Hipnotizados

6 O amor como uma faca


Notas iniciais
"Na Europa, havia a crença de que as bruxas (curandeiras) eram auxiliados por entidades sobrenaturais conhecidos como espíritos familiares, que assumiam forma terrena, geralmente tendo a aparência de ambos os seres humanos ou animais. Segundo a crença, elas costumeiramente viajavam para uma reunião noturna conhecida como sabá, onde adoravam o diabo, festejavam, e cometiam vários pecados. A estimativa é de 40 mil a 100 mil execuções por "atos de bruxaria" entre os séculos XV e XVIII".

Determinada a encontrar sua irmã, Helena saiu de casa escondida, já sabendo que as outras não a deixariam procurar por Clarisse; No entanto, ela sentia-se no dever de encontrar a mulher desaparecida.

Decidiu ir até a banca de livros para ver se Fred estava lá. O rapaz agia de modo muito diferente ultimamente, mas todo têm fases ruins, não é mesmo? Um leve sorriso preenchia seu rosto quando se lembrava de que uma criança crescia em seu ventre. A garota já pensava em como escolheria o nome, nas roupas que poderia costurar e também em como seria trabalhoso, mas ao mesmo tempo gratificante cuidar de um bebê. Preocupava-se com o que Freddie pensava sobre isso, contudo, procurava sempre ser otimista.

Quando finalmente chegou ao centro da cidade, onde a banca encontrava-se, avistou uma figura com vestes pretas ali perto. No mesmo instante identificou que se tratava de Freddie, que estava sentando em um banco em um lugar mais isolado. Ela foi logo ao seu encontro.

–Fred! –Disse ela caminhando de maneira animada.

O rapaz ouviu o chamado e olhou para ela, com uma expressão sombria, auxiliada por olheiras ainda mais marcadas do que de costume. Aquele Freddie era totalmente diferente do divertido e irônico garoto que Helena conhecia. Ele levantou-se e caminhou na direção da moça com uma expressão séria, o que a deixou com dúvidas e até uma leve pontada de medo. O que havia acontecido com ele? Já ouvira falar de homens que ficavam completamente diferentes e estranhos sob a pressão de se tornar pai, mas isso estava muito esquisito a seu ver. Diminuiu os passos enquanto ele se aproximava cada vez mais rápido.

–Você... –O rapaz tentava falar, mas as palavras pareciam ter vontade própria, preferindo assim, ficarem apenas com ele, ao invés de serem expostas. Então ele precisava força-las a sair. Agora andava muito rápido e distraído, e como consequência disso, acabou esbarrando de lado em um lixo, fazendo assim que uma garrafa de bebida alcoólica vazia caísse no chão, quebrando-se em vários pedaços. Ele apenas os ignorou e continuou caminhando.

Helena assustou-se com o barulho do vidro despedaçando-se, encolhendo-se como reação. Quando voltou ao normal foi quando se assustou de verdade. Ignorando os cacos de vidro no chão, ele continuou a andar e acabou escorregando ao pisar em um deles. Tudo ocorreu muito rápido, porém, momentos antes que ele pudesse cortar seu rosto nos pedaços da garrava quando caiu, Helena fez cada parte cortante deslizar para o lado, de modo que o garoto caísse no chão sem maiores feridas.

A cena ocorrera incrivelmente rápida e tanto o coração da garota, como o do garoto estavam acelerados.

Após o choque, Helena olhou em volta para ver se ninguém havia visto o que acontecera, mas todos pareciam ocupados demais para prestarem atenção nos dois. Essa era a primeira vez que ela conseguira manipular tantos objetos de uma vez, mesmo que pequenos e por causa disso sentiu uma leve tontura e dor de cabeça. Passou a mão pelo nariz para conferir se não estava sangrando demais, o que ocorria quando ela se esforçava muito. Não estava. Dessa vez agira como se fosse um reflexo, movida pela adrenalina e o medo de que o rapaz se machucasse.

–Fred. –Ela abaixou-se para ajuda-lo. –O que foi isso? Você precisa ser mais cuidadoso!

–“O que foi isso”? –Perguntou ele, esfregando seus cabelos com uma das mãos, pela dor na cabeça após a batida, enquanto a outra que estava doída por ter amortecido a queda o ajudava a se levantar. –Sou eu quem deveria perguntar “O que foi isso”!

Helena afastou-se um pouco, observando-o.

–Eu pude ver muito bem que aquilo não foi obra do vento. –Ele olhava para os pedaços da garrafa de vidro próximos dali. –Você... –Hesitou para continuar a frase. –Você é uma bruxa, não é?

Helena não estava preparada para aquilo. Não poderia mentir para Fred. Na verdade, não sabia sequer se conseguiria, pois ele era esperto e logo perceberia o blefe.

–Fred, eu... Na verdade...

