Histórias de amor
16 O casamento meio Blofis
Notas iniciais
Eu estava estranhamente nervoso.
Olhei para o espelho, o reflexo mal se parecia comigo: o cabelo totalmente penteado para o lado, uma gravata que definitivamente não seria minha escolha número um para nenhuma ocasião. Respirei fundo, tentando inutilmente desentorta-la.
Grover apareceu atrás dos meus ombros, olhando para mim pelo espelho com um sorriso simpático, até ele usava um terno, seus chifres invés de estarem disfarçados pela sua típica touca agora eram por um chapéu elegante.
—Tudo bem, cara?
—Está muito lotado lá? — ele deu de ombros, abriu um sorriso que parecia ter um significado mais profundo, provavelmente porque ele sabia qual era o real significado da minha pergunta, e que sabia que eu sabia que ele sabia... Se é que isso faz sentido.
—O suficiente... — ele trocou o peso do corpo nos cascos, seu sorriso malicioso abrindo ainda mais — Mas a Annabeth ainda não chegou.
—Ela provavelmente não vem — respondi seco, tentando encarar o espelho com certa seriedade. Grover revirou os olhos.
—Deuses, vocês ainda não estão conversando? — ele bufou — A batalha do labirinto aconteceu há quatro meses! Já era para vocês terem feito as pazes
Foi minha vez de dar de ombros, de fato, normalmente eu e Annabeth conversávamos semanalmente por e-mail no decorrer do ano letivo. Mas esse ano nada estava normal, não faltando meses para a grande profecia.
—A culpa é dela — falei — Porque ela é orgulhosa demais para...
Fomos interrompidos por uma abertura abrupta na porta, a mestre de cerimônias tinha um sorriso comercial no rosto, como se tivesse feito aquilo vezes demais para se emocionar de verdade.
—Está na hora — falou a moça, uma prancheta nas mãos. Grover sorriu para mim em apoio e juntos saímos do quarto.
Descemos as escadas e saímos do casarão. A poucos metros de distância já se avistava uma pequena concentração de pessoas.
O casamento ocorreria num lindo bosque atrás deste bonito hotel no sul de Nova York, o altar estava envolto de belas árvores centenárias e as cadeiras de ferro organizadas na grama que agora estava completamente coberta de folhas pelo fim do outono, salpicando o ambiente com tons alaranjado, juntamente com as lâmpadas douradas que iluminavam todo o local da cerimônia.
Ninguém poderia falar que minha mãe não tinha bom gosto.
Respirei fundo, tentaria ao máximo não fazer uma grande mancada e ser o filho perfeito. Hoje definitivamente era o dia que eu rezava para que nada desse errado, nenhuma visita de monstros ou deuses ou... bom, qualquer criatura mitológica que possa estragar uma cerimônia matrimonial.
Grover apertou meu ombro, fazendo-me virar para olhar na direção que ele apontava.
Meu coração perdeu o compasso, a verdade é que eu nutria secretamente a expectativa de Annabeth aparecer.
—É a Rachel, não é? — Grover perguntou, eles ainda não eram grandes conhecidos, mas ele estava certo. Descia uma escadaria de pedra que dava para o caminho entre o local da cerimônia e a parte de trás do hotel. Ela olhou para mim e acenou animada.
Sorri e acenei de volta, ela estava com um vestido verde que combinava com seus olhos, e estava bem bonita. Ela e minha mãe haviam se tornado boas conhecidas já que ela era a única amiga que eu tinha na Goode, além compartilharmos do fato que o noivo era nosso professor de inglês, e se tornaria oficialmente meu padrasto dentro de meia hora.
Grover me olhava como se eu estivesse em uma grande enrascada.
—O quê? — perguntei, observando Rachel se aproximar de nós, Grover balançou a cabeça.
—Nada — seu olhar fixou-se em algum ponto distante — Espera, aquilo é um pé de juá?
