Hipnotizados
20 Nasce um chacal
[Flashback Onn]
Charlie não imaginava quanto tempo seu desmaio havia durado. Minutos? Horas? Talvez um dia inteiro, quem sabe.
Conforme acordava, sentia a dor da pancada que recebera no estômago piorar. O local escuro e sujo causava-lhe arrepios. Contudo, a única coisa com que realmente se importava no momento: Amelie não estava lá.
O rapaz tentou correr, mas estava preso. Usava apenas uma simples calça e sentia frio. Cada uma de suas mãos havia sido presa, deixando seus braços totalmente abertos, assim como suas pernas, como se seu corpo estivesse formando um “X”. Não importava a quantidade de força que utilizasse, libertar suas mãos e pés parecia impossível. Sem melhores alternativas, só lhe restou gritar.
Gritou ao máximo por vários minutos seguidos, até que a dor de garganta começou a lhe incomodar e pôde sentir falhas na voz. Estava prestes a ficar rouco.
A sede e a fome atacavam ferozmente seu corpo e ele nem ao menos sabia quanto tempo havia se passado desde sua ultima refeição. Em meio ao escuro, já estava perdendo a noção do tempo.
Sua garganta e lábios estavam secos, desidratados. Daria de tudo por um pouco de água em um momento como esse. Ainda assim, o que mais lhe perturbava era o que havia acontecido com Amelie. Inúmeras perguntas ocupavam a mente do rapaz: “Que lugar é esse? Onde está Amelie? Ela está bem? Aquele homem estranho... Ah, sim! Estou aqui por causa dele; agora já consigo me lembrar... O que está acontecendo?”.
Enquanto questionava-se incansavelmente, um som tomou o espaço em que o obrigaram a permanecer. Uma porta abria-se lentamente, com um rangido metálico irritante. De repente, uma luz se acendeu, embora fosse ridiculamente fraca.
Um homem caminhou até posicionar-se frente a frente com Charlie. Pela falta de claridade, era difícil identifica-lo; contudo, o rapaz percebeu que batia com o perfil do estranho sequestrador. Parecia estar na faixa dos cinquenta anos e seus cabelos curtos eram de tom louro escuro. Se o local estivesse um pouco mais iluminado, a luz poderia refletir por seus óculos. Ele permaneceu observando o rapaz por um tempo, com um pequeno sorriso.
—Charlie Maxfield. — Parecia estranhamente animado e orgulhoso, porém, discreto. Com a proximidade, era possível notar que ele possuía uma enorme marca no rosto, que o deixava ainda mais assustador. Havia sido queimado, de alguma forma, no passado. –Finalmente encontrei uma oportunidade para trazê-lo até aqui.
—Que lugar é esse? –Max não sabia se estava mais confuso ou furioso. Sentia medo, e com razão.
—É só um barracão afastado, não se preocupe, ninguém aparece por aqui.
—Amelie.
—Oh, a garota está bem. Ficou muito nervosa, então acabei dando alguns calmantes para que voltasse a dormir, mas logo ela irá acordar.
Charlie sentiu certo alívio. Pelo menos sabia em que a situação a namorada se encontrava, embora não fosse das melhores. Entretanto, suas perguntas ainda não acabaram.
—Quem é você? E por que nos trouxe até aqui?
O louro sorriu.
—Me desculpe por não ter me apresentado ainda. Meu nome é David Schade, mas pode me chamar de Dave. Eu estive observando vocês há algum tempo e não há sombra de dúvidas: Vocês se parecem muito com eles.
—Do que você está falando?
Dave pegou um palito de dente e o colocou na boca, como de hábito. Depois, saiu do quarto, deixando Max sozinho novamente.
O tempo passava devagar. Cansado, implorava por alimento. Suas mãos, pés e cabeça doíam e seu corpo estava banhado em suor. Quanto tempo aquilo iria durar?
Dave só foi aparecer novamente o que pareceu ser horas depois e, talvez, realmente fosse.
Ele trazia uma garrafa d’água consigo e, ao oferecer para Charlie, o garoto fez questão de esvaziá-la até a última gota. Ele também lhe deu uma quantidade mínima de comida, apenas alguns grãos, como se estivesse alimentando um animal.
—Não se preocupe filho. Eu vou cuidar de você. –Ele acariciou os negros cabelos do novo filho e pegou um palito igual o que costumava deixar entre os dentes, mas dessa vez o colocou na boca de Charlie, que logo o cuspiu.
