História De Amor
9 Aos Cuidados do Irmão Mais Velho
Notas iniciais
–Ah sim, me desculpe não reconheci sua voz e também não tinha seu número. –responde dando uma leve risada, parecendo nervoso. –Algum problema com o Shun? –pergunta preocupado.
–Não. Nenhum. Liguei porque quero falar com você. –continua o diálogo de uma maneira séria.
–Pode falar. Posso saber qual é o motivo? –pergunta já se sentindo intimidado pelo tom de voz do outro.
–Prefiro conversar pessoalmente. Acho que fica melhor de desenvolver o assunto do que por telefone. Não concorda? –diz ainda de uma forma áspera, fazendo o menino de olhos azuis pensar no que havia feito de errado para receber uma ligação do irmão de seu pretendente no meio da noite, pedindo para falar com ele.
–Sem problema. Deve ser algo sério para você querer falar comigo pessoalmente, sempre achei que não gostava muito de mim. –revida de um jeito mais grosseiro.
–E não gosto, mas não é esse o assunto que quero tratar. O que acha de amanhã as nove? Aqui em casa ou em outro lugar se preferir. –propõe o mais velho.
–Pode ser na sua casa. Ás nove eu passo por ai. –confirma o loiro, já pensando saber qual era o assunto.
–Vou ficar esperando. –fala já imaginando o dia seguinte, quando colocaria os pingos nos “is”.
–Ok. Até amanhã. –despede-se do mais velho.
–Até. –mal termina de falar e já desliga o telefone, virando-se e vendo a figura de Esmeralda fechar o portão de casa e rumar para a sua residência.
Observa atento a menina se aproximar dele com apenas uma jaqueta por cima do seu pijama, instantaneamente abre um sorriso ao vê-la chegar cada vez mais perto. E como que por impulso vai em sua direção com passos rápidos, abraçando forte a garota, quase a levantando do chão.
–Obrigado por ter vindo. –agradece apertando a loira cada vez mais contra si.
–Tudo bem, sempre que precisar é só chamar. –responde ela, envolvendo seus braços em torno de Ikki, correspondendo o gesto de carinho.
A proximidade faz com que ambos se entreguem aos seus pensamentos, fechando os olhos e sorrindo por tamanho conforto causado pelo afago. Esmeralda sempre foi romântica, mas nunca havia sentido algo tão intenso como está sentindo por Ikki. Enquanto ele jamais havia se encantado por uma garota como estava por Esmeralda, o seu jeito meigo e atencioso já conquistava o coração rude e mulherengo do menino, fazendo-o pensar em como seria bom começar um relacionamento de verdade. Depois de passados alguns minutos, os dois acabam por deixar seus pensamentos de lado, focando no que Ikki queria conversar com a loira.
–Mas e então o que você queria falar comigo? –pergunta a menina olhando para o rosto de Ikki, ainda mantendo o abraço.
–Problemas com o Shun. Eu não sei como lidar com essa situação. –responde baixando a cabeça, parecendo desconsolado.
–É o psicólogo? Ele não aceitou bem? –pergunta tentando ajudar o amigo.
–É mais complicado do que isso. –continua a falar ainda com o rosto voltado para baixo.
–Se quiser pode dividir comigo. Eu prometo tentar ajudar. –diz a garota levantando a cabeça do companheiro com uma das mãos.
–Promete não comentar com ninguém? –pediu olhando nos olhos dela.
–Prometo sim. –garante a menina, dando sua palavra.
–Eu mexi no celular do Shun, foi por pura curiosidade, já que ele não largava aquele aparelho para nada e tava sempre mexendo nele, algo que não costumava fazer... –explica Ikki parecendo um pouco triste.
–Ikki, você não deveria ter feito isso. E agora ele ficou chateado com você, não é mesmo? –repreende com seu jeito meigo.
–Mais ou menos, quer dizer eu acho que fico sim, já que eu invadi a privacidade dele... eu fui nas mensagens e vi... –continua a explicar o ocorrido, erguendo os olhos para cima, como se sentisse vergonha do que fizera.
–O que você viu? –pergunta curiosa e preocupada.
–O Shun ta de rolo com aquele colega loiro dele...e... eu não sei o que fazer. –balança a cabeça negativamente, olhando fixamente para o rosto da menina.
–Vocês conversaram sobre isso? –questiona ela, com medo que tenham brigado.
