×
and when it comes apart,
when it comes apart just start again.
open up your heart,
take control of who you are
(kodaline – take control)

.

.

.

.

— Saudações, Huanghu!

O 13º Príncipe se curva profundamente, seu rosto numa expressão solene.

— Se você fizer isso de novo, eu vou te bater, — Soo reclama com ele, mas é incapaz de conter o sorriso largo que aparece em seus lábios depois de ouvir o título de realeza.

Baek Ah também sorri, sem sentir nem um pingo de medo com a ameaça dela, e argumenta.

— Mas é o que você é agora.

— Ninguém foi coroado ainda.

— Bem, a coroação é daqui a algumas horas, então eu diria que esse detalhe não importa mais.

— Ainda tem alguns obstáculos para resolvermos, — Soo explica, deixando o sorriso vacilar por um instante e suspira, temendo o que ainda pode acontecer. Então ela vê a cara engraçada que o Príncipe faz e franze o cenho confusa, — O que foi?

— Quem diria que você seria uma manipuladora tão boa?

A palavra pode soar um tanto maldosa, mas Soo pode ver que ele quis dizer como um elogio. Ele olha para ela com reverência e Soo se lembra de como no passado ele sempre tinha que lhe explicar em detalhes como as coisas funcionavam. Ele e Oh Sanggung costumavam suspirar de frustração sempre que ela tentava usar a lógica do Século XXI nas complicações da corte de Goryeo, e agora olha só para ela.

Agora ela é a esposa do recém aclamado Rei de Goryeo. A mulher que ajudou o falecido Rei a coroar o seu herdeiro, se divorciou de um príncipe só para se casar com o irmão dele no dia seguinte, e que sozinha afundou todos os clãs em confusão e caos.

Baek Ah está orgulhoso, e Soo estaria mentindo se dissesse que não se sente um pouquinho satisfeita consigo mesma.

— Eu só lutei pela minha liberdade e pela dele. E pela sua também. Na verdade, eu acho que lutei pela liberdade em geral, e eu só avancei um degrau. Ainda tem muito trabalho a ser feito. — Ela suspira, já temendo e antecipando a hora que ela vai começar a ficar ocupada no palácio de novo. O trabalho nunca acabaria de verdade, não no Século X, e ela teria que ficar subindo degrau após degrau. Mas isso não quer dizer que ela não poderia relaxar e se divertir de vez em quando, então ela também sorri, — E também, quem diria que você seria um guerreiro tão distinto. A armadura fica bonita em você, aliás.

— Ficar bonito é a única coisa que eu consigo fazer numa armadura, eu garanto.

Eles dois riem, e Soo se lembra de como há alguns meses antes eles precisavam agir com extremo cuidado, tendo até que segurar palavras e ações espontâneas como aquelas. Na verdade, do jeito que as coisas eram naqueles dias – ele trazendo mensagens em segredo, ela evitando seu ex-marido — pode se dizer que os momentos felizes, como dois amigos bebendo chá na sombra do Damiwon, eram raros demais.

E quando a mente de Soo é arrastada para o passado, ela pausa a conversa amigável e pergunta um pouco ansiosa.

— Como o 14º Príncipe está?

— Ele se recusa a falar comigo, — Baek Ah diz e suspira, olhando para baixo com uma expressão abatida, — Acha que eu devia ter me mantido neutro.

— Então ele não vai nem olhar pra mim. — Soo serve outra xícara de chá. Ela já estava esperando esse tipo de reação de Jung quando as coisas tivessem se acalmado, mas magoa assim mesmo.

— Ele vai mudar de opinião logo. Ele só precisa de tempo.

As palavras encorajadoras de Baek Ah são otimistas e aliviam um pouco da sua aflição, mas ela também está irritada.

— Ele sabia tudo o que a família sempre fez, e ainda assim sempre culpou o 4º Príncipe. Por algum motivo, eu acho que as coisas não são tão simples assim para ele.

— Ele só precisa de uma bronca, — o 13º Príncipe explica bem-humorado, embora seu tom esteja um tanto sério para ser só uma piada, — Parece que a mãe mimou ele demais, ele acha difícil de acreditar que pode estar errado sobre certas coisas.