—Você é louco?! –Retrucou o rapaz.
—Você e Amelie. –Sorriu. –Eu os escolhi para serem meus novos filhos.
Max não compreendia.
—Meu pai pode ter sido um bêbado miserável, mas eu ainda prefiro alguém como ele a um maluco feito você.
A palavra “maluco” pareceu enfurecer David, que ficou completamente sério pela primeira vez. Irritado, o louro caminhou para um canto escuro do quarto, voltando acompanhado de uma faca em uma de suas mãos.
—Escute. –Ele ameaçava. Eu não vou criar filhos mal educados, você me entendeu? Como pai, eu exijo respeito.
Contudo, Max não estava disposto a participar dos jogos de algum lunático qualquer. Inclinou a cabeça, cuspindo nos pés de Dave com a saliva grossa de quem ainda não havia tomado líquido o bastante para se hidratar.
Descobriu que ainda tinha forças para gritar quando a faca rasgou seu tórax, deixando uma comprida linha vermelha que ardia como fogo. Seus extintos o forçavam a tentar soltar-se, mas, novamente, foi em vão.
—Você se parece muito com a sua irmã. Ela também se recusa a aceitar a bondade do pai, mas é um pouco mais comportada. Ela também pagará pelos seus erros, rapazinho.
E com essas palavras, Charlie foi deixado mais uma vez.
☼ ☼ ☼
Nos próximos dias, nada mudou. Pouca comida, pouca água, praticamente nada de luz. Charlie estava muito magro e seus ferimentos (mais algumas marcas de faca) não recebiam o devido tratamento.
A cada nova visita, Dave insistia em deixar um novo palito com o garoto, igual ao que vivia em sua boca. “Você se tornará um homem igual o seu pai. Todos sempre falaram que somos parecidos mesmo”. Charlie sempre cuspia o palito, com as forças que lhe restavam concentrado em manter um olhar ameaçador fixado em David.
Certo dia, o rapaz deixou o pequeno objetivo entre os dentes apenas para satisfazer as vontades do “pai” e tentar retirar algumas informações. Precisava saber com quem estava lidando.
—Diz que nós somos uma família, mas eu não sei nada sobre você. Quem é você? E o que te deixou desse jeito?
—Desse jeito? –Seu olhar era, de fato, assustador. Utilizou a faca para mais ameaças. –Com “desse jeito” você quer dizer louco? Insano? Fora do normal? Não filho... Não seja igual a eles.
—Eles quem?
Dave pareceu desligar-se por um momento. Finalmente, decidiu contar sua história.
—Todos eles... Todos que me criticavam só por ser quem eu era. Tive dois filhos maravilhosos: Uma linda menina loura e um garoto com belos cabelos negros. Nós éramos muito felizes, sabe. Até o dia em que me trancafiaram dentro de um hospício. Falaram que eu não era bom o suficiente para minhas crianças! Disseram que eu tinha... –Ele hesitou, como se estivesse engolindo seus sentimentos, impedindo que eles escapassem. –Que eu as tinha matado. Mas eu sempre me esforcei para ser um pai incrível! Todos me chamavam de maluco, estranho e assassino, mas eu fui a melhor pessoa que aquelas crianças poderiam ter tido como família!
Após ouvir atentamente o relato (lutando contra dores e a constante vontade de desmaiar), Charlie, boquiaberto, deixou seu palito cair. Dave se aproximou, com orgulho e ternura nos olhos marejados. Ele acariciou com as mãos trêmulas o rosto do rapaz, que se contorcia para não ser tocado.
—Ele teria a sua idade, se ainda estivesse entre nós. Mas, não podemos nos deixar abater! Vou cuidar de você e de sua irmã como se fossem meus próprios filhos e voltaremos a ser muito felizes, não se preocupe. Não vou cometer os mesmo erros do último casal que adotei.
Charlie expressava dúvidas, então Dave continuou.
—O último casal de que cuidei, depois dos meus verdadeiros filhos. Aqueles ingratos fugiram assim que tiveram uma oportunidade e eu fui parar na cadeia. Felizmente, aqui estou eu para cumprir meu destino. Não vou deixar que você e sua irmã se tornem tão mal criados feito aqueles dois.
Fugir. Charlie só pensava nessa bendita palavra e, se o primeiro casal de Dave Schade conseguiu fugir, então ele e Amelie também conseguiriam.