–Só um pouco. Eu tava com a cabeça quente e se eu insistisse acabaria falando o que não deveria e machucaria o meu irmão. –sua expressão demonstrava a aflição ao qual Ikki se encontrava.
–Você fez bem, foi o melhor a se fazer. Mas você ta se sentindo incomodado, é isso não é? –diz a garota tentando entender o outro e dessa forma tentar ajudá-lo.
–To sim. No fundo eu sempre reparei que o Shun era um pouco diferente, mais sensível e gentil do que a maioria dos garotos, então eu sempre desconfiei. –desabafa para a menina.
–Você é um ótimo irmão. O Shun é um doce de menino e nessa idade é normal ele se apaixonar por alguém. –fala Esmeralda tentando consolar o parceiro.
–Tenho medo por ele. Não só pelo namoro, mas pelo preconceito, eu tenho medo que as pessoas façam mal para ele, medo de isolarem e de agredirem o meu irmão com palavras ou fisicamente. Tenho medo de perder ele, eu amo o Shun mais do que tudo, mas nem sempre eu vou poder estar por perto para protegê-lo. E eu também não quero que ele passe a vida se escondendo. –confessa com lágrimas nos olhos, revelando o seu maior temor por Shun.
–Ikki, por enquanto é o melhor a se fazer, o mundo é frio e cruel, e todos são vulneráveis. É difícil acreditar no que as pessoas podem fazer, no quão terrível podem se tornar, mas pessoas como o Shun, com toda aquela bondade e beleza interior são capazes de mudar as coisas para melhor. Por enquanto é melhor deixar assim e quando vida trouxer mais obstáculos, eu sei que nós vamos ultrapassá-los, juntos. –consola repousando a mão sobre a face do mesmo, que ao sentir o toque fecha os olhos.
–É incrível a maneira como você faz eu me sentir melhor. Você é uma dessas pessoas, você é capaz de tornar as coisas melhores. –responde sentindo o leve carinho feito pela garota.
–Você me deixa sem graça falando assim. –diz sentindo seu coração disparar.
–Não precisa ficar. Você sabe que é verdade. – continua a falar aproximando o seu rosto até uma pequena distância que se podia sentir a respiração da garota loira.
–Mas e então? Você vai falar com o amiguinho do Shun? –pergunta quebrando o clima, não fez por mal, embora não parecesse ela também tinha uma guerra em sua mente que começou desde que conheceu Ikki.
–Vou sim, combinei de conversar com ele aqui em casa, às nove da manhã. –responde um pouco desapontado.
–Você acha uma boa ideia? O Shun vai ta em casa e se ele ouvir vocês? –comenta a menina, afinal ela não era boba e sabia que o diálogo entre os dois não seria amistoso.
–Ele vai dormir até tarde. Conheço a figura. –diz Ikki sorrindo.
–Se quiser eu posso levar ele para sair. –se oferece para ajudar.
–Você é sempre tão gentil, mas não quero que se incomode. –fala o garoto passando a mão pelos fios loiros de Esmeralda, ajeitando sua franja que como de costume já estava quase pegando nos olhos.
–Mas se quiser é só me ligar ou mandar sms. –reforça o aviso, no caso de Ikki mudar de ideia.
–Eu vou te ligar, mas é para combinar de assistirmos ao filme. –diz a olhando com ternura.
–Que tal amanhã as oito? –pergunta com um sorriso estampado no rosto.
–Por mim pode ser. –concorda ele, ainda abraçado nela.
–Então combinado. Bem, eu acho melhor eu ir, antes que meu pai dê por minha falta. –diz ela olhando para trás, vendo uma da luzes de sua casa acender, em sinal que seu pai havia acordado, se desvencilha dos braços do rapaz e o beija no rosto, dando boa noite e se afastando apressada.
–Ta certo. Obrigado de novo. –se despede acenando para ela, que retribui com uma piscadinha de olho.
Ikki sorri fechando os olhos e passando a mão suavemente na bochecha em que Esmeralda o beijou, dando um longo suspiro. Ao abrir os olhos pega a chave do bolso, adentra no pátio, fechando o portão e em seguida entrando na casa e trancando a porta da frente. Sobe as escadas, coloca seu pijama composto por apenas um short azul escuro, escova os dentes e cai na cama, pois depois da longa e difícil semana, tudo que queria era recompor as forças e colocar as coisas em ordem. Começando por amanhã quando conversaria com Hyoga. O cansaço era tanto que assim que se deitou adormeceu.
