Hipnotizados
10 Profecia em chamas
Estava quase na hora do almoço quando o jovem finalmente acordou. O desmaio após sentir que sua cabeça iria explodir em um milhão de pedaços o deixou um pouco atordoado. Talvez tivesse batido a cabeça no chão quando caiu, mas de qualquer maneira, estava melhor que no momento em que leu o velho texto da Idade Média usado na captura de bruxas para que elas pudessem ser levadas à fogueira esquanto estivessem desacordadas.
Assustado, levantou-se, lembrando que tinha uma chave para devolver. Uma sensação estranha lhe preencheu quando o rapaz pegou o livro na intemção de devolvê-lo à estante.☼ ☼ ☼Em casa, Peter pensou em contar o que acontecera para sua mãe, mas logo concluiu que ela lhe questionaria se havia usado drogas. Por um momento, também duvidou dessa hipótese. Talvez o stress pela escola, Robert, etc, estivesse lhe causando delírios. Por um momento, imaginou-se em uma camisa de força em um sanatório. E realmente começou a levar essa possibilidade a sério.Algo estranho estava acontecendo. Pensou ser apenas coisa de sua cabeça, mas parecia estar realmente ouvindo vozes. Uma espécie de sussurros indecifráveis que pareciam chamá-lo. Estava quase caminhando para encontrá-los quando uma voz fez tudo voltar ao normal:—O jantar está pronto. –Isaac secava as mãos em suas prórpias roupas, havia acabado de cozinhar.– Um pouco atrasado, mas garanto que não ficou tão mal. Pensei que sua mãe iria cozinhar hoje, onde ela está?—Eu não sei. –Respondeu o garoto. –Provavelmente foi à procura de materiais para os artesanatos.—Mas ela avisaria antes, certo?—Ela não falou com você?—Não. –O medo atingiu Isaac. Nunca era cedo demais para pensar no pior.—Isso é estranho... –Peter estava desconfiado. –Ela nunca deixaria de nos avisar.Peter sabia que sua mãe não gostava muito de usar telefones, mas mesmo assim insistiu em ligar para ela. Ninguém atendeu.—O jantar já está na mesa. –Seu avô foi em direção à porta para a rua. –Eu volto já, vou ver se a encontro.—Eu também vou. –Decidiu o jovem.—Não se preocupe com isso, voltarei em pouco tempo, não vai demorar nada.Antes que seu avô saísse, Peter lhe assegurou de que o informaria caso a mãe o respondesse.☼ ☼ ☼Isaac não gostava de ficar parado em casa. Apesar de frequentes visitas à AMCB para garantir que sua família estava protegida, insistiu em trabalhar, mesmo já possuindo idade o bastante para livrar-se dessa tarefa. Escolheu uma simples lanchonete para passar o tempo.Sabendo disso, Helena decidiu procurá-lo para contar-lhe sobre a estranha carta que recebera. Se estivesse com sorte, chegaria ao local exatamente no horário de almoço.Quando chegou lá, havia apenas uma pessoa trabalhando. Provavelmente chegara na hora certa.—Olá. – Ela cumprimentou um funcionário do local. Não havia encontrado o avô de Peter. –O Isaac está aqui?—Olá, seja Bem-Vinda! Oh, ele sempre sai na hora do almoço. Hoje não foi diferente... –Ele parou por um breve momento e a estudou. –Você me parece familiar... Já nos conhecemos?—Acredito que não. Bem, talvez o senhor já tenha comprado algum artesanato meu. –Sorriu levemente.—Sim, artesanato... –A expressão de desconfiança e a frase falada lentamente fizeram Helena pensar se havia dito algo errado. Ele continuou. –Bem, tem algo que possa fazer por você?—Eu precisava apenas conversar com ele, mas obrigada pela compreensão.Helena estava com a carta de sua avó nas mãos e o homem à sua frente, percebendo isso, se ofereceu para ajudá-la:—Posso entregar um bilhete a ele quando chegar e... –Retirou apressadamente seu celular do bolso. –Só um minuto, por favor.Antes que a mulher pudesse fazer algo, ele já havia tomado o papel de suas mãos, de modo que a pegasse de surpresa e dirigiu-se para a cozinha do lugar:—Não se preocupe, avisarei a ele que esteve aqui.Após minutos de espera, o funcionário já estava de volta e nenhum sinal de Isaac, afinal, o horário de almoço ainda não havia terminado.—Por favor, poderia me devolver o papel? –Tentava manter a calma apesar de desejar arrancar-lhe o envelope das mãos e sair correndo. –Não é para Isaac. Eu preciso que me devolva. —Fique tranquila, eu irei falar com ele. –Ele estava estranho. Parecia analisá-la detalhadamente.—Você não está entendendo... Eu preciso que me devolva! –Helena aproximou-se do homem, que estranhamente recuou, como se esperasse um ataque, deixando-a confusa.—Não se mexa, mocinha.Foi então que Helena percebeu que ele havia mudado sua atenção, agora olhando para algo atrás dela e alguma coisa escura cobriu sua visão.Tentou gritar e fugir, mas algumas pessoas estavam a segurando e logo, sentiu a dor de uma agulha entrando em sua pele, que parecia estar sugando-lhe a energia aos poucos e logo já estava inconsciente. Fora sequestrada.☼ ☼ ☼Helena não sabia quanto tempo se passara quando acordou. Apenas sabia que estava em uma sala bem iluminada e branca, onde correntes da mesma cor estavam presas à suas mãos, uma para a esquerda e a outra para a direita. Só não caia, pois as correntes a seguravam, mantendo-a de pé e estavam presas à partes altas da os paredes, de modo que ela não conseguisse sentar-se no chão.Uma porta abriu-se e dois homens entraram. Um deles Helena reconheceu: o funcionário da lanchonete. Ele aproximou-se e perguntou:
