Hipnotizados

8 O garoto de cachecol verde


Notas iniciais
Pessoas! Que saudades de vocês! ♥ Primeiramente: Feliz Ano Novo! Eu sei que já faz um tempo que essa história não tem atualizações maas...Aqui estou eu! Como estou de férias, podem esperar por mais capítulos em breve ^^ Boa leitura o/

A tarde já se preparava para ser tomada pela escuridão e frio enquanto um pequeno garoto caminhava pelas tradicionais ruas da Inglaterra. Os raios solares, prestes a desaparecer, iluminavam um conjunto de artesanatos à venda sobre um simples balcão de madeira.

O menino de cabelos escuros caminhava cuidadosamente pela calçada, chutando uma pequena pedra que insistia em não parar muito longe de seus pés.

–Peter! –Um chamado despertou o pequeno, prendendo sua atenção. –Está na hora de ir, querido.

Abandonando a pedra que lhe fizera companhia por alguns momentos, Peter correu para onde sua mãe estava, levando consigo a mochila escolar deixada a calçada, mas que lhe pertencia.

–Não se esqueça da sua mochila! –Helena guardava os produtos que a mesma fizera para vendas.

–Já está comigo, mãe. –Avisou.

A mais velha sorriu. Era inevitável olhar para seu filho e não se lembrar de Freddie; O garoto era muito parecido com o pai: Olhos e cabelos escuros como a noite sem luar e a pele clara como as nuvens que passeavam pelo céu daquela tarde refrescante e confortável. Fred...

Muitos anos já haviam se passado desde o infeliz episódio. O garoto corria em direção à casa enquanto sua mãe se despedia da prima chamada Sophie, que vendia produtos caseiros junto de seus artesanatos.

–Peter! Diga tchau.

O garoto virou-se e se despediu da prima, que acenou sorrindo.

Chegando em casa, que não ficava muito longe dali, Peter fez seu dever de escolar, enquanto Helena preparava o jantar.

De repente, um “TOC TOC” foi ouvido. O avô de Peter acabava de voltar do mercado, trazendo algumas mercadorias consigo.

–Boa noite, Isaac! –Disse Helena, ainda prestando atenção na comida que logo estaria pronta.

–Boa noite, Helena. –Respondeu o senhor. –Espero que a hora do jantar não demore muito, este cheiro está maravilhoso!

Helena sorriu. Após a morte de Freddie, Isaac a convidou para morar em sua casa, junto com a criança que logo iria nascer. Procurando por mais conforto e segurança para seu filho, ela decidiu aceitar a oferta, deixando a casa próxima à floresta em que vivia. Suas familiares, à principio, não gostaram da notícia, mas ela já havia se decidido.

–Peter, -chamou o avô –Eu trouxe algo para você.

–O que é? –O garoto se aproximou, curioso.

–Só digo se ganhar um abraço antes.

Peter pulou nos braços de seu avô, que logo lhe ofereceu um doce.

–Doces antes do jantar? –Observou a cozinheira.

Percebendo a situação em que estava, Peter –que já havia colocado o doce em sua boca- subiu as escadas rapidamente, fugindo para seu quarto.

Isaac riu, se divertindo, enquanto a jovem suspirou, não conseguindo conter um leve sorriso.

–Pelo menos lembre-se de escovar os dentes! –Gritou, na esperança que o filho ouvisse.

☼ ☼ ☼

Após o jantar –Verduras cozinhas, carne e batata assada preparadas cuidadosamente e pudim para a sobremesa- assistiram um pouco de TV até que o sono chegasse. Helena arrumou os lençóis do filho enquanto o mesmo se preparava para dormir. Mesmo ainda na escola básica, Peter precisava descansar bastante para mais um dia de aula.

–Mãe! –Peter a chamou quando estava quase saindo do quarto.

–Sim? –Respondeu ela.

–Preciso ir mesmo à escola amanhã?

–Claro que sim, Peter! –Falou com tom óbvio, mas logo preocupou-se. –Algum problema?

–Não...Eu só não queria fazer as atividades.

A mulher de belos cabelos cacheados fez uma careta e se retirou, deixando Peter na completa escuridão do cômodo. Mais um dia de aula estava chegando.