—Ahn... — eu não sabia muito bem como responder aquilo
—Deuses, Júniper vai me matar se eu não tirar uma foto, ela é uma grande fã... Já volto
Ele saiu andando/correndo com seus cascos até o bosque. Rachel se aproximou alguns segundos depois.
—O que foi isso? — perguntou, observando Grover a passos largos.
—Ah, ele é só muito fã de uma árvore — ela juntou as sobrancelhas, rindo.
—Imagino que você não está brincando — respondeu, em seguida sussurrou — Considerando que ele é um sátiro, não é?
Pisquei. Às vezes eu me esquecia que Rachel não era uma mortal comum. Ela abruptamente se aproximou de mim, o que me fez retesar, mas foi apenas para ajeitar minha gravata.
—Oh, obrigada — esperava que não estivesse parecendo envergonhado, ela piscou para mim.
—Eu provavelmente não vou poder ficar muito na festa, meu pai está me obrigando a participar de um evento de negócios dele mais tarde... — ela suspirou, tentando disfarçar o ressentimento na sua voz, Rachel não gostava muito de falar da sua família, então logo tratei de tentar desviar o assunto:
—É uma pena, os rumores é que será uma festa dionisíaca — ela riu com a referência, assentindo.
—Bem que o trabalho de inglês poderia ser adiado por causa disso
—E você acha que eu não perguntei? — ela riu de novo e me encarou intensamente, o que foi estranho. Eu ia perguntar o que aconteceu quando a banda começou a tocar e todos lá na frente começaram a se organizar. Rachel se despediu e saiu correndo até as cadeiras.
Lá no altar eu avistei Paul, que parecia nervoso pra caramba. Eu não pude deixar de ficar genuinamente feliz por ele, quer dizer, o cara parecia totalmente apaixonado.
A mestre de cerimônias me avisou que minha mãe descia as escadas em alguns minutos, e eu não pude deixar de ficar nervoso por ela, hoje era o dia que ela finalmente se casaria com alguém que realmente amava. Imaginei se eu teria a oportunidade de fazer isso algum dia, semideuses normalmente devem ser gratos apenas por sobreviver. Mas, quando olhei de novo para a decoração, o altar e as pessoas, imaginei que poderia ser legal viver aquilo.
Afastei o pensamento, que por algum motivo me fez lembrar que Annabeth não havia chegado, mesmo minha mãe a convidando por telefone e ela confirmando que viria; percebi que uma onda de um sentimento estranho havia preenchido no meu peito por ela não comparecer, um misto de raiva e decepção.
Algum murmúrio iniciou atrás de mim, e eu saí da varanda e entrei no salão do hotel, onde minha mãe havia finalmente chegado. Eu sabia que não conseguiria disfarçar um sorriso deslumbrado, porque minha mãe estava demais.
Mesmo com um simples vestido branco de mangas longas, ela parecia valer mil diamantes, seu cabelo que normalmente era volumoso e solto, agora estava preso em um coque desajeitado, mas a parte mais importante era seu sorriso, tão grande que a sensação era como encarar um céu absurdamente estrelado.
Aproximei dando-lhe meu braço, que ela respondeu dando um beijo na minha testa.
—Nervosa? — perguntei, se possível seu sorriso aumentou ainda mais.
—Nenhum pouco.
Não pude deixar de sorrir também, e então ao longe ouvimos a marcha nupcial começar a tocar.
Aqui foi quando as coisas definitivamente tomaram um rumo sério. A marcha nupcial consegue deixar qualquer ambiente automaticamente tenso.
Minha mãe respirou fundo, e eu a ajudei a descer os degraus da varanda até o caminho para o altar. Então seguimos, o lugar ficava ainda mais bonito quando você se aproximava, e parecia que as árvores estavam te protegendo e se fechavam em torno do altar.
Era difícil dizer quem estava mais feliz, mas definitivamente Paul parecia estar ganhando, seu olhar brilhou quando cravou na minha mãe, e quando eu entreguei a mão dela a ele, Paul abriu um sorriso de orelha a orelha que me deixou ligeiramente emocionado.
