Hipnotizados
13 Obsessão
Peter precisou parar várias vezes antes de chegar à sua nova cidade. Vez ou outra, sentava-se para comer algo que havia jogado dentro de sua mochila e aproveitava a oportunidade para matar a sede em bebedouros públicos.
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Já era noite quando o rapaz finalmente deparou-se com o tão estimado endereço de sua nova casa. Não era nada glamorosa; Na verdade, tratava-se exatamente do contrário: O local era simples e diria até que precisava de uma reforma.
Era impossível pensar em algo que não fosse sua família. Ainda era estranho o saber que a mãe era uma bruxa e que ele havia herdado, de alguma maneira desconhecida e inusitada, os poderes da mesma. Ele estava preocupado com o avô, sabia que não devia tê-lo abandonado, mas não o encontrou e não poderia dar-se ao luxo de sair por aí procurando por um traidor de um grupo tão importante e com grande número de participantes, que por um acaso, também procuravam por ele.
A porta da casa estava emperrada, mas com um pouco de força, ela finalmente cedeu. Peter largou a mochila e a guitarra no chão, caminhando direto para o chuveiro. A água estava fria, mas já era mais que o suficiente para expulsar toda a sujeira que o garoto havia trazido consigo pelo longo caminho. Algumas aranhas que haviam tomado conta do pequeno banheiro foram embora com a água.
Após a ducha, dirigiu-se ao cômodo abandonado que lhe serviria de quarto, onde havia apenas uma cama, um guarda-roupa antigo e um espelho manchado. Vestiu sua típica camisa preta e uma calça jeans que havia trago. Olhou seu reflexo machado e empoeirado, aproximando uma de suas mãos da cicatriz em seu pescoço, mas não a tocou. O cachecol verde estava um tanto sujo, porém, ele não se importou com isso e logo o usou para cobrir a marca que uma faca lhe deixara de lembrança.
Decidiu tirar uma soneca, mas não conseguiu dormir por muito tempo, mesmo com o cansaço do dia pairando sobre si. Retirou tudo o que trouxera na pesada mochila e foi conhecer a casa. Era pequena e possuía apenas alguns móveis, entretanto, o quintal era agradável, mesmo não sendo tão grande.
Observando a situação em que estava, decidiu dar uma volta pela cidade. Passou em frente a várias lojas, contudo, não tinha muito dinheiro em sua carteira. Felizmente, isso não era um problema.
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Caminhava entre muitas pessoas, observando-as. Um homem que caminhava em direção a ele chamou sua atenção, em especial. Ele usava um terno e carregava uma maleta de couro; Estava muito apressado, conversando com alguém pelo fone de ouvido do celular.
Peter, então, desviou sua atenção para outras pessoas, mas continuou andando, aumentando cada vez mais o ritmo de seus passos. Manteu-se firme quando bateu em algo sem ao menos perceber.
—Olha por onde anda! -Gritou o homem, recolhendo o fone de ouvido que havia caído no chão.
—Me desculpe. -Peter também estava abaixado, ajudando-o a consertar a bagunça que fizera.
Quando levantaram-se, cada um foi para a respectiva direção para qual caminhavam antes do ocorrido. O homem continuava zangado e o garoto pôde ouvir algumas palavras enquanto ele se afastava: "Não, não estava falando com você. Algum idiota esbarrou em mim...". Peter, por outro lado, estava satisfeito. Poderia não ter descoberto seus poderes envolvendo bruxaria, mas ainda não havia enferrujado com a arte de roubar carteiras na rua; Entretanto, precisaria sumir dali rapidamente, antes que o dono do objeto percebesse o que acabara de acontecer. Quando abriu a carteira, percebeu que havia escolhido a vítima certa: Estava cheia de dinheiro.
Voltou para casa com comida e algumas roupas, incluindo um sobretudo preto que encontrara em promoção (aquela cidade era ainda mais fria do que a antiga).
Encarou o teto de seu quarto antes de dormir. De algum modo, sabia que aquela noite não seria a mais tranquila: Estava repleta de pesadelos e sonhos estranhos, que insistiam em despertá-lo toda hora. Em um deles, acordou encharcado de suor e não dormiu por um bom tempo. Antes de adormecer, sentiu uma lágrima escapar para suas bochechas, molhando o travesseiro. Madrugadas realmente haviam sido feitas para deixarem qualquer sentimento à flor da pele.