☼ ☼ ☼

O próximo dia iniciara e, aos poucos, o sol aquecia a manhã que há pouco estava tão gélida e apagada.

Peter foi para a escola, mesmo sem muito entusiasmo para tal tarefa. Helena o deixou no prédio escolar antes de encontrar-se com sua prima Sophie para começarem a venda de produtos caseiros. Isaac já se aposentara, contudo, sempre passava o dia fora de casa. Gostava de manter-se ocupado.

Na escola, Peter sentou-se em seu lugar de costume, no fundo da sala.

–Bem, classe,-Disse a professora, após desejar bom dia à todos. –Hoje faremos trabalhos em grupo! Vou dividir a turma, mas não fiquem muito animados, os grupos não serão tão grandes.

Manifestações de tristeza foram ouvidos antes que a mulher pedisse silêncio, se divertindo com os alunos.

O pequeno garoto não estava acostumado à novas amizades, porém, achou que poderia tentar se enturmar com os colegas de grupo.

Alguns minutos depois, a classe já estava dividida em trios e os alunos já poderiam começar suas atividades.

–Bem. –Peter tentava conversar com seus prováveis novos amigos. –Nós podemos começar, vocês tem alguma ideia?

–Eu já sei. –O garoto de cabelos castanhos o “atropelou”. –Nós podemos escrever em uma cartolina com caneta colorida.

–Sim. –Peter sorriu, tentando fingir que não havia percebido a rispidez do colega.

–Mesmo com as canetas coloridas, ficará sem graça. –Disse a menina de seu grupo, esta com cabelos loiros e óculos. –Você não tem uma ideia melhor?

Ninguém se manifestou, então Peter decidiu expor sua ideia.

–Podemos desenhar.

–Desenhos! –Exclamou o outro garoto. –Podemos fazer alguns.

–E talvez até recortar imagens de revistas. –Peter ficou feliz por terem aceitado sua ideia.

–E vamos procurar algumas revistas.

–Gosto da ideia de Mark. – A garota ainda estava séria.

–...Minha ideia, não? –Peter não desfez seu sorriso, embora ele já não expressasse tanta felicidade.

–Certo. –Mark o ignorou. –Vamos terminar isso logo. Vou ler um pouco, me chamem se precisarem de alguma opinião.

–Preciso terminar um dever, volto logo. –Assim como Mark, a menina parecia desinteressada.

–Esperem! –Exclamou Peter, antes que os outros dois se levantassem de suas respectivas cadeiras. –O trabalho é em grupo, você vão ir embora?

–Achamos que você consegue se virar sozinho. –Disse Mark.

–Pelo menos para isso você serve, não? –Completou ela.

Peter ficou em silêncio, então Mark continuou.

–Quanta sorte temos em cair no mesmo grupo que você... –Ironizou.

–...Eu não entendo. –Peter realmente tinha suas dúvidas. –Qual é o problema?

–Por que alguém iria querer ficar no mesmo grupo que um perdedor, feito você? –Ela arrumou seus óculos ao perguntar.

–Ninguém quer ser seu amigo por aqui. Suas notas não se destacam e o que sua família é? Sua mãe é uma vendedora de artesanatos?

–Deve ter ratos em seu quarto. –Debochou a loira. –Como é encontrar insetos na sua cama? Uma barata deve ser a cozinheira da casa! –Riu.

–O que está fazendo aqui, Chevalier? –Perguntou Mark. –Você não é como nós.

Se pudesse, Peter teria se escondido em um buraco para fugir da humilhação. Se estivessem no gramado, talvez até cavasse um. Infelizmente, não estavam.

A dupla foi embora e sem mais opções, o garoto direcionou toda a sua atenção para os desenhos de seu trabalho, ainda sentindo-se mal.

–Oh, ele desenha bem! –Observou uma menina de outro grupo que estava perto de sua mesa. –É uma pena que tanto talento tenha caído na pessoa errada.

–Perda de tempo! –Disse outra. -Meus pais falaram que isso não paga as contas de ninguém.

Peter não sabia como reagir. Aquela não havia sido a primeira humilhação que sofrera. Muito menos a segunda. Sabia que sua mãe era uma boa pessoa e não entendia o motivo de ser tratado dessa maneira apenas por sua renda ser um pouco mais baixa. A dificuldade em fazer amigos e se defender de ofensas também eram aparentes motivos para zombação.

