Hipnotizados

19 O estranho do Terminal


Peter estava lavando o rosto quando o corredor foi tomado por um grande número de vozes gritando em conjunto. O barulho pegou o bruxo de surpresa, fazendo-o dar um passo para trás rapidamente, em sinal de alerta. O que não foi uma boa atitude. Como o chão estava molhado pelas gotas d’água que haviam escapado de suas mãos, um de seus pés não resistiu ao atrito e acabou deslizando pelo chão. Ao perder o equilíbrio, ele rapidamente usou uma de suas mãos para apoiar-se na pia e, por muito pouco, evitou uma grave pancada na cabeça.

“O que há de errado comigo?” Pensou ele, levantando-se de forma lenta para não correr o risco de um próximo acidente.

—Já falei que não precisa se preocupar! –Gritava Anúbis, a caminho de sua cela ao lado de alguns policiais e de seu advogado. –Você é um pé no saco! Eu sei muito bem o que estou fazendo.

—Eu me importo, Charlie! Afinal, essa é a minha função, não é? –Insistia o advogado. –Você não pode simplesmente ter o comportamento que quiser em um julgamento! Não vê que isso só te deixa com mais problemas?

—Eu iria apodrecer aqui, de qualquer maneira...

Hector suspira.

—É impossível dialogar com alguém feito você.

—Por favor, Senhor. –Pediu um dos policiais que os acompanhava. –Eu preciso pedir para que se retire.

—Isso mesmo, Senhor Advogado. –Charlie utilizava um tom debochado. – O Senhor já passou tempo demais por aqui, está cansando minha beleza. Sabe como é, né?

—Acho bom recuperá-la logo, Maxfield. –O policial agora o empurrava para a cela, fazendo questão de verificar se estava sendo bem trancada. –Logo mais você terá uma sessão com a psicóloga.

Anúbis empalideceu imediatamente. Essa era a última coisa da qual ele gostaria de ser lembrado. Permaneceu em silêncio até que o policial voltasse para leva-lo até a sala em que ocorreria a consulta.

—Você tem certeza que eu preciso ir? –Eram raros os momentos em que o chacal falava algo seriamente. -Quer dizer... Pensei que pela frequência das consultas, a próxima fosse só daqui há vários dias.

—Depois daquela confusão que você causou no tribunal? –Riu. –Todos os psicólogos do mundo deveriam vê-lo imediatamente.

Charlie agradeceria se qualquer outro psicólogo ou até mesmo psiquiatra pudesse vê-lo, assim, ele daria um jeito de escapar dessa profissional em específico, que o aguardava em sua sala. Em vez de ajuda-lo, as sessões de terapia somente o atormentavam. Sentia-se terrivelmente desconfortável com as lembranças que eram cruelmente renascidas. Era como se pudesse senti-las na pele e, logo depois, ficava por um bom período de tempo sem falar com ninguém, recolhido no canto mais escuro que encontrava.

Os funcionários do local agradeciam imensamente pelo tempo de descanso, uma folga enquanto não eram perturbados pelo criminoso. Porém, somente o próprio Charlie sabia o quanto aquilo o machucava. Sua única fraqueza como “O temível Chacal”.

Infelizmente, estava na hora. Após ser algemado da maneira mais eficiente possível e vestir algo semelhante à uma camisa de força, que o privava de movimentar os braços, Charlie Maxfield foi arrastado até o consultório, onde o triste retrato de seu passado estava sentado em uma poltrona, o esperando pacientemente, em forma de uma mulher adulta.

Como a doutora havia pedido privacidade, após Anúbis entrar, a porta foi fechada e, caso houvesse o menor indício de problemas, com um simples movimento, um pequeno botão poderia ser acionado e a sala seria mediatamente preenchida por policiais armados e prontos para atirar.

Por alguns minutos, doutora e paciente apenas se olharam. Ela, com os gélidos olhos azuis, que conseguiam emitir apenas frieza. Ele, com os sofridos olhos verdes, buscando por pelo menos uma gota de sentimento e emoção que poderia ter sobrado na mulher à sua frente.

—Amilie... –Charlie pôs-se a falar de maneira delicada. –Será que não podemos ter uma conversa de verdade? Pelo menos dessa vez, por favor.

—Senhor Maxfield, já conversamos sobre isso anteriormente. E, por favor, me chame de Doutora Kyle.

As frias palavras que Amilie lhe dirigiam, ainda machucavam Max. Ele sabia, ou pelo menos queria acreditar, que havia restado um pouco dos sentimentos que a loira possuíra há tantos anos e que, alguma hora, eles voltariam a aparecer.

