Hipnotizados
11 Verde e vermelho
Notas iniciais
Isaac procurou Helena por toda a cidade. Foi para onde a moça trabalhava vendendo seus artesanatos, pontos que ela gostava de visitar, como por exemplo o parque e algumas lojas e até mesmo a casa de sua prima; Mas nem sequer um sinal da jovem desaparecida.
Para não aumentar a preocupação de Peter, seu avô decidiu voltar para casa. Com o pouco otimismo que lhe restara, imaginou que talvez o neto pudesse ter recebido informações sobre ela ou talvez Helena pudesse ter voltado para casa.
☼ ☼ ☼
Peter resolveu procurar por algum possível bilhete que a mãe havia deixado em casa. O vento poderia tê-lo feito voar sem que o garoto ao menos pudesse ter notado a existência do papel.
Procurou em cada centímetro quadrado: Embaixo dos móveis, atrás de objetos de enfeite, na estante e até pensou na possibilidade de estar na geladeira. Infelizmente não estava, assim como em todos os outros lugares: Não estava no freezer, na mesa de jantar, nem mesmo na estante. A estante... Algo parecia estranho com o velho móvel onde alguns livros repousavam. Uma espécie de força o incentivava a ficar próximo aos livros, como se o encorajassem à procurar algo. Sua última experiência com livros não havia sido a melhor dos últimos tempos. Aquilo parecia muito estranho, mas Peter teimava em ligar o desmaio que sofrera ao fato de ter lido algumas frases do estranho texto anti bruxas. Talvez estivesse ficando realmente louco, afinal. Sentia-se estranhamente desconfortável e diferente desde que isso ocorrera, como se algo houvesse despertado –ou simplesmente se remexido- dentro dele; Não em seu estômago ou algo do tipo, mas sim, em sua alma.
Enquanto pensava, mais e mais livros eram retirados da estante, sem que ele sequer percebesse. Era automático. Ouvia estranhos sussurros que ficavam cada vez mais altos e pareciam incentivá-lo ainda mais a mexer nos objetos desgastados pelo tempo. Até que algo o fez parar.
Bem no fundo da estante, como se não quisessem ser encontrados, estavam alguns livros aparentemente antigos. Peter não se surpreendeu por achá-los tão diferentes, não conhecia mais da metade da estante de sua mãe, já que nunca havia parado para explorá-la. Tentou pegá-los, mas estavam num local difícil, como se não quisessem sair.
Após muita agilidade –e pouco de força e pressão- eles finalmente cederam, sendo obrigados à sair. Ao ler seu conteúdo, Peter pôde concluir que aquilo era realmente estranho. Os livros falavam claramente sobre bruxaria.
Tudo estava muito confuso quando seu avô voltou para casa, antes que o garoto pudesse escondê-los.
—Encontrou minha mãe? –Perguntou ele.
—Eu tinha esperança de que ela estivesse aqui. –Respondeu o velho. –Nenhum sinal?
—Nada.
O silêncio tomou conta da sala, até Isaac tomar uma decisão:
—Eu vou sair novamente e talvez tenha alguma notícia dela. –Dessa vez, era tudo o que ele temia, tendo em vista que decidira ir para AMCB. –Aliás,- Continuou. — O que está segurando?
—Ah, gostaria de perguntar à minha mãe. –Peter examinou o livro que carregava. –Esses livros são estranhos. Eles falam sobre bruxaria.
Isaac estremeceu ao ouvir essa última palavra. Ela não era comum vinda de Peter. O jovem continuou, prestando atenção nos detalhes do objeto:
—Aliás, tudo está estranho desde que eu passei mal... –Ele se interrompeu. Não deveria ter contado ao avô sobre isso, pois o mesmo ficaria preocupado sem necessidades, pois o jovem já se sentia bem. Uma queda de pressão, talvez? Ele não sabia. Aquilo nunca havia acontecido antes.
—Passou mal?
—Não estava muito bem hoje. Mas já me sinto melhor.
Isaac se preocupou. O neto havia passado mal e agora encontrara livros que foram passados de geração à geração em sua linhagem bruxa. Logo, precisaria contar a verdade ao garoto.. Como avô, sempre imaginara que precisaria ter conversas específicas com o neto, uma hora ou outra; Sobre garotas, filhos e até mesmo drogas, mas sobre o jovem ser um bruxo? “Oh, Peter, você é um bruxo e deveria estar morto”. Aquilo era realmente complicado. Helena precisava estar ali.
—Peter, precisamos ter uma conversa... Mas agora não é o melhor momento. Vou procurar sua mãe, mas não me siga em hipótese alguma, entendeu?
—...Sim. – O garoto estranhou o tom do avô. Talvez fosse a preocupação.
—Não deixe o jantar esfriando, volto já.
—Só espero que essa conversa não seja sobre "De onde vem os bebês". –Brincou Peter.