Afastei-me rapidamente, ficando ao lado do altar para entregar as alianças, gostaria de dizer que prestei atenção nas palavras do ministro, mas quando me virei senti que estava congelando.
Annabeth descia as escadas de pedra desajeitadamente. Usava um vestido azul esvoaçante, e um echarpe ao redor dos braços de mesma cor que ela lutava para não se perder com o vento.
Engoli em seco, meu coração rasgando meu peito enquanto meu estômago parecia querer virar uma bolinha amassada. Pela primeira vez eu vi seus cabelos soltos nos ombros, os cachos perfeitamente modelados.
Depois de terminar de descer as escadas timidamente, seu olhar se encontrou com o meu, e nem se eu quisesse conseguiria desviar, pois parecia que algum dos deuses havia me hipnotizado em seu rosto. Eu já havia visto ela maquiada na ilha de Circe, mas daquela vez parecia correto, talvez pelo fato que ela mesma provavelmente se maquiou. Seus lábios brilhavam num batom amarronzado que deixou seus lábios convidativos, e seu olhar estava ainda mais intimidante pelo contorno escuro envolta deles.
Annabeth sorriu, o que por algum motivo meu cérebro observou em câmera lenta, vendo-o abrir vagarosamente. Ela se aproximou da cerimônia timidamente e se sentou ao lado de Grover, dando-lhe um abraço.
Depois disso, qualquer tentativa de concentração minha foi em vão. Entreguei as alianças depois, mas uma parte da minha mente estava concentrada no fato que Annabeth estava na penúltima cadeira à esquerda.
Por isso, enquanto eles proferiram os votos, não consegui deixar de me virar para Annabeth, e me surpreendi com o fato que vi seus olhos marejarem. Quando a vi disfarçadamente limpar uma lágrima que caiu em sua bochecha, senti algo em mim se derreter. Eu estava decidido a ignorar o fato que ela poderia estar com raiva de mim, pois queria dizer a ela que não deveríamos ficar tão longe um do outro.
Meus pensamentos foram interrompidos com a euforia da multidão com o beijo entre minha mãe e Paul, e eu não pude deixar de rir quando ele a virou num clássico beijo, surpreendente para a personalidade dele.
Quando eles atravessaram o altar de mãos dadas, senti que um peso havia sido retirado das minhas costas, e eu percebi que levava uma carga grande de culpa pelos anos que minha mãe viveu com Gabe, o pensamento por algum motivo me fez ficar estranho, e ao observar minha mãe se afastar senti meus olhos se encherem de água.
Ao contrário de todos que foram em direção as mesas da recepção, Annabeth se aproximou de mim, sentado numa das cadeiras em frente ao altar.
—Oi — ela disse, e se possível, ela parecia ainda mais bonita de perto. Tentei disfarçar que estava emocionado.
—Oi — respondi apenas, vendo-a se sentar ao meu lado.
—Foi uma bela cerimônia- Annabeth olhava para frente, ainda estávamos tão tensos quanto no dia que nos despedimos no fim do verão na colina meio sangue.
—É... eles gostam muito um do outro — por fim nos entreolhamos, seus olhos cinzas como nuvens carregadas parecendo ainda maiores pela maquiagem.
—Você está bonito — ela disse por fim, o que me fez ficar completamente desconcertado. Sei que o natural era responder "obrigada, você também", mas eu automaticamente me retesei pois na ponta da minha língua quase instintivamente respondi que ela nunca esteve tão linda, então minha resposta acabou saindo assim:
—Hm, bom... Ob-obrigada... Você... É — e foi isso, o que foi triste. Mas Annabeth abriu um sorriso em resposta, o que quase me convenceu a fazer papel de bobo mais vezes. Depois de ver seu sorriso de tão perto, eu não queria mais estar brigado com ela — Olha, Annabeth, eu...
Ela arqueou as sobrancelhas em expectativa.
—Percy! — ouvi alguém chamar em distância, eu e Annabeth viramos na mesma direção. Rachel acenava ao lado de Grover que havia nos chamado, mas logo depois sua expressão ficou estranha, como se tivesse percebido que havia feito algo de errado.
