Hipnotizados
5 Irmandade
Notas iniciais
As noites se tornaram difíceis para Freddie. Prova disso eram seus olhos, que estavam cada dia mais marcados pela insônia, que o impedia de descansar como costumava fazer após um longo dia. Precisou faltar em várias aulas, por não sentir-se bem e, nas que frequentava, estava totalmente disperso e não conseguia de modo algum focar no que estudava. Gastava horas de sua noite apenas observando as estrelas.
Já virara rotina levantar-se às madrugadas para lavar o rosto e tomar um comprimido para lhe ajudar a dormir. Seu pai não pensava que toda a tensão fosse pela captura da bruxa (a primeira que havia olhado diretamente nos olhos), mas não imaginava que houvesse uma causa maior para as olheiras de seu filho.
“Uma criança”, pensava. Não havia chegado a uma conclusão, se realmente desejava ter filhos, mas a ideia não soava tão ruim. O que verdadeiramente lhe incomodava era a grande hipótese de sua mãe ser uma bruxa. Pior: Se tudo aquilo fosse verdade, como poderia garantir que não se tratasse da própria assassina de sua mãe? Nunca visitara a família ou sequer a casa de Helena, mesmo depois de passarem tanto tempo juntos: Diversas tardes e boas lembranças. A mente do rapaz encontrava-se em um verdadeiro caos.
–Fred! –O chamado não obteve resposta, então o colega do rapaz tentou novamente. –Fred!
–Sim?! –Freddie acabara de sair de sua escura e tempestuosa nuvem de pensamentos. –Desculpe, não estava prestando atenção.
–Ultimamente, seria estranho se você estivesse. Cara, você não está bem... Ninguém sabe o que aconteceu, mas não vamos te obrigar a falar, se não quiser. As vezes a vida não é nada fácil, eu te entendo, então já conversei com o grupo e concordamos que você poderia ir embora hoje.
–Mas nós precisamos terminar esse trabalho, não posso deixar vocês fazerem tudo sozinhos.
–Não tem problema. Você sempre nos ajuda muito, então vamos colocar seu nome dessa vez.
–Corrigindo: — Disse outro colega, rindo. –Ele é quem faz a maior parte dos outros trabalhos.
–Isso não vem ao caso. –Disfarçou ironicamente. –Bom, esperamos que se sinta melhor, Fred. –Amigavelmente, ele bateu de leve no ombro do rapaz, que agradeceu e foi embora.
Em casa, ele jogou sua mochila em algum canto qualquer e deitou-se em sua cama. Observou cada detalhe de seu quarto até que fixou o olhar na porta entreaberta de seu armário, onde guardava uma túnica cor de vinho. Não queria lembrar-se, mas era simplesmente inevitável. Colocou-a em uma mochila um pouco menor que a da faculdade e foi para a rua.
Andou até chegar à um prédio sofisticado que enfeitava a rua, passando por um alto segurança que o cumprimentou discretamente. Não havia ninguém na recepção, entretanto, precisou apenas pressionar seu dedo em uma pequena máquina para que a porta de um elevador se abrisse. Alguns segundos depois, estava em uma sala agradável, onde muitos funcionários trabalhavam em seus computadores. Como disfarce, o lugar fazia parte de uma certa empresa (atuando principalmente com pesquisas e administração para a mesma), mas também era o principal ponto de encontro entre os membros da Associação Mundial Contra as Bruxas da região. E todos com os funcionários sabiam disso. Andando até a última sala do andar, podiam-se encontrar alguns bancos e chá para quem quisesse se servir. Fred o ignorou e seguiu em frente, até entrar em outro elevador, que o levou para o corredor onde estavam os laboratórios da AMCB. Câmeras o observavam atentamente por todo o processo.
–Fred! –Alguém o chamou, entregando-lhe o que estava à procura. –O teste de DNA que você pediu está pronto.
Era estranho o sentimento de querer e ao mesmo tempo não, abrir o envelope em suas mãos. Apesar de tudo, o fez.
☼ ☼ ☼
A porta da sala onde Clarisse estava abriu-se lentamente, como se a pessoa que entrava não desejasse isso, mas estava sendo obrigada. Seus olhos estavam pesados e a incrível iluminação do lugar não colaborava muito. Estava cansada, com sede e fome, sem força alguma para tentar qualquer magia e assim, escapar de lá. Seu corpo estava repleto de manchas que aumentavam conforme os outros sintomas e tinha várias alucinações (em uma delas, pensou ter visto sua família). Respirar agora era difícil e doloroso e não sabia ao certo se os sons de risadas parecendo tempestades que ouvia eram reais. Inicialmente, o veneno fazia com que ela não soubesse controlar o que dizia, mas agora o que lhe incomodava era a dor.
Enquanto tentava abrir seus olhos, ouvia passos em sua direção, até que finalmente reconheceu quem se aproximava.
–Você voltou. –Disse ela, com dificuldade. Sentia seus lábios desidratados.
–Parece que o veneno ainda não a matou. –Apesar da luz, o rosto de Fred continuava sombrio. –Estavam certos sobre você. Eu reconheço que é muito forte... Mas acredito que saiba que estes são seus últimos momentos.
–Está aqui para comemorar comigo meus últimos momentos de vida? –Perguntou irônica. –Se vai dar uma festa não precisa de muita coisa, um copo d´água para mim já está de bom tamanho.
