Hipnotizados

25 Oficialmente bruxo


Peter estava desolado. Agora que tudo parecia finalmente correr bem (na medida do possível), uma ligação foi mais que o suficiente para acabar com sua noite.

Já estava amanhecendo e apenas algumas pessoas permaneciam no bar subterrâneo. Em sua maioria, as que estavam bêbadas ou drogadas demais para irem embora. Alguns dormiram ali mesmo, nas cadeiras, bancos ou até mesmo no chão.

—Eu queria poder ajudar. –Disse o dono do bar, oferecendo uma bebida ao rapaz. –Mas tudo o que sei é que um homem ligou para cá procurando pelo Anúbis. Não faço a mínima ideia de quem era.

O bruxo estava abalado demais para aceitar, então Max pegou o copo em seu lugar e o virou de uma só vez.

—Nós vamos dar um jeito nisso. Quando eu atendi só ouvi a voz da garota falando o seu nome. Não se preocupe, quando encontrarmos o responsável por tudo isso, ele vai se arrepender de ter nascido.

—Vamos ajudar como pudermos. –Ofereceu Margot, após se recuperar do mal estar. Ela tinha uma boa resistência ao álcool. –Mas precisamos ir embora, já está na hora de fechar.

Peter levantou-se lentamente, olhando fixo para o nada, como se estivesse conectado ao seu próprio mundo e esquecido todo o resto.

Matt pegou o braço de Hector e o colocou em volta de seu pescoço, ajudando o advogado a caminhar. Ele realmente havia exagerado na bebida.

Margot terminou de pagar a conta e caminhou para fora, acendendo um cigarro. Sua maquiagem forte se destacava com a luz do isqueiro.

Anúbis caminhava na frente de todos. O estágio de tristeza de Peter já havia passado e agora ele estava em um nível diferente: Raiva. Queria encontrar a pessoa que fez isso com Lana e soca-la repetidamente até que seus ossos virassem pó. Entretanto, sabia que era impossível fazer algo nesse momento e não podia perder o controle, afinal, não queria arranjar problemas com as pessoas daquela região. Respirou fundo e mudou de assunto:

—Para onde ele está indo?

—Para casa. –Respondeu Margot, que caminhava ao seu lado. –Ele não vai se importar de recebê-lo, mas se prepare, há tanta bagunça e sujeira que você pode acabar se perdendo.

O rapaz tentou sorrir, mas não conseguiu. Estava preocupado demais para isso. Margot, percebendo a situação, segurou seu ombro.

—Vai dar tudo certo, bonitinho. –Expeliu um pouco de fumaça de seu cigarro e sorriu levemente. –Nós sempre damos um jeito.

Essas palavras fizeram Peter se sentir um pouco mais confortável. Ainda assim, não deixava de pensar nas inúmeras hipóteses do que poderia acontecer com a garota.

Hector não conseguia andar com as próprias pernas. Matt, felizmente, se mostrava um amigo prestativo e disposto a ajuda-lo.

Margot ofereceu uma carona, como costumava fazer sempre que ela e seus amigos saiam de uma festa. O fato de estar bêbada não a incomodava nem um pouco e Peter estava preocupado demais para importar-se com isso. Para sua sorte, ela era uma excelente motorista.

Chegando à porta de casa, que se tratava de um lugar simples e aparentemente abandonado, Anúbis, sem ao menos se despedir e ignorando os outros, parou em frete à porta de sua casa. Peter imaginou que o homem houvesse esquecido suas chaves, porém, tratava-se de algo muito pior.

Max apanhou um bilhete que havia sido deixado em sua porta, amassando-o vorazmente e jogando-o no chão logo em seguida. Tamanha era sua raiva que amassou o papel com o pé, esfregando-o na poeira. Procurava algo em que pudesse bater para descontar sua raiva e virou na direção de Peter, que se defendeu imediatamente:

—Ei cara, espere aí! –Colocou os braços em frente ao rosto. –O que está acontecendo?

Anúbis parou, em silêncio. Olhou dentro dos olhos de Peter por alguns segundos, que retirava cuidadosamente os braços da frente de seu rosto. Logo, o chacal conseguiu reunir as palavras para falar:

—Eu sei quem sequestrou Lana.