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O próximo dia fora cruel. Não sabia o que fazer, exceto observar o vento soprando as folhas das árvores da rua, enquanto pensava em um milhão de coisas, que, incrivelmente, eram todas ruins. Exceto uma, lembrou-se: O que estaria acontecendo com Lara? Ele simplesmente havia abandonando-a, naquela enfadonha escola, em meio a tantas pessoas com quem ele daria qualquer coisa para trocar de lugar, apenas para poder ficar ao lado da garota novamente. Já havia passado tempo demais longe da menina e, agora que estava completamente sozinho, sentia um vazio ainda maior dentro de si.
Estava decidido. Ele voltaria para a sua antiga cidade e reencontraria Lara.
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O despertador tocou. Mais um dia de aula começava e Lara sabia que não deveria demorar a levantar-se, embora sua preguiça dissesse o contrário. Havia dormido pouco e tudo o que queria neste momento era apenas mais alguns minutinhos de sono. Sentia-se mais cansada que o comum, entretanto, não poderia perder um dia de aula, principalmente por ser época de provas. Sua consciência pesou e a garota sabia que não poderia atrasar-se, porém, tentou esquecer esse pequeno incômodo. Infelizmente, o despertador chamou-a novamente, alertando que a jovem não tinha mais opções.
Ergueu-se rapidamente da cama e quase caiu, procurando algo para apoiar-se. Tentando se equilibrar, acendeu a luz do quarto cor de rosa. Levava consigo a típica irritação matinal e arrumou-se para a escola bocejando devido ao sono. O creme que costumava usar em seus longos cabelos castanhos estavam acabando e ela precisou bater o recipiente várias vezes em sua mão.
Foi até a cozinha e encontrou sua mãe tomando café de manhã ao lado do irmão mais velho, que fazia anotações em uma folha ao lado de algumas apostilas e livros.
—Mãe, — Disse ela enquanto pegava uma maçã da cesta de frutas. -Preciso de dinheiro para comprar um creme novo.
—Dinheiro? -Respondeu ela. -Se não me engano, já pediu isso semana passada.
—Bem, sim. Mas acabei indo ao cinema.
—Lara! -A repreendeu. -Infelizmente, ainda não achei um baú com tesouros enterrado no jardim para jogar dinheiro pelos ares.
A mãe de Lara adorava plantas. Um de seus passatempos favoritos era cuidar das flores e hortaliças no quintal, onde sempre estava cavando a fim de plantar cada vez mais.
—Eu sei disso... Lucca?
—Nem olhe para mim. -Disse o irmão. -Preciso de mais dinheiro do que você.
Lara riu, assim como sua mãe, que tirou uma nota de dinheiro da carteira e entregou à filha, dizendo:
—Só não gaste tudo de uma vez! E se envolver balas, eu também quero uma.
—Pode deixar mãe. -Sorriu.
—Droga! -Disse Lucca, arrumando rapidamente seus materiais. -Já estou atrasado.
—Quer uma carona para a escola, filho?
—Mãe, eu já estou na faculdade.
—Vocês estudam, fazem provas e dormem durante as aulas. Não tem diferença alguma.
—É, acho que nunca vou conseguir te convencer. Preciso ir, vejo vocês mais tarde!
—Também preciso ir, até mais mãe. -Disse Lara, deixando a maçã de lado e pegando seu fone de ouvido rosa.
—Vejo vocês mais tarde!
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Ao chegar à escola, Lara parou a música que ouvia para cumprimentar seus amigos.
—Você ouviu sobre o que todos estão falando? -Disse uma de suas amigas.
—Não sei se todos estão falando... -Lara preparava-se para escolher outra música. -Já que eu ainda não ouvi.
—Lian e Jenny foram vistos juntos no laboratório de química na hora do almoço ontem. -Esclareceu outra.
—Ei! Você estragou o mistério.
As garotas riram.
—Sabe, Lara, — Continuou ela. -Você também deveria ter umas "aulas extras" de química. Rob parece entender super bem da matéria.
—Pare de falar essas coisas! -Riu ela. -Além disso, preciso ajudar uma colega a estudar para as provas.
—Ah, qual é! Quando você vai aceitar ficar com o Robert? Ele é o capitão do time!
—Acho que não vai demorar muito para descobrirmos. -Disse a outra, olhando para o fim do corredor em que estavam. -Ele está vindo com os meninos.
—Bom, então vamos deixá-los conversar um pouco. Até mais tarde, Lara. E, lembre-se: Guarde as suas dúvidas de química para o almoço. -Piscou.
Lara revirou os olhos. O sinal bateu, avisando que as aulas iriam começar e Robert despediu-se dos garotos do time, indo em direção à menina.
—Bom dia, flor do dia. -Brincou ele, beijando sua bochecha.
