Hipnotizados
7 Pais e filhos
Notas iniciais
O frio da noite atravessava as gélidas paredes do quarto onde Freddie estava, no prédio da Associação Mundial Contras as Bruxas.
Podia sentir a morte sentando-se ao seu lado, no chão, como se ela estivesse tentando fazê-lo aceitar seu destino... Tentando ser sua mais nova e compreensiva amiga.
Fred se encolhia, tudo o que pensava era em como poderia deixar para trás Helena, a criança que a mesma carregava e também em seu pai, que ficaria sozinho. Alisou seus cabelos, procurando uma saída para tudo aquilo, que desejava se passar de um bobo e melancólico sonho.
“Amanhã eu irei acordar” Pensava ele. “E vou rir de tudo isso ao lado de meu pai e de Helena, contando que tive um pesadelo horrível”.
De repente, um barulho é ouvido próximo ao quarto onde ele estava. Era uma voz familiar.
–Eu quero ver o meu filho! –Seu pai gritava. –E vou leva-lo para casa comigo! Vocês não podem fazer algo assim!
Freddie correu para a porta, tentando olhar o que estava acontecendo pelo quadrado transparente da porta, parecido com uma pequena janela, por onde os membros da AMCB pudessem observar seus prisioneiros.
–Eu já conversei com o senhor sobre isso! –Essa voz com certeza pertencia a Richard. –Estivemos observando o seu filho de perto, desde uma pequena confusão no centro da cidade. Parece que a amiguinha dele mora exatamente no mesmo local em que vimos ao vivo a magia que matou sua amada esposa, perdemos um dos nossos para a mesma bruxa! Além disso, foi de lá que sequestramos aquela garota.
–Eu tenho certeza de que ele nunca os prejudicaria, sempre foi um bom garoto! –O homem agarrou o colarinho de Richard.
–Eu disse para desistir, Isaac! –Retirando as mãos do senhor, que estavam agarradas à suas roupas, Richard empurrou o mais velho, fazendo-o cair no chão e depois abaixou seu tom de voz. –Regras são regras. Não há nada que o senhor possa fazer.
Assistindo aquilo, Fred não pode se conter.
–Deixem o meu pai em paz! –Gritou ele.
–Oh, Fred. –Richard ficou parado enquanto um dos homens que o acompanhavam abriu a porta do quarto onde o suposto traidor estava. –Eu vim lhe trazer isso. –Entregou-lhe sua túnica cor de vinho. –Nos vemos amanhã.
–Freddie... –Seu pai estava se levantando. –Não posso deixar que eles façam isso.
–Já pedi para que não insista, Sr. Chevalier. É realmente muito difícil para mim, já que estou tentando ao menos defendê-lo. Como pai de um traidor, muitos estão querendo condená-lo também e eu já fui mal visto apenas por tentar diminuir as tragédias entre nós.
–Pai. –Fred o observava com tristeza em seus olhos. –Por favor, não se machuque mais por minha culpa.
Ao ouvir isso, Isaac precisou abraçar seu filho. Um abraço forte e caloroso, daquele que, se pudéssemos, nunca mais deixaríamos a pessoa em questão fugir. Um último abraço.
–Cuide dela para mim. –Sussurrou enquanto estava nos braços do pai. –Por favor, cuide dela e também do meu filho.
Antes que pudesse obter qualquer resposta, o rapaz foi separado e empurrado de volta para o obscuro vazio, onde podia sentir a presença da morte o esperando, então sentou-se de volta ao lado da obscura e indesejada companhia, no mesmo lugar de antes. Nas mãos, segurava a túnica com uma chama. Contornou o pequeno desenho costurado com seu dedo indicador e lembrou-se das histórias que ouvira: Milhares de bruxas sendo queimadas por serem pecadoras e cruéis, precisando de pactos para conseguir seus poderes. Helena explicara que não era bem assim, elas eram na verdade curandeiras e por isso os demais acreditavam que estavam se opondo ao Deus em que eram tão fiéis, pois nada poderia interromper o destino que ele opusera tanto aos doentes quanto aos sadios.
