Hipnotizados

14 Liberdade suicida


Notas iniciais
Eai, pessoas! Nesse capítulo Peter vai ser deixado um pouco de lado e uma nova personagem vai aparacer! Já já ele volta ;) Boa leitura o/

Peter estava inquieto. Soubera há pouco tempo que Lara havia adoecido e já pensava em procura-la imediatamente, sem não se importar com nada mais, além disso.

Sua nova casa era vazia e sem vida e, sua única companhia eram seus atordoados pensamentos, que insistiam em mantê-lo alerta a todo o momento, sempre imaginando o pior. Seu único conforto era lembrar-se do rosto da garota de sua escola, porém, logo voltava a sentir-se mal por saber que a mesma não estava em suas melhores condições, o que o deixava absurdamente preocupado. Precisava fazer algo. Entretanto, toda essa solidão não estava presente apenas na vida do garoto de cachecol verde.

☼ ☼ ☼

Não muito longe da cidade de Peter, Anna Saeger estava deitada no chão de seu quarto, onde encarava vários frascos de remédio. Algumas pílulas haviam caído acidentalmente de certos vidros, espalhando-se pelo carpete, mas a garota não parecia se importar. A grande quantidade de remédios espalhados pelo quarto faziam-na parecer uma colecionadora.

Não tinha motivos para perder mais tempo.

[Flashback onn]

—Anna... –Seu pai a chamara, quebrando o silêncio em que estava a cozinha. Era um cômodo grande, mas não havia ninguém mais além dos dois.

O homem esperou alguns segundos, mas não obteve respostas da filha, que vivia tão distraída a ponto de parecer conectada a outro planeta. Talvez estivesse tentando conectar-se com extraterrestres ou algo do tipo. Infelizmente, não se tratava de nada assim e seu pai sabia disso.

—Anna. –Chamou-a novamente, dessa vez com a voz mais firme para despertá-la.

A garota ergueu os olhos, esperando o que mais seu pai lhe diria. Observou que o homem realmente tinha traços parecidos com os seus, assim como todos costumavam lhes dizer. Ambos tinham fortes traços coreanos, herdados de seus avós que foram imigrantes há muitos anos atrás. Anna retirou uma grande mecha de seus longos cabelos pretos que repousava em seu ombro, para que não caísse no prato.

—Filha... –Continuou ele. –Você mal tocou na comida. Seu prato ainda está cheio.

—Eu estou sem fome, pai.

—Você nem se esforçou dessa vez, anjo. Se continuar assim vai ficar doente... Isso é muito sério.

—Vou ir para o meu quarto agora.

Anna levantou-se e caminhou em direção ás escadas, mas foi interrompida ao sentir um de seus braços sendo levemente segurado pelo pai.

—Anna... Eu entendo que você ficou abalada depois que a sua mãe foi embora, mas, acredite, é melhor assim. Foi uma escolha e eu creio que se isso não houvesse acontecido nós estaríamos ainda mais infelizes agora. Inclusive você.

A garota permaneceu em silêncio e seu pai, sem nenhuma resposta, foi obrigado á deixá-la ir.

—Comprei alguns lápis de cor novos, estão no seu quarto. Você adorava colorir, não é?

De fato, um dos passatempos favoritos da garota era o de colorir. Podia ficar horas em um mesmo desenho, apenas acrescentando mais e mais detalhes. Gostava de quando podia utilizar várias cores diferentes e sempre tentava acrescentar mais emoção em sua arte. Sonhava em formar uma parceira com algum desenhista e viver da ilustração de livros infantis, onde poderia trabalhar com o que ama. Entretanto, esse sonho agora parecia mais distante do que nunca.

Após a separação dos pais, tudo o que Anna fazia parecia ter perdido o sentido. Não encontrava mais emoção nos desenhos, nas cores e até mesmo na vida. Tudo se tornou vazio e melancólico e a única coisa em que pensava era no desejo de partir desse mundo cinza que já havia perdido toda a emoção.

Não sentia fome e profundas olheiras lhe assombravam toda vez em que deparava-se com seu reflexo no espelho. Apesar de gostar de participar das aulas, não queria mais ir para e escola, embora tivesse apenas 15 anos e precisasse finalizar o ensino médio.

Sentou-se na cama e ouviu o barulho de uma porta de carro fechando-se: Provavelmente seu pai havia saído para fazer compras. Saber disso só contribuía para que o sentimento de solidão aumentasse. Era como se o mundo estivesse virado de costas para a garota, deixando-a sozinha e sem motivação, exatamente como a mãe havia feito, abandonando-a de uma hora para a outra.

Arregaçou as mangas de seu casaco e caminhou para o banheiro, onde havia deixado algumas pequenas lâminas a esperando. Tomou um comprimido e pegou uma das lâminas, admirando-a antes que a usasse para rasgar a pele de seu pulso, onde encontrava-se várias outras marcas (recentes ou não) deixadas pelo mesmo objeto. Sentia dor, mas, ao mesmo tempo, um alívio por acreditar que a cada corte sua alma estava mais próxima de sair daquele lugar onde havia apenas solidão e tristeza.

Infelizmente, o corte não fora o bastante para livrá-la daqueles sentimentos mórbidos que insistiam em cercava-la a todo o momento. Não poderia simplesmente sumir sem deixar explicações?