[Flashback Onn]

Anúbis lia jornais enquanto estava sozinho na prisão. Havia conseguido graças ao presidiário do quarto ao lado. Era fato que poderia arrumar qualquer tipo de coisa por ali, desde que tomasse muito cuidado, mas não fazia questão de luxos.

Pediu também que ele realizasse algumas pesquisas utilizando a internet do celular e lhe divulgasse o que encontrou. Estava reunindo o máximo de informações possíveis e não se cansava de ler as manchetes dos jornais.

“Casal foge das mãos de assassino”; “Jovens são torturados por maníaco”; “Antigo Serial Killer foi preso por sequestro e tortura”; “Ele está de volta! Mais um casal é vítima de torturador”; Entre tantas outras.

Charlie estava obcecado. Não conseguia parar de ler sobre o homem que lhe havia causado tanto mal, destruindo tanto sua vida, quanto a de Amelie.

Dave Schade havia sido capturado e levado de volta à cadeia, entretanto, por mais que pesquisasse, não havia divulgações de onde a mesma era localizada. Anúbis não tinha ambições na vida, a não ser o incessante desejo de matar Dave e vingar-se por tudo o que aquele homem havia causado.

Folheando os jornais, encontrou uma foto do momento em que o homem era levado para a cadeia pela polícia. Havia ganhado uma nova queimadura pelo incêndio que ajudara Anúbis e Amelie a fugirem, que o deixava ainda mais horripilante e ao mesmo tempo ridículo, como se estivesse expondo sua fraqueza.

Ele riu. Aquele homem realmente não tinha sorte com fogo. Por fim, pegou o jornal mais recente e deparou-se com uma notícia intrigante: “David Schade, também conhecido como Dave, fugiu da prisão; A polícia já iniciou as buscas, mas não há indícios de onde o torturador pode estar”.

Nesse momento, Charlie deveria estar preocupado em esconder os jornais, pois o policial responsável por vigiar aquele setor estava se aproximando. Contudo, somente uma coisa lhe importava agora.

Preciso fugir desse lugar”.

[Flashback Off]

Anúbis reuniu seus amigos novamente em sua casa, exceto Hector, que parecia estar desmaiado em sua cama.

—Eu não acredito que fiquei tanto tempo procurando esse cara e foi ele quem me achou! — Estava indignado e inquieto. -Ele me seguiu o tempo todo, só esperava pelo melhor momento para atacar.

—Sequestrar a garota deve ter sido só uma maneira de chamar sua atenção. –Concluiu Margot. –Aquele homem deve estar louco por vingança, já que você estragou todos os planos dele. E ainda deixou uma nova queimadura.

—Ele provavelmente estava planejando sequestrar o garoto também, para formar um novo casal. –Matt analisava o caso. –Peter e Lana eram a dupla perfeita: Dois jovens, amigos do cara que arruinou seus planos no passado. Uma boa vingança.

—Isso é tudo minha culpa! –Peter não conseguia acreditar no que estava acontecendo. –Não deveria ter deixado Lana sozinha.

—Pra ele te sequestrar também? –Anúbis batia incansavelmente com os dedos na mesa em que estavam reunidos. –Não acho que seria uma boa ideia. Foi melhor assim, ela ficaria em risco viajando com a gente. Vamos resgatá-la.

—Eu deveria ir busca-la agora.

—Você não pode ir sozinho! Além disso, tudo o que está acontecendo é um problema meu. Se não fosse por mim, ele nunca teria ido atrás de vocês.

—Não coloque toda a culpa em você! –Margot abraçou-o. –Do jeito que ele é, mesmo se não tivesse algo pessoal com você, iria acabar sequestrando outras pessoas.

—Não seria Lana se eu não tivesse deixado ela sozinha em casa...

—Quer parar com isso, garoto? –Matt limpava uma de suas armas, com os pés sobre a mesa. –Vamos pegar ela de volta e dar uma boa lição no velho. O que o bilhete diz, mesmo?

Peter desdobrou o papel em suas mãos. Estava rasgado e empoeirado pela raiva de Anúbis, mas ainda legível.

“Espero que tenha apreciado minha ligação. Estou com sua nova irmãzinha. Não é nada difícil te encontrar, Charlie. Não sei qual é o problema da polícia desse lugar. Se bem que um pai conhece muito bem o filho. Gostaria de encontrar sua irmã Amelie para dizer um oi. Caso queira me visitar, estou no endereço abaixo, mas não venha com enxeridos. Se quiser trazer o garoto, ele será muito bem-vindo à família, mas, infelizmente sempre sonhei em ter apenas dois filhos. Espero reencontrá-lo em breve. Com amor, papai”.