—Você é insano... –Não conseguia segurar o desgosto que acumulara no peito durante todos esses dias e aumentara ainda mais agora, depois de ouvir a trágica história. –Não me admira que te largaram num hospício, eu não faria diferente. Na verdade, — Repensou. –Eu faria sim, te deixaria como comida pra vermes ainda vivo e voltaria todos os dias apenas para assistir. Você não é um ser humano, é um monstro! Um lunático que matou os próprios filhos e agora quer matar os outros só para aliviar o ódio. Seu fosse seu filho, teria me suicidado no primeiro momento em que o reconheci como “pai”.
O silêncio seria eterno se Charlie não sentisse, poucos minutos depois, a lâmina cortante na mesma ferida em seu tórax, abrindo-a novamente. O machucado, que estava infeccionado e sujo, parecia mata-lo lenta e cruelmente. Gritou.
—Você vai se arrepender amargamente por ter dito isso. Como eu já disse, um pai precisa saber educar o filho.
☼ ☼ ☼
Alguns dias depois, uma surpresa: Dave acabava de trazer Amelie para o mesmo quarto de Charlie. Ela estava extremamente magra e pálida. Charlie chorava enquanto observava a garota perto de si, embora seu corpo estivesse com pouco líquido. Contudo, algo apertava ainda mais seu coração: Amelie parecia totalmente atordoada. Embora não houvesse um arranhão sequer em seu corpo, parecia ter sofrido muito mais do que Max. Ela não falava e nem ousava olhar para outras direções, apenas tremia enquanto se encolhia cada vez mais. Barulhos altos assustavam-na ainda mais.
Com algumas boas pancadas e chutes na caixa elétrica, Dave finalmente conseguiu acender decentemente a lâmpada do local. Charlie não conseguiu abrir os olhos por alguns minutos.
—Agora você pode apreciar a punição da sua irmã. –Sorriu, arrumando os óculos antes de deixar a sala. –Mantive o mesmo padrão usado com os seus outros irmãos: Tortura física com os meninos e psicológica com as meninas. Vamos ver quem aprenderá a lição primeiro e assim, quem sabe, eu possa arranjar um novo irmão ou irmã.
Charlie não se importava com o ferimento, com seu corpo ou com o palito que acabara de cuspir. Apenas queria salvar Amelie, mas não podia nem mesmo se libertar. Talvez essa fosse a real punição por seu comportamento, e não o corte abaixo de seu peito. Comparado a isso, a ferida nem doía mais. Nunca esteve tão disposto a morrer, em meio a inúmeras lágrimas de dor que se fundiam com seu suor.
De repente, quando ele próprio já havia aceitado sua severa punição e estava pronto para encontrar uma maneira de se matar, um estrondo que poderia ser ouvido de longe tomou conta do barracão e, quando ele tomou coragem para abrir os olhos, deparou-se com uma luz que crescia com velocidade. A caixa elétrica havia explodido, iniciando um incêndio.
A fumaça e o calor tomaram conta do lugar, trazendo a sensação de que seus pulmões iriam queimar até explodirem. Já havia aceitado sua morte há muito tempo. Enquanto sua visão finalmente escurecia e seu corpo sedia para um desmaio em meio a tosses fracas e secas, ouviu o som de uma sirene.
☼ ☼ ☼
Charlie acordou várias vezes enquanto estava no hospital, contudo, não conseguia permanecer ativo. Quando finalmente conseguiu manter-se acordado, sua saúde já havia se recuperado significantemente, embora ainda sentisse dores no corpo. Contudo, ele já não era o mesmo: Seus olhos eram frios e sem brilho. Nada mais lhe importava.
Quando a enfermeira veio checar seu soro, chamou imediatamente os médicos, que lhe explicaram tudo o que ocorreu.
Quando ligaram a TV, as imagens de Max e Amelie sendo resgatados eram a notícia da vez, assim como as de Dave voltando para a cadeia com alguns surtos.
Um dos médicos tocou em um assunto delicado:
—Charlie... Eu sei que você ainda está se recuperando, mas é necessário que já fique avisado.
Max olhava para o céu pela janela. O doutor continuou:
—É sobre a garota. Ela recebeu acompanhamento com vários psicólogos, mas não apresentou sinais de melhora; Os danos foram muito intensos e a pobre menina acredita que ainda está vivendo aquela tragédia. Pedimos que um psiquiatra renomado viesse de longe para ajuda-la e ele propôs um tratamento não muito adequado. A memória dela será apagada durante o tratamento.
Max suspirou fundo.
