Histórias de amor
3 Annabeth narra o nosso primeiro encontro
Notas iniciais
Sim, eu estava rendida.
Não era o tipo de coisa que eu vou admitir por aí, então é melhor você não sair espalhando. Mas eu estava sim, meio que apaixonada por Percy Jackson.
Eu sempre tive uma pequena queda por ele, não sou uma otária a ponto de mentir esse fato. Mas as coisas estavam ficando perigosamente sérias.
Foi exatamente isso que eu pensei quando o vi acenando para mim, saindo da estação de metrô na esquina do Central Park, parecia que alguém estava arrancando meu coração com garras de fúria, minhas pernas pesavam uma tonelada. Semicerrei os dentes. Ferrou.
E ele estava totalmente normal! Usava jeans desgastados e um tênis all star em igual condição, a blusa azul caía bem. Ainda estávamos no fim do verão, então sua pele combinava com o clima ensolarado. Ele bebericava uma lata de coca cola, sorrindo sarcástico enquanto se aproximava. Ofereceu a lata, que eu neguei prontamente.
—E então? — perguntei, ajeitando minha mochila. Ainda não estava totalmente acostumada em andar descontraída com Percy por aí. Namoravámos a apenas duas semanas, e ainda estava me acostumando com a ideia de ser a namorada de alguém. Ele passou os cabelos que caíam nos seus olhos, jogando-os para trás; se eu mesma não o tivesse visto chutar alguns monstros a algumas quadras dali, pensaria que ele era apenas um mortal novaiorquino apaixonado pela sua cidade.
—Certo — ele respondeu, parecia um pouco nervoso — Desculpa se eu fiz parecer maior do que deveria na mensagem de Íris. Mas quando lembrei, pensei... Seria bem legal.
Ele colocou as mãos nos bolsos, era legal saber que contracorrente estava ali. Normalmente ele brincava com a caneta quando estava apreensivo. Tratei de aliviar minha expressão, era o nosso primeiro encontro fora do acampamento meio-sangue, percebi que ele poderia estar com medo de estragar tudo.
—Oh, Percy... — dei um selinho, seus olhos se abaixaram, relaxando — A ideia parece ótima. Eu estou animada.
Ele abriu um sorriso, pegando na minha mão. Parecia bem mais confiante. Juntos descemos para o metrô, ao sul: Brooklyn. Sentei-me numa das cadeiras no fim do vagão.
Percy ficou em pé na minha frente. Éramos quase um casal normal, se eu não soubesse que Percy estava o tempo todo com uma espada letal em seus bolsos, e eu apertava a alça da minha mochila com minha faca e o boné de invisibilidade como se dependesse daquilo.
—Eu nunca fui lá — falei, para iniciar um diálogo. O vagão do metrô não estava barulhento, mas também não era um silêncio profundo. Ouvia-se murmúrios. Percy abriu um sorriso, mudando o peso de lugar. Pensei como seria legal mudar totalmente o projeto das linhas de metrô de Nova Iorque, pensei rapidamente em rotas melhores e novos túneis. E se estes fossem feitos de...
—É, sim. Entendo. Muita gente — ele olhou ao redor, voltei a atenção para ele — Fui somente uma vez, com minha mãe. Mas, como sempre, algo deu errado... Espero que isso não aconteça hoje
Ele juntou as sobrancelhas, era ligeiramente divertido vê-lo nervoso. Rapidamente nossa estação havia chegado, entrelacei nossos dedos enquanto corríamos para fora do subterrâneo, o forte sol do verão acalentando nosso rosto.
Percy me puxou levemente para a esquerda, viramos uma esquina e bam. Lá estava. Era gigante, enorme, lotado de pessoas. E impressionante. Era lindo também. Os prédios contrastavam com a praia. Era um típico lugar de filme dos anos 50, com praias e o calçadão para caminhada, e aquele enorme parque de diversões na orla, pareciam retirados perfeitamente de uma estética vintage, mesmo que estivessem em perfeita manutenção.
Percy me fitava com divertimento. Provavelmente eu estava levemente impressionada. Ponto pra ele.
—Vamos?- perguntei, rindo. Ele riu também e saímos andando animados em direção ao parque. E naquele dia, naquele momento, éramos sim adolescentes normais. Percy não era meu namorado semideus herói de uma profecia apocalíptica, ele era somente Percy. Meu melhor amigo.
Corremos por diversos brinquedos. Ficamos selvagens no carrinho de bate-bate, e no circo estava cheio de charlatões óbvios que nos fizeram gargalhar bastante. Quando chegamos no túnel do amor, comecei a gargalhar.