— Bem, eu não sou a mãe dele para ficar ensinando o básico, — Soo murmura, ainda se sentindo amarga por causa da atitude de Jung, mesmo embora ela entenda o ponto de vista dele.

— Olha, Soo-yah, eu amo meu décimo-quarto irmão, mas ele é tolo demais para o seu próprio bem. Ele é uma boa pessoa. Só tem o mal hábito de culpar as pessoas erradas pelas coisas erradas.

— Wangjanim, — ela responde no mesmo tom, mostrando que, embora esteja com raiva, ela não vai deserdar o 14º Príncipe, — Eu sei disso tudo. Eu também me importo com Jung-Wangjanim. Eu não vou deixar eles passarem o resto da vida como estranhos.

Afinal, mesmo com tudo o que aconteceu, eles ainda eram irmãos, filhos da mesma mãe. Os laços de sangue com certeza vão falar mais alto, e Jung só precisa superar seus rancores e as mentiras que a mãe lhe alimentou. Ele vai ficar bem.

Eles vão ficar bem, ela vai se certificar disso.

— Eu posso dizer sem qualquer dúvida: essa família não te merece, Soo-yah.

— Bajulando a sua Rainha? Que esperto! — Soo o parabeniza de brincadeira e ele faz uma cara de ofendido em resposta antes de reclamar com ela.

— Eu vou te lembrar que não aconteceu nenhuma cerimônia de coroação ainda.

❊❊❊

— Eu não acredito no que vocês estão fazendo. Ele é um assassino! — As palavras de Jung são acusatórias, mas ele é o único que parece e soa culpado.

— O falecido rei também era, e eu não vi você se opondo a ele.

— E você? — O 14º Príncipe ignora seu irmão e se vira para Hae Soo ainda lívido, — Ele te deixou para trás para sofrer. Ele nem pestanejou quando você foi dada ao nosso oitavo irmão.

— Tem muitas coisas que você não sabe, Wangjanim, — ela tenta explicar pacientemente, mas isso só o faz explodir ainda mais.

— É o que você fica falando! O que é que eu não sei?

A pergunta dele é puramente retórica, Soo sabe. É só uma tentativa de apresentar seu ponto, de fazer ela e Baek Ah questionarem seus próprios argumentos. Mas ela aproveita a oportunidade e o refuta.

— Você não sabe que ele não me abandonou sem hesitar, que ele sofreu tanto quando eu nesse último ano, — a voz suave dela faz Jung parar de caminhar pelo quarto, faz ele travar no lugar e encará-la diretamente em silêncio, então ela continua, — Você não sabe que ele se importa muito com você, e que ele aceitaria o fardo do trono só para garantir que você e o resto da sua família vivam em paz.

O 14º Príncipe ri em zombaria.

— Ele parecia bem feliz de tomar esse fardo.

— Jung-ah!

— Qual é! Vocês não acham que tudo foi conveniente demais? — Ele pergunta ao seu irmão, mas Soo e Baek Ah notam que ele está vacilando.

— E não é sempre? O quê? Essa troca de poder foi mais suspeita do que as anteriores?

— Você pode estar disposta a fazer vista grossa, mas eu vou investigar tudo.

Jung bufa, ainda se recusando a sentar e conversar direito, e Soo não tem dúvida que ele não mudou nem um pouco de ideia. Não, nenhum dos seus argumentos são convincentes, nenhum dos seus pontos serão válidos para tirar So do trono. Mas isso não quer dizer que ele não vai parar de procurar, revirando tudo até achar alguma coisa.

Ele está cego demais pelo seu preconceito para ver a situação como um todo.

— Wangjanim, — Soo interrompe a discussão dos irmãos com uma voz rígida e repreensiva, — Eu conheço o seu quarto irmão. De todas as pessoas que vêm e vão do palácio, eu sou a que melhor o conhece. Então, eu sou a única aqui que tem a autoridade para dizer, com toda confiança, que o seu irmão conquistou o trono sem cometer qualquer tipo de desonestidade.

