Hipocrisia, Não Vá Embora!
2 Capítulo 1
Eram 07:00 da manhã de um domingo. Eu tinha 13 anos. Lembro como fosse ontem. Eu estava deitado em minha cama, no meu quarto, com o meu irmão dormindo ao meu lado após ele ter tido pesadelos e ter ficado com medo de dormir sozinho. Eu acordei, ouvi gritos, vidros se quebrando, estrondos na parede. Levantei assustado e fui correndo ver o que estava acontecendo. Passando pelo corredor e chegando quase no final dele, eu vi a cena que nunca saiu da minha cabeça: Minha mãe atirando vasos de flores, enfeites de vidro, porcelana, aqueles que ela mais admirava, contra o meu pai. Chorando, gritando. E meu pai tentando se livrar das coisas que estavam sendo arremessadas contra ele, abaixando, indo de um lado pra outro. Ele também gritava, mas ele, diferente da minha mãe, ria. Ele ria. Ria em tom de deboche, aqueles sorrisos que mais ferem as pessoas quando estão vulneráveis. Foi nesse instante em que eu parei, fiquei vendo toda aquela cena, assustado, sem saber o que fazer, mas escondido pra que eles não me vissem. As horas que ela parava para respirar, eram as únicas horas em que ela parava, parava de gritar, abaixava. Dava uma pausa no choro e dizia: — Como você pode ser tão cruel? Como você pode ser tão irresponsável? Você nem ao menos pensou em sua dignidade, na minha dignidade, na dignidade de toda a nossa família. Eu sei que você sempre correu atrás dessas vagabundas, eu sei que você jogava dinheiro pra que elas viessem rastejando, loucas como cadelas famintas por comida. E quer saber? Eu não me importava. EU NÃO ME IMPORTAVA! Mas me trair com ela, com aquela vagabunda que eu tanto demonstrava respeito, amor e admiração? Você foi longe demais. Isso é frieza de um tamanho muito grande, isso é frieza demais até pra você. Então ela levantava e voltava a jogar coisas nele. Se fosse hoje, eu daria risadas, daria risadas na cara deles. Daquela cena patética de uma mulher chorando, sofrendo e se humilhando diante de um homem. Ela sempre soube que ele a traía, mas estava sofrendo porque ele tinha a traído com uma amiga. Mal sabia ela que ela nunca teve amigas, e aquele era só o começo. Digo isso com sorriso nos lábios. Como éramos tolos, inocentes e iludidos. Eu, ali, assustado, morrendo de medo do que poderia estar acontecendo e do que poderia acontecer. ELES DEVERIAM TER SE MATADOS NAQUELE INSTANTE PRA EVITAR TODA A VERDADEIRA VERGONHA E DECEPÇÃO PELA QUAL PASSAMOS DEPOIS. Mas não, continuaram vivos, para nossa infelicidade. Em algum momento a gritaria, o choro e os arremessos de coisas pararam, e eles decidiram olhar pro lado, e por mais que eu tentasse me esconder, não tinha jeito. Eles me viram. Eles me viram parado e assustado. Desgraçados! Se fossem pais normais teriam dito: Oi, filho. Por que você está acordado? Vá dormi. Está tudo bem. Vai ficar tudo bem. Igual aqueles pais que acham que filho só porque é criança é retardado, sabe? É cego, burro e não entende nada. De qualquer forma, se fossemos, não adiantaria muito. Eles não fizeram questão de me acalmar. E sim, gritar. Gritaram pra que saísse dali, que aquilo não era da minha conta e que se eu não saísse dali, naquela hora, eu iria me arrepender. Pois bem, eu saí e a gritaria, toda aquela cena patética continuou como se ninguém tivesse vendo ou escutando.
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