História De Amor
10 Dia Nublado
Notas iniciais
Ao ver Shun descendo as escadas lentamente, com o seu habitual pijama branco, toda a vontade que tinha de acabar com esse loiro de farmácia passou. Não queria me fazer de bonzinho, pois esse não é meu jeito, já que todos quando me conhecem percebem que eu sou o oposto de meu irmão. Eu sou indelicado, rude, grosseiro e certas vezes até mesmo mal educado, não sou do tipo de cara que curte fazer amizades com todo mundo. Não estou dizendo que sou superior, apenas acabo me relacionando melhor com as pessoas que percebo sua sinceridade.
Gosto de pessoas alegres na medida certa, odeio pessoas rindo sempre, isso me faz perder a cabeça, pois a vida não é sempre uma festa. Todos têm seus altos e baixos, é como uma enorme montanha russa, aonde quem chega até o final sem vomitar alguns sapos que engoliu durante o percurso, ganha seus louros como prêmio.
–E então não vão me responder? –pergunta novamente olhando a situação que nos encontrávamos.
–Eu chamei o Hyoga aqui para conversar Shun, afinal não quero que nenhum garoto metido a besta te coloque para baixo. –ao dizer isso, vejo o espanto de meu caçula ao me referir ao seu primeiro amor.
–Ikki não fala assim, já conversamos sobre isso e você me prometeu... –começa Shun a falar com aquele seu jeitinho de bravo, mas que não assusta uma mosca.
–Shun, me desculpe novamente, mas eu realmente precisava ter essa conversa com ele, bem acho que terminamos. –acabo de falar e faço um sinal positivo com a cabeça para o russo que se encontrava bem na minha frente, agora já mais calmo eu imagino. –Então eu vou ir dar um volta, fiquem a vontade. –digo isso pegando a xícara que deixei em cima da mesa e tomando o último gole de café que restava, levando o objeto até a cozinha.
Subo para ir até o banheiro escovar meus dentes, o dia estava nublado bem o jeito que eu gosto, seria bom conhecer um pouco a vizinhança, além do mais, havia visto um parque ali perto, seria interessante sentar um pouco e ver o movimento, apenas deixando o tempo passar, as ideias se fixarem e esperar a poeira baixar.
Novamente ao me virar dou de cara com Shun ainda de pijamas me encarando de maneira curiosa.
–Mano pode me falar quantas vezes você ameaçou ele? –questiona enquanto me vê seguindo para o quarto.
–Aquele maricas já foi chorar para você. Não é mesmo? –respondo entrando no cômodo e tirando a camisa que estava.
–Ele não me falou uma palavra sequer. Mas eu te conheço, sei que você só esta tentando me proteger, mas não acha que assim só vai afastar as pessoas de mim? –repreende meu mais novo e eu sei que no fundo ele esta certo, mas por hora eu só quero relaxar e não discutir sobre esse assunto com ele.
–Shun, vá se trocar e volte para a sala. Quer mesmo deixar seu namorado com cara de tacho logo na segunda visita dele? –digo pegando uma roupa da gaveta e a vestindo.
–Tudo bem. E onde você vai? –pergunta já na porta para se retirar
–Caminhar um pouco, saio pela porta dos fundos. Assim não interrompo vocês. –falo enquanto procuro meus fones de ouvido.
–Você sabe que não interrompe nada. –ouço sua voz se afastando, acredito que estivesse no corredor
–Enfim, convide ele para almoçar, logo volto para preparar o almoço. –ao terminar a frase apenas escuto os passos de Shun quase que como correndo de volta para meu quarto.
–Ikki você só pode ta doente não é? Você não é assim. –diz parecendo assustado e desconfiado.
–Shun, pare de besteira. Sou seu irmão, aprendi algumas coisas com você como ser gentil... algumas vezes. –falando isso atravesso a porta passando a mão em sua cabeça e descendo as escadas em direção a porta dos fundos.
Saio rapidamente, pois tudo que eu quero é refletir um pouco. Pensar no passado e no nosso presente, tentar organizar as minhas ideias que de novo estão bagunçadas. Fui pego de surpresa nesses últimos dias e tudo com relação a Shun. Os seus problemas com automutilação e o seu mais novo relacionamento. Se o pai e mãe estivessem aqui, eu seria apenas um coadjuvante dentro desse emaranhado de coisas. E nesse momento tudo que eu precisava era de um dos sábios conselhos de minha mãe ou da rapidez em solucionar problemas do pai.
Caminho por alguns instantes e observo o tom cinza do céu, eu gosto de dias assim, se parecem comigo, nem tão alegres como dias ensolarados e nem tão tediosos como dias chuvosos. Eu sei, eu sei, estou uma bagunça. O Shun é tudo que eu tenho, eu amo ele demais, e não ter dado toda a atenção que ele merecia esta doendo muito e por mais que ele diga, eu sei que não sou o melhor irmão do mundo.
