Hipnotizados

18 O chacal de olhos verdes


Peter pensava em como era incrível o fato de que apenas uma decisão poderia mudar completamente o rumo das coisas. Há pouco tempo, o garoto lembrava-se de estar ao lado de Lana, confortando-a para que pudesse adaptar-se à sua nova vida. Ele estava convicto de que a garota logo iria compreender o quão incrível fora receber uma chance para viver novamente, privilégio pelo qual muitas pessoas seriam capazes de vender a alma facilmente para conseguir.

Agora, o bruxo encontrava uma posição agradável para sentar-se no chão que o fazia tremer de frio, assim como todo o resto do quarto por trás das grades. Ficou bem próximo à elas, observando o corredor cinza e vazio. Estava sozinho e, continuaria assim por um bom tempo. A ansiedade já havia lhe tomado conta, deixando-o com uma desesperadora vontade de escapar daquela prisão horrenda e correr mais rápido possível para algum local onde pudesse se esconder para sempre. Aquele definitivamente não era seu lugar e, mesmo com poucos minutos em sua cela, o garoto de cabelos negros pôde perceber que não se adaptaria à algo tão desagradável e inconveniente para alguém como ele. Ainda não havia se conformado com o fato de ter sido preso. Entretanto, preferiu ser levado por um carro com sirenes ao invés de reagir e morrer perfurado por balas.

Queria se aquecer, mas, infelizmente, seu tão fiel cachecol verde havia sido tirado brutalmente de si e, logo após, fora substituído por um enfadonho uniforme laranja. Puxou a gola para cima, desejando que a mesma fosse maior para que pudesse tampar sua cicatriz em forma de lua minguante. Infelizmente, aquilo também não estava á seu favor.

O que mais lhe preocupava no momento, era o fato de ter deixado Lana sozinha em casa. Estava decidido a fazer algo para tirá-lo dali, somente precisava de um bom plano a fim de ser executado. Fechou os olhos e suspirou lentamente. Quando já havia esvaziado seus pulmões, estava preparado para mais um até que algo lhe chamou a atenção: Vozes se aproximavam. Algum presidiário caminhava acompanhado de um dos guardas.

­­­-Eu já falei, vocês não podem fazer isso! Meu advogado está cansado de esperar e mal posso falar com ele? Onde estão os meus direitos?! –O presidiário insistia em falar, contudo, sem respostas. –Ei! Não precisa apertar tanto essas algemas, já conversamos sobre isso, não?

Quando finalmente passaram em frente à cela de Peter, ele pôde ver de quem se tratava a impaciente pessoa com algemas apertadas: Um alto e forte homem de aparentemente 30 anos; Seus cabelos eram pretos e ondulados, que quase chegavam aos ombros, e olheiras profundas marcavam os ameaçadores olhos verdes. Por alguns segundos, pensou que lhe fosse familiar, até que, inconscientemente, sua boca abriu-se levemente, no mesmo instante em que se lembrou de vários noticiários, manchetes e programas de TV que não perdiam a oportunidade de informar sobre o homem que continuava tagarelando.

—Ora, ora! –Exclamou ele, parando em frente à cela onde Peter o observava. O policial tentava empurrá-lo, porém, estava claro que se tratava de uma tarefa difícil. –Carne nova no pedaço! Ei garoto, você também não acha que se o meu julgamento vai ser em pouco tempo, eu deveria pelo menos bater um papo com calma e tranquilidade com o meu advogado? Um pouco de respeito por aqui seria bom!

O bruxo imaginou que aquilo fosse uma tremenda ironia, tratando-se do lugar de onde estavam.

—Você acha que isso é brincadeira?! –O policial com uniforme azul escuro estava explicitamente irritado. –Para o final do corredor, agora!

—Ah, qual é! Para que serve esse programa de reintegração social, se não posso socializar com os vizinhos de cela?

—Se não for por boa vontade, — Ameaçou o guarda. –Vou lhe dar mais tempo de pena para cumprir. E, acredite, não vai ser pouca!

—Ok, ok... Não precisa se estressar.

Peter acompanhou com os olhos o policial, já sem paciência, que encaminhava para sua respectiva cela no final do corredor, ninguém menos que um dos maiores assassinos da atualidade, conhecido como Anúbis, o Chacal.

Enquanto o bruxo ainda assimilava a ideia de estar na mesma prisão que o homem mais temido de seu país, o silêncio rompeu-se:

—Pensando bem... –Aquela voz pertencia à Anúbis. Logo depois, um grito foi ouvido. –Não tô afim de ficar nesse tédio agora. Além disso, ainda não terminei a conversa com o nosso novo amigo.