—Amilie. –Charlie se aproximou da psicóloga tão rápida e bruscamente, que ela quase acionou o botão. –É impossível que você não sinta nada. Que tudo o que passamos juntos tenha sido apagado e não tenha sobrado nem mesmo um pouco de consideração.

Esperar por uma resposta foi em vão, já que ela não veio. Ele, então, decidiu tentar provoca-la, como de costume.

—Duvido que a doutora consiga resistir ao meu incrível charme por tanto tempo. Converse direito comigo, pelo menos uma vez! Quebrar o gelo, que tal? Já sei, vamos inverter! Você expõe todos os seus sentimentos e eu, como psicólogo qualificado te ajudo a solucionar os problemas.

—Sr. Maxfield, isso é uma consulta séria. Além disso, o Sr. sabe muito bem que eu não tenho nada a dizer, a não ser que seja em prol do seu tratamento.

Max perdeu a paciência. Ele não acreditava em cura. Principalmente naquela cura, que baseava-se em apagar sua personalidade, transformando-o em algo desprovido de maiores emoções e sentimentos. Poderia ser qualquer coisa, mas recusava-se a virar uma pessoa sem estilo próprio; Um “ninguém”.

Basicamente, Amelie Kyle tentava manipular seu paciente para que o mesmo perdesse suas características antissociais e psicóticas, de modo que pudesse voltar a viver como um cidadão comum. Porém, esse tratamento apagaria todo o resto de sua personalidade e emoções, causando até mesmo em uma perda de memória. Max sabia que estava longe de ser uma pessoa normal, entretanto, apesar de todos os defeitos, ele nunca quis mudar quem era.

—Tudo bem. Se você quer seguir com a sua vida, eu vou entender perfeitamente, mas porque você não demonstra que nós valemos a pena? –Insistia ele. –O que eu precisava era do mínimo de apoio vindo de você, mas... –As palavras fugiam de sua boca. –Por que você está fazendo isso comigo? Você continua me fazendo passar por isso todas às vezes.

—Sr. Maxfield, — Decidiu responde-lo. –Sabe da consideração que tenho pelo senhor, pois decidi não abandoná-lo. Eu estou aqui por que sei que precisa da minha ajuda e, quando essa terapia finalmente terminar, eu sei que o senhor se sentirá uma nova pessoa: livre de tudo aquilo que o machuca e totalmente novo para integrar-se na sociedade novamente.

—Mas não é isso o que eu quero! –Seu tom de voz aumentava. –Essa sua terapia maluca com testes e remédios só me deixa pior! Eu só fiz questão de vir para poder conversar com você. Eu acredito que, algum dia, você voltará ao que era antes. Antes de... –Interrompeu-se, tentando fugir das lembranças que lhe surgiram. -... Antes de tudo.

—Eu estou perfeitamente bem. Já passei por todos os testes necessários no ótimo acompanhamento médico que tive. Eles disseram que o processo foi um sucesso e eu não tinha mais motivos para deixar de seguir em frente. E aqui estou eu, tentando ao máximo ajuda-lo a se tornar uma boa pessoa.

—Se você está pensando que vou me transformar em uma pessoa sem alma, igual fizeram com você, pode esquecer! Eu não posso mudar quem eu sou! Na verdade eu não quero mudar quem eu sou. –Pensou por um instante. –Eu não consigo mudar...

—Todos esses sentimentos à flor da pele... –Analisava a psicóloga, após um breve silêncio. –Não se preocupe, eu vou ajuda-lo a retraí-los e, depois de algum tempo, eles desaparecerão. Você causou muita dor a várias pessoas, Sr. Maxfield, mas saiba que eu o perdoei. Não precisa ter ressentimentos.

—Eu... Eu pensava que não conseguiria viver sem você depois de tudo. Relembrar os bons momentos é sempre o que me traz força pra encarar o dia a dia e, embora eu esteja quase perdendo a fé, eu ainda tenho algumas esperanças.

Mas, ao dizer isso, Charlie reparou em algo: Ele já vive sem Amilie. A mulher que estava a sua frente havia se tornado uma pessoa completamente diferente. Ele não a reconhecia. E foi mergulhando em seu olhar, tão límpido quanto as águas de um rio, que ele lembrou-se de tudo. Tudo o que mais tentava esquecer.

[Flashback onn – 10 anos atrás]

O sol acabara de se pôr quando Charlie Maxfield terminou de arrumar sua mochila. Perguntou-se mentalmente se havia esquecido algo. Nunca podia duvidar de sua capacidade de deixar coisas para trás. De repente, uma luz surgiu: Estava faltando a câmera fotográfica, uma das coisas mais importantes, que deixara dentro do armário por um descuido.

