Aquilo não podia estar certo. Primeiro, Peter encontrara documentos de uma importante empresa afirmando que sua mãe era uma bruxa e que a mesma havia sido executada no próprio lugar; Depois, descobrira que seu pai havia sido executado por traição e que o próximo seria seu avô.

"Não é possível..." Pensava. "Uma empresa tão séria como esta... Não pode estar simplesmente brincando com coisas desse tipo".

Gostaria de continuar pensando, mesmo que aquela sala lhe causava arrepios. Além do mais, já estava ali há muito tempo.

Conferiu se não havia ninguém no corredor em que estava e, percebendo que não havia ninguém, saiu. Entretanto, antes que pudesse alcançar o elevador, uma gélida mão agarrou seu ombro direito, fazendo-o virar rapidamente:

—O que você está fazendo? Precisamos sair daqui; Agora! -Seu avô o puxou em direção às escadas, que costumavam ficar abandonadas. -Não é seguro irmos por lá.

—Vô, o que está acontecendo? -Peter descia as escadas rapidamente.

—Não tem como explicar agora. -Isaac começava a ficar sem ar. -Foi muito arriscado entrar na área de segurança para desligar todas as câmeras quando soube que você estava aqui e... Céus! Eu já não tenho mais idade para esse tipo de coisa.

O garoto acharia engraçado, mas esse não era o momento. Parou em um degrau quando ouviu passos vindos por trás de uma porta. Tudo o que podiam fazer era silêncio absoluto. Quando tudo se acalmou e estava aparentemente tranquilo, Isaac sentou-se em um degrau para descansar e Peter resolveu fazer o mesmo.

—Sabe, eu estava pensando... -Disse o mais jovem, quebrando o silêncio. -Aquela conversa realmente não era sobre drogas ou barulho, era?

O velho suspirou. Não era a melhor hora e muito menos o melhor local, mas já era impossível que as coisas fossem mais adiadas.

—Não. -Respondeu ele. -Não era sobre drogas.

—Eu vi a minha mãe. Ela estava em um arquivo, assim como o papai e... O senhor.

—Eles estão me procurando por toda parte. É impossível fugir.

—Não, não é! Esses caras são completamente malucos, mas nós podemos escapar. Eu só não consigo entender... -Ele hesitou.

—Sim, Peter. Você é um bruxo.

O garoto calou-se por alguns segundos.

—Não faz sentido. Estamos em alguma espécie de conto de fadas?

—Não sou a melhor pessoa para explicar isso. Na verdade, nunca compreendi bem e nem me preocupei em entender. A única coisa que eu sei, é que você é especial; E não digo isso apenas por ser meu neto ou coisa do tipo.

Alguns passos foram ouvidos novamente.

—Precisamos sair daqui. -Afirmou Peter.

—Se descermos um poucos mais, chegaremos ao pátio subterrâneo. Podemos encontrar outra saída por lá, porém...

—Porém...?

—Não é um lugar muito agradável.

Peter e Isaac caminharam sorrateiramente pelo pátio, que estava vazio por não ter nenhum evento especial naquele momento. Sentiam calafrios. Aquele era o lugar em que Helena, Freddie e outras pessoas haviam sido cruelmente executadas sem que os cidadãos comuns ao menos desconfiassem. Seguindo em frente, o lugar parecia um labirinto, contudo, conseguiram encontrar uma saída e chegaram em casa sãos e salvos.

—Sei que vai ser difícil, mas precisamos tentar dormir. -Disse Isaac. -Arrume suas coisas, vou ver se conseguimos ir embora amanhã.

Peter não demonstrava qualquer emoção. Sentou-se no sofá da sala e lá permaneceu imóvel o tempo todo. O avô colocou a mão carinhosamente em seu ombro:

—Talvez devesse ler os livros que ela deixou.