–Você certamente não é normal. Esse veneno já foi testado várias vezes e uma pessoa comum nunca seria capaz de sobreviver até agora. Contudo, parece que seu estado já esteja bem avançado.
–Não seja rude, Freddy. Eu nem fiz a exigência de pedir um cubo de gelo para a água.
Após isso, a raiva e a impaciência tomaram Freddie. Ele aproximou-se ainda mais e deixou uma folha de papel tão próxima ao rosto de Clarisse que quase se encostava à sua pele maltratada.
–Leia isso! –Gritou ele.
–Está tão cego que precisa que eu leia quanto deve ao banco?
–Aqui diz... –O rapaz tentava de todas as maneiras controlar sua raiva. –Que o resultado do teste de DNA que eu pedi deu positivo. Pode ler, tem todos os dados escritos bem aí. E isso quer dizer que... –Seu tom de voz ficou muito baixo, falhando. Não queria continuar. –... Que você estava dizendo a verdade. Helena é realmente sua irmã.
“Helena?” Pensou ela. “Ah... Agora estou me lembrando. Eu falei que ela era minha irmã mais nova quando me lembrei de onde o conhecia.” A garota transpirava muito, estava nervosa por ter se dado conta de que havia falado demais. “Idiota... Eu nunca deveria ter dito isso...”.
–E se você é uma bruxa, — Continuou ele, tentando manter a expressão mais séria possível. –Isso quer dizer que ela também é.
–Penso eu que não posso convencer ninguém aqui do contrário... Mas não achei que um cara como você acreditasse em contos de fadas.
–Talvez eu não acredite em sapos falantes ou lobos que se vestem de idosas doentes em busca de carne fresca, mas eu acredito no que está diante dos meus olhos. Acredito no meu pai. E além de tudo, acredito em minha mãe sendo cremada, algum tempo atrás. –Apesar da firmeza em sua voz, era possível sentir que estava emocionado. — Seus demais parentes não conseguiam ver seu corpo daquela maneira horrível como terminou, então todos concordaram e transformá-la em cinzas. Se bem que não faltou muito para isso, não é? Os enfermeiros disseram que era o começo de uma Combustão Espontânea e por muito pouco ela não ficou e chamas. Porém, por dentro, estava destruída, de modo que sua aparência do lado de fora não estivesse nada agradável.
–Sua mãe... –Clarisse não queria provoca-lo, mas precisava proteger sua irmã mais nova de qualquer maneira. Lembrava-se dos sorrisos e até das brigas, mas principalmente dos bons momentos que passaram juntas. –Oh sim, eu conheço sua querida mamãe. Uma bela mulher de cabelos lisos e escuros, como os seus, certo? Não me lembro de muitos detalhes, mas como poderia esquecer seus gritos? –Riu por alguns instantes antes de continuar. Estava cada vez mais fraca. –Ela estava apavorada. Foi um show e tanto! Você deveria ter visto a cara de seu pai quando percebeu que ela estava morrendo...
A bruxa foi interrompida quando sentiu a mão de Fred batendo em seu rosto. Se não estivesse presa com correntes, provavelmente teria se esfolado ao cair no chão. Ele precisou controlar a vontade de bate em Clarisse novamente.
–Sei que estes são seus últimos momentos, no entanto espero que o veneno a mate o mais lentamente possível. — Lágrimas caiam por seu rosto. –E, eu costumava não acreditar em Inferno, mas, se ele existe... Espero que sua alma imunda apodreça lá mesmo após o fim dos tempos.
Dito isso, Freddie deixou a sala.
☼ ☼ ☼
–Helena... –Uma pequena garota aproximou-se da irmã de Clarisse. Elas não conversavam muito entrei si até o momento.
–Sim? Desculpe, mas eu não pude deixar de notar que você não está nada bem ultimamente... Aconteceu algo?
–Na verdade, era sobre isso que eu queria conversar. –Ela fez uma pausa e então continuou. –Eu sei o que aconteceu com sua irmã.
–Você sabe?! Então me conte, por favor! –Helena tinha uma expressão de quem quase implorava.
–É a AMCB... Eles estão com ela! Quando Clarisse foi sequestrada era para eu ter sido também, mas como eles estavam ocupados fazendo-a desmaiar, eu consegui fugir para o alto de uma árvore, onde não me alcançaram. –A garotava estava tão nervosa que não conseguia segurar suas lágrimas. –Um deles avisou que voltaria para me buscar e que eu não deveria falar para ninguém, pois eles iriam saber e seria ainda pior. Eu não consegui dizer nada para vocês por que estava com muito medo, você sabe as coisas estranhas que as pessoas da cidade têm! Eles poderiam me ouvir e então... Eu nem posso imaginar o que aconteceria.
Helena a abraçou, confortando-a.
–Não se preocupe, está tudo bem agora. – Estava trêmula, mas ao mesmo tempo repleta de esperanças. -Você fez a coisa certa contando para mim.
–Eu sou muito fraca!
–Não diga uma coisa dessas! Tudo vai ficar bem.
–Você tem certeza?
–Sim. Amanhã eu vou procurar Clarisse e então nós duas vamos voltar para casa sãs e salvas. E eu sei que Fred poderá me ajudar.
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