—Eu sou tão estúpido... –Disse Peter.

—A culpa é minha. –Completou Max. –Se eu não tivesse te metido no meio dos meus problemas...

—Parem de se culpar! –Irritou-se Margot. –Isso não vai ajudar em nada. Vamos dormir, já estamos de pé há muito tempo. Quando acordarmos, daremos uma olhada no lugar em que esse homem está e planejar um ataque. E nós vamos te ajudar Maxxie, não se preocupe. –Sorriu ela, tentando melhorar o clima.

—Eu concordo com a Margot. –Matt retirou os pés da mesa. –Vamos todos juntos atrás desse cara e colocamos um fim em toda essa história. Reunião encerrada.

Ele saiu sem mais palavras. Margot beijou a bochecha de Anúbis, lhe dando boa noite e pedindo encarecidamente para que ficasse bem. Deu dois tapinhas nos ombros de Peter e foi embora pela mesma porta que Matt.

Anúbis foi até o banheiro e procurou, em meio às caixas de cigarro e de algumas substancias ilegais, o remédio para dormir. Ingeriu o que restava deles e foi para cama, sem ao menos trocar de roupa. Por ele, partiria naquele mesmo instante, mas já estava muito cansado e não conseguiria atingir seus objetos; Afinal, o que ele mais queria era acabar com a vida miserável de Dave e precisava estar com bastante energia para enfrenta-lo. Alguns minutos depois, os remédios fizeram efeito.

Peter acomodou-se no sofá. Não conseguia sequer fechar os olhos. O que faria quando visse David? O espancaria? Esfaquearia? Poderia até queimá-lo novamente; Ou melhor ainda: Poderia usar seus poderes. Se ao menos os tivesse...

Inútil...” Pensou.

Não. O melhor era apenas fazer algo para resgatar Lana e deixar o resto com Anúbis. Ele era a pessoa que deveria vingar-se. Pensando nas inúmeras formas de vingança que poderiam ser utilizadas por Charlie, Peter dormiu. Entretanto, toda aquela tensão, ansiedade e fúria misturadas faziam-no acordar. Não conseguia manter uma linha de sono por muito tempo sem que fosse interrompido e já podia sentir as olheiras marcando ainda mais sua pele.

Já estava de dia, o que dificultava ainda mais seu sono. Era como se algo estivesse cutucando-o internamente para que o garoto tomasse alguma atitude. Ele precisava fazer algo.

☼ ☼ ☼

Mais tarde, Anúbis acordou com Margot alisando seus cabelos.

—Bom dia, raio de sol.

Anúbis levantou-se imediatamente, esfregando os olhos.

—Dave...?

—Sim, ele está com Lana. Matt já está esperando, nós vamos fazer uma visitinha para aquele monstro.

—E Peter? –Levantava-se, ainda com voz rouca e corpo sonolento.

—Não o encontrei. Achei que não tivesse dormido aqui.

Anúbis ficou em dúvida por alguns segundos. Então ele e Margot, em silêncio, chegaram a mesma conclusão.

—Droga...

[Flashback Onn]

Peter era a única pessoa que andava pelas ruas daquela manhã. Não conseguia dormir de maneira alguma e não iria aguentar esperar até que todos estivessem dispostos a sair.

Caminhou o mais rápido que suas pernas lhe permitiam até encontrar um galpão abandonado, de uma empresa que havia mudado de endereço. Conferiu o bilhete que Dave entregara a Anúbis e pôde ter certeza: Aquele era o local exato.

A porta estava apenas encostada e não foi difícil entrar. O lugar era enorme e espaçoso, ainda com algumas divisões de setores. Peter tentava andar calmamente, sem emitir sons, embora estivesse com pressa.

Caminhando pelo recinto estranho e solitário, deparou-se com uma figura conhecida. Lá estava Lana: encolhida no chão. Não sabia se estava apenas dormindo ou se havia desmaiado.

O garoto recebeu um alivio imediato e seus olhos brilharam por encontra-la. Quando estava pronto para chamar seu nome, foi surpreendido com um golpe na cabeça e não lhe restara alternativa a não ser a de desmaiar imediatamente com a pancada.

