Hipocrisia, Não Vá Embora!
4 Capítulo 3
– Quando minha mãe descobriu a traição do meu pai, a casa virou um inferno. Eles brigavam constantemente. Eu era o irmão mais velho, então sentia a obrigação de proteger os meus irmãos. Sentia uma vontade enorme de tirar eles dali.
Em um desses dias decidi levar os meus irmãos para o parque que tinha perto de casa. Foi bom poder ouvir somente barulho de pássaros e crianças brincando, ao invés de ter que ouvir aqueles filhos da puta brigando. Como eu não tinha mais vontade de brincar, nem ninguém pra conversar, levei meu discman. Lembro que me sentei debaixo de uma árvore, respirei fundo, coloquei meu fone e liguei o discman. A primeira música a tocar foi "Máscara" da Pitty. Era tudo que eu precisava naquele momento. Eu era um garoto de família rica. Tudo era aparentemente perfeito. Era pra ser assim. Mas na verdade, éramos todos robôs controlados por dinheiro, status e ideais moralistas. Antes, minha mãe vivia em favor da família. Meu pai era um cara moralista, cheio de regras, filosofias de vida e dado como um bom homem de família. Éramos assim. Bastou minha mãe começar a descobrir as primeiras traições do meu pai que tudo isso começou a ir por água abaixo. Primeiro a decepção, promessas de que nunca mais aconteceria isso. Depois a descoberta de que as promessas nunca foram cumpridas, a vinda do sofrimento, discussões e lágrimas até que um dia tudo isso se tornou tão normal, todos se acostumaram e não houve mais discussões porque no fundo depois de um tempo ninguém se importava mais com ninguém. Havia regras apenas para que não se causasse escândalos. Foda-se os escândalos! Eu só queria ter uma família normal, porra! Mas eles não pensavam assim. Nós não éramos uma família perfeita. O que as pessoas pensavam que nós éramos, não era verdade. Éramos apenas uma família cheia de segredos entre si e lá fora. Quando minha mãe descobriu a traição do meu pai com uma de suas melhores amigas, ela não sentiu ciúmes, nem nada disso. Ela já sabia que ele a traía. Ela só teve medo da possibilidade das pessoas mais próximas, que conheciam a família e nos considerávamos uma família honesta, unida, direita e feliz começasse a descobrir os podres que eles escondiam. O pior disso tudo é que conforme eu fui descobrindo os podres da minha família que até então, na minha visão de criança, era uma família perfeita. Eu fui me assustando com a realidade da minha família, me decepcionando, me machucando e eu não tinha com quem conversar. Eu era um adolescente em conflito comigo mesmo e agora com a minha família. Meu irmãos eram todos mais novos, eu não poderia falar disso com eles. Meus pais estavam preocupados mais com eles mesmos. Eu não tinha amigos. Como poderia ter? Meus pais nos proibiam de fazer amigos na rua porque rico não andava com pobre, mandavam-nos ser amigos das pessoas que estudavam nas nossas escolas ou dos filhos dos amigos deles. Nem pensar que iria andar com aqueles riquinhos de merda. Sempre preferi andar sozinho do que com essa gente. Com isso, ali estava eu, sozinho, caindo e sem ter onde ou alguém pra se segurar. Eram quase 12:00 quando parou de tocar músicas no meu discman e eu percebi que tinha dado meu tempo ali. Não poderia fugir do inferno pra sempre. Chamei meus irmãos, ouvi um suspiro deles (Pelo visto eu não era o único que queria fugir daquela casa) e fui embora...
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.
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