High School Blindspot
15 Cap 15
Notas iniciais
Remi
Faz cerca de dois meses que perdi meu bebê. Ainda estou sem chão, mas vou me recuperando aos poucos. Já decidi o que vou fazer da minha vida, não quero passar o resto dos meus dias nessa casa. Sei que Ellen me preparou para diversas situações, estudei várias línguas, tive um intenso preparo físico e de resistência e foi pensando nisso descobri uma organização que salva pessoas e quero trabalhar nisso. Entrei em contato com algumas pessoas e consegui ser chamada para um teste e estou indo embora. Quero mudar e para isso preciso tomar algumas decisões. Tenho algum dinheiro guardado que pretendia usar para o bebê e decido usá-lo para outro fim. Quero mudar de vida, mudar tudo, me tornar outra pessoa.
Na calada da noite me despeço de Roman e não conto nada a Ellen e peço a Roman pra não dizer nada, pelo menos até que eu esteja longe daqui. Vou sem olhar para trás. Não pretendo voltar.
Os dias são intensos, acordamos de madrugada, treinamos e boa parte do dia e fazemos os resgates principalmente durante a noite. Quase me esqueço quem eu sou e tudo o que vivi. Meu bebê nunca esquecerei. Me disseram que era um menino, eu nem cheguei a segurá-lo, daria tudo para voltar àquele dia e me segurar para não desmaiar apenas para pegá-lo nem que seja por alguns minutos antes que ele falecesse. Sei que a marca da gravidez ficará para sempre no meu coração, nunca esquecerei o som daquele choro.
Ainda penso em Kurt. Meu relacionamento com Oscar não deu certo mais uma vez, acho que temos ambições diferentes e vivíamos nos desentendendo por qualquer coisa. Com Kurt me entendia só com o olhar. Ainda penso, como é possível tanta compatibilidade em duas pessoas que aparentam ser tão diferentes. Solto um longo suspiro e volto para o meu treinamento. Existem coisas que precisam ser esquecidas, ou ao menos guardadas bem no fundo da nossa alma para que não nos impeça de seguir em frente, mas você sabe que está lá caso algum dia queira relembrar.
Aqui fiz alguns amigo. São pessoas legais, todos anônimos, trabalhamos juntos e a sintonia que temos durante os resgates é algo incrível. Estou feliz em ter pessoas em quem posso confiar.
Natasha
No meio da tarde o telefone toca e ouço minha avó me chamar. Corro pra sala e ela está tremendo.
— O que foi, vó? – Pergunto preocupada.
— Edgar sofreu um acidente.
Fico paralisada, meus pés parecem como imã no chão, não consigo me mover e nem abrir minha boca para perguntar como ele está. Edgar, o meu Ed, não, não pode ser. Isso deve ser um pesadelo. Mart, meu irmão mais jovem chega com um copo d’água, tento engolir uns goles, mas não consigo, preciso saber notícias. Saio pra rua em direção à casa dele, Liz abre a porta com os olhos vermelhos e sua mãe está sentada no sofá chorando. Liz consegue me explicar que não parece ter sido grave, mas que ele já estava na rodovia perto de casa e está sendo trazido para um hospital aqui da cidade. Chamo um táxi e vamos para o hospital espera-lo. Pergunto na recepção e me informam que ele já chegou e está sendo atendido.
Após uma eternidade um médico vem até nós e nos informa que ele está bem, o carro capotou, ele teve uma concussão e algumas costelas quebradas. Emma entra primeiro e aguardo ansiosa do lado de fora. Faz quase um mês que não nos encontramos e ele estava vindo justamente me ver, pois recebi essa semana a notícia de que vou entrar para a polícia de NY. Isso mesmo, eu consegui, fui selecionada. Fiquei muito feliz. Quando avisei Ed ele disse que viria esse fim de semana para comemorarmos, e agora acontece isso. Não sei o que pensar.
É minha vez de entrar para vê-lo, sinto muito medo de vê-lo nessa situação. Respiro fundo, abro a porta e entro. Ele não está ligado a aparelhos, apenas uma agulha no antebraço onde está recebendo alguma medicação. Me aproximo da maca, olho pra ele e sorrio fraco.
— Como você está se sentindo? – Após perguntar vejo o quanto a pergunta foi idiota, mas não sei o que falar.
— Vem cá. – Ele me chama para mais perto, pega minha mão e a leva até os lábios. – Estou com um pouco de dor, mas me deram alguns remédios, então acho que vou ficar bem.
Coloco minha mão em seu rosto e o acaricio. Edgar é minha vida, se algo pior acontecesse eu não sei o que faria. Encontro uma cadeira por perto, me assento e ficamos juntos por um bom tempo. Conversamos pouco, ele parece cansado, pelo acidente e também pelo efeito dos remédios. Preciso deixa-lo descansar, me despeço com um selinho demorado e saio.