Se Peter pudesse enxergar o que havia acontecido, se espantaria com a agilidade de Anúbis ao retirar suas algemas e socar a rosto do policial, que acabou caindo no chão e batendo a cabeça em algumas grades próximas, pela falta de tempo para reagir à ação inesperada, acreditando que tudo estava sob controle.

O famoso assassino britânico colocou o pequeno e fino ferro (que havia usado para abrir as algemas) em sua boca, como se fosse um palito de dente após uma refeição satisfatória. Sentou-se em frente á Peter, observando atentamente com seus olhos amedrontadores, mas também exibindo um leve sorriso em seu rosto. Mesmo com o tom amigável, o garoto sentiu-se encarando uma fera.

—Eaí, — Anúbis não hesitou em iniciar um diálogo. –O que o trouxe até aqui?

—... Homicídio doloso. –Peter tinha receio, contudo, respondeu-lhe mesmo assim.

Algumas outras celas do corredor também estavam ocupadas e, os presidiários somente observavam os dois. Todos com roupas laranja e feições sérias.

—Oh, eu vi o momento em que você chegou! Cachecol verde, né? Mas enfim, como foi a morte? Quero os melhores detalhes. –Apoiou o queixo com uma das mãos, atento para as palavras do garoto.

Antes que um dos dois pudesse dizer algo a mais, o som de policiais correndo e gritando se aproximou. Anúbis levantou-se rapidamente:

—É, parece que eu preciso ir. Te vejo mais tarde.

Os guardas o alcançaram rapidamente. Após tudo ser resolvido (socos e xingamentos à parte), Peter ouviu que os homens de azul escuro conversavam sobre como aquela não havia sido a primeira vez. Também haviam-lhe tomado o pequeno ferro.

A conversa que teve com Anúbis durou apenas alguns rápidos segundos, porém, o deixara com vontade de saber mais sobre essa figura de quem todos falavam. Caso surgisse a oportunidade, ele não hesitaria em conversar com o Chacal.

☼ ☼ ☼

Tudo era entediante e calmo, até Peter perceber que Anúbis estava prestes O policial acompanhava um homem de terno e gravata até a cela do presidiário. Além de bem vestido, ele carregava uma maleta e aparentava nem ter chegado aos trinta anos de idade. Ele parecia ansioso.

—Hector, meu amigão! Você por aqui, de novo? Não esperava vê-lo tão cedo.

—Você sabe muito bem que não podemos ficar de brincadeira, Charlie. Isso é sério! Seu julgamento é amanhã e nunca consigo ter uma conversa séria com você. A propósito... O que você está fazendo?!

Anúbis estava deitado na parte de cima do beliche que, certa vez, tivera que dividir com um colega de quarto. Inesperadamente (ou não) o convívio entre eles não teve sucesso. Entretanto, somente metade do corpo do presidiário estava apoiada na cama. Suas costas estavam escorregando, auxiliadas pela gravidade, deixando-o parecido com um morcego, ou até mesmo um vampiro.

—Não acredito que você ainda se preocupa com isso. –Respondeu o novo Conde Drácula por trás das grades. – Já passei por tantos julgamentos e você ainda acredita que vou dar ouvidos aos seus conselhos.

—Só estou tentando te ajudar e você sabe disso! Não sou seu advogado à toa. –Hector expunha, por seu tom de voz e expressões, o estresse que carregava consigo. –Só estou fazendo meu trabalho. Eu me importo com você!

—Você se preocupa demais, Hector. Eu já sou um cara crescido.

O advogado suspirou, derrotado. Sabia que não poderia discutir com alguém como seu cliente, já o conhecia há muito tempo para certificar-se disso.

—Apenas tome cuidado com as coisas que vai dizer. Uma ação errada significa mais tempo de pena.

—Fique tranquilo. Eu sei perfeitamente como me comportar em um julgamento. –O chacal sorriu maliciosamente, como uma criança prestes a aprontar sua maior travessura.

Hector sabia que qualquer argumento seria em vão. Se despediu do cliente e foi embora, precisava fugir do estresse para tentar dormir antes de um julgamento. Sentia ainda mais medo e nervosismo perante ao tribunal por se tratar de um advogado iniciante e sem muita experiência. Havia passado por momentos difíceis em sua vida que não sabia ao certo o que pensar sobre.

Ao julgar pela conversa, Peter pressentia que o julgamento seria algo diferente do que de costume; Pagaria para que pudesse assisti-lo. E ele estava totalmente certo.

☼ ☼ ☼

No próximo dia, Anúbis foi liberado para vestir algo mais formal e logo, seria encaminhado para o tribunal, ao lado de seu advogado.

—Sério, eu não compreendo a necessidade de usarmos roupas tão formais como essa merda só para uma visitinha rápida no tribunal.