☼ ☼ ☼

Finalmente acordou. Enquanto recuperava-se, sentia a estranha sensação de estar amarrado. Tentou se soltar, porém, não conseguia fazer nada naquela situação.

Ao olhar para frente, confirmou que tudo aquilo era real e não havia se tratado de um sonho: De fato encontrou Lana. Ela estava do outro lado do galpão, encostada na parede e com cordas semelhantes às que Peter havia sido preso. Dessa vez já estava acordada, entretanto, seria melhor se a mesma estivesse inconsciente. Seus olhos imploravam para que o garoto a ajudasse, porém, ele não era capaz nem de salvar a si mesmo. Ela estava apavorada, como se houvesse sofrido diversas ameaças.

Ser obrigado a olhar para aquela cena era a pior espécie de tortura que alguém poderia lhe fazer passar.

Enquanto pensava em algum plano para fugir, escutou o som de passos aproximando-se calmamente. Ele estava lá.

—Fico feliz que tenha acordado. Esperei muito para finalmente recebe-lo aqui. Se pudesse, teria te trazido antes, mas você fez o favor de fugir com o ingrato do seu irmão mais velho. Oh, a rebeldia dos jovens de hoje...

—Irmão? Do que você está falando?

David parou em frente ao rapaz, abaixando-se para conversar olhando diretamente em seus olhos. Ele conseguia disfarçar muito bem suas queimaduras com a gola de seu sobre tudo bege. Peter concluiu que talvez também utilizasse alguns cosméticos para escondê-las o máximo possível.

—Bem, confesso que só queria atrair Charlie até aqui, mas estou gostando de considerar a ideia de criar mais um casal de filhos. Porém, dessa vez tudo deve correr bem.

—Você está enganado, Schade. –Peter não estava mais triste ou com medo. Tudo o que possuía agora era ódio e vontade de escapar o mais rápido possível. –Esse é o casal que você vai se arrepender de ter mexido.

Dave riu. Como se uma criança houvesse cometido um erro bobo. Retirou um palito de dente de seu bolso e colocou-o na boca, assim como Anúbis tinha o costume de fazer.

—Você não irá se atrever a fugir daqui.

—Isso é o que você pensa. Não vou apenas sair daqui, mas farei questão de também deixar uma terceira marca de fogo nessa sua cara.

Peter poderia facilmente ter perdido um dente, ou dois, com o soco que levara ao proferir essas palavras. E ele se repetiu várias vezes, até que o garoto não conseguisse levantar-se do chão, sujando-o de vermelho.

—E você. –David voltou-se para Lana, que se encolheu de medo. –Se lembra do nosso combinado, não é? Não quero que dê um passo sequer. Se sair daqui, todos, inclusive você, irão sofrer as consequências. Entendeu?

A garota não conseguia responder. Estava tremendo demais.

—Você entendeu?! –Schade ergueu uma de suas mãos ameaçadoramente.

Lana foi forçada a concordar com um sinal de cabeça, com medo de apanhar. Estava suando frio quando ele se aproximou, mas tudo o que fez foi acariciar suavemente o rosto da menina, deixando o clima ainda mais pesado.

—Comportem-se crianças. Vamos esperar até que a visita chegue.

Dito isso, os dois ficaram sozinhos no local, sem saber o que fazer. Lana apavorada e Peter com sede de vingança.

Com a terrível dor concentrada em seu rosto inchado, ele sentou-se novamente. Era preciso encontrar uma saída de qualquer maneira.

Lana perguntava-se se ter cometido suicídio novamente não teria sido a melhor alternativa. “Não!” Pensou. Ela não era não era mais assim e agora tinha uma nova razão para viver. Acreditava que o destino havia colocado o garoto em seu caminho com o propósito de lhe dar a chance de ser feliz e ela não podia estragar tudo novamente. Era só manter a calma... Se o destino estivesse realmente ao seu lado, tudo ficaria sob controle em breve.

O rapaz observou cada detalhe do galpão, até encontrar exatamente o que precisava: Algumas telhas de metal haviam sido empilhadas e deixadas de canto antes da mudança ser feita. Provavelmente a empresa estava passando por reformas e precisaram deixar o material. O que importa é que ele poderia utilizar o afiado objeto para cortar a corda que o prendia e assim, ajudaria Lana a soltar-se e fugir.