☼ ☼ ☼

No dia seguinte, tudo estava preparado: Malas e mochilas arrumadas. Isaac planejava mudar de estado, contudo, não conseguiria nada em tão pouco tempo, então a única opção que lhe restava era ir para a casa que herdara de sua família, em uma cidade próxima. Antes, pensava em alugá-la, contudo, havia problemas com mofo que acabavam incomodando qualquer inquilino. Peter não ligava para o mofo, em muitas escolas precisou sentar-se nos cantos mofados para almoçar, já que geralmente não era aceito nas mesas de outras pessoas. Já estava acostumado.

Pegou os livros de sua mãe e sentou-se no chão de seu quarto, entretanto, não leu nenhuma palavra. Apenas folheava as amareladas páginas dos objetos antigos e empoeirados. De repente, sua mente viajou para outros lugares. Pensou na AMCB e em como o estavam loucos por sua cabeça em uma bandeja, talvez até com uma maçã em sua boca, apenas para se divertirem antes de queimá-lo. Pensar na morte de sua mãe, pai e a que poderia estar a caminho (de seu avô) fez com que ele sentisse medo.

Enquanto isso, algo estranho aconteceu: Anna Saeger. Esse nome aparecera em meio aos seus tristes e perturbadores pensamentos. O que aquilo significava? Quem diabos era Anna Saeger? Talvez os vestígios de bruxaria realmente estivessem brotando em si.

Peter ouviu passos aproximando-se cada vez mais. Enquanto a maçaneta ameaçava girar, a ansiedade e também o medo tomavam conta do rapaz.

—Precisamos ir. — Isaac Chevalier, seu avô, abriu a porta do quarto onde o bruxo de cachecol verde estava. O senhor de cabelos embranquecidos parecia mais preocupado que o normal. — Eles sabem onde você está.

☼ ☼ ☼

Peter e o avô caminhavam em direção à rodoviária, precisavam sair da cidade o mais rápido possível. O garoto levava consigo apenas uma mochila e a guitarra em suas costas, carregando três livros sobre bruxaria em suas mãos. Isaac levava uma mochila e uma mala preta.

Nesse momento, membros da AMCB provavelmente já planejavam invadir a casa, tomando conta de todos os demais objetos que eles haviam deixado por lá devido a pressa. Por sorte, os dois não eram muito materialistas.

Dobraram uma esquina e logo puderam observar a rodoviária. Contudo, Isaac percebera que o plano havia dado errado.

—Espere. -Parou, analisando o lugar. -Aquelas pessoas... Não podemos ir para lá.

Peter entendeu a mensagem. Seus perseguidores já haviam considerado uma possível fuga. Provavelmente também estavam no aeroporto mais próximo.

—O que vamos fazer agora? -Perguntou Peter. -Não podemos ficar aqui.

Infelizmente, já era tarde demais. Haviam cometido o terrível erro de que algumas das pessoas reunidas na rodoviária os vissem. Estavam um tanto longe, mas era possível reconhecer que se tratava dos fugitivos.

O mais velho olhou para o lado e depois para o neto. Há algumas ruas de distância estava a floresta. Peter entendeu o recado e assim, deram início ao plano B improvisado.

Peter correu, mesmo sendo complicado com tantas coisas para levar consigo. As vezes, diminuía o ritmo para que o avô pudesse alcançá-lo. Para o azar da dupla, os integrantes da AMCB também resolveram apostar uma corrida.

Enfrentaram a difícil subida de terra até alcançarem as primeiras árvores da floresta e decidiram se separar. Se tudo ocorresse como o planejado, logo estariam juntos de novo, do outro lado do bosque.

—Peter. -Isaac chamou o neto e o abraçou.

Peter bateu levemente nas costas do avô e olhou em direção aos seus caridosos olhos. Apesar de tudo, ele parecia ter orgulho do neto. Logo depois, o mais velho o empurrou para que o garoto voltasse a correr, apressando-o.

Peter não olhou para trás, mas Isaac sim. A associação estava chegando e ele sabia disso. Sabia também que não conseguiria fugir por muito mais tempo, mas estava satisfeito com o que havia planejado. Não havia muitas pessoas perseguindo-os, enxergava apenas três. Se pudesse ter toda a atenção deles voltada para si, Peter poderia fugir.