Eles se aproximaram, e Annabeth se levantou; seu sorriso murchou e ela ergueu os ombros como fazia quando estava prestes a lutar com um monstro.
—Isso foi divertido! — Rachel falou efusivamente — Eu não sabia que o professor era tão entusiasmado... Ah, oi Annabeth.
Ela foi simpática, mesmo sabendo que Annabeth não era sua maior fã.
—Rachel — ela disse apenas, puxou logo depois Grover pelo braço — Vem, vamos cumprimentar os noivos.
Ela se afastou, e aquilo não havia sido tão ruim quanto imaginei. Rachel assoviou.
—Alguém não é muito fã de um olá — ela respondeu, brincalhona.
—Ela só não quer perder o camarão — respondi, tentando disfarçar. Rachel acabou rindo, o que eu levei como objetivo cumprido. Nós dois fomos até a recepção, em que todos estavam bebendo, comendo, e sorrindo.
Eu e minha mãe não tínhamos família, então a maioria era da parte de Paul, sem contar com alguns amigos da minha mãe. Então eu estava feliz por meus amigos estarem ali, Grover e Annabeth estavam dançando mesmo com os cascos de Grover não o deixando ser muito coordenado.
Rachel parecia estar se divertindo ao comer e beber na mesa comigo, parecia que ela não tinha ido a muitas festas na vida, mesmo sendo de uma família muito rica.
Devo admitir que a família de Paul era muito normal, o que os fez ser bastante desinteressantes, minha cabeça viajou logo num possível casamento entre meio sangues, no lugar das tias fofoqueiras talvez poderiam ser Hera e Deméter, os tios que passavam vergonha Dionísio e Hermes? Talvez o meu pai. Ninfas correriam por todos os lados com sátiros em seus encalços.
Minha imaginação voou enquanto eu observava Annabeth rindo de Grover na pista de dança.
—Sua mãe vai jogar o buquê! — efusivamente Rachel disse, levantando-se num pulo. Dei uma risada surpreso, vendo-a andar rápido até lá. Grover também saiu correndo, entrando no meio da multidão feminina desesperada.
Annabeth, que foi abandonada na pista de dança, olhou para mim e gargalhou. Eu também não pude deixar de rir.
Ela veio andando até mim, sentando-se ao meu lado.
—Se divertindo? — perguntei, a quinta taça de champanhe que eu estava tomando para aguentar toda a família de Paul me deixando falar as palavras mais instintivamente do que gostaria. Annabeth passou seus cabelos para trás, ofegante pela dança.
—Sim, Grover é um parceiro de dança tão ruim quanto você
—Ei — protestei, rindo. Ela também riu, nós nos encaramos um pouco. Mordi a parte de dentro da minha bochecha, olhei para frente, todo mundo prestando atenção no buquê. Surrupiei uma garrafa de champanhe — Vem
— O quê? — perguntou ela, levantei num pulo e a chamei pela cabeça. Mesmo com uma expressão desconfiada, ela me seguiu.
Fomos em direção contrária onde estava a multidão, sentamos num banco numa parte afastada do bosque, onde as luzes das lâmpadas laranjas eram quase uma penumbra.
Enchi sua taça com o champanhe, e ela encostou suas costas no banco.
Eu e ela então conversarmos sobre tudo que havíamos deixado pendente por todos os meses que não trocamos mensagens: falamos da programação da TV, dos acontecimentos recentes, e de tudo que estava acontecendo conosco. E quando eu menos percebi estávamos rindo e a garrafa de champanhe estava quase acabando.
—Isso é legal — ela falou de maneira embargada, olhando para a festa.
—Um brinde a não estarmos numa situação de quase morte para variar- respondi, levantando a taça, Annabeth ficou um tempo sem falar nada, reflexiva. Agora o silêncio era somente agradável.
—Às vezes eu penso quantos anos esperei ansiosamente para sair em missão... — ela suspirou — Agora eu teria bons anos de folga sem reclamar.