De repente, ele saiu correndo para uma pequena sala perto do corredor em que estava, deixando o policial que o acompanhava extremamente irritado e, poderia ter jurado ouvir o homem de azul gritar consigo, se não estivesse tão ocupado em meio ao enorme cesto de roupas que bagunçava.

Quando chegavam à cadeia, os presidiários eram obrigados a usarem uniformes. Toda a roupa que estava com eles era deixada por ali, dentro de um bagunçado cesto, até que alguém de boa vontade resolvesse arrumá-las devidamente e, só seriam entregues de volta no dia que os respectivos donos estivessem livres.

Ele retirou uma velha camisa de mangas longas estampada com a figura de algum desenho animado. Tinha manchas e estava amarelada, porém, ele não se importava.

—Por que não posso ir com algo desse tipo?

O guarda puxou-o com muita força, porém, ele não se importou com a dor onde provavelmente havia formado uma mancha vermelha, pois a de suas algemas conseguia incomodá-lo mais.

Ele ainda teve tempo para esticar-se com a intenção de devolver a peça de roupa. Ao fazê-lo, algo em especial chamou sua atenção.

Com um movimento rápido, soltou seu braço das mãos do policial e voltou para seu corredor habitat, parando em frente à cela de Peter.

—Ei, acho que esse treco é seu.

Peter ergueu as mãos a tempo de pegar algo que Anúbis lhe entregara rapidamente, antes que o guarda perdesse a paciência e decidisse usar o cassetete (que só não havia usado ainda porque o julgamento ocorreria logo).

Analisando com mais cuidado, o bruxo foi preenchido por uma nostalgia que o confortou, fazendo sentir-se protegido em meio aquele lugar frio e solitário. Estava com seu cachecol de volta.

☼ ☼ ☼

Muitas pessoas aguardavam ansiosamente a chegada do criminoso mais comentado pela mídia da atualidade.

Do lado de fora do prédio, onde o julgamento seria realizado daqui alguns minutos, uma grande quantidade de jornalistas tentava conseguir uma pequena brecha para espiar, dificultando o trabalho dos seguranças. A polícia fez questão de mandar representantes a mais, para que o público curioso fosse devidamente controlado.

—Nós queremos apenas alguns detalhes! –Insistia uma jornalista.

—Uma única foto para o jornal! –Persistia outro, sem sucesso.

De repente, todos prestaram atenção em apenas um grito entre a multidão:

—O juiz! –Exclamou um dos repórteres.

O senhor, acompanhado de seus seguranças, saiu de um luxuoso carro e foi acompanhado até a porta do estabelecimento. Durante o percurso, que não era tão longo, foi bombardeado pelas mais variadas perguntas possíveis, ignorando todas. Mesmo que quisesse, não poderia respondê-las, pois recebera instruções para isso. Apesar de ser o foco principal do público, seus superiores (do governo) não queriam a atenção do povo voltada para um assassino em série, principalmente enquanto tentavam se esquecer do incidente que ocorrera há alguns anos, o que acabou resultando nos atos vingativos de Anúbis. Falar sobre o chacal somente os lembrava de que pessoas como ele estavam manchando a reputação do país.

A hora enfim chegou. Era bem cedo quando todos estavam no tribunal, inclusive Hector, o advogado que suava frio e não conseguia de maneira alguma controlar as rápidas batidas de seu pé do chão. Sentia seu corpo coçar e os batimentos cardíacos acelerando. Estava ansioso.

A porta se abriu e lá estava ele. O famoso Anúbis, com seus marcantes olhos verdes cercados pelas profundas olheiras acabava de entrar no tribunal, utilizando uma espécie de algema articulada (ainda mais forte do que a comum). Sua barba estava feita e, embora, demonstrasse total indiferença, ele observava discretamente todos e tudo o que ocorria na sala.

Enquanto os policiais o dirigiam para seu devido lugar como Réu, uma jurista aproveitou para retirar uma duvida com um colega ao lado:

—O que aquilo está fazendo ali? –Apontou com um leve movimento de cabeça na direção de um objeto que havia sido empurrado próximo ao lugar do réu. Tratava-se da inusitada figura de um esqueleto.

—Oh, um médico que estava depondo no último julgamento de ontem fez questão de usar esse esqueleto para apresentar de forma clara seus argumentos. Creio que ninguém tenha se importado em retirá-lo durante a noite.

—Precisamos lembrar alguém de leva-lo embora mais tarde.

O senhor concordou com a afirmação e logo, os dois voltaram sua atenção para o tribunal. O julgamento estava prestes a começar.

O juiz iniciou e sessão com algumas palavras, das quais todos procuravam prestar atenção. Exceto Anúbis, que parecia encantado com o objeto desprovido de músculos e pele, mas que, porém, possuía belos olhos azuis de vidro.