Enquanto a retirava, verificou o calendário que mantinha colado em uma das portas do armário. Faria de tudo para tornar o feriado prolongado inesquecível e, não perderia um minuto sequer. Também iria utilizar a viagem para comemorar seu aniversário de dezoito anos, que foi há alguns dias atrás.

Verificando se, dessa vez, não faltava nada, decidiu enfim sair de casa. Não podia correr o risco de perder o ônibus.

Após descer algumas ruas, parou em frente à uma casa iluminada, com várias espécies de plantas pelo jardim. Conferiu o relógio, contudo, não precisou esperar muito para que todas as luzes fossem apagas. Uma jovem, após trancar devidamente a porta, corria em sua direção com um sorriso no rosto.

—Pronto para viajar? –Perguntou ela, reluzente.

—Nunca estive tão ansioso!

—Tem certeza que não esqueceu nada dessa vez?

—Absoluta, já verifiquei várias vezes. Juro.

Após um leve beijo para matar a saudade, o casal partiu em caminhada até o terminal, onde o ônibus já estaria a sua espera. Charlie se ofereceu para carregar a mala de sua namorada.

—Obrigada. –Agradeceu Amelie.

—Sabe, — Disse Charlie. –Às vezes eu penso que deveria parar de ir a academia e começar a fazer levantamento de mala. –Ele ergueu a abaixou a bagagem algumas vezes. -Da uma olhada! Eu ficaria cinco vezes mais forte com isso!

Amelie bateu levemente no ombro do rapaz, rindo. Não poderia descrever o quão feliz estava apena pela certeza de que ele sempre ficaria ao seu lado e sabia que os sentimentos eram inquestionavelmente recíprocos.

Pediram que um táxi os levasse até o terminal, que não ficava muito longe.

Chegando lá, vários ônibus já estavam prontos para sair. Amelie decidiu usar o banheiro rapidamente, como garantia, enquanto Charlie se dirigiu para o bebedouro público, que se localizava em um ponto um pouco distante. Como o lugar estava em reforma, precisou caminhar um bom pedaço em meio à terra, maquinas e peças de metal.

Enquanto matava a sede, uma sensação estranha lhe percorreu, causando certo desconforto. Ergueu-se para ter uma visão ampla do local e não demorou muito para encontrar a causa daquele estranhamento: Alguém, em meio ao escuro, o observava de longe. Estava sozinho e não tirava, de maneira alguma, os olhos do rapaz.

Charlie não gostava nem um pouco de pessoas mal encaradas como aquele sujeito. Sabia que o recomendado era buscar Amelie e correr em direção ao ônibus, afinal, poderia ser um assaltante armado, apenas esperando pelo melhor momento. Entretanto, não fazia parte do gênio do garoto se controlar. Se alguém olhasse torto para ele, já era um ótimo motivo para pedir satisfação. Charlie se aproximou e o encarou, porém, a situação continuou a mesma; Então ele decidiu utilizar palavras:

—Oi? Quem é você?

Não houve respostas.

—Isso mesmo, eu estou falando com você. –Como não ouviu uma sequer palavra, ele resolveu insistir. –Será que você pode me responder?

Sem ao menos um movimento. Ele permanecia silencioso e parado feito uma estátua humana. Isso foi o suficiente para irritar Charlie. O estranho poderia muito bem estar caçoando do rapaz, fazendo-o falar com as paredes apenas para ver a raiva florescer em seu rosto. E, foi com esse pensamento, que Charlie avançou, com o intuito de conseguir boas respostas.

Enquanto ele caminhava, Amelie, que acabara de sair do banheiro, se deparou com a cena e começou a segui-lo.

—Pra onde você vai? –Gritou ela.

—Só um minuto, preciso resolver umas coisas.

Quando estava em frente ao estranho, preparando-se para falar, sentiu repentinamente a angustiante dor de uma pancada no estômago, que retirou seu ar. Acabara de receber um soco desprevenido. Antes que pudesse reagir, seu pescoço foi envolto por um braço, e tentar respirar agora era ainda mais perigoso: Sentia que um pedaço de tecido, com um cheiro muito forte, estava sufocando-o.

Tentou lutar em meio ao grito desesperado de Amelie, mas sentia tontura e uma sensação estranha, como se estivesse próximo de desmaiar. Tudo escurecia quando seu corpo foi deixado no chão e tentava, sem êxito, focar a visão em Amelie, que, após ficar paralisada pelo medo, começou a correr. Tarde demais. O estranho era mais rápido e não demorou a conseguir imobilizá-la.

Charlie não sentia seu corpo, e a única coisa que conseguiu enxergar antes de cair em um sono profundo, foi Amelie sendo obrigada a inalar aquela estranha substância que foi colocada no tecido. Tudo ficou escuro.