– Quem tem dinheiro tem tudo. Afinal, quem não é feliz em Paris? Pelo menos é isso que as antas das "amigas" da minha mãe diziam. De vez em quando eu tinha que suportar elas irem lá pra casa. Minha mãe adorava conversar com aquelas vacas. Falavam sobre quão bom era ser rico, ter cartões de crédito sem limites, viajar à Europa 2 ou 3 vezes por ano. E o melhor: Tudo isso sustentado pelo marido. Esse era um dos momentos em que eu desejava ter veneno em casa, não pra mim, pra elas. Eram meros bancos de maridos, sem sexo, sem amor próprio, sem amor pelo próximo e também não eram amadas. Que ódio eu sentia de tudo aquilo. Eu era muito mais feliz com meus amigos de rua do que com aquela gente inútil que só sabia reclamar dos milhões que seus maridos haviam perdido e celebrar os que eles ganhavam. Eu só ficava em casa naquelas reuniões chatas com aquele bando de idiotas quando era obrigado, fora essas horas eu fazia questão de pegar qualquer dinheiro na carteira do meu pai e ir fumar com os meus amigos. Eu não poderia prejudicar mais a minha saúde fumando do que escutando aquelas conversas. Uma mera folha calmante não poderia me fazer mal. Ela era minha única amiga, meu pai, minha mãe, minha irmã. Ela era tudo. Ela não me perguntava se eu estava bem, ela simplesmente sabia tudo que eu estava sentindo e ela sempre, sempre me acalmava. Eu poderia ter visto e participado de milhões de brigas em casa, escutado milhões de conversas repugnantes, ter tido os piores sentimentos que um ser humano poderia ter, que mesmo assim ela sabia o que fazer comigo e eu com ela. Eu não me importava se alguém poderia me pegar fazendo isso, não mais. Fodas. Pro diabo o nome dessa família maldita. Adoraria ver minha família chorando pelo seu nome manchado pelo filho drogadinho. Todos tinham suas drogas, seus vícios, seus escapes. Eu apenas admitia isso, pelo menos pra mim mesmo, e não sentia vergonha disso. Meu fígado já avisava que eu não duraria muito tempo quando eu tinha que descer aquelas palavras que escutava pelo estômago porque meus ouvidos não aguentavam mais. Porra. Meu pai traía minha mãe a vida inteira. Minha mãe quando não estava sendo submissa e acatando ordens, estava se preocupando com riqueza. Eles não tinham direito de dar ordens em minha vida. Eu era eu mesmo. Eu curtia minha companhia, eu curtia a mim mesmo e só precisava de uma folhinha pra me sentir completo. Eu não precisava de dinheiro, nem de mulher, nem gente conversando comigo. Pelo contrário, eu sempre odiei gente. Acho que traumatizei com o bando que eu era obrigado a conviver em casa. Uma tragada à todos os moralistas hipócritas com cérebro menor que o rabo que me levaram a sair e procurar escapes. Ótimos escapes.