—Não se preocupe, -Isaac sorriu, fugindo por um momento da tensão em que o ambiente se encontrava. –Também não será sobre aquelas músicas estranhas que você escuta... Ou sobre o barulho insuportável que você faz enquanto toca guitarra.
Peter não compreendia as reclamações de Isaac (e de seus vizinhos). Será que apenas ele entendia o verdadeiro valor da inspiração musical? Possivelmente sim.
Embora houvesse concordado com seu avô, aquilo estava errado: Precisava ajudá-lo à encontrar sua mãe.
Pegou um pedaço da carne que Isaac havia preparado e seguiu o avô, tomando cuidado para não ser visto. Não era apenas o jovem que estava estranho nesse dia.
☼ ☼ ☼
Peter seguiu o avô até um bonito prédio. Infelizmente, não encontrou Helena no caminho.
Observou de longe o lugar e notou que algumas pessoas iam embora com feições tristes em seus rostos. Será que algo havia acontecido na empresa? O jovem ouvira falar que muitos funcionários haviam sido demitidos nos últimos tempos. O mundo realmente estava entrando em crise.
De repente, alguém chamou-lhe a atenção, tocando seu ombro.
—Posso ajudá-lo, garoto? –Um homem alto de terno preto havia se aproximado sem que ele percebesse. Parecia ser o segurança. –Eu sei que todos estão ocupados lá dentro hoje, mas notei que está observando o local faz um tempo.
Peter não sabia que os seguranças vigiavam até mesmo à longas distâncias. A empresa era de fato bem protegida. Perguntou-se se sua mãe já havia trabalhado lá, embora ela preferisse algo próprio, como a venda de artesanatos.
—Está tudo bem. –Respondeu, por fim. –Eu estava apenas admirando o prédio.
—É realmente bonito. Muitos jovens iguais a você demonstram interesse por este lugar. Venha! –Convidou ele. –Eu posso lhe apresentar á alguém que explique como tudo funciona.
—Ah, isso não é necessário, de verdade. –Peter tentou desviar-se e ir embora, mas o segurança já caminhava ao seu lado, fazendo-o ir em direção ao prédio. –Não precisa se incomodar comigo.
—Não tem problema. Todos estão um pouco ocupados, mas sempre há espaço para uma pessoa interessada em nossa equipe. Alguém com certeza irá escutar o que você tem a dizer, não fique nervoso. Aliás, como é seu nome?
—Peter. –Respondeu. Imaginou que a tal crise estivesse realmente os afetando. Pareciam estar desesperados por novos funcionários. –Peter Chevalier.
O garoto teve a impressão de que o homem hesitou por um instante. Sua expressão havia mudado.
—Chevalier? –Perguntou ele. -Esse sobrenome não é muito comum por aqui... Acho que conheço seu avô. Esse é seu nome inteiro?
—Meu nome é Peter Landon Chevalier.
O garoto logo lembrara que nunca havia dito isso a ninguém. Sua mãe não gostava que o nome do meio fosse exposto, embora parecesse gostar muito do mesmo. O avô também não tinha afinidade com isso. Peter nunca entendera por quê.
Já estavam na entrada do prédio quando dissera aquilo para o segurança, que agia de modo estranho. Tentou analisá-lo até que uma necessidade maior apareceu: Esquivar-se. Mal podia acreditar que quase levara um soco de um segurança que acabara de conhecer.
—Você é maluco? –Gritou.
—Seu avô tem sido a pessoa mais comentada por aqui ultimamente. Mais até que o sobrenome Landon, nosso principal alvo de investigação. Então é verdade... Isaac tem realmente um neto Landon. Bem, isso acaba aqui. –O segurança pegou seu rádio, chamando por reforços.
Peter pensou em correr para fora, mas o homem estava bem à frente da saída. A única alternativa que lhe restou foi correr para o elevador.
O desespero apenas lhe permitiu apetar todos os botões que podia. Para sua felicidade, as portas fecharam-se antes que o segurança pudesse interrompê-las.
Elas voltaram a abrir no quinto andar para um funcionário e o garoto não pensou duas vezes antes de sair rapidamente de lá, deixando o homem com uma expressão um tanto surpresa e confusa, contudo, Peter não fazia questão de voltar para pedir desculpas por quase tê-lo atropelado.
Havia diversas portas pelo corredor do quinto andar. Peter passou por uma que estava entreaberta, certificando-se de que não havia ninguém por perto. Lá, deparou-se com um enorme painel com o mapa de sua cidade. Vários pontos haviam sido rabiscados em vermelho por toda a extensão, entretanto, a maior parte deles encontrava-se na região próxima à floresta. Em cada ponto, um pequeno papel havia sido fixado e ao se aproximar, Peter pode perceber que eram nomes e possuíam números ao lado. Quisera ele que fossem nomes comuns mas, infelizmente, todos tinham algo em comum que o deixava desconfortável:
"Cathrine Landon Gasphill";
"Levia Landon";
"Naomi Landon McCoun"
"Elizzie Landon";
"Jessica Landon Bhrity";
"Jeanette Marie Landon";
"Clarisse Landon";
"Sophie Tinnie Landon";
"Helena Landon".
