Hipnotizados
24 Novos amigos
Já era noite quando Peter e Max chegaram à cidade dos amigos do Chacal. Fora um longo e cansativo caminho, contando com roubos de carros, motos e fugas da polícia e da AMCB. Anúbis já estava adaptado á esse estilo de vida, porém, o mais jovem sentia-se esgotado. Pensava em Lana, que havia ficado em casa sozinha, mais uma vez, para sua própria proteção. Sair com dois foragidos iria ser um tanto perigoso e Peter não queria correr o risco.
—Já estamos chegando? –Perguntou o rapaz. Seus olhos quase se fechavam enquanto ele observava a paisagem escura com sua cabeça encostada à janela do carro. –Caso contrário, não vou me importar em dormir um pouco.
—Nem adianta, já estamos quase lá. –Anúbis era o motorista. –Vamos chegar em um bom horário, todos vão estar lá.
—“Bom horário”? –Questionou. –Está de noite, todos devem estar dormindo.
—Oh não, meu caro Peter. Essa é a hora em que a cidade ganha vida.
O carro parou e os dois seguiram o resto do caminho a pé, para evitarem uma possível visita da polícia. A estrada estava deserta e escura, mas logo algumas casas começaram a surgir. Era possível ver os enormes prédios da cidade grande ao longe.
O bruxo ouviu um baixo som de música e pessoas conversando, quase inaudível.
—Viu? Estamos chegando! –Charlie estava entusiasmado como nunca.
Entraram em uma residência aparentemente simples e abandonada, onde precisaram descer as escadas até uma sala principal. A música parecia bem mais alta agora. Dois seguranças olhavam com atenção quem estava chegando.
—Você voltou?! –Exclamou um deles, desconstruindo toda a impressão séria que mantinha em seu rosto anteriormente.
—Eu sempre volto. –Anúbis o cumprimentou.
—E quem é o garoto?
—Esse é Peter. Conheci na prisão.
—Bem, sintam-se à vontade. O pessoal lá dentro vai ficar doido quando descobrir que você está aqui.
Quando ele finalmente abriu a porta que tomava conta, a música alta quase explodiu os tímpanos sonolentos de Peter.
—Não falei que você ia acordar? –Anúbis quase gritava, observado o local com um ar nostálgico. –Agora só falta alguns drinks.
Era incrível como um lugar escondido como aquele pudesse ser tão grande. Estava lotado de pessoas dançando, conversando, rindo e ficando bêbadas. O cheiro de cigarro e outros aromas eram fortes; Peter demorou para adaptar-se.
Max havia se misturado com a multidão, deixando o rapaz perdido na multidão. Logo, um barulho de um grupo de pessoas gritando em comemoração destacou-se de todos os outros sons. O bruxo seguiu as vozes e logo encontrou Anúbis em frente ao bar, com um grupo de pessoas que não paravam de falar, animadas. Quando o homem percebeu que o rapaz estava observando, convidou-o para se aproximar:
—Chega mais, Peter. Vou apresentar a minha galera. –Anúbis já havia arrumado um palito de dente com o barman, que também era seu amigo de longa data.
O rapaz de aproximou e todos o olharam fixamente de imediato. Pareciam um pouco mais novos do que Anúbis. Sentiu-se um tanto desconfortável, principalmente por não conhecer ninguém e não saber se conseguiria se dar bem com pessoas tão diferentes. Interação social nunca foi seu ponto forte. Entretanto, ele lembrou-se que já havia passado por situações no mínimo muito piores e seguiu em frente.
—Pessoal, — Max segurou-lhe o ombro, envolvendo-o numa espécie de abraço. –Esse é Peter Chevalier. Pode parecer só um garoto tímido agora, mas esse cara é muito louco!
—Oi Peter! Você é uma gracinha. –A mulher do grupo foi a primeira a se apresentar. Seus cabelos pretos lembravam penteados usados há algumas décadas atrás. Usava um batom vermelho que destacava-se de tudo e não economizava nos sorrisos. –Espero que tenha cuidado bem do nosso chacalzinho.
—Essa é Margot. Ela vive sorrindo, abraçando e às vezes canta músicas antigas que ninguém conhece; Bem, — Corrigiu-se. — Talvez nossos avós.
—Oh, Maxxie. –Com uma expressão de carência e tristeza, ela se jogou nos braços de Anúbis, que precisou se afastar de Peter para não deixa-la cair. –Todos sabem que você ama as minhas músicas! Vamos, não seja tão mal.
—E pra variar, ela está bêbada de novo.
—Essa aí não tem jeito... –Riu um homem sentado no banco do bar, fumando um cigarro. Ele usava uma jaqueta de couro e tinha um cabelo engraçado: Escuro, porém, tingido de vermelho nas pontas. As laterais eram bem cortadas, deixando-o com um longo topete bagunçado.