–Não precisa falar mais nada. –Interrompeu-a enquanto se levantava, fazendo com que ela se levantasse também. –Eu já vi o suficiente.

A bruxa olhou para as roupas do garoto que estavam verdadeiramente bagunçadas e pode notar algo que não havia percebido antes. Seu coração parou no momento em que percebeu que do lado de dentro da gola preta havia um pequeno desenho de uma chama. Seu corpo teve vontade de desabar, junto com sua mente, quando se deu conta de que o rapaz que amava fazia parte da temida Associação Mundial Contra as Bruxas.

Ele estava pronto para ir embora, quando decidiu continuar:

–E “a verdade”? A verdade é que você e sua irmã são realmente bem parecidas. É uma pena que ela tenha sido tão enxerida. Além disso, ela falava demais. –Freddie sentiu um sentimento ruim preenchendo sua alma. Ficou terrivelmente mal por ter dito àquilo, mas precisava ter feito. Era necessário desapegar-se de Helena. Quanto á seu filho... O fato que o mesmo iria nascer com sangue amaldiçoado lhe fazia querer chorar.

Ao ouvir sobre Clarisse, lágrimas juntaram-se nos olhos de Helena, preparadas para cair feito uma cachoeira a qualquer momento. Sua emoção foi maior do que poderia prever e saiu em forma de palavras, gritando:

–Você matou a minha irmã! –Dessa vez não conseguiu segurar o choro. Não tinha a certeza de que ele matara sua irmã, mas achava que os membros da AMCB fossem todos iguais e não pensou duas vezes antes de culpá-lo.

Fred se aproximou para fazê-la parar de gritar, pois assim chamaria a atenção indesejada de todos ali. Ele agarrou o braço da garota, olhando em seus olhos e então falou:

–A sua irmã matou a minha mãe! –Mesmo em tom baixo, sua voz demonstrava raiva e desespero. Não sabia se Clarisse, de fato, havia matado sua mãe, mas para ele todas as bruxas eram iguais e deveriam ser eliminadas.

No entanto, apenas soltou Helena devagar, que puxou seu braço para si rápida e brutalmente. Fred, então, foi embora, deixando a garota em lágrimas e lutando contra as próprias.

☼ ☼ ☼

Helena contou para sua família do ocorrido e recebeu o apoio e os pêsames pela morte de sua irmã. Michelle não comentou a verdade sobre aquela noite, mas magoou-se quando soube o que havia acontecido com Clarisse.

–Nós deveríamos procura-los! –Sugeriu Michelle. –Para vingar Clarisse e impedir que isso aconteça novamente.

–Não podemos. –Retrucou a avó. –Mesmo com certa vantagem, eles são muito mais numerosos e estão espalhados por todo o mundo. Não conseguiríamos simplesmente ataca-los sem correr o risco de morrer logo em seguida. Somos uma família e devemos nos proteger para que isso não ocorra novamente!

–Eu me lembro das histórias... –Disse a jovem. –A partir do século XV a caça ás bruxas ganhou muita força e poder e então, quando finalmente essa fase estava acabando a AMCB foi formada clandestinamente. Eles estão cada vez mais próximos de nós.

–Além de tudo, creio no nosso poder. –A mais velha tentava confortar sua neta com as palavras. –Depois desse período horrível da história, nossa magia pareceu enfraquecer-se. No entanto, agora ela parece crescer cada vez mais e você é prova disso, assim como Helena. Acredito que ainda há muita esperança para nós.

–Eu também ouvi histórias sobre bruxos. Se Helena estiver esperando mesmo um menino, ele será muito forte, como todos os outros feiticeiros da história, não?

–Sim, ele será. –A avó ficou preocupada. Desejava que sua premonição sobre a criança estivesse errada. As chances de um garoto da linhagem de bruxas sobreviver ao nascimento eram mínimas.

☼ ☼ ☼

A barriga de Helena crescia cada vez mais, assim como a saudade de Fred. Simplesmente não conseguia imaginar uma vida sem ele, mesmo se esforçando muito para isso. Sua alma parecia estar mergulhada em alguma espécie de mistura entre tristeza, dor e também saudade. Lembrava-se de cada momento que passaram juntos, desejando que alguém da cidade, com tantas tecnologias e estudos, inventasse finalmente uma máquina do tempo, para que ela pudesse voltar pelo menos por um minuto e assim, quem sabe, livrar-se dessa agonia interminável que sentia dia após dia. Sua única saída de tudo aquilo era conversar com a criança que crescia em seu ventre, esperando ansiosamente pelo dia em que pudesse finalmente conhece-lo. Quem dera Clarisse estivesse ali para ouvir Helena confessar que realmente amava o cara da faculdade.