Já tentara se matar diversas vezes, porém, nenhuma havia sido bem sucedida. Ficar naquele lugar parecia estar errado. Ela simplesmente não se encaixava e pensava que talvez fosse sua mãe quem estava certa: Fugindo e deixando todos para trás.

Talvez, este fosse o dia certo, afinal.

Primeiro, fez leves riscos vermelhos que coloriam seu pálido braço. Brincava ao contornar as veias que podiam ser vistas através de sua delicada pele, sem o mínimo de pressa. A garota nunca gostara de desenhar, sempre preferiu apenas colorir desenhos já prontos, porém, não hesitava em deixar seus traços marcarem o pálido corpo, que tornava-se uma verdadeira obra de arte manchada de vermelho.

Pensou em tomar mais algumas pílulas, no entanto, não queria interromper sua mais nova obra de arte apenas para alimentar o vício por medicamentos que havia adquirido nos últimos tempos.

Quando se deu conta da situação, Anna percebeu que havia uma grande quantidade de sangue ao seu redor, que não parava de sair. Quanto mais observava o sangue jorrar, mais sentia-se fraca, como se sua alma estivesse de fato preparada para deixa-la. Talvez iria ficar ali por apenas mais alguns bons minutos e depois finalmente seria uma alma livre. Pensou que o mundo estivesse finalmente deixado-a partir, quando alguém abriu desesperadamente a porta do banheiro em que estava.

—Anna! –Gritou seu pai, desesperado com a situação com que se deparara.

A garota olhou para o homem que tinha uma expressão de pânico em seu rosto. Tinha tontura e fraqueza, mas pôde senti-lo apoiando-a em seu colo, tentando parar o sangramento com uma das mãos, enquanto a outra, após pegar o celular, ligava desesperadamente para a emergência.

—Vai ficar tudo bem, querida. –Sussurrava ele, em meio á lágrimas. –Nós vamos dar um jeito nisso.

Para a tristeza do homem, essa não era a primeira vez em que precisara lidar com uma situação como essa. Toda vez em que voltava para casa, precisava checar onde a filha estava e se a resposta fosse “no banheiro”, tinha todos os motivos para acreditar que algo ruim o esperava.

Naquele mesmo dia, mais tarde, a menina já estava bem melhor. Seus pulsos haviam sido cuidados e enfaixados e agora, procurava recuperar sua saúde física poder ir embora do hospital.

Embora seu pai estivesse aliviado, a garota apenas ficara mais triste. Sabia que essa não seria sua última tentativa e não ficaria verdadeiramente feliz até que tudo estivesse finalizado.

☼ ☼ ☼

Dias depois, Anna parecia ter se tornado outra pessoa. Até mesmo voltara a parecer com quem ela realmente era antes do ocorrido com sua mãe: Uma menina doce e gentil que alegrava-se com a simplicidade da vida.

Não estava 100% feliz ou tranquila, como costumava ser, mas já havia um bom tempo que seu pai não se deparava com a filha aparentemente tão bem.

Anna estava animada e sorridente. Não conseguiu comer tudo o que seu pai preparara para o café da manhã, mas se esforçou bastante, deixando-o contente pela melhora. Sabia que alguma hora sua filha iria esquecer-se do passado e encontraria a felicidade novamente, só não esperava que iria ser algo tão repentino.

Feliz, saiu para o trabalho após tomar sua parte do café, deixando a jovem em casa. Pensava em comprar algum presente para surpreendê-la.

Anna subiu as escadas e foi para o seu quarto. Deitou-se no carpete e escutou algumas músicas que salvara em seu celular. Quanto mais feliz aparentava para as outras pessoas, maior era o desejo interno de que a morte simplesmente a levasse de uma vez. Não conseguia desviar os pensamentos suicidas que lhe apareciam a cada minuto, encorajando-a á fazer algo. Suas olheiras estavam incrivelmente mais profundas, mas, mesmo que seus olhos decidissem fechar-se, sua mente não iria deixa-la dormir; Pelo menos, não por muito tempo.

Caminhou para o banheiro e tomou um dos remédios para dormir que guardava no armário. Não satisfeita, tomou outro e mais outro, até que decidiu pegar todos os frascos que estavam guardados. Alguns remédios caíram no chão quando ela os levou para o lugar em que estava.

[Flashback Off]

A garota encarava os vidros de remédio que havia trazido. A solidão tomava conta do lugar e tudo lhe dizia que deveria tentar algo. Não conseguia pensar em mais nada, apenas que se tomasse a decisão certa, poderia finalmente descansar em paz, longe de toda aquela melancolia que insistia em caminhar ao seu lado, sem nenhuma maneira de se esconder.

Tomou mais um dos cândidos remédios, sem se importar em buscar água para ajuda-la a engolir. Sem se importar, já estava com um punhado de pílulas e outros remédios em sua mão e depois, virava os frascos em sua boca, para certificar-se de que não havia sobrado nada.

Sentiu-se estranha por ter ingerido tantos medicamentos de uma única vez, mas logo, o sono causado pelos remédios para dormir tomaram conta de seu corpo. Finalmente, sentiu seus olhos pesados, implorando por um bom descanso.

Quando menos esperou, já havia caído em um sono profundo e somente a morte, com sua escuridão e seus mistérios, poderia acompanhá-la para onde quer que fosse seu destino póstumo.

Havia, finalmente, conseguido livrar-se da enorme carga que era a de estar viva.