—E esse cara é o Matt. Nem adianta disfarçar sujando a imagem da Margot, você bebe tanto quanto ela! E nem sempre inala só a fumaça do cigarro...
—Ei, não precisa me entregar desse jeito! –Riu e inalou mais uma vez a fumaça do cigarro, expelindo-a logo depois. Ele usava óculos escuros redondos, que retirou na hora de conversar. –E só pra deixar claro, eu sou o integrante mais incrível e bonito desse grupo.
Peter deixou escapar alguns sorrisos, mas logo reparou em algo que o intrigou: Matt carregava duas pistolas. Ao perceber que o garoto olhava fixamente para elas, continuou a conversa:
—Legal né? São as minhas preferidas. –Exibiu uma delas, como se fosse um celular novo. As pessoas ao redor nem sequer davam atenção para isso.
—Matt trabalha com o tráfico de armas do estado. –Explicou Max. -Ele sempre foi apaixonado por essas coisas. –Agora, ele tentava livrar-se de Margot. –Caso precise de uma, já sabe onde conseguir.
Matt piscou, concordando com a afirmação.
Anúbis observava as pessoas ao redor. O lugar estava lotado e bebidas não paravam um minuto sequer de serem servidas. De repente, notou algo familiar: Conhecia o homem que estava servindo-se no balcão.
—Não acredito que você está aqui! –Foi até ele, colocando a mão em seu ombro.
—Não faça isso! –Disse constrangido, tomando mais um gole de sua bebida. –Eu poderia ter caído com o susto.
Peter estava pensativo, embora a música muito alta dificultasse. “Espere, aquele não é o advogado...?”.
—Hector, meu camarada! –Gritou Matt animadamente, indo de encontro ao amigo. –Não avisou que vinha para cá.
—Isso é porque ele só vem quando está triste, para afogar as mágoas e ficar longe daquelas pessoas engravatadas. –Margot encheu o copo de Hector, que havia ficado vazio novamente.
—Sabe... –Hector remexia seu copo. –Às vezes eu penso que deveria parar com esse negócio de ser advogado.
—É isso o que estamos tentando te dizer todo esse tempo! –Alegrou-se Matt. –Mas não, você sempre preferiu ser o bonzinho que se importa com as pessoas.
—Isso não era pra ser algo bom? –Perguntou Margot irônica.
—Não por aqui. –Levou seu cigarro aos lábios.
—Quando tirei Hector da rua, — Explicou Max para Peter. –Eu o trouxe para cá e ele acabou se dando bem com o grupo, mas sempre foi o “certinho”.
—Entendo perfeitamente o porquê dessa melancolia dele. Eu não conseguiria esconder todos esses amigos foras da lei sem levantar suspeitas.
Anúbis riu e Margot o abraçou, encostando-se em seu ombro.
—Você está feliz ultimamente. –Observou ela.
—Oh, já estava me esquecendo de falar: Além da polícia, também estou sendo caçado por uma instituição de loucos.
—Espera aí, está sendo caçado por um manicômio? –Segurava a risada.
—Tem a ver com o garoto, mas deixa pra lá. O que importa é que a emoção é duas vezes maior!
—Não sabia que as pessoas se importavam tanto assim com loucos.
—Nem eu. Mas está sendo muito divertido!
Peter assistia a conversa sem ter muito que falar. Se não viam problema com o fato de ele ser “louco”, então estava tudo bem. Não precisava dar maiores explicações (que ninguém acreditaria).
—Fica tranquilo Peter. –Disse Margot. –Não vamos deixar ninguém leva-lo embora.
Aquilo realmente tranquilizou o rapaz. Era a primeira vez na vida que tinha amigos com quem poderia contar. Se pudesse buscar Lana e convencê-los de aceita-la também, tudo estaria resolvido.
Matt irritava Hector exibindo suas armas como se fossem de brinquedo. O advogado ficava com medo que elas pudessem, de alguma maneira, disparar sozinhas e brigava para que ele as guardasse. Matt se divertia com a situação.
Enquanto isso, um homem com ar simpático aproximou-se de Max, cumprimentando-o.
—Você é Anúbis, o Chacal, não?
—Sim, sou eu. –Respondeu animadamente.- Não era a primeira vez que o reconheciam por ali. Porém, ele sabia que todas as pessoas daquele lugar também não tinham uma boa reputação, então apenas aproveitava seus minutos de fama vangloriando-se. –E quem é você?
—Eu? Bem, — Falando isso, ele apertou a mão de Max. –Eu mal posso esperar para ser conhecido como aquele que prendeu você.