—Ela se lembrará da família e dos amigos de infância, mas, eu temo que seja incapaz reproduzir os sentimentos que tinha por eles ou até de criar novos vínculos emocionais. Por isso queríamos negar a terapia, mas, infelizmente, é o melhor a ser feito.
Sem respostas ou comentários, os médicos e enfermeiros deixaram o quarto. Naquela tarde, os sentimentos bons que Charlie Maxfield carregava morreram junto com todos os de Amelie.
☼ ☼ ☼
Desse dia em diante, seus rumos tornaram-se totalmente diferentes.
Charlie não tinha prazer e nem interesse em nada. Apenas vagava pelas ruas sem objetivo nenhum. Não conseguia dormir direito, pois, todas as noites, pesadelos horríveis tratavam de garantir que suas horripilantes olheiras crescessem embaixo de seus olhos. Com medo de apagarem sua memória, igual o que aconteceu com Amelie, recusava-se a receber tratamento psicológico e descontava toda a sua raiva em agressões físicas com pessoas que cruzavam seu caminho. Não tinha paciência para mais ninguém.
Acabou conhecendo diversas pessoas. Com algumas, criou um vínculo mais forte e manteve contato. Dentre elas, um morador de rua um tanto quanto peculiar. Havia abandonado tudo após se formar na faculdade. Não concordava com o modo como a sociedade funcionava e odiava a rotina e as pessoas com quem precisava conviver, alegando que não passavam de um bando de superficiais sem alma, que se importavam apenas com dinheiro e status. Assim, decidiu viver por si só, nas ruas. Charlie achou sua atitude corajosa e engraçada, de modo que passaram a criar uma amizade, apoiando-se um ao outro pelas dificuldades que passaram. Hector era um dos únicos que não julgavam Max pelo que ele era, ao contrário das pessoas comuns. Seu jeito “estressadinho” divertia Charlie, que recuperava seu humor; Porém, desta vez possuía um tom sarcástico e cruel.
Amelie, por outro lado, decidiu procurar algo no que focar, após seu tratamento dar-se por concluído. Como passava a maior parte do tempo com o psiquiatra, acabou se interessando pelos processos de tratamento e, mais tarde, decidiu cursar a faculdade. Sabia das histórias com Charlie (a TV e os jornais sempre a lembravam) e mantinha interesse. Percebendo que ele frequentemente era preso por brigas e assassinatos, decidiu ter como objetivo trata-lo. Ela faria de tudo para que Charlie se tornasse uma pessoa normal, mesmo que precisasse manipulá-lo e aliená-lo com terapias e medicações.
Com tantos crimes e mortes, Max aprimorava cada vez mais seus assassinatos, ficando ainda mais famoso, inclusive, por conseguir fugir da prisão tantas vezes. Ás vezes, só se deixava ser preso para receber a visita de Amelie (ainda era difícil viver sem a presença dela). Entretanto, fugia, pois ele jurou que nada mais poderia prendê-lo após aquele acidente.
Certo dia, Hector estava lendo um livro de mitologia em um bar que os dois costumavam frequentar. Não se preocupava com polícia ou repórteres, pois o pessoal era de confiança. Charlie achava engraçado como o ex advogado se interessava por assunto tão aleatórios (outro dia estava lendo sobre seres pré-históricos e alienígenas).
—“Deuses egípcios”? –Leu Charlie, por cima do ombro de Hector.
—É uma cultura muito interessante. –Respondeu.
—Uau, dá uma olhada naquele deus! Ele tem corpo de homem e cabeça de chacal.
—Sim, este é Anúbis, o juiz do submundo. É ele quem pesa o coração dos mortos e decide se eles podem entrar no Mundo dos Mortos ou se serão devorados por um monstro.
—Deus dos mortos, hein? –Charlie sorriu. -Sempre que alguém se mete em meu caminho, eu sinto que tenho o poder nas mãos. Se a pessoa deve continuar com sua vida inútil, ou se deve apodrecer em um cemitério qualquer por onde andam os chacais durante as noites. Quer saber? Acho que toda pessoa reconhecida precisa de um bom nome. Algo que seus inimigos tremam apenas ao lembrar. De agora em diante pode me chamar de Anúbis, o chacal. E sou eu quem irá decidir quem vive e quem morre.
Antes de sair, Anúbis deu alguns passos para trás até ficar próximo ao balcão. Pegou um dos palitos e o colocou entre os dentes. Já estava escuro e, assim como o pássaro voa e se alimenta durante o dia, a noite foi feita para o chacal.
[Flashback off]
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