Naquele mesmo dia, Mark levara o crédito pelo trabalho que Peter havia demorado para terminar, já que não tinha ninguém para ajudá-lo. A garota loira não se importou, a conversa entre ela e suas amigas parecia milhares de vezes mais importante.

Enquanto todos se preparavam para ir embora, Peter resolveu tirar algumas satisfações.

–Mark, não achei justo você ter levado todo o crédito pelo trabalho hoje. Por que não falou do grupo?

–Vá embora, Chevalier! –Retrucou ele. –Injusto? Injusto foi você ter ficado no mesmo grupo que eu.

–Mas...

–Agora vai ficar chorando? Deveria ir procurar o seu pai... -Ele se interrompeu, mas logo continuou.- Ah, eu esqueci...Você não tem um! –Seu tom de voz era sarcástico e irritante,

Mark saiu da sala de aula, deixando Peter sem reação. Apesar da grande raiva que sentia, não encontrava uma maneira de impor respeito. Pedir educadamente nunca funcionava.

Os dias pareciam ser sempre a mesma coisa: O garoto ia embora fingindo não perceber as conversas sobre si, que se espalhavam pela escola, em cada grupinho que insistia em fofocar.

Na hora do almoço, costumava ficar sozinho. Pensava em sentar-se com os “perdedores” e “excluídos”, como falavam, mas talvez nem eles o quisessem em sua mesa.

☼ ☼ ☼

–Mãe. –Chamou Peter.

–Sim?

–Eu sei que eu já estou de férias, mas eu queria falar sobre a escola.

–Algum problema, filho?

–Bem... Eu estava pensando se de repente eu não poderia... mudar de escola, talvez?

Helena se abaixou, olhando diretamente para os olhos da criança.

–Está acontecendo alguma coisa, Peter?

–Não... –Mentiu. –Eu só não gosto daquele lugar. As atividades, o jeito que os professores ensinam... –As pessoas, quis acrescentar, mas não o fez em voz alta.

Helena o observou por um tempo e então falou:

–Se estiver acontecendo algo, converse comigo, sim? –Sorriu levemente. –Mas se o problema é a escola, então tudo bem. Vamos procurar outro lugar!

Um sorriso preencheu os lábios do garoto. Uma nova oportunidade acabava de surgir e antes de dormir, ele observou o escuro teto de seu quarto, repetindo para si mesmo que tudo seria diferente.

☼ ☼ ☼

Quando finalmente pôs os pés na nova escola, Peter sentiu raiva apenas por ver um grande número de pessoas; principalmente por se tratar de estudantes de sua faixa etária, assim como os que o humilhavam todo santo dia.

Agora vai ser diferente.” Repetiu para si mesmo apenas mais uma vez. “Eu não me importo com suas opiniões idiotas.”

Dito e feito. Peter não fez questão de se enturmar, contudo, não permitiria insulto algum por parte de outros alunos. Não demorou muito para que o boato “ele deve ter sido expulso da outra escola” surgisse.

☼ ☼ ☼

Helena encontrou seu filho após a aula.

–E então, como foi na escola nova? –Perguntou curiosa.

–Nada demais.

–Vejo que está muito animado. –Brincou ela, com uma careta, mas o pequeno não parecia interessado. -Já sei! Por que não vamos tomar sorvete mais tarde?

–Sorvete?

–Claro! Precisamos comemorar seu primeiro dia na nova escola.

Peter não achou o acontecimento digno de comemoração, mas aceitou o convite.

Helena deixou os artesanatos em casa e foi para a sorveteria com o filho, onde ficaram o resto da tarde.

☼ ☼ ☼

A noite já tomava conta da cidade enquanto os dois caminhavam para casa. Por ser um simples dia de semana, as ruas estavam tranquilas; Tranquilas demais.

–O que foi, mãe? –Perguntou Peter, quando Helena, desconfiada, olhou ao redor.

–Nada, filho. Apenas tive uma impressão.

O garoto olhou para todos os lados, mas não havia nada incomum, então apenas ignorou.

De repente, essa tal impressão ficou maior e Helena sentiu um arrepio percorrer seu corpo, sendo obrigada a olhar para trás novamente, entretanto, dessa vez foi diferente.