Achou engraçado, pois todos os seus colegas que cursavam medicina na mesma faculdade que ele também poderiam ser considerados certos tipos de bruxo.
Algumas bruxas certamente se aproveitavam da situação para ganharem ainda mais poder e se tornarem as tão conhecidas vilãs dos contos de fadas, como conhecemos hoje em dia. Helena nunca seria alguém como elas. Disso ele poderia ter certeza.
[Flashback Onn]
Fred, por muito tempo, fora o mais novo de sua sala na escola, motivo esse que o fazia se tornar uma possível vitima para os ataques dos garotos mais velhos, entretanto, ele nunca deixou que isso afetasse suas notas.
–Ei, Chev! -Um garoto grande e forte para a sua idade aproximou-se na hora da saída, quando restavam apenas alguns alunos na escola. Diziam que ele havia repetido de série, mas ninguém nunca havia ouvido o próprio menino confessar. — Você vai me passar aquela resposta que eu pedi, não é?
–...Chev?
–Seu sobrenome, gênio.
–Meu sobrenome é Chevalier... Bem, eu preciso ir embora agora. Mas não se preocupe, eu sei que você consegue encontrar as respostas sozinho. Eu acredito em você. -Ironizou ele.
Como o garoto ainda não entendia muito bem como funcionava a ironia e o sarcasmo, demorou um pouco para entender. Sua mente apenas compreendeu o que havia acontecido quando seus dois colegas deixaram escapar risos baixos.
–você ta zombando de mim?! -Enquanto uma de suas mãos carregava seu material escolar, a outra agarrou a gola de Fred, levantando o garoto para que ele olhasse direto em seus olhos. -Você é mesmo um sem noção. Não sabe o que eu posso fazer com um fraco como você aqui e agora?
–Você não vai fazer nada.
Fred sentiu sua camisa sendo ainda mais puxada com o comentário.
–Me chamou de mentiroso? Acha que eu vou deixar você sair agora?
–Viu? Você percebe as coisas rápido. -Sorriu. O garoto maior desejava que Fred olhasse em seus olhos e conseguiu o que queria.
Fred sempre observava todos ao seu redor. Tanta atenção concedeu-lhe o dom se saber exatamente o que muitas pessoas pensavam apenas observando seu comportamento. Por enquanto, Conseguia entender o que os valentões e o que algumas garotas pensavam apenas juntando os fatos, como um quebra cabeça.
–Você não acredita que pode conseguir algo, já que todos sempre duvidaram disso. Como ninguém te ajuda, você prefere simplesmente deixar isso de lado e então, quando é obrigado a fazer alguma coisa, vai pela opção mais fácil. No caso, seria copiar a as respostas de alguém ao invés de tentar encontrá-las por conta própria.
–Você... — Ele estava com raiva, mas não deixava de encarar os escuros olhos do garoto mais novo, que pareciam estuda-lo.
–Estou errado?
Depois de certo tempo em silêncio, Fred sentiu seus pés voltarem a tocar completamente o chão e ficou aliviado ao sentir sua gola solta novamente, mesmo que estivesse amassada.
–Escuta, eu não vou perder o meu tempo com um inútil como você. Tenho mais coisas para fazer.
O gélido vento da tarde os alcançou, fazendo com que todos se encolhessem.
–Aliás, — Continuou o maior, depois de observar o jovem menino. -Bonito casaco. -Entendendo o recado, os outros dois que acompanhavam o mais velho arrancaram o agasalho de Fred, que não pode fazer nada para impedir.
–A gente se vê por aí, Chev.
Chevalier– Corrigiu ele, mentalmente.
No fundo, Fred sabia que o garoto usava aquilo para fingir-se de forte e corajoso, no entanto, a criança não podia deixar de se magoar, pensando que talvez ele realmente fosse o problema. Muitas pessoas não gostavam de Freddie simplesmente pelo fato de o garoto ser o mais inteligente nas matérias que estudava. Ele sempre se sentia deslocado por ser o mais novo e observava seus "colegas" para tentar entender o motivo de o menosprezarem.
Chegando em casa, sua mãe foi encontra-lo, como de costume.