Perto de onde encontrava-se o nome de sua mãe, havia um enorme círculo deixando uma certa região em destaque. Exigia uma observação especial. Dentro desse círculo, três pontos verdes haviam sido feitos e dois deles possuíam um pequeno "Ok" escrito em vermelho. Precisava descobrir o que aquilo significava, levando em conta que o local em destaque era onde ficava sua casa.
Observou o local, mexeu em papéis e abriu todas as gavetas que pôde, até que finalmente algo pareceu fazer sentido: Fichas haviam sido organizadas dentro de uma longa gaveta. Puxou a ficha "76-443", número que estava ao lado do nome de Helena; Ao lado do número de regristo, também havia um pequeno círculo vermelho, igual ao do mapa. Encontrou a foto de sua mãe, junto com todo tipo de informação sobre a mesma: Endereço, rotina, costumes. No final, a palavra "Bruxa" fora carimbada, próxima à uma anotação à manuscrito, onde podia-se ler rápidos detalhes sobre sua execução.
"Vocês só podem estar brincando comigo..." Peter não sabia se conseguiria pensar mais do que isso. Sua boca ficou seca, não sabia como reagir àquela informação. Mas algo o despertou: Se aquilo fosse realmente verdade, qual era o significado dos pontos verdes? Verificou todas as fichas e viu que apenas três estavam vazias; Haviam sido retiradas do local.
Não podia simplesmente aceitar o fato de que sua mãe, uma bruxa, teria sido executada naquele mesmo lugar. Esforçou-se para manter a calma e raciocinar.
A AMCB era extremamente organizada. Papéis não poderiam ser retirados tão facilmente de suas devidas gavetas. Exceto, é claro, se os mesmos estivessem sendo preenchidos ou estudados mais detalhadamente. Foi então que uma ideia louca lhe ocorreu e Peter saiu do quarto de pontos vermelhos, caminhando direto para o elevador. Agora, sentia raiva.
"Suponhamos que eu esteja muito interessado nessas três pessoas. E eu posso retirar documentos importantes como esses à qualquer hora... Tenho permissão para qualquer coisa...Ou melhor." -Corrigiu-se em meio a pensamentos. ".Eu não preciso de permissão... Eu sou o chefe".
Arriscando a sorte, dirigiu-se ao último andar do prédio, onde provavelmente encontraria a sala do chefe da Associação. Escondeu-se de algumas pessoas que caminhavam pelo local, o que lhe irritou por precisar tomar tanto cuidado; Se bem que algo estava estranho... Como ainda não o haviam encontrado? Decidiu não pensar e apenas aproveitar a oportunidade.
A última porta do último andar era a mais bem apresentada. Tinha detalhes e um tapete de entrada vermelho, diferente das outras, contudo, estava trancada. Mas isso não era um problema.
Retirou uma espécie de fio metálico que sempre carregava em seu bolso e usou-o como uma chave improvisada (nem sempre havia um zelador amigável que podia literalmente abrir portas para Peter quando ele estivesse afim de matar algumas aulas, então, precisou aprender a se virar sozinho).
A sala era sofisticada, contudo, a mesa estava repleta de folhas espalhadas e foi no meio da bagunça, que Peter encontrou o que procurava: As tão esperadas "fichas verdes" e a "ficha com interrogação".
Pegou a ficha com o ponto de interrogação primeiro. A imagem lhe era ainda mais familiar. Infelizmente, precisava encarar aquela mesma expressão toda vez em que olhava para um espelho. Peter estava sendo investigado pela estranha sociedade secreta e em sua ficha constava que o mesmo poderia ser um bruxo, porém, nada confirmado.
O garoto rasgou o papel o máximo que pode e jogou furiosamente o que sobrara no lixo.
Apanhou a próxima ficha, esta possuía um círculo verde ao lado de seu número de registro. Freddie Chevalier; Executado. Peter rasgou-a também.
Última ficha. Por algum motivo, ele tinha medo do que iria descobrir. Sem enrolar por muito mais tempo, abriu e leu: Isaac Chevalier. No final, as palavras "Em andamento" haviam sido escritas à lápis, então ele notou algo que ainda não havia reparado na confusa mesa: Um carimbo com a palavra "Executado" estava pronto para ser usado.
Foi então que os pensamentos do jovem o levaram à uma conclusão que ele não desejava ter encontrado. Agora Peter sabia o que o verde significava para a AMCB: Traidor.
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