Assenti, compartilhava do mesmo sentimento que o dela, mas agora era como falar que gostaríamos de não estar numa aventura à beira de um precipício, pois a guerra contra Cronos parecia cada vez mais eminente, e momentos como o casamento de minha mãe cada vez mais distantes.
Pensei na grande profecia, e me senti tão melancólico como estava o dia inteiro, felizmente Annabeth parecia entender perfeitamente o que eu sentia.
—Parece impossível que eu viva mais momentos como este — falei, olhando para as pessoas rindo e se divertindo. Annabeth me encarou, parecia analisar cada palavra, ela poderia falar que aquilo não era verdade, mas nós dois sabíamos que seria um conforto mentiroso.
—Você gostaria de ter momentos como esse? — perguntou, enchendo novamente nossas taças. Fiquei algum tempo refletindo.
—Tipo, me casar? — ela deu de ombros, tentando disfarçar que havia ficado desconcertada.
—Tipo isso — respondeu sorrindo. Sorri também, mesmo minha imaginação sendo totalmente irônica sobre um casamento envolvendo o mundo mitológico, eu sabia que algo no fundo poderia ser uma vontade real.
—Acho que sim — falei, e parecia certo. Annabeth parecia surpresa, como se tivesse descoberto uma parte de mim que não esperava. A observei — E você?
—Ah, se tenho a vontade de me casar? — ela riu, um pouco irônica — Não me parece racional criar essas expectativas sendo um meio-sangue.
—Mas essas expectativas nunca são racionais — respondi, e depois de pensar um pouco, ela acabou concordando.
—Talvez, mas não sei se seria uma festa assim — ela respondeu — Provavelmente teria Hera em algum canto jogando algum tipo de castigo, eu quase não consegui chegar até aqui... Casamentos são a área dela, não é? Então, ela me fez ter vários obstáculos para chegar até aqui.
Gargalhei efusivamente enquanto ela me contava como surpreendentemente seu voo se adiantou e ela quase perdeu, e todos os táxis de Nova York pareciam não querer ir para o hotel do casamento, e como vacas interromperam o táxi no meio da estrada por todo o caminho.
—Então é... Acho que seria uma cerimônia tragicamente cômica. Talvez com alguns deuses bêbados fazendo rebuliço? O Sr. D definitivamente faria uma cena- era para eu estar rindo, mas o fato que ela teve uma imaginação similar a minha de como seria seu casamento mexeu comigo, e eu senti meu coração bater mais rápido que o normal de novo.
—Um casamento tragicamente cômico seria perfeito — falei, claramente bêbado. Era para ser engraçado, mas ela não riu. Eu e ela nos entreolhamos, e de repente eu me lembrei de outro momento, quando estávamos no topo do Monte Sta. Helena, quatro meses atrás.
Me aproximei, sentindo meu coração querer sair pela boca. Seu olhar foi dos meus olhos até minha boca, e eu encostei meus lábios no dela, que eram quentes e faziam os meus formigarem; sem a adrenalina de estarmos quase morrendo, a sensação era que todo o meu corpo estava se derretendo.
Ouvimos o craque de algum galho se quebrando e imediatamente nos afastamos, ela se levantou num pulo como se estivesse sendo pega. Olhei ao redor, mas o que poderia ter feito o galho quebrar havia se afastado.
—É melhor voltarmos para a festa — ela disse, seu vestido azul esvoaçando pelo vento assim como seu cabelo.
—Annabeth...
Ela se virou e saiu andando em passos rápidos, eu respirei fundo e a segui, e depois disto nos juntamos a Grover, que havia me informado que Rachel tinha ido embora.
Depois disto, nos divertimos como numa festa normal, obviamente com a ajuda das bebidas que surrupiamos durante toda a noite. E no dia seguinte, a memória da festa havia se apagado da minha mente, sendo grandes borrões.
Por isso, por muitos anos eu havia me esquecido desse quase beijo, e pelo jeito Annabeth também, pois ela nunca mais tocou no assunto.