Caminhou em direção à floresta, sem pressa. Consequentemente, logo o alcançaram, agarrando seus braços e derrubando sua mochila.

—Você vem conosco. -Disse-lhe um deles, que estava a sua frente enquanto os outros dois impediam-no de fugir.

Isaac lutou para se libertar, mas sem sucesso.

—Ainda falta o garoto. -Acrescentou outro.

—Eu vou procurar por ele.

—Não! -Gritou Isaac.

—Eu vou com ele, afinal, aquele garoto é um bruxo!

—Tudo bem. -Concordou o terceiro. -Eu posso cuidar desse aqui sozinho.

—Vocês nunca vão encontrá-lo! -Isaac fazia grande esforço, contudo, nada adiantava. -Ele já está muito longe daqui.

—É o que veremos.

O velho observou os dois homens partindo enquanto sentia uma irritante dor em seu pescoço. A visão tornou-se turva e escura antes que o mesmo apagasse completamente.

☼ ☼ ☼

Peter nunca correra tanto em toda sua vida. Parou para descansar por um minuto, mas não podia se dar ao luxo de ficar parado naquele momento.

As árvores da floresta eram muito altas e ele podia ouvir o som de alguns passarinhos nos mais distantes galhos acima de sua cabeça e precisou espantar alguns insetos que voavam ao redor de seu rosto. Não sabia ao certo por quanto tempo teria que caminhar, então diminuiu o ritmo para não precisar parar tantas vezes para recuperar seu fôlego.

Era tudo repentino e estranho demais: Sua mãe estava morta, seu avô em perigo e o garoto não era nada mais nada menos do que um bruxo. Mas, se isso era verdade, então onde estavam seus poderes?

Concentrou-se. Já havia visto em filmes que bruxos moviam objetos, criavam e controlavam coisas, assim como as faziam desaparecer. Tentou imaginar um pedaço de bolo de chocolate, quem sabe assim ele apareceria em sua frente. Infelizmente, isso não aconteceu. Decidiu então pensar em algo mais simples: Uma folha amarelada; Não adiantou, todas as folhas que estavam perto de si eram verdes. Também não conseguiu fazer com que nada desaparecesse e muito menos se tele transportar. Pegou um graveto que estava no chão para usar como varinha (talvez esse fosse o problema), mas nada mudou.

—Que tipo de bruxo é esse? -Sussurrou.

Peter caminhava distraidamente cada vez mais para dentro da floresta, até que ouviu algumas vozes, o que o assustou; Contudo, algo aconteceu: Sem ao menos perceber, desequilibrou-se e escorregou para o lado, onde seus pés não encontraram um chão para apoiar. Derrubou todos os livros que carregava, rasgando as páginas de um, que foram parar comicamente em seu rosto, cegando-o. Com as mãos livres, segurou uma rocha para não cair e conseguiu tirar, usando a boca, o papel que havia grudado em seu rosto. Finalmente, parou para analisar a atual situação: Estava em um abismo.

O rapaz estava fora de forma e não sabia se conseguiria manter-se ali por muito tempo (principalmente com o peso da guitarra e da mochila para dificultar). Suas mãos estavam machucadas e doíam. Queria muito soltar, mas a queda não parecia algo agradável.

—Você é maluco? -Uma voz perguntou do alto do abismo, mas Peter não podia ver de quem era. -Volte pra cá, tem um penhasco aí.

—Só estava checando se ele não está por aqui.

—Nós já andamos por muito tempo e não há nem sinal daquele demônio. Vamos embora daqui.

O barulho de passos foi diminuindo até desaparecer. Mesmo com o medo e o cansaço, o jovem respirou fundo e juntou todas as forças que lhe restaram, apoiando os pés em qualquer lugar firme que conseguia. Escorregava um pouco, mas após grande esforço, conseguiu subir de volta à floresta. Por sorte, não havia ninguém o esperando.