Dentre todas as palavras ditas pelo juiz (que Anúbis considerou como “chatas”) algumas lhe chamaram a atenção.

—Estarei, mais uma vez, acompanhando e julgando o caso do Sr. Charlie Maxfield, vulgarmente conhecido como Anúbis, o Chacal.

—Ah, por favor. –O chacal fez questão de interrompê-lo. –Sem formalidades aqui. O senhor pode me chamar de Max.

O juiz suspirou antes de continuar. Sabia como era difícil julgar alguém como Charlie.

Hector, por sua vez, olhou diretamente para seu cliente, que achou engraçado: O que era para ser um olhar intimidador, apenas demonstrava nervosismo.

Max descia cada vez mais em sua cadeira, totalmente relaxado e entediado, como uma criança que espera impacientemente por sua mãe. Hector provavelmente morreria em alguns instantes pela vergonha alheia de seu cliente. Ou, pior ainda, por se tratar do representante de um homem tão desatento.

O advogado orou profundamente para que ninguém estivesse prestando atenção em Charlie, do contrário, o teriam visto cuspindo na própria mão.

O que você está fazendo?... Pensou ele, enquanto massageava a testa, procurando por calma e paciência.

Enquanto os argumentos contra ele estavam sendo expostos, Charlie simplesmente esticou um de seus braços, enquanto prestava toda a atenção no discurso contra si. A mão, livre das algemas, arrastou o esqueleto para mais perto e Max o abraçou como se estivessem assistindo um filme no cinema. Pensou que, se alguém houvesse trago pipocas, seria perfeito.

Por sorte, havia deixado um grampo (que roubara da pasta de algum jurista) em sua boca, sabendo que faria bom uso mais tarde.

Os policiais estavam prontos para prendê-lo novamente (e arrumar novas algemas), enquanto Hector pedia encarecidamente para que seu coração parasse de bater, evitando assim que sua enxaqueca piorasse. Provavelmente, não teria chances de argumentar.

—Você sabe que um tribunalzinho como esse não pode me impedir, não é, Sr. Juiz? –Anúbis agora olhava através de um dos olhos que havia arrancado do pobre esqueleto. Os policiais agarraram seus braços. – É engraçado como se consideram homens livres, mas obedecem a um papel com todas essas regras idiotas. –Ele de dirigiu ao júri. -Eu olho para vocês e só consigo ver almas presas. Eu, atrás das grades, sou mais livre do que qualquer um nesse lugar.

Essas palavras chamaram a atenção de Hector, que alguns minutos antes, tentava disfarçadamente esconder seu rosto atrás de uma das mãos.

O som de um martelo batendo soou. Estava decretado pelo juiz: Charlie acabara de receber mais algum tempo de pena devido ao desacato no tribunal. Hector fechou olhos, dado por vencido, procurando minuciosamente se havia restado algum pensamento positivo em que pudesse se apoiar. Anúbis sentiu a necessidade de acrescentar um comentário:

—Mais tempo? E qual é a novidade? –Anúbis retirou um palito que havia furtado discretamente do lanche de um policial enquanto caminhava até o julgamento. Ele o mordeu e deixou entre os dentes, como se fosse o cabo de um pirulito. Sentia-se mais confortável assim.

O tribunal havia começado a se tornar uma bagunça. Policiais correndo por todo o canto e todos começavam a levantar-se, tagarelando. Uns estavam em busca de maiores explicações e outros, apenas procuravam a saída. Anúbis se aproveitava da grande multidão e tentava confundir ainda mais os guardas.

Enquanto o juiz tomava um gole da água de sua garrafa térmica e Max era levado de volta à cela em que poderia facilmente apodrecer pelo resto de sua vida, Hector se atentou a um pequeno detalhe: Onde estava o olho do esqueleto?

Foi questão de esperar apenas mais um pouco. O velho juiz começou a engasgar; Sua respiração havia sido interrompida e o rosto começava a adquirir um tom roxo. Seus olhos lacrimejavam e ele sentia a terrível sensação de não poder fazer mais nada que o livrasse dessa situação. Algumas pessoas ao redor entraram em pânico, sem saber o que fazer. Se algum paramédico não o socorresse imediatamente, poderia morrer.

Quando finalmente limpassem sua garganta, eles iriam perceber que o juiz havia se engasgado com um olho de vidro, colocado propositalmente em sua água.

Hector saiu correndo na direção de Anúbis, que exibia um leve sorriso travesso e caminhava tranquilamente. O advogado resumia-se em uma pilha de preocupação, nervosismo e ansiedade. Estava tremendamente irritado com Charlie, contudo, ao tentar conversar a sério (o que era praticamente impossível), o presidiário deu somente uma resposta:

—Da próxima vez, traga pipoca.