Quando finalmente conseguiu ignorar a dor de seu rosto e se levantar, foi forçado a sentar-se novamente. Só então percebeu que outra corda o amarrava na parede e não podia ir muito longe desta maneira.

Estava disposto a puxar o quanto precisasse para arrebenta-la, até que percebeu outro detalhe: Lana não estava amarrada com uma terceira corda. Na parede onde a mesma estava encostada não havia suporte para que Dave a amarrasse. Talvez ele tivesse reservado o lugar para Peter desde o começo, deduzindo que o mesmo seria mais violento. O garoto não poderia esperar nem mais um minuto.

—Lana! –Ele não queria gritar, mas também não podia falar muito baixo, caso contrário, ela não escutaria. Tentou maneirar sua voz para que ficasse em tom médio. Mexer os lábios causava-lhe dor. –Está vendo aquelas telhas ali do outro lado? Eu preciso que você vá até lá e corte suas cordas. Podemos fugir desse lugar!

Ela não respondeu. Estava paralisada, talvez pensando em tudo o que David Schade havia falado.

—Lana...? Você me ouviu? Podemos sair daqui agora!

—Sair... –No começo, eram apenas sussurros, mas logo ela conseguiu falar mais alto para que Peter a escutasse. –Não podemos sair daqui... Ele disse.

—O que está querendo dizer?

—Não podemos... Não posso. Seu eu sair daqui, ele virá atrás de mim. Ele vai nos matar Peter! Não posso sair daqui.

—É claro que você pode, Lana. –Ele não conseguia acreditar em seus ouvidos. Esse era o momento ideal. –Estamos perdendo tempo. Essa é a nossa chance! Se liberte e depois me ajude, eu prometo que vou encontrar um jeito de sairmos daqui.

—Não posso! Entendeu? Não posso sair daqui.

Peter não sabia exatamente como estava se sentindo. Sentia tristeza e pena pela situação em que Lana se encontrava, que era como se alguém estivesse esmagando seu coração. Veio aquela vontade de chorar. Tinha raiva e ao mesmo tempo medo. Raiva por David e por não ser capaz de conseguir nada, no momento em que a menina mais precisava de seu apoio. Não sabiam que iriam realmente conseguir escapar daquele lugar ou até mesmo se iriam sobreviver. E se Dave finalmente obtivesse sucesso com um de seus casais? E se conseguisse finalmente se vingar de Anúbis? Que, por falar nisso, provavelmente ainda estava apagado em sua cama.

Uma onda de ódio consumiu o garoto. Queria se livrar daquela situação terrível e o pior de tudo, de todos aqueles sentimentos que estavam deixando-o louco.

—Nós podemos sair!

Queria fechar os olhos, mas a sensação era ainda pior: Como se tudo já houvesse acabado e a loucura estivesse tomando conta de si. Continuou gritando a mesma frase repetidamente, com toda a força que ainda tinha. Lana não conseguia encará-lo. Olhava apenas para o chão.

Na última vez em que repetiu essas palavras, Peter utilizou toda a sua força. Seus olhos lacrimejavam e estava pronto para dar-se por vencido, até finalmente perder sua sanidade e aceitar todos os comandos de Dave. Mas não foi isso o que aconteceu.

Quando o garoto ergueu sua cabeça, Lana estava de pé. Caminhava vagarosamente até as telhas de metal e tudo o que ele conseguiu fazer foi observá-la, ainda com as lágrimas misturando-se com o sangue de seu rosto.

Com dificuldade, ela esfregou as cordas nas pontas dos objetos até conseguir desprender-se. Enquanto ela caminhava na direção do rapaz, ele prestava o máximo de atenção em cada movimento, como se estivesse montando um plano em sua cabeça das direções em que a menina iria tomar a seguir, adivinhando seus passos.

Porém, quando ela ficou em frente ao menino, a expressão de Lana não parecia boa. Ela estava inquieta e até mesmo assustada.

—Peter...

Como se tivesse saído de um transe, ele voltou seu rosto para o de Lana, prestando atenção em suas palavras.

—Essa não sou eu... Eu não sei o que está acontecendo. Não sou quem está controlando o meu corpo.

Foi então que Peter percebeu: Seu nariz estava sangrando, e ele tinha absoluta certeza de que não era por causa dos socos.