Quem me elucidou sobre o momento numa conversa distraída foi Rachel Elizabeth Dare, também conhecida como o oráculo de Delfos, que havia nos visto quando ia se despedir.
Inclusive, ela admitiu que quebrou o galho sem querer enquanto se aproximava.
—Eu não sabia que você não se lembrava — ela disse, um pouco culpada. Nós dois estávamos sentados na fogueira do acampamento meio-sangue. Se ela me contasse isso dois anos antes, definitivamente seria um grande acontecimento. Mas agora, eu não pude deixar de gargalhar.
Encarei Annabeth do outro lado da fogueira, que ria distraidamente com seus irmãos. Dali a quinze dias iríamos nos mudar juntos para a universidade de Nova Roma, então eu não podia deixar de sentir outra coisa senão euforia.
Quando a cantoria da fogueira acabou e todos estavam se dirigindo para dormir, Annabeth se aproximou de mim, seu cabelo estava preso em seu típico rabo de cavalo, e ela usava a camisa do acampamento e shorts jeans, mas num lapso eu a vi como no casamento da minha mãe, e as memórias ficaram vívidas.
—O que foi, cabeça de algas? — perguntou sorrindo. Peguei na sua mão, andando com ela até a praia do acampamento.
—Você se lembra do que aconteceu no casamento da minha mãe? — perguntei distraidamente, ela parou e me encarou.
—Algumas coisas, porquê? — eu ri, o mar e o luar no fundo a fazendo parecer espectral. Ela deu um tapa no meu braço — O que foi?
—Nada — falei apenas, colocando as mãos nos bolsos — É só que Rachel estava ali me contando que nos viu quase se beijando.
Ela se afastou um pouco, como se lembrasse.
—Ah, isso — ela falou, sorrindo em seguida. Foi minha vez de encará-la.
—Você se lembra!
—É claro!
—Annabeth!
—Percy!
—Porque você não falou nada? — ela deu de ombros.
—Nós não falamos nada sobre o beijo no Sta. Helena, então... — abri a boca, tentando raciocinar.
—Você e Rachel... Deuses! — ela gargalhou, sentando-se na areia da praia. Continuei inconformado por alguns minutos, mas ela acabou me ganhando com alguns beijos.
—Uma coisa que eu me lembrava desse dia era de uma conversa que tivemos — falei, olhando para o luar. Annabeth arqueou uma sobrancelha.
—Qual?
Peguei um pouco da areia e a vi escorrendo pelos meus dedos.
—Sobre casamentos... Eu lembro que você descreveu o casamento perfeito.
Ela riu.
—Tragicamente cômico? — ri também, assentindo — Bom, a parte do perfeito eu não me lembrava.
Olhei para ela, rindo para mim exatamente do jeito como a vi no rio Estige. Concentrei no mar, convocando algo bastante específico.
A maré veio até mim, e Annabeth se afastou um pouco para não se molhar. Coloquei a mão de novo na areia, agora com a forma nas minhas mãos.
—Qualquer casamento seria perfeito sendo com você
Ela abriu um grande sorriso, mas logo depois me olhou desconfiada.
—Você quer me dizer algo, Percy?
Ri, abrindo minha mão.
—Eu espero que você se case comigo um dia — falei apenas, entregando a pérola a ela. Annabeth observou a esfera brilhante na sua mão, absurdamente polida por ter acabado de sair do mar, e eu agradeci mentalmente meu pai por essa. — Quando conversamos naquele dia, nós dois tínhamos certeza que era loucura pensar em algo do tipo... Bem, eu estou feliz que agora podemos ser loucos.
Ela parecia deslumbrada, o que me fez ficar feliz.
—Bom, eu aceito — disse, gargalhando. Eu ri também, ela encarou a pérola, e eu fiquei satisfeito de ver milhares de expectativas no seu olhar.
Beijei seus lábios, e eles ainda faziam os meus formigarem. Nós dois nos abraçamos, observando o luar perfeito do acampamento meio-sangue.
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