–Olá Fred! Como foi o dia na escola?
–Legal. -respondeu ele, pensativo.
Esther ficou séria, observando seu filho. O conhecia muito bem e não iria fingir que não havia percebido a mudança de humor do garoto.
–Tem certeza?
Fred demorou um pouco para responder.
–Claro. –Não havia emoção enquanto falava.
–Já falei que você é um péssimo mentiroso? -Sorriu.
–Bem, se me dá licença, eu vou ir pro meu quarto agora.
Fred já havia saído da sala e caminhava para seu quarto quando foi interrompido pela observação de sua mãe.
–Fred, você não levou um casaco para a escola hoje?
–... Eu tirei durante a aula de educação física e acabei esquecendo. –Ele parou no meio da casa, aguardando o que sua mãe iria dizer.
Esther ficou em silêncio por alguns instantes. O filho era cuidadoso com suas coisas e o fato do dia estar frio aumentava sua desconfiança.
–Espero que não tenha passado muito frio. -disse ela, por fim.
–Não se preocupe. -Ele voltou a andar.
Quando a tarde já estava acabando, Isaac chegou e foi conversar com sua esposa. Esther comentou que Fred não estava bem. Já fazia certo tempo que ambos estavam preocupados com o filho, pois mesmo tendo um bom desempenho nas matérias escolares, já voltara decepcionado para casa várias vezes.
–Eu vou falar com ele. -concluiu Isaac.
–Não, espere. -Interrompeu-o sua esposa. -Eu sei que você vai trabalhar logo cedo amanhã e precisa dormir... Bem, gostaria que você cuidasse da casa esta noite, antes de ir para cama. Pode fazer isso?
O marido assentiu.
–Eu vou passear com o Fred.
–Agora? Mas já está escuro.
–Não se preocupe. -Sorriu ela. -Não há horário melhor.
☾☾☾
–Mãe, -Freddie estava no banco de trás do carro enquanto sua mãe dirigia. Preferia ter ficado em seu quarto, mas não queria decepcionar Esther, que parecia muito animada para saírem de casa. –Para onde estamos indo? Já faz um tempo que estamos no carro.
–Estamos quase chegando. –Ao olhar pelo espelho retrovisor, ela pôde perceber que ele ainda estava desanimado, observando a escura paisagem pela janela. –Não se preocupe, eu sei que você vai gostar.
Alguns minutos depois, Esther parou o carro em um lugar longe da cidade, onde Fred nunca havia ido. Não havia iluminação, casas ou pessoas.
Quando Esther trouxe Fred para fora do automóvel, o garoto não conteve um sorriso. Nunca vira um céu tão bonito como o daquele lugar onde sua mãe o levara. Constelações, antes apagadas pelas luzes da cidade, podiam ser contempladas naquele local, em meio ao nada.
Esther não sabia o que brilhava mais: As estrelas ou os olhos maravilhados de seu filho. O garoto parecia viajar em seu subconsciente ao lado das mais incríveis e brilhantes constelações.
–Isso é... –Disse ele, encantado. –Muito bonito.
Esther estendeu um lençol, que trouxera em seu carro, no gramado e os dois apreciaram a bela paisagem comendo lanches que a mesma fizera. Conversaram sobre diversas coisas e Fred sabia que poderia contar-lhe o que quisesse, pois além de sua mãe, ela era a melhor amiga do garoto. A mulher também havia o incentivado a estudar cada vez mais o que gostasse e talvez por isso nunca tivesse pensado em parar de estudar, mesmo após tantas críticas dos alunos mais velhos.
Apesar de fascinado, o garoto não deixou de arrepiar-se pelo frio, logo seus dentes estariam se batendo pelo com o clima gélido. Esther logo compreendeu: O casaco que Fred perdera era seu favorito. O menino sequer se importou em procurar outro para substituí-lo.
Esther foi para o carro novamente. Infelizmente, tinha se esquecido de pegar um agasalho amais. Contudo, encontrou algo que havia comprado há pouco tempo e acabara deixando atrás de um dos bancos: Um cachecol verde. Não era o tecido mais quente do mundo, mas já aliviaria os incômodos arrepios do garoto.