—Você lembra...? — ele riu também, balançando a cabeça. Na última vez que entramos num daqueles, fomos gravados ao vivo para a TV Olimpo, gritando de terror. Decidimos, portanto, recusar agradecidamente aquele brinquedo. Percy apontou para uma sorveteria, sedento. Minha barriga também roncou, e marchamos para lá entusiasmados.
Percy se esbaldava jogado no canto do sofá da sorveteria, uma casquinha com quatro bolas de sorvete, granulados, calda, jujubas azuis, e tudo o mais sujando a mesa e o contorno de seus lábios.
—Estou me sentindo uma perdedora agora -falei, arrastando-me para o seu lado com uma pequena bola de sorvete de limão. Ele me deu um beijo, fazendo-me sentir o gosto de chocolate.
—Certo — ele murmurrou entre lambidas no seu sorvete monstro — O que quer fazer agora?
Olhei em volta, tudo parecia ótimo. Sequer tinha percebido, mas já estávamos lá há quase 3 horas. Como estava quase no pôr do sol, pensei em algo que poderia deixá-lo feliz.
—O que acha de caminharmos na praia? — ele assentiu, sorridente. Sua boca levemente suja de chocolate como uma criança. Algo dentro de mim meio que se apertou, aquela sensação de deslumbramento e paixonite aguda. Aproveitei a desculpa para beijá-lo algumas vezes, e então fomos vagarosamente para a praia.
A brisa era suave e nos refrescava perfeitamente contra os fortes raios solares. Parecia como se todo aquele ambiente estivesse se tornado especialmente aconchegante para nós. Olhei para Percy, alguns centímetros mais alto que eu, a brisa marítima deixando seus cabelos esvoaçados, enquanto encarava o oceano com solenidade. Como se conversasse com ele. Pensei se talvez aquilo não fosse proposital, talvez Poseidon estivesse deixando tudo perfeito. Pigarreei, lembrando de que agora ele era meu sogro.
Percy olhou para mim.
—Estava pensando se seu pai nos aprovaria... Sei que Atena não é sua deusa favorita no mundo — Percy riu, passando um de seus braços pelos meus ombros.
—Tenho certeza que sim — ele falou com tanta convicção que me perguntei se ele já tivera essa conversa com Poseidon — Qualquer pessoa teria sorte de estar com você, e todos sabem disso.
Respondi com um sorriso mais envergonhado que tudo, esperava que minhas orelhas não estivessem vermelhas. Quando nos sentamos na areia, o sol já estava quase se pondo. Ele beijou meu ombro, o horizonte alaranjado de encontro com o oceano trazendo a imagem perfeita. A areia branca me fazendo sentir aconchegada. Eu nunca havia me sentido tão em paz.
Era o encontro perfeito. Eu disse que não iria facilitar para Percy, mas era complicado como ele sempre me surpreendia sendo o melhor namorado. A noite caiu quando voltávamos para o parque, que agora estava alucinado com as luzes de todos os brinquedos piscando e uma música animada no fundo de um show que ressoava por todo o lugar, alguma música pop que eu honestamente não sabia qual era.
Comemos pizza de qualidade duvidosa num restaurante com mesas no calçadão, o tipo que Percy adorava mais. Olhei para frente do restaurante encarando a prateleira na parede.
Talvez a energia da música e como tudo piscava como se tivéssemos numa festa tenha me contagiado.
—Fique aqui — disse para ele, que me respondeu com o olhar preocupado quando viu meu boné em minhas mãos. Esgueirei-me até o banheiro e lá o coloquei, quando saí corri até a prateleira e peguei uma garrafa, deixando o dinheiro correspondente em cima da caixa registradora. Voltei correndo e puxei Percy, que tinha um olhar assustado. Provavelmente as pessoas em sua volta o achariam um maluco, sendo puxado por uma força invisível como uma marionete. Guiei ele até um beco relativamente escuro, retirando meu boné e o colocando de volta na mochila.
—O que foi isso? — ele perguntou olhando diretamente nos meus olhos, parecia preocupado. Levantei a garrafa, sorrindo. Ele apontou para o restaurante e depois para mim, processando — Como...?
—Eu pensei que poderíamos relaxar hoje — retruquei — E, bem, nós merecemos.