Dois homens haviam saído silenciosamente de um beco e agora caminhavam a passos largos em sua direção. Só conseguiu pronunciar uma palavra em alto e bom tom:

–Corra!

Segurando a mão de sua mãe que o puxava, Peter corria o mais rápido possível, sem entender o que estava acontecendo. A angústia tomou conta de si, quando sentiu alguém puxar com firmeza seu outro braço e, numa fração de segundos, viu sua mãe sendo agarrada em meio a gritos pelo outro homem, tentando desesperadamente se soltar dos braços que a prendiam.

Não entendeu o motivo do rosto de Helena ter paralisado, até um brilho prateado vir em sua direção rapidamente. E tudo ficou em câmera lenta, borrado e escurecido.

No momento de desespero, os poderes adormecidos que a bruxa nunca mais havia usado reapareceram. Com a intenção de proteger o filho, a mulher fez com que a faca que o estranho agressor segurava se lançasse contra a cabeça do mesmo, deixando uma ferida e fazendo-o ajoelhar-se pela pancada, de modo que Peter caísse no chão.

Isaac corria desesperadamente quando os encontrou -embora suas condições físicas não fossem as melhores- e surpreendeu o segundo homem com uma pancada na cabeça com a tampa de metal de alguma lata de lixo, sem que o mesmo houvesse percebido.

Helena, cansada e com dor de cabeça e o nariz sangrando, caiu no chão ao se libertar, mas logo foi em direção ao filho, que tinha muita dificuldade para respirar e corria o grave risco de se afogar com o próprio sangue, devido ao corte em seu pescoço.

Um grupo de pessoas se juntou para entender o que estava acontecendo e um dos homens conseguiu escapar antes que a polícia chegasse. Um dos policiais algemou o agressor que possuía um pequeno símbolo de uma chama em suas roupas enquanto a ambulância de Peter o levava –acompanhado de sua mãe e seu avô- para o hospital mais próximo.

☼ ☼ ☼

A consciência de Peter voltava aos poucos enquanto Isaac e Helena conversavam.

–Me desculpe. -Dizia Isaac. –Eu cheguei tarde demais. Fui embora para avisá-la, mas não a encontrei em casa, então procurei por você e Peter o mais rápido que pude.

–Você chegou bem a tempo! Eu fiquei com muito medo. Peter podia ter... –Soluçou apenas em pensar nessa possibilidade.

–Está cada vez mais difícil mantê-los longe.

Isaac, apesar de tantos acontecimentos, continuava sendo membro frequente da AMCB. Precisava proteger Helena e Peter a qualquer custo, mesmo que isso o colocasse em constante perigo.

–Um dos homens fugiu. –Continuou Helena. –Ele pode ter visto seu rosto.

–Não acredito nisso. Ele estava muito atordoado com a pancada. Eles deixaram você de lado há muito tempo, mas agora não consegui impedi-los de voltar a investigar. As coisas estão ficando diferentes por lá. Todos nós corremos perigo.

–Por favor, não deixe eles se aproximarem de Peter.

–Tudo bem. –Concordou ele, mesmo sem saber se seria capaz. –Eu prometo.

☼ ☼ ☼

Após sair do hospital, o garoto não parava de olhar seu pescoço no espelho. Só queria usar camisa com gola e frequentemente escondia a marca parecida com uma lua minguante no lado esquerdo. Aquilo o incomodava profundamente e tudo o que queria era esconder a cicatriz.

Percebendo o incômodo e aflição do filho, Helena decidiu tomar uma providência e logo mais, apareceu com um presente um casa.

–O que é isso, mãe?

–Veja, Peter! Tenho um presente para você.

De dentro da sacola plástica, o garoto retirou um belo tecido verde. O cachecol parecia confortável, mesmo sendo muito comprido para uma criança.

–Comprei para que você use quando se sentir incomodado com a marca. –Helena enrolou o cachecol cuidadosamente no pescoço do filho, com delicadeza. O que acha?

–Obrigado, mãe. –Agradeceu ele com um leve sorriso, porém, sincero. –Ficou ótimo.

Peter Chevalier nunca mais fora visto sem seu cachecol verde.