A situação de Freddie não estava muito diferente. Tentava, mas era em vão: Não conseguia esquecer de maneira alguma a garota que defendera em seu primeiro dia de aula e como foi incrível a sensação de encontra-la novamente anos depois. Andava distraído e frustrado. Pensava se aquilo iria durar para sempre, agora que algumas horas pareciam durar anos, principalmente quando precisava dormir. Afinal, concluíra que os grandes sábios estiveram certos o tempo todo: Amor não era nada mais nada menos do que uma doença. Contudo, também era a cura, caso fosse correspondido, para a dor superior a de uma faca, que rasgava lentamente seu coração. O que mais queria ouvir naquele momento eram as doces e gentis palavras de sua mãe confortando-o.

Para tentar aliviar o peso que carregava, Freddie contou a triste história para seu pai, inclusive o que sentia. Após isso, houve diversas discussões e brigas entre eles e por mais que o garoto quisesse concordar com o mais velho, não conseguia ignorar o fato de que amava a bruxa.

Após muitos desacordos, eles finalmente fizeram as pazes. Fred agora recebia o apoio do pai, que estava cansado e perturbado por ver o desânimo do filho. Confiava cegamente no menino e se o mesmo falasse que ela era uma boa pessoa, ele acreditaria.

–O problema, filho, é que a AMCB tem investigado muito ultimamente. E o pior é que não me deixam ver o que está acontecendo, desviando a minha atenção toda vez que me mostro interessado.

–Aquele dia que eu e a Helena discutimos... O senhor acha possível que algum membro tenha ouvido nossa conversa? Todos pareciam muito distraídos, mas mesmo um pouco afastada de todos, creio que possam ter ouvido no momento em que ela falou alto.

–É disso que estou com medo... Eu sei que somos novos no grupo, mas eles não nos deixariam fora de uma investigação à toa, afinal, poderíamos ser úteis com informações ou algo do tipo.

☼ ☼ ☼

Helena voltava para a banca de livros frequentemente, mas nunca encontrava Fred. Seus familiares falavam que iriam se mudar novamente, pois a AMCB havia se aproximado demais. Contudo, Helena não queria se mudar e acreditava que caso o fizessem, só levantariam mais suspeitas e uma possível perseguição.

Até mesmo o dono do lugar notara a mudança da garota, mas não fazia questão comentar, acreditando ser coisa da gravidez.

Em uma dessas visitas ao centro da cidade, Helena já estava pronta para voltar para casa, quando avistou uma silhueta conhecida. Dessa vez, ela não fez questão de correr para os braços de Freddie.

Tanto o coração do rapaz, quando o da moça, pareciam se contorcer quando seus olhos se encontraram. Ambos desejando por tudo o que sentiam para fora em forma de lágrimas, mas continuavam fortes por fora.

Helena precisava passar por ele caso fosse para casa, então pensou em ir por outro caminho, entretanto um teimoso “não” tomou conta de si. Corajosa, seguiu em frente, evitando olhar em sua direção. Contudo, não conseguiu deixar de olhá-lo e ao ver a expressão de Fred, parou. Queria ir embora e ao mesmo tempo impedia-se.

–Fred...

Antes que ela pudesse continuar, Freddie a abraçou repentinamente. Lentamente, ela correspondeu e ficaram ali por longos minutos.

–Eu realmente não queria ter dito tudo aquilo. –Disse Fred, após um tempo. –Sobre a sua irmã...

–Você não precisa dizer nada. –Interrompeu-o. –Eu... Eu sinto muito pela sua mãe. Muito mesmo.

Fred pôs sua mão sob a barriga de Helena e então um pequeno e emocionado sorriso formou-se nos lábios de ambos.

Muitas lágrimas e algumas palavras foram derramadas e ditas após isso. A dor ainda era grande, entretanto, sabia que ela só poderia ser amenizada enquanto estivessem juntos.

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A felicidade voltara a reinar, mesmo que discretamente, em Fred. Ele melhorara muito com Helena ao seu lado. O ódio pelas bruxas ainda tomava conta dele, mas agora pensava que, assim como humanos comuns, também existiam bruxas boas e más.

Seu pai pareceu entender, mesmo com muita desconfiança. Preocupava-se somente com a felicidade e o Bem-estar do filho, que agora arriscava até exibir alegres sorrisos. Frequentava a AMCB apenas para receber as novas notícias e talvez encontrassem uma bruxa que de fato fosse do mal.

Certo dia, o rapaz estava no bonito prédio da Associação, quando Richard, um dos líderes do local, aproximou-se acompanhado de mais alguns homens. A expressão em seu rosto era de total decepção, no entanto tentava parecer o mais sério possível.

–Você está sentenciado à morte por traição... Freddie Chevalier.

Notas finais
Pessoas, por causa da escola não vou poder postar capítulos toda semana, mas a história não será abandonada! De vez em quando vou voltar trazendo capítulos novos pra vocês ♥