Abri a garrafa, dando um grande gole no que era um vinho que agradeci ao Sr. D por ser bastante saboroso. Ele parecia realmente estupefato, como se eu tivesse lhe dado um soco, ou roubado algum item de algum Deus. Depois relaxou os ombros, me fazendo sorrir.
—Que seja — ele pegou a garrafa em minhas mãos, dando também um grande gole. Percy não era exatamente a pessoa mais disciplinada do mundo, então sabia que ele não iria se opor.
Em alguns minutos, com metade da garrafa cheia, andávamos pelas ruas cheias do parque, a música ressoava dez vezes mais animada em meus ouvidos. Eu me sentia mais leve, e nós dois ríamos como loucos.
—... E quando eles cantavam sou o meu próprio ta-ta-ta-ta-ravô... — Percy ria, relembrando uma história hilária do acampamento. Seus olhos enchiam de água de tanto rir, as mãos na barriga. Tentei ao máximo controlar minha mente, mas estava cambaleando e as luzes piscavam loucamente em minha direção. Sentamos num banco, vendo as pessoas andarem de um lado para o outro totalmente abobados.
—Percy- murmurei, percebi que eu não estava controlando muito bem o que estava falando. As palavras pipocavam sem passar pelo meu filtro de reflexão e eu entendi porque Dionísio era o deus do vinho e o da loucura. Ele me encarou, limpando as lágrimas dos olhos — Eu realmente gosto de você, o.k?
Por algum motivo estava segurando seu rosto, encarando-o como se dependesse muito que ele ouvisse aquilo. Ele assentiu, como se eu estivesse falando palavras extremamente significativas.
—Eu também, Sabidinha — sabia que ele estava bêbado porque se enrolou nessa frase simples de três palavras. Ele pegou em minha mão — Eu nunca me diverti tanto, obrigada por isso.
Observei seus olhos verde-mar que pareciam tão convidativos. Lembro de que queria muito lhe dizer alguma coisa, mas meu olhar se focou atrás dele.
—Um brinquedo de garra! — exaltei, me levantando- Vamos Percy, eu adoro aquele jogo.
Puxei ele que estava ligeiramente cambaleante e peguei uma moeda. Um garoto de cabelos castanhos cacheados que mascava chiclete nos olhou entediado, como se não aguentasse mais adolescentes bêbados por aí.
—Certo, você ganha o que você conseguir pegar. Cada ficha são três tentativas.
Olhei para Percy entusiasmada, que não parecia tããão entusiasmado assim.
—Minha mira é péssima — ele murmurrou, entregando uma ficha ao garoto. E realmente, foi feio, Percy usou suas três tentativas tentando capturar uma coruja de pelúcia para mim, e o mix dele não ter a melhor mira com o álcool em seu corpo fizeram ele ser o "pior jogador que já visto" (palavras do atendente). Ele tinha as orelhas vermelhas — Ok, de novo.
—Não, minha vez — respondi, pegando a ficha da sua mão e entregando.
Gostaria de dizer que brinquedos de automação são bem legais, era uma parte divertida de arquitetar o Olimpo, jogando pilhas de esculturas de um lado para o outro. Sabia que estava bêbada, então redobrei a concentração.
Não deveria estar muito charmosa, a língua para fora e os olhos vidrados em pelúcias. Mas quando saímos dali, tínhamos um tubarão, um peixe palhaço e uma estrela do mar em pelúcia. Dei todos de presente para Percy, que parecia entusiasmado.
—Você é muito boa! — respondeu, exasperado e cheio de pelúcias de animais aquáticos em seus braços, como se fosse produzir o próximo A pequena Sereia.
Gargalhei igual uma doida. Nosso vinho tinha acabado. E estávamos cambaleando para fora do parque, que estava para fechar. Na volta, conseguimos um lugar do lado do outro no metrô. Coloquei a mão ao redor do seu quadril. E ele repousou sua mão pesada em minha coxa, me deixando levemente entusiasmada. Me remexi um pouco, beijando sua bochecha.
—Foi um dia incrível, cabeça de algas — ele me encarou com um sorriso tímido, parecia sonolento. Acredito que pelo vinho.
—Você é incrível — respondeu sussurrando, repousou seu queixo em minha cabeça, que estava em seu ombro. Eu estava totalmente aninhada e aconchegada. A sensação que tinha era que, apesar dos pesares e de todas as missões e apreensões que já tive em minha vida, ainda sim eu era a pessoa mais sortuda do mundo. Cochilei até nossa estação, embargada pelo cheiro de maresia de Percy, sensação essa que dali pra frente se tornou tão típica na minha vida.
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