devido à sua ausência, consegui viver muito bem sem uma presença adulta constante na minha vida, e a agradeço por ter me feito uma menina independente. Ajudou-me muito quando ela morreu naquele supermercado, e a tentar superar a dor da impotência quanto aos meus pais depois que essa bagunça começou.

Agora voltando ao Ruiz, ele era um menino estonteante. De verdade. Simples, porém de uma beleza exótica e natural. Além de ser muito solícito e engraçado, igual à sua irmã.

Naquela noite todos já estavam concentrados em alguma coisa. O pai deles lia um livro qualquer. Eric encarava o teto. Isabel comia, para variar, e manejava uma faca na mão com maestria.

E então ouvimos o barulho. Por um segundo achei que fosse os adolescentes novamente e imaginei que a comida houvesse acabado ou algo assim, mas fazia apenas alguns dias desde a última visita. O que eles queriam agora?

Mas logo percebi que não eram eles pelas risadas altas e vozes masculinas que não se tratava de alguém amigável.

– Meninas, se escondam atrás das caixas. – O pai de Ruiz mandou. – Rápido.

Ele e o resto dos homens pegaram as facas e as armas enquanto eu e Isabel íamos, assustadas, para trás de uma das três estantes gigantescas de lá.

Ruiz ficou do lado de dentro enquanto Eric e Manolo se encaminharam para fora. O silêncio pesava em nossos ouvidos e eu e Isabel nos encarávamos com os olhos arregalados e respiração pesada. Ouvimos uma discussão do lado de fora.

Vários tiros retumbaram. Isabel gritou, lágrimas de pânico escorrendo pelo rosto, e eu tapei meus ouvidos com as mãos e cerrei os olhos.

Mesmo tentando abafar o barulho eu os ouvi. Eles falavam alto e se aproximavam. Isso que me assustava: eles não eram cuidadosos. Apenas quem não tem o que temer não é cuidadoso. Ou quem é idiota. E eles me pareciam os dois.

– Eles saíram daqui. – Uma voz rascante, porém feminina comunicou com o som abafado pela porta. Eu me encolhi, cerrando os olhos o mais forte que consegui e emitindo alguns gemidos de pânico.

– Será que tem mulher? – Outra voz mais malandra comunicou. O homem tinha um sotaque espanhol quase imperceptível. Senti um calafrio descendo a minha espinha. Ao abrir os olhos, vi que Isabel estava quase catatônica. Ela tremia e respirava pesadamente em minha frente, com os olhos arregalados e as mãos tapando os ouvidos. Dali eu não conseguia enxergar Ruiz e não tinha a menor ideia de como ele estava.

– Hum... Se tiver eu vou adorar. – Outro homem comunicou, e quase pude sentir a perversão em sua voz se esgueirando lentamente por debaixo da porta, vindo até mim e me rondando como um gás tóxico.

– Parem com isso, a diversão fica pra depois. A gente veio procurar comida e vai ter comida, depois vocês fazem o que quiserem. – A primeira voz repreendeu irritada. – Abre isso, Juan.

O tal Juan abriu a porta e senti todos os meus nervos gritarem de pavor ao ouvir o rangido.

– Olha só o que temos aqui. – A primeira voz riu sem graça. – Um menininho corajoso.

Ruiz. Os passos se aproximaram.

– Abaixa a sua arma. – A voz pediu. – Qualé, amigo. Você não tem mais ninguém. Nós demos um jeito naqueles dois pés no saco.

– Os famosos tiros na fuça sempre resolvem tudo. – Ouvi mais passos, e a segunda voz falou. – Aquele velho então... O rosto está parecendo bandeja de pirulito.

Juan riu com escárnio.

– Ele era seu mano? – Juan perguntou. – Seu namorado, talvez?

Ruiz continuava calado.

– Responde quando eu falar contigo. – Ouvi um baque surdo e Ruiz caiu no chão com um grunhido de dor. Isabel chorava em silêncio na minha frente, ainda paralisada.

Mais baques. Agora pareciam dois espancando meu amigo.

– Ele era meu pai! – Ruiz respondeu com a respiração pesada. – Era meu pai.

– Ora, ele fala. – Riu Juan. – E então, Pedro, que tal a gente mandar ele pra junto do velho?

Isabel continuava catatônica e com os olhos arregalados. Eu não conseguia passar mais nem um segundo ali sem fazer nada, então fiz a coisa mais corajosa e mais estúpida que já poderia ter feito.

– Para!

Notas finais
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