—Bom dia, Rob. Você está animado hoje.
—Teremos um jogo mais tarde! Mal posso esperar para ver o resultado dos treinos.
—Parece divertido! Vou convidar as meninas para assistir.
—Sim, vai ser! Embora eu tenha passado a acreditar que revisões de química são ainda mais interessantes. -Sua expressão mudou. Agora, tinha malícia em seu olhar.
—Então você também ficou sabendo? -Perguntou.
—Todos ficaram! -Riu ele.
O corredor estava praticamente vazio, os últimos alunos entravam para suas respectivas salas de aula. Lara sentiu sua cintura ser abraçada.
—Ouvi dizer que você tira ótimas notas em química. -A voz de Rob sussurrava bem próxima a um dos ouvidos de Lara, que já havia guardado o fone em sua mochila para assistir ás aulas. -Talvez eu precise de uma professora particular.
—Rob, — Desviou ela. -Estamos atrasados.
—Ok, tudo bem. Caso não goste muito de química, podemos simplesmente estudar anatomia e...
—Rob! -Interrompeu ela. -Me solta. Nós precisamos ir para a aula.
—Qual é o problema? -Afastou-se ele. -Todos dizem que nós formamos um belo casal e eu sinceramente ainda não entendo os motivos de não estarmos juntos.
—Eu só...
—Você sabe quantas garotas queriam estar no seu lugar? -Ele a empurrou contra um dos armários do corredor. -Você é bonita, inteligente e popular. E eu? Eu sou a porra do capitão do time! Todos os garotos da escola queriam ter o meu status, mas eles são só um bando de fracassados... Então, porque você me evita desse jeito?
—Esse é o problema! Sempre acham que deveríamos ficar juntos, mas isso não tem sentido! Eu não quero brincar de fazer parte do "casal perfeito" que todos amam ou odeiam por inveja. Você já parou para ouvir o que disse? Só quer isso por uma questão de status! Deveria ir atrás de uma dessas meninas que ficam rabiscando seu nome em diários idiotas.
—Presta atenção, garota. -Rob agarrou o pulso direito da garota, fazendo-a ficar com uma expressão de dor. -Você acha que pode falar comigo dessa maneira?
—Tire as mãos de mim, agora!
Nesse momento, os dois ouviram um barulho. Mas o corredor ainda estava vazio. Provavelmente de algo que estava fora do prédio.
—Se você não me deixar sair agora, eu vou começar e gritar. -Ameaçou. -E a escola inteira vai saber que o "Sr. Capitão do time" é um covarde que gosta de bater em menininhas.
Robert encarou-a. Seus olhos estavam cheios de raiva, mas logo deixou-a partir.
Lara esfregou as marcas que o rapaz deixara em seu pulso para amenizar a dor e lavou o rosto no banheiro. Sentou-se no chão, de onde só iria sair quando começasse a próxima aula.
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Nos próximos dias, Lara continuou a sentir-se fraca, com a sensação de piora a cada dia. Robert tentava fingir que nada havia acontecido, contudo, não conseguia conter-se e acabava encarando-a de vez em quando. Ainda tinha ódio.
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Certo dia, Peter foi para a escola (não com o intuito de estudar, mas sim, para ver Lara), como havia feito há um tempo. Naquele dia, ele havia pulado o muro e observava a garota do lado de fora do prédio, até presenciar a cena que fora uma das piores de sua vida: Robert agredira Lara. No momento em que Rob agarrou o pulso da pobre garota, tamanha foi a raiva e agonia de Peter que o mesmo acabou surrando uma lata de lixo automaticamente. Não sabia se alguém ouvira o barulho, mas não se importava. Estava preparado para correr até eles (e talvez, arrancar alguns dedos e dentes do garoto) e só não o fez porque a situação logo se acalmou e cada um foi para um lado. Seu ódio por Rob só crescera ainda mais e tudo o que queria era poder matá-lo.
Ao voltar para a escola, alguns dias depois, não encontrou Lara. No dia seguinte também não e muito menos no outro. Preocupado, decidiu entrar para descobrir o que havia acontecido, tomando o cuidado de cobrir-se o máximo possível com a touca do moletom que usava para que não o reconhecessem (principalmente os professores e diretores).
Andou pelos corredores que só lhe traziam desprezo e más lembranças, até ouvir uma conversa entre dois alunos:
—Faz tempo que eu não vejo a Lara pela escola.
—Você não ficou sabendo? Ela ficou doente e está internada.
Nesse momento, o coração de Peter congelou; Tudo o que ele pôde fazer foi correr em direção à saída.
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