Todo esse tempo me preocupei em ter força o suficiente para eu seguir em frente e quase esqueci do meu irmão. Não fiz por gosto. Eu sou feito de carne e osso também, sofri muito com a perda dos meus pais e por ser o mais velho cresci rápido a ponto de assumir todo o negócio da família, cuidar do Shun, ver os processos legais, cuidar da casa, administrar as contas e os lucros. Lembro quando tive que mudar da noite para o dia. Lembro de ter que ser o mais forte para deixar Shun se apoiar em mim, de encarar todos os dias o telefone que me deu a terrível noticia. A melhor atitude que tomei foi sair daquela cidade, quase como um fugitivo, tentando apagar as lembranças, apenas querendo recomeçar, mas tudo parece tão errado, tão fora do lugar e eu pela primeira vez não sei como consertar e não sou forte o suficiente para chorar, por mais vontade que eu sinta nessa momento, chorar não vai adiantar. Então devo erguer a cabeça e enfrentar tudo de novo? Penso que sim, é uma nova batalha e a minha armadura já esta posta para encarar um novo desafio. O de ser o melhor para Shun, para compreendê-lo e dar-lhe tudo o que precisa.
Logo chego ao tal parque e me acomodo em um dos seus bancos, tendo como paisagem algumas árvores e uma vasta vista verde, porém com poucas pessoas passando. Fecho meus olhos e inclino a cabeça para trás, sentindo a brisa e um perfume. Perfume que por sinal me é familiar, fico assim por alguns instantes e quando volto a mim, vejo Esmeralda sentada ao meu lado com um sorriso em seu rosto.
–Oi Esmeralda. –cumprimento sorrindo.
–Oi Ikki. Incomodo? –pergunta se aproximando mais de mim.
–Claro que não, sua companhia é sempre boa. –respondo olhando para o céu.
–Tudo bem? -fala parecendo preocupada.
–Sim e com você? –digo ainda sem olhar para seu rosto.
–Não parece. Mas quando se sentir a vontade e quiser dividir com alguém, eu estarei aqui. –assim que termina de falar, começa a olhar para o céu também.
–Obrigado. –agradeço, sem ouvir mais nenhum pronunciamento vindo dela, até que eu resolvo abrir o jogo, afinal ela acabou de me oferecer ajuda e nesse momento não quero recusar, sobre tudo vindo dela. -É o Shun, não sei se estou sendo um bom irmão.
–Bom irmão? Você está longe disso. –diz dando uma risadinha irônica. -Você é um ótimo irmão. E sabe disso. –completa colocando a mão sobre meu ombro.
–Mas eu não consigo... –sou interrompido por ela.
–Não importa, se você não consegue, então tentamos juntos. Eu sei tudo o que você passou e dessa vez você não esta sozinho. Eu prometo estar com você e... –agora era minha vez de interromper, mas ao invés de falar decidi fazer algo que já esperava há algum tempo. Beijar aqueles lábios rosados de Esmeralda.
Ao contrário do que pensei, não encontrei resistência alguma, acredito que ela queria tanto quanto eu, pois também tomou iniciativa e correspondeu o gesto. Posso dizer que das várias meninas que já beijei, nenhuma tinha o beijo tão suave e envolvente quanto o de Esmeralda, nenhuma me fez querer tanto quanto ela me fez e está fazendo. Assim, que terminamos, sorrimos um para o outro e quando vou beijá-la novamente, escuto seu celular tocar. Ela pega o aparelho de seu bolso.
–Oi. Ta bem, já to indo. Beijo, te amo. –desliga o telefone e o coloca de volta em seu lugar. –Bem, eu preciso ir, meu pai quer minha ajuda. –anuncia se levantando. –Nos vemos depois, o filme ainda ta de pé? –pergunta se afastando.
–Claro, as oito? –respondo com um grito.
–As oito. –fala sorrindo e caminhando de volta para sua casa, eu fico parado ali por alguns instantes vendo a menina ficar cada vez mais longe, assim ela não poderia ver o meu sorriso bobo.
Poucos minutos após a partida de Esmeralda decido voltar, ainda com aquele mesmo sorriso depois do beijo, as coisas até ficaram mais claras na minha cabeça. Percebi que tudo não esta mudando para pior e sim para melhor, pois finalmente estou tendo a chance de participar ativamente da vida de meu irmão e estou descobrindo algo que não havia encontrado com nenhuma outra pessoa.
Não demoro muito e logo estou de volta, ao entrar vejo Shun na sala com seus livros e cadernos estudando, não fico surpreso por não ver o loiro por ali, depois da conversa que tivemos, era óbvio que ele não ficaria, e acho que no final das contas por mais que tentemos, nunca vamos nos suportar.
–Demorou Ikki. Já estava ficando preocupado. –diz ao me ver entrando, parecendo bastante concentrado, já que nem ergueu a cabeça ao falar comigo.
–Não precisa eu sei me cuidar. –respondi deixando as chaves na mesa da sala.
–Ta bem. –disse vagamente.
–Vou ir tomar banho. –anunciei subindo as escadas.
–Certo, eu vou continuar estudando mano. –disse com todo a doçura, como eu disse sou o oposto dele.
–Hey Shun. –chamo-lhe a atenção.
–Pode falar. –agora erguendo a cabeça para me fitar.
–Você é meu maior orgulho. –digo com um largo sorriso nos lábios, vendo os seus também se entreabrirem em um sorriso mais sincero ainda de pura felicidade. Nem escuto resposta, não precisamos de palavras, pela primeira vez eu começo a ver a luz de um ângulo diferente. Porque se eu sou um dia nublado, Shun é o dia ensolarado que ilumina o meu caminho.
Fale com o autor