Chego em casa aliviada, pois ele está bem, vai passar essa noite no hospital e amanhã virá para casa. Quase não consigo pregar os olhos, fico pensando no nosso relacionamento, apesar de achar que eu não tenho culpa, ele só estava vindo por minha causa, com certeza estava correndo pra chegar antes de escurecer. É apenas o primeiro ano de faculdade, restam mais uns três pela frente. O pouco que durmo tenho sonhos estranhos, vejo Edgar ensanguentado no chão, ele diz que me ama e fecha os olhos. Me levanto, choro e rezo pra essa noite acabar logo.
Pela manhã vou até o hospital e junto com Emma trazemos Ed para casa. Pego algumas coisas na minha casa e vou ficar com ele. O médico disse para ele ficar em casa pelo menos uma semana antes de voltar pra faculdade, quero estar com ele esse período.
Kurt
Patty me ligou hoje de manhã. Desde que pedi a ela para me ajudar a encontrar Remi ela vem me atualizando sobre qualquer pista que encontra. Dessa vez ela conseguiu localizar Roman em um centro de treinamento do exército americano. Patty conseguiu falar com ele que disse que a irmã foi embora há cerca de um mês e não deu mais notícias.
A nerd loira teve alguma ajuda de Rich, apesar de eu dizer a ela para não envolver outras pessoas nessa busca, e o técnico em informática não encontrou ninguém com esse nome nos arquivos da marinha. Parece que estamos fazendo busca às cegas. Alguma coisa não parece se encaixar, mas não pretendo desistir.
Edgar
Faz uma semana que sofri o acidente. Meu carro ainda está no conserto, por isso devo voltar pra faculdade de ônibus. Eu senti muito medo de morrer, foi tudo tão rápido, o cervo entrou na frente do carro e eu me assustei e acabei jogando o carro para fora da pista. Fiquei algumas horas desacordado e só voltei a mim quando estava sendo atendido no hospital.
Natasha está muito cuidadosa comigo desde o acidente, não que antes ela não fosse, mas sei lá, parece que está diferente. Ela também tem tido pesadelos, acorda assustada no meio da noite e a pego chorando, ela diz que foi só um sonho ruim e que não é nada demais, eu a abraço e tento acalmá-la.
Hoje à tarde volto pra faculdade, queria poder ficar mais, mas já fiquei uma semana e estou com os conteúdos todos atrasados, então preciso voltar. Estou terminando de arrumar minhas coisas quando Natasha entra no quarto.
— Precisamos conversar. – Ela está muito séria, tento sorrir, mas a expressão dela não muda.
— Claro, o que houve? – Pego em sua mão e a faço se assentar na cama junto comigo.
— Olha, eu sei que não será fácil ouvir o que tenho pra te falar, mas também não será fácil pra mim te falar isso. Natasha olha pras nossas mãos juntas enquanto fala e sinto que ela está suando frio.
— Você está me assustando, Tasha.
— Me desculpa. Não era minha intenção. – Ela respira fundo e me encara com os olhos arregalados. – Eu quero terminar com você.
— Você... você não pode fazer isso. – Sinto engasgar com minhas próprias palavras, fico sem ação, não sei o que dizer, não sei o que pensar. Minha Tasha, a mulher que eu mais amo nesse mundo está terminando comigo.
— Escuta, Edgar. – Natasha solta minha mão e começa a apertar suas próprias mãos uma na outra. – Nosso relacionamento não está fazendo bem a nenhum de nós dois, está cada vez mais difícil levar isso à distância, cada vez ficamos mais tempo longe um do outro e vejo que você é quem está se sacrificando mais por isso, está deixando seus estudos de lado pra estar comigo, vem voando toda vez que tenho algum problema.
— Então é sobre isso? Sobre a distância? Posso largar a faculdade e voltar, aliás já pensei em fazer isso várias vezes.
— Não! – Natasha se levanta e sinto que ela fala mais alto que pretendia. – Não quero ser um peso na sua vida! Nunca aceitaria ficar com você se você deixasse a faculdade por minha causa. Você vai voltar pra faculdade, vai estudar até o fim e é assim que tem que ser. Eu vou pra polícia, vou seguir minha vida e você segue a sua.
— Natasha... – Me levanto e tento alcança-la, mas ela já está ganhando a porta de saída.
— Não venha atrás de mim, por favor.
Natasha foi firme em suas palavras e eu fiquei apenas observando-a partir. Nunca imaginei que esse momento chegaria. Estávamos bem, bom pelo menos eu pensei que estivéssemos. Ela terminou comigo. Caio na cama e me desabo em lágrimas, não sei se conseguirei me levantar para viajar. O que eu fiz de errado? Tentei ser um cara bom pra ela e deu nisso! Não sei se saberei viver sem minha Tasha.
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