Histeria - Interativa.
11 Casa de praia
Notas iniciais
POV Sérvia.
Já era tarde da noite e Markus e Sávio montavam guarda do lado de fora com as armas que Isabel tinha na mochila que trouxera. Ruiz, cujo tinha sido resgatado por Markus, dormia no sofá com cobertores e roupas quentes que Sávio lhe dera. Seus ferimentos haviam sido limpos amadoramente por Yasmim, pois o médico vizinho havia ido embora fazia semanas. Ele tinha a maçã do rosto roxa, um corte na testa, lábios rachados e inchados e um braço deslocado que havia sido posto no lugar por Markus, que tinha técnica com isso. O tórax estava cheio de hematomas e ele possuía uma concussão leve, ao que tudo indicava.
Isabel estava exausta e desmaiara pouco depois de nos contar a terrível estória do que havia acontecido. Não sei como eu reagiria caso fosse comigo. Ela havia sido uma heroína.
Já Annelise também estava dormindo. Seu rosto estava terrível. O soco do tal Pedro atingira em cheio seu nariz, que havia quebrado. Possuía também uma leve concussão, e tinha as bochechas vermelhas e inchadas.
O pior de tudo aquilo é que Juan, segundo Isabel, ainda estava vivo. E depois do que Bel e Ruiz haviam feito, ele viria atrás de nós com certeza. Sem falar na índia psicopata, é claro.
Depois de acalmar Hugo até que dormisse, fui para o lado de fora com uma vela. Vesti um xale de Yasmim e me juntei aos rapazes.
– Noite. – Cumprimentei.
– E que noite. – Sávio comentou sem olhar para mim. –Coitado daquele pessoal.
– Nem me fale. Foi um milagre sabe, eles terem saído de lá. – Concordei.
– Não vou me opor ao fato delas ficarem aqui. – Markus comentou com a sua habitual voz rascante. – Mas se queremos ter esses pirralhos conosco, não podemos ficar brincando de casinha pra sempre. Aqui não é mais tão seguro.
Eu odiava concordar com Markus, mas aquilo era a mais pura verdade. Se aquelas pessoas nos achassem, tenho certeza que não iriam querer uma explicação diplomática.
– Eu concordo. – Ficamos em silêncio. – Mas também acho que vocês deveriam alternar os turnos. Não adiantará de nada se os homens da casa ficarem vigiando de noite e de manhã estarem lesos de sono.
– Touché. – Sávio concordou.
– Posso vigiar por algumas horas. – Markus afirmou. – Estou curtindo a ideia de segurar essa arma.
– Boa noite então. – Sávio não se opôs. – Comporte-se, bebê.
– Vá se ferrar.
E eu e Sávio passamos a noite conversando.
POV Narradora.
Quando a manhã nasceu, a menina com o boné acordou. Por um segundo perguntou a si mesma porque estava se sentindo tão mal, e as lembranças da noite passada vieram tão rápido que ela mal conseguiu respirar.
Levantou-se do sofá e percebeu que não havia ninguém na sala. Notou um espelho perto de si, e viu que seu olho estava numa cor estranha entre roxo e preto, porém isso ela já vira muito e sabia que iria melhorar sem sequelas. Na sua antiga escola em El Salvador muitos alunos se metiam em brigas por causa das gangues locais, e a marca registrada de quase todas elas era o olho roxo.
De repente, alguém entrou pela porta e ela virou o rosto. Aquela era a amiga de Sérvia que ela vira na noite passada. Melissa, provavelmente.
– Ah, oi. – Melissa sorriu. – Que bom que acordou. Eu já vinha te acordar.
– Hum... Oi. – Isabel forçou um sorriso leve. – Cadê todo mundo? E meu irmão e Annelise?
– Estão bem, não se preocupe. Nós só estamos levando as coisas para os carros. Depois de... Bem, do que houve ontem, — Isabel realmente não queria falar de ontem. Grande foi o alívio ao ver que o foco de Mel não era esse. – nós resolvemos que seria melhor ir para outro lugar. Os pais de Sávio tem uma casa de praia num balneário não muito longe, mas o suficiente pra que fiquemos seguros.