— Então não vai ter problema se eu investigar esse assunto, não é? — Jung replica arrogantemente, e Soo abana a cabeça.

— Não para ele. Ele vai no máximo ficar irritado, o que pode acabar com ele te punindo... Mas já para mim...

Ela pausa, deixando as implicações do que ela está dizendo suspensas no ar. Observa enquanto a expressão dele de indignação se transforma em incredulidade.

— Soo-yah...

— Seu irmão não podia fazer nada em Songak enquanto vivia em Seokyeong. Eu, por outro lado... Bem, vamos só dizer que eu coloquei minha confiança nele, e eu me certifiquei de que ele ganharia o trono, — ela explica um pouco mais sem entrar em detalhes; o garoto parece já estar desiludido o suficiente, — Ele vai ser um bom rei, Wangjanim. Ele é um bom homem em um bom caminho com boas intenções no coração. Ele quer fazer desse país um lugar melhor, mas ele precisa de você ao lado dele e não contra ele.

Por alguns segundos agonizantes, Jung não diz nada. O silêncio é quase ensurdecedor quando o jovem Príncipe desvia o olhar do seu irmão e da sua amiga. Então ele cai sentado em uma cadeira, deixando os ombros levantarem e caírem com uma respiração funda.

Por fim, ele volta os olhos para Soo, sua voz agora em um tom mais contido.

— Apostaria a sua vida nele?

— Apostaria. Eu apostei, — ela responde sem hesitar, sem piscar, — Eu faria de tudo só para ver seu quarto irmão sendo coroado, e não porque isso iria me beneficiar. É porque eu o conheço e sei o que ele pode fazer. Eu vou lutar para mantê-lo no trono, mesmo que seja contra todos os clãs, contra a família dele, e contra você. Eu faria tudo de novo, mesmo que você me odiasse e nunca mais olhasse para mim de novo.

O 14º Príncipe olha para ela e depois para o seu irmão, seus olhos se irrompendo em conflito. Então ele olha de novo para ela e se levanta devagar, com calma.

— O que você quer que eu faça?

— Só dê uma chance para o seu irmão, — Soo pede com entusiasmo, e Jung acena devagar, à contragosto e obediente, — Conheça ele um pouco melhor. E aprenda mais sobre as coisas que você não sabe.

❊❊❊

Gwangjong.

Ele é o 4º Rei de Goryeo.

Ele é Gwangjong.

Daqui a mil anos, você será lembrado na história como um monarca sanguinolento. Mas o futuro não importa. Tudo o que importa é o aqui e o agora, essa vida que viveremos juntos.

Que eles pensem o que quiserem, eu conheço o seu verdadeiro eu.

Eu vou te ajudar em tudo.

Eu não vou para lugar nenhum.

❊❊❊

— O que mais foi mentira, Chae Ryung?

Soo se senta imóvel em sua cadeira, sem nem se dar ao trabalho de olhar para a jovem que agora está de joelhos, se acabando de chorar.

Ela não pode se mover; ela não pode vacilar. Ela não pode mais ignorar os pecados da sua irmã, mesmo que isso parta o seu próprio coração. Ela não pode nem chorar; ela não vai derramar uma única lágrima.

— Nada mais, Huanghu, — Chae Ryung diz avidamente, — Eu não queria o seu mal.

— Mas você sabia o que a morte dele faria comigo. Não só emocionalmente, você sabia que eu seria a suspeita do assassinato.

— Eu fui cega demais. E eu não esperava que seria o 3º Príncipe que subiria ao trono. Wook-Wangjanim jamais te machucaria, então eu... Eu achei que seria... — a serva tenta encontrar palavras, tenta explicar de maneira lógica, mas o que sai é só mais uma demonstração de ilusão, — Eu não podia dizer não para ele.

— O que é que você vê no 9º Príncipe? — Soo murmura; a pergunta é retórica, sua voz está carregada de sarcasmo, mas a garota responde assim mesmo.

— Eu devo a ele. Minha vida, a vida de minha família. Nós teríamos morrido há muito tempo atrás se não fosse por ele. Meu amor e devoção são as únicas coisas que eu sempre tive para oferecer, eu...