—Qual é sua ligação com Isaac?—...Isaac? –Helena estava confusa e muito cansada. As luzes a incomodavam. Eles haviam inserido algo que a deixava com a disposição de um zumbi.—Isaac Chevalier. O que me diz sobre ele? –Continuou.—Onde eu estou? O que vocês são?—Você não está ajudando. –Seu olhar agora dava medo. Ele apoximou-se de uma bandeja que só então Helena percebeu que estava lá. Nela, havia vários objetos nada agrdáveis. Eles poderiam fácilmente ser utilizados por médicos ou... Um Serial Killer.Antes que ele pudesse fazer bom uso de algum dos objetos, o outro homem o interrompeu. Ele parecia mais novo que o cara da lanchonete.—Espere. Jorah está na porta.Então, um senhor de barba castanha (embora já estivesse quase totalmente branca), entrou na sala. Não era alto, mas precisou abaixar-se para olhar Helena frente à frente, que só queria livrar-se das correntes.—O que vocês estão fazendo? –Perguntou ele.—Tentando retirar informações dela, senhor.Jorah o encarou, reprovando-o como se fosse seu aluno.—Não devemos dar espaço a ela... –Disse o velho. –Devemos matá-la.O coração de Helena disparou. Estava horrível, mas pelo menos conseguia entender o que os três falavam entre si.—Matá-la? –Questionou o mais novo. –Mas o próprio Richard havia dito que precisamos estudar o máximo possível quando uma oportunidade aparece e...—Richard? –O velho o interroumpeu friamente. –E por acaso ele é meu superior? Richard só manda enquanto eu estou em outras sedes da AMCB, garantindo que todos estejam fazendo um bom trabalho. –Ele pensou um pouco e continuou. –Richard é um tolo! Eu já havia explicado há muito tempo: Se você encontra uma bruxa, mate-a imediatamente! –O senhor quase gritava. —Ele só quer evitar chamar muita atenção, para o nosso próprio bem... Mas, enfim, e quanto as informações sobre Isaac que essa bruxa possui?—Oh, sim... Isaac... -Jorah falava devagar, como se analisasse o avô de Peter. –Já mandei investigarem-no. Embora seja claramente visível que exista uma relação entre ele e esta bruxa.A sala ficou em silêncio, mesmo que os batimentos cardíacos de Helena fossem tão vorazes que ela acreditava que todos pudessem ouvi-los. Sentia vontade de chorar. Jorah continuou:—Em uma hora todos estarão reunidos no pátio subterrâneo. Vocês já sabem o que fazer. Chamem alguém, caso precisem de ajuda. –Ele já estava de saída quando se lembrou de algo. –Ah, aproveitem para queimar as outras duas também. Não é necessário dezenas de provas para se exterminar uma acusada de bruxaria.☼ ☼ ☼Helena não podia deixar de pensar em seu filho. Queria voltar para sua família, nem que fosse para vê-los apenas uma última vez. Desejava lutar, mas estava fraca demais. Aquelas pessoas não brincavam em serviço.Uma multidão constituída por homens e mulheres de idades variadas, usando capas cor de vinho a observavam enquanto era levada por dois homens. Sentiu suas costas baterem em uma espécie de poste de madeira, onde foi amarrada. Estava entre outros dois postes de madeira, mas não conseguia virar-se para observar quem mais, além dela, fora condenado(a) à fogueira esta noite.Agora seus pensamentos voltaram-se para Freddie. Será que ele também pensou nela momentos antes de morrer? Provavelmente por culpa dessas mesmas pessoas, que agora a encaravam, esperando pelo “grand finale” do terrível show. Será que ela encontraria seu tão amado Fred quando tudo estivesse finalmente terminado? Se pelo menos isso ocorresse, como esperava, então morreria feliz.Táboas e troncos foram colocados à sua volta. Alguns minutos depois, o fogo fora aceso.As chamas eram rápidas e alcançaram Helena e as pobres bruxas sem nenhuma misericórdia e, assim como fez com tantas outras mulheres em tempos mais antigos, consumiu suas roupas e logo após, seu corpo. Algumas pessoas eram sensíveis quanto aos gritos, que eram, de fato, perturbadores. Mas o fogo não estava satisfeito e logo, sua alma já não mais se manifestava por ali.A carta com a profecia de sua avó havia sido deixada em sua bolso, tendo suas letras totalmente destruídas pelas impiedosas chamas.Helena foi queimada, assim como sua prima Sophie e sua irmã Clarisse, que havia finalmente descoberto a utilidade de seus poderes: Ela possuía a habilidade de cura, porém, apenas para si mesma. Havia ficado presa durante todos esses anos, sendo vítima de tamanha crueldade; Entretanto, sempre acabava se curando e por este motivo viveu por tanto tempo naquele lugar infernal. Nunca havia dito nada sobre a irmã e sua família, mas acabava sendo obrigada a escutar conversas em que o assunto era a investigação de possíveis bruxas da região, onde Helena aparecia.Essas investigações concluíram que Sophie tinha ligação com Helena e acabaram descobrindo o grau de parentesco entre as três. O sobrenome Landon (o qual todas as bruxas de sua família possuíam) agora era sinônimo de bruxaria, o que preocupava Clarisse, contudo, ela já não podia fazer mais nada. Sophie estava fraca e com uma péssima aparência, mas nada que pudesse ser compararo à sua prima Clarisse: Os cruéis anos haviam lhe desnutrido e sujado. Parecia anos mais velha do que realmente era.Contudo, Jorah ainda não estava totalmente satisfeito. Na manhã seguinte iria procurar por Isaac.
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