– Ah. – Foi tudo o que Isabel disse. Ela se sentia suja. Na noite anterior não havia tomado banho, e ainda conseguia sentir o toque asqueroso de Pedro. – Mas eu posso me lavar antes?
– É claro. Use o banheiro à vontade, só não demore muito. – Meneou com a mão. – E também pode se servir de alguma coisa na despensa. Estamos cheios de comida.
A menina de boné agradeceu. E por falar em boné, ela olhou ao redor e o encontrou repousando em cima da mesinha de centro. Foi até lá, o pegou e o analisou.
– Longa noite, amigo. – Sussurrou e se dirigiu ao banheiro.
Ela estava muito ansiosa para ver Annelise, mas principalmente para ver seu irmão. Mesmo assim não sabia se estava pronta para se deparar com o resultado da agressão. Portanto foi até o banheiro, tomou um rápido banho e vestiu a mesma roupa do dia anterior, pois era a única que tinha.
Comeu de primeira refeição uma mísera barrinha de cereal e saiu para encontrar-se com os outros.
–
POV Isabel.
Eu não sabia lidar com desespero nem com situações muito difíceis e isso era um fato. Então imaginem a minha reação ao me deparar com o meu irmão totalmente quebrado.
Ruiz estava sentado numa cadeira de praia, mas quando me viu levantou com dificuldade. Primeiro eu fiquei pasma. Depois sorri. Depois fiquei com vontade de chorar. E então me lembrei de meu pai.
Meu pai. Morto. “Como uma bandeja de pirulito”, falara Pedro.
Lágrimas surgiram nos meus olhos e senti que meu coração estava sendo ralado com um ralador de queijo, mas eu não iria chorar. Fui até meu irmão e o abracei, controlando a força para não machucá-lo muito.
– Meu Deus, eu estava tão preocupada. – Confidenciei com a voz abafada em seu pescoço. – Obrigada por tudo, irmão.
Nós nos encontrávamos do lado de fora e o sol estava ainda se levantando, mas já estava calor. O local era bonito, a grama verde e saudável e árvores por todos os cantos. Imaginei que era mesmo uma boa ideia nós sairmos de lá, com tantos esconderijos bons para o outro grupo.
Os outros, como Sérvia, Sávio, Mel, a senhora idosa e o homem arisco estavam carregando algumas coisas para dois carros esportivos. Havia um garoto sem uma das pernas que dobrava algumas poucas roupas no chão, e finalmente vi Annelise, que o ajudava a pô-las em caixas.
Ruiz sorriu para mim como se me encorajasse a ir falar com ela, mas estava surpresa demais para me mexer.
Anne estava menos machucada que meu irmão, é claro, mas eu realmente não esperava que estivesse tanto assim. Seu nariz quebrara e estava torto, e um dos olhos estava do tamanho de uma bola. Eu via que estava também com enormes olheiras.
– Anne. – Chamei e ela me viu.
Um leve sorriso perpassou seu rosto e ela disse algo para o menino, que assentiu com a cabeça, e veio até mim. Abraçamos-nos com força.
– Que ótimo que você está bem. – Eu sorri. – Quer dizer, está feio, mas você está viva.
Ela retribuiu demonstrando alívio.
– Bem, pessoal, estamos prontos. – Yasmim, a senhora, avisou a todos tirando a poeira das mãos. – Vamos nos dividir em dois.
Em um grupo estavam Sérvia, Hugo, Melissa, Sávio e Markus (o nome do rapaz louro). Em outro eu, Ruiz, Annelise e Yasmim.
O caminho foi quieto, sem muita conversa. Fiquei aliviada com o fato de que Yasmim não fez muitas perguntas além de como estávamos nos sentindo, porque eu realmente não queria falar nada. Em certo momento notei, pelo canto do olho, Ruiz pousando sua mão por cima da mão de Annelise, que sorriu e baixou o olhar.
Pelo menos alguém tinha algum conforto. Fiquei feliz que esse alguém fosse Annelise, e consequentemente meu irmão. Virei minha cabeça e fiquei encarando o borrão que passava pelo lado de fora, pensando se algum dia eu fosse ter alguém no meio de toda essa bagunça.
Fale com o autor