Sentou-se no chão e retirou o papel que ainda estava em sua boca, amassando-o e enfiando-o no bolço da calça. Pretendia chegar á outra cidade antes do cair da noite. Bebeu pelo menos metade da água que estava na garrafa dentro de sua mochila. Tinha um longo caminho a percorrer.

☼ ☼ ☼

Isaac acordou em um lugar diferente. Estava vestido com uma túnica cor de vinho e fora levado para uma das prisões da AMCB: Um lugar frio, vazio e depressivo. Poderia facilmente ficar desesperado, mas não o fez. Já aceitara seu destino, contanto que tudo estivesse bem com o neto. Acreditava fielmente que o garoto estava bem.

Algum tempo depois, a porta abriu-se e um homem velho com barba entrou.

—Está atrasado. -Disse Jorah. -Isso era para ter terminado ontem à noite.

Isaac não respondeu, então, o outro continuou.

—Não sei ao certo como você e o demônio em forma de garoto conseguiram escapar, mas isso nunca mais irá se repetir. Iremos encontrá-lo logo, Isaac Chevalier. Ele é o próximo e terá o mesmo fim que sua mãe.

—Isso não é certo. Vocês não podem matar essas pessoas! Se parassem ao menos um instante e procurassem conhecê-las de verdade, veriam que elas não são tão más. Vocês destruíram e continuam destruindo a vida de milhares de pessoas!

—Você foi corrompido, Chevalier! Alienado por aquela maldita bruxa que amaldiçoou a cabeça do seu filho e fez o mesmo com você.

—Se eu quis ficar ao lado de uma bruxa, foi por escolha própria! Ela nunca fez mal á ninguém.

Jorah se aproximou. Seu olhar estava intimidador, assim como sua voz, que não precisava estar muito alta para causar medo.

—Aquela mulher, assim como todas as outras bruxas da história, mataram incontáveis números de pessoas. Acabavam com as pobres almas de inocentes, fazendo pactos satânicos. Maldito seja este século, onde precisamos nos esconder e trabalhar de forma ilegal para exterminar essas pestes.

—Oh, claro. É verdade que antigamente vocês podiam fazer o que quisessem com as pobres bruxas. Mas eu já me esqueci, qual foi o número de inocentes que morreram após tanto tempo de tortura apenas por levantarem suspeitas. Se era pobre? Bruxa! Rica? Bruxa! Velha demais? Bruxa! Magra demais? Bruxa! Pecou? Bruxa!

—Isso está fora de questão! Nós não somos mais desse jeito.

—Mas aposto que fariam tudo de novo se fosse possível.

Jorah não respondeu. Saiu do quarto e deu novas ordens aos outros homens que aguardavam do lado de fora. A execução iria começar.

Logo, Isaac já estava em uma espécie de palco de madeira, no pátio subterrâneo do prédio. Enquanto uma corda era colocada em volta de seu pescoço, pensava em sua família. Primeiro, pensou em Peter; Ele estava bem, tinha certeza que sim. Depois, pensou em como Freddie e Helena eram tão felizes juntos. Acreditava que os dois já haviam se encontrado e estavam sorrindo um ao lado do outro, esperando por ele. Seus olhos se umedeceram ao lembrar-se de Esther. Ela também deveria estar exibindo aquele belo sorriso pelo qual nem a maior quantia de dinheiro do mundo poderia pagar. Ele estava ansioso para vê-la novamente.

Então, uma alavanca foi puxada e o chão abaixo de seus pés abriu-se.

Mais tarde, um carimbo foi usado em uma ficha com um círculo verde, antes que a mesma fosse arquivada. Nela, algumas palavras se destacavam: Isaac Chevalier; Traidor; Executado.

Notas finais
ESPEREM, NÃO ME MATEM AINDA Agora vai finalmente terminar essa temporada de mortes... É sério... Até o próximo capítulo o/