— Ele te usou, Chae Ryung-ah, — a recém coroada Rainha explode, repugnada pelas suas palavras gentis ao se referir a um homem tão cruel.

— Eu sei, — a garota acena, sorri, chora, tudo ao mesmo tempo, — E ainda assim eu não consigo odiá-lo. Foi minha escolha segui-lo, afinal. E foi minha escolha envenenar o Rei. Eu não posso ter raiva de ninguém por isso.

— Mesmo agora, prestes a morrer, você vai conservar seus sentimentos por ele?

— É assim que eu sou, Huanghu. Eu não sei amar de outra maneira que não seja inteira e incondicional.

Hae Soo já ouviu falar sobre o que acontece com mulheres em relacionamentos abusivos. É como estar viciada, ela lembra de ter lido em algum lugar. É como se o cérebro estivesse condicionado a voltar para as doces mentiras e as promessas vazias, mesmo que a dor e o sofrimento nunca acabem. É como se a pessoa estivesse condenada a amar o seu abusador, não importa quantos motivos ela tenha para não amar.

Ela se pergunta se Chae Ryung é só uma tola apaixonada ou se é alguém que precisa de uma séria ajuda psicológica agora. Mas não importa o que a garota precise, nada disso será realmente possível em Goryeo.

— Você sabe o que eu devo fazer, não sabe?

— Está tudo bem, Agassi. Perdoe-me por ter te magoado. — Chae Ryung não implora por misericórdia, não pede que sua antiga senhora poupe sua vida. Mesmo depois de Soo olhar diretamente nos seus olhos, ela não tem nada além de afeto para oferecer, — Eu entendo. A culpa não é de ninguém além de mim.

— Então você sabe o que estou arriscando por te ajudar a fugir, não sabe?

Os olhos da dama da corte se arregalam e seu queixo cai. Ela luta para encontrar palavras, mas a única coisa que sai é um murmúrio de um antigo título.

— Agassi...

— Eu vou ter misericórdia de você, minha irmãzinha, que não teve nenhuma do irmão, — a Rainha explica e se põe de pé, oferecendo uma mão para Chae Ryung, mesmo que a garota não mereça, — Eu vou te ajudar a partir antes que homem que eu amo não tenha outra opção a não ser te matar.

— Agassi, não me mande embora...

— Esqueça ele e vá, — ela interrompe a garota com frustração. Como a dama da corte pode pedir para morrer ao invés de ser exilada, só para não se afastar de um homem cruel, é algo que ela nunca vai entender, — Só assim eu vou te perdoar. Se você não pode ir embora nem pelo meu perdão, pense na sua família.

— Mas Agassi, eu estou pronta para morrer.

— Escute o que você está dizendo! — Soo grita, puxando a garota pelo braço até ela se levantar, exortando sua amiga para ter juízo, — Não morra! Isso é uma ordem, não ouse morrer! Se quiser se redimir por todos os erros que cometeu por ele, vá embora. Eu não aceito nada menos que isso.

— Isso não seria justo...

— Também não será justo se você ficar.

Não importa que tipo de investigação ocorra, não importa o quanto So e o resto da corte saiba. Não importa o que as provas mostrem, Chae Ryung receberá uma punição muito mais abominável do que o 8º Príncipe e o 9º Príncipe.

Nada nunca é justo para uma mulher de baixo nascimento em Goryeo.

— E eu também não vou te ver mais? — A garota pergunta com olhos lacrimejantes, e Soo se acalma por ela não ter mencionado Won de novo.

— Não. Nunca mais. O palácio não tem misericórdia de pessoas como você. Vá embora de Songak também. — Ela estende a mão para um baú sobre a mesa, levantando a tampa só o bastante para sua amiga ver o que tem dentro, — Isso é mais do que o suficiente para começar de novo em outro lugar.

— Agassi!

Soo ergue uma mão, não deixando sua amiga recusar o dinheiro.

— Em outra época e em outro lugar, nada disso teria acontecido e nós poderíamos continuar sendo amigas. Agora você precisa ir se quiser viver. E eu não vou aceitar que ninguém mais morra por minha causa, entendeu?