O pequeno adormeceu nos braços da mãe, diante das mais variadas estrelas, de modo que ela precisasse carrega-lo de volta para o carro. No momento em que o fez, percebeu que seu garoto havia crescido incrivelmente rápido e já estava se tornando um homenzinho. Logo não poderia carrega-lo mais. Contudo, ficou orgulhosa ao pensar nisso.
No outro dia, Fred acordou lembrando-se de tudo o que ocorrera. Como havia sido uma sexta-feira, não precisava se preocupar com escola. Foi correndo para o quarto de seus pais, que ainda estavam acordando e contou animadamente tudo o que acontecera para seu pai, que assim que pudesse iria levar o garoto e sua mãe para observar as estrelas ao seu lado e passariam uma noite em família ao ar livre. Freddie ficou muito feliz com isso.
Passaram o dia juntos. Seu pai fazia questão de animar as conversas e com a ajuda da mulher, a tarde de sábado fora agradável e animada. Os dois formavam uma bela dupla e Fred era a parte do quebra-cabeça que os completava perfeitamente.
Isaac preparou o almoço e o jantar, enquanto Esther encomendou sobremesas para os três.
Aquela noite de sexta-feira, e a tarde de sábado, tornaram-se as melhores lembranças do garoto e ele sabia que poderia contar com sua mãe para qualquer situação que viesse, seja ela agradável ou nem tão boa assim; Afinal, ela o compreendia muito bem e era sua melhor amiga. Ficava feliz por ter uma mulher como ela para poder chamar de mãe.
[Flashback Off]
Fred sempre achou o ser humano uma coisa fantástica: Suas emoções; suas ações; tudo. Procurava entender como suas mentes funcionavam. Esse era um de seus passatempos favoritos.
Dormiu mais tranquilamente do que esperava. Nada de pesadelos ou sensações ruins. Na verdade, não se lembrava de qualquer sonho, apenas havia dormido. Então, quando o dia finalmente amanheceu, alguém bateu em sua porta avisando-o para se vestir como os antigos costumavam fazer em seus rituais.
Obedecendo quem quer que ali estivesse, vestiu sua túnica cor de vinho e esperou que viessem busca-lo.
Não precisava que ninguém o segurasse enquanto caminhava pelos corredores até chegar a um pátio subterrâneo. O lugar era muito maior do que ele imaginava.
Enquanto muitos membros da associação, vestidos com suas túnicas, assistiam. Ele foi levado à uma espécie de palco feito com madeira. E então o show começou.
Foi posicionado de frente a todos enquanto uma corda contornava seu pescoço, sendo ajustada. Richard pronunciou algumas frases, avisos, homenagens e coisas do tipo, no entanto que não lhe interessavam, visto que sua mente estava muito longe dali. Após o discurso, uma alavanca foi puxada e como num passe de mágica, o chão sob seus pés sumiu, fazendo-o cair. Infelizmente, a corda havia se apegado á Fred e o abraçou fortemente, implorando para que ele não caísse.
Por um momento ficou assustado, mas mesmo com todo o desconforto e a agonia, suas boas lembranças fizeram da ocasião um pouco melhor. A morte agora não parecia fria e assustadora. Ela chegou tranquilamente e o envolveu em seus braços, deixando tudo escuro e calmo.
Isaac estava no corredor que Fred usara para chegar até a forca e lágrimas escaparam de seus olhos quando anunciaram a morte do rapaz. Agora ele poderia ficar ao lado de sua mãe.
☼ ☼ ☼
Helena sentiu que poderia encher um lago com as lágrimas de derramava sobre Isaac. O homem havia a procurado para apoiá-la e estava decidido que ficaria com a garota, tomando conta dela e também de seu neto, como Fred desejara.
☼ ☼ ☼
Certo tempo depois, a família de Helena ainda lamentava a perda de Freddie, quando a mais velha pressentiu algo sobre a bruxa gravida.
No final do mesmo dia, a jovem sentiu fortes dores em seu corpo. A criança que aguardava pacientemente em seu ventre, agora estava prestes a nascer.
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