O dia amanhece e Ikki percebendo a claridade, se dá conta que já não é mais tão cedo e como o seu celular é programado para tocar o despertador apenas nos dias de semana, este ficou com medo de estar atrasado, então rapidamente puxa o telefone de cima do criado-mudo e vê as horas. Respira aliviado ao ver que eram apenas 07h43min da manhã. Levanta, indo em direção ao banheiro, procurando fazer o mínimo de barulho possível, para não acordar seu caçula, termina de tomar banho e vai para o quarto se vestir. Coloca uma camiseta branca, uma bermuda vermelha e chinelos, passa a toalha no cabelo esfregando para enxugar, estende a mesma e desce para fazer um café e esperar o loiro.
Enquanto segurava a jarra da cafeteira, observa o relógio da cozinha que indicava faltar quinze minutos para as nove, de repente escuta seu celular tocar em cima da bancada e vai até ele, um sms recebido de Esmeralda.
“Esqueci de dizer para você ir com calma com o garoto. Beijinhos.”
Ao ler a mensagem ri consigo, respondendo:
“Prometo que ele vai sair vivo daqui. Bjos”
Serve uma xícara de café e coloca a jarra na cafeteira novamente. Toma um gole e escuta a campainha tocar, já sabendo de quem se tratava, larga o objeto de porcelana perto da pia, onde estava escorado e vai em direção a porta. Ao abrir ela depara-se com o menino loiro, que ao ver Ikki dá um passo para trás, parecendo assustado.
–Bo-bom dia Ikki! –cumprimenta o garoto nervoso.
–Bom dia! Entra ai. –convida para entrar, mesmo com seu jeito grosseiro de ser, Ikki está se esforçando, até desejou bom dia.
O mais velho fecha a porta e ao se virar dá de cara com Hyoga o observando, como se estivesse com medo de cada movimento feito pelo outro.
–Senta ai. -fala apontando para o sofá. -Não quer nada? –oferece enquanto se dirige para a cozinha, indo pegar sua xícara de café.
–Não, obrigado. Eu to bem. –agradece se acomodando no sofá.
Ao voltar para a sala Ikki senta na poltrona e começa o diálogo.
–Você sabe por que te chamei aqui. Não sabe? –questiona com um olhar bastante sério para o loiro.
–Eu acredito que sim. –responde voltando os olhos para baixo, não por vergonha, mas por não estar se sentindo completamente à vontade.
–Então vamos direto ao assunto. O que você quer com o Shun? –pergunta Ikki sem nem pestanejar.
–Eu gosto do Shun e ele gosta de mim. –explica o garoto.
–Não respondeu minha pergunta. Eu perguntei: O que você quer com o Shun? –volta a fazer a mesma pergunta, com certo tom de ironia.
–Como assim o que eu quero com ele? –fala Hyoga tentando entender onde o outro queria chegar.
–Meu irmão não é brinquedinho para nenhum vagabundo. Então se sua intenção é só dar uns pegas nele, pula fora enquanto ainda dá tempo. –diz levando a xícara até os lábios e depois voltando a olhar para o mais novo.
–Eu sei que você ama o seu irmão e que você só quer protegê-lo, então entenda Ikki, eu não quero brincar com ele, eu gosto mesmo dele. E eu sei que é uma relação muita nova, mas eu quero fazer durar. –responde com firmeza.
–Ok! Ok! Não vou discutir sobre isso. Mas é melhor que suas intenções com ele sejam as melhores, porque se não eu te caço por toda a cidade e não importa a idade que tenha eu arrancos todos os seus lindos cachinhos dourados com apenas um puxão. –avisa Ikki, soltando o recipiente que tomava seu café em cima da mesinha da sala, erguendo-se um pouco na direção de Hyoga com um dos punhos fechados, como se o estivesse ameaçando.
–E por que você não faz agora? Estou esperando. –desafia o menor, também se erguendo um pouco na direção da poltrona em que Ikki estava sentado.
Encararam-se por alguns segundos, sem nem mesmo piscar, até serem surpreendidos por uma voz que parecia vir da escada.
–Ikki quem está ai com você? Hyoga? O que você está fazendo aqui? –pergunta Shun ainda meio sonolento e confuso com a situação que acabou de encontrar.
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