Imediatamente, ele quebrou a garrafa de bebida de Hector e avançou na direção de Max, que empurrou Margot para o lado. Ele desviou de um golpe que acertou sua cabeça apenas de raspão e segurou o braço do pobre homem, empurrando-o contra o balcão. Arrancou o pedaço da garrafa de sua mão, chamando a atenção das pessoas mais próximas. Um grupinho se formou para apreciar o show.
O homem agora tinha sua cabeça e braço pressionados contra o balcão, em meio a uma grande quantidade de bebida. Anúbis jogou a garrafa fora e retirou uma faca que deixava escondida em suas roupas. Sem hesitação, fincou-a na mão da pessoa que o ameaçou, apreciando o grito de dor que espalhava-se pelo salão, agora que a música havia sido desligada. Sempre que algum tipo de briga ocorria (algo que era muito frequente por ali), todos prestavam atenção. Alguns apenas frequentavam o local para o entretenimento garantido.
—Exatamente. –Sua voz estava calma, mas ao mesmo tempo firme e ameaçadora. — Eu sou Anúbis e irei lhe mostrar o que acontece com quem desafia o Juiz do submundo. Afinal, eu decido quem vive e quem morre.
Dito isso, a faca foi retirada de sua mão e antes mesmo que ele pudesse gritar, já havia sido fincada em seu pescoço, permanecendo lá. O chacal apenas soltou o corpo, que caiu enquanto todos os seus sistemas paravam de funcionar. Não se importou em retirar a faca.
Margot admirava Anúbis. Matt também estava gostando de assistir a luta, mas pensava que poderia ser melhor se envolvesse armas. Hector estava horrorizado ao lado do Barman, entretanto, ambos já estavam acostumados a isso. Peter nunca vira algo assim tão de perto.
Mas ainda não havia acabado. Max queria saber quem era aquele estranho que o desafiou estupidamente. Ao revista-lo encontrou um distintivo. Era um policial.
—Quem deixou esse filho da puta entrar? –Seus olhos estavam em chamas de raiva. Poderia encarar a polícia em qualquer lugar, mas logo ali? O único lugar que era como uma casa para ele? Não podia deixar isso barato.
Logo, algumas pessoas que estavam aproveitando a briga trouxeram-lhe o segurança. Anúbis não precisou pensar duas vezes.
—Porque você deixou um policial entrar aqui? –Aproximava-se rapidamente.
—Eu sinto muito, só achei que seria um jeito divertido de comemorar seu retorno. Quer dizer, olhe só para ele! Você daria um jeito nesse cara até de olhos fechados.
-Eu não quero saber! Se eu quiser uma briga, eu mesmo procuro por isso. Não preciso de ninguém atraindo moscas pra mim.
O segurança não sabia o que fazer. Não podia entrar em um confronto direto com aquele homem. Contudo não precisou pensar muito, pois fora atingido por um soco, sendo arrastado rapidamente para uma mesa logo depois. Antes que pudesse fazer algo, sentiu sua cabeça atingindo o objeto. Não só uma vez.
Quando tudo finalmente acabou, a musica voltou ao normal e todos conversavam e se divertiam novamente. Anúbis acendeu um cigarro que Matt lhe dera. Margot sentou-se ao seu lado, limpando o arranhão da garrafa, mas logo precisou sair, pois a bebida lhe causara ânsia de vômito. Hector pediu uma nova garrafa, que tomaria sozinho. Peter sentou-se em frente ao balcão, enquanto os corpos eram levados, oferecendo ajuda para limpar a sujeira; Precisava se distrair com algo.
O telefone tocou e o dono do bar foi atendê-lo, com dificuldade por causa da música. Pouco depois, ele voltou:
—É pra você, Anúbis.
“Era só o que faltava”. Pensou ele.
—Alô. Alô?! Quem é? Não estou escutando nada, fala mais alto! –Tapou um dos ouvidos para escutar melhor com o outro. -Para de chorar e fala direito! Não sei do que você está falando. O que? Peter? Ah, ele está aqui.
Peter achou estranho. Quem estaria do outro lado da linha? Não lembrava de ter informado a ninguém onde estava.
—Alô? –Imitou o gesto Anúbis para que conseguisse ouvir algo, porém não estava funcionando direito. –Alô?! –Precisou parar por algum tempo e prestar muita atenção para conseguir ouvir um estranho barulho de choro. Conseguiu ouvir uma voz.
“Peter...” Ela dizia.
Suas mãos ficaram trêmulas e seu corpo fraco. Não conseguia acreditar que aquilo realmente estava acontecendo, enquanto ouvia os soluços de choro. Entretanto, não tinha duvidas.
Lana havia sido sequestrada.
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