Chae Ryung parece hesitar. Ela olha para sua antiga senhora, sua antiga Sanggung, com lágrimas ainda não vertidas em seus olhos. Então seus lábios lentamente formam um sorriso pequeno e sincero, apesar da situação em que ela está. Ela sorri para sua mestra que era como uma amiga, e apesar de não sorrir de volta, Soo sente que pelo menos aquele lado de sua irmãzinha sempre foi honesto e verdadeiro.

— Obrigada, Agassi. Obrigada por me oferecer uma chance de perdão.

— Ela vem com a condição de que você viva. — Soo não consegue resistir um último abraço com a garota. Ela luta para deixar seus braços caírem e se afastar.

— Adeus, Agassi. — A garota se curva e, abraçando o baú de ouro em seu peito, vai embora. A garota se curva e, abraçando o baú de ouro em seu peito, vai embora.

Hae Soo se senta e desvia o olhar. Para Chae Ryung viver, ela precisa esquecer dela.

❊❊❊

— Pyeha, eu exijo justiça!

Tudo fica imediatamente em silêncio quando o grito é escutado no palácio. É um grito arrepiante e assustador, que expressa pura agonia e revolta. E o fato de que ele vem da Rainha apenas faz a presente atmosfera ficar ainda mais tensa.

Mas ninguém está com medo pela Rainha. Ao contrário, todos os presentes na audiência temem pelas suas próprias vidas, e tentam lembrar se alguma de suas ações recentes poderia ter ofendido a mulher. Porque todo mundo sabe que o Rei nunca nega nada a sua esposa, especialmente se ela exige com lágrimas nos olhos e com a voz embargada.

Depois de entrar de repente, Hae Soo cai de joelhos. Mas, mais do que um gesto de reverência, todos os presentes podem ver que ela está sem forças e que não consegue mais ficar de pé.

— O que está acontecendo aqui? — O Rei olha para cada pessoa com suspeita, pronto para impor seu julgamento sobre quem o merece.

A Rainha começa a soluçar e todos eles sentem a tensão ficar ainda mais densa, o olhar gélido de Gwangjong cortando-os como uma lâmina. Mas antes que o homem possa dizer alguma coisa, seu décimo-terceiro irmão vem correndo atrás, seguindo a cunhada.

Quando Baek Ah se curva ao lado mulher, com uma aparência muito mais composta e controlada do que a ela, mas ainda muito perturbado. Ele ainda precisa recobrar o fôlego antes de falar.

— Pyeha, — a voz do homem ecoa no salão silencioso, — a dama da corte Chae Ryung foi encontrada morta em seus aposentos no Damiwon.

Os membros da audiência ficam perplexos por alguns momentos, confusos com o súbito escândalo de uma nobre por uma serva morta. E ficam ainda mais surpresos quando o Rei acena e gravemente e fala com uma voz firme.

— Vou delegar a Guarda Real para investigar o assassinato e...

— Ela se enforcou, — a Rainha interrompe e surpreende a todos mais uma vez, e todos se perguntam por quê ela está pedindo por justiça quando a serva claramente cometeu suicídio.

— Ela usou as próprias roupas, — o 13º Príncipe dá mais detalhes e estende uma mão com um papel dobrado, — Isso estava com ela.

Um eunuco vem a frente e recebe o papel com uma mesura, e a seguir o passa solenemente para o Rei, que o desdobra com uma expressão intrigada. Enquanto isso, o restante deles segura o fôlego em apreensão à medida que a expressão do homem lentamente se torna em uma de fúria.

E ninguém pode suportar a fúria de Gwangjong.

— Isso...

— A dama da corte Chae Ryung cometeu crimes de traição contra a coroa, — a Rainha o interrompe, declarando no lugar dele o conteúdo da carta, — Ela confessou tudo aí, incluindo o envenenamento do falecido Rei Hyejong.

As pessoas então arfam, quase que em sincronia, quando o choque as acerta. Agora tudo faz sentido, agora a comoção que a mulher criou no palácio parece ser completamente justificada. É claro que Hae Soo está perturbada por finalmente saber quem foi o criminoso responsável pela morte do falecido Rei, especialmente por ter sido tão próxima dele.

No trono, Wang So franze o cenho.

— Essas declarações são sérias.

— E a primeira pista do caso depois de três anos de silêncio, — o Astrônomo Choi Ji Mong finalmente fala no meio do rebuliço, — Essa deve ser a resposta que o falecido Rei Jeonjong não conseguiu encontrar.

O Rei acena. E embora ninguém da corte tenha lido o conteúdo da carta, eles podem ver pela expressão do homem que as coisas não são tão simples assim.

As suas próximas palavras apenas confirmam as teorias deles.

— 13º Príncipe Wang Baek Ah. Você e o 14º Príncipe Wang Jung estão encarregados dessa investigação. É vital que capturemos a pessoa por trás da morte do nosso primeiro irmão.

— Sim, Pyeha, — os dois homens se curvam dizem em uníssono.

❊❊❊

Ninguém da Corte tinha achado que as coisas seriam simples, mas ninguém esperava que as coisas seriam tão sérias até que a investigação dos jovens príncipes acabasse.

Claro, uma dama da corte morta admitiu ser culpada, e embora todos estivessem certos de que alguém de alta posição e vastos recursos estava por trás de tudo, eles também estavam certos de que a pessoa jamais seria descoberta. Especialmente porque tais atos, apesar de não serem tão recorrentes, não eram necessariamente raros, e todos sabiam como as coisas funcionavam. O Rei iria ordenar que a verdade fosse descoberta, a investigação ia chegar num beco sem saída, e a garota seria o bode expiatório e a única a ser culpada por tudo – não importava o fato de que ela não tinha como conseguir o mercúrio usado no envenenamento, para início de conversa.

Tecnicamente, isso não era certo. Era apenas como as coisas funcionavam.

É por isso que todo o palácio fica surpreso quando o 9º Príncipe é declarado culpado e condenado à morte por envenenamento por conspirar contra o trono. É por isso que todo o palácio não consegue acreditar que nem toda a prata nos cofres dele conseguiu convencer o Rei a poupar a sua vida. É por isso que é um choque maior ainda quando Wang Wook tenta puxar o tapete do 8º Príncipe, declarando que havia uma trama ainda maior que envolvia outros nobres.

Uma comoção toma conta do palácio quando o Rei anuncia as descobertas. Todos os homens do clã Hwangbo caem de joelhos e imploram por misericórdia. Shinjeong e Yeon Hwa chegam mais tarde, depois que os ministros já se dissolveram, esperando conseguir pelo menos uma punição mais piedosa. Elas não tentam declarar que ele é inocente, elas não pedem que a investigação seja refeita, elas não tentam pedir por um favor, elas não tem nada para barganhar pela vida de Wook. Mas no fim, não há provas o suficiente para condenar os dois homens, e o 8º Príncipe acaba sendo absolvido de muitas acusações.

Mas a revelação o deixa manchado para sempre. E embora ele volte sozinho para casa da Sala do Trono naquele dia, os olhos que o cercam não são acolhedores.

E tudo isso aconteceu porque uma dama da corte escreveu uma confissão antes de se matar.

❊❊❊

— Não se preocupe. As provas podem não ser muitas, mas eu vou tomar a vida dele logo. Jung e Baek Ah disseram que encontraram outra pista, — Wang So conta para sua esposa naquela noite, tentando acalmá-la, finalmente fazendo ela parar de andar em círculos pelo quarto e se sentar um pouco.

Soo não estava na audição mais cedo. Ela se recusou a tornar a ver a cara do 8º Príncipe ou até mesmo a reconhecer a sua presença, e decidiu que era melhor nem chegar perto dele. É por isso que seu marido se sente obrigado a recontar os eventos do dia para ela, mesmo que ela já soubesse o que ia acontecer. E ele também sente a necessidade de confortá-la antes que ela comece a se sentir desanimada com o mundo.

Mas ela o surpreende mais uma vez.

— Não, não o mate, — ela diz balançando a cabeça devagar, olhos perdidos num jarro de flores no canto do quarto dele, — Mostre misericórdia e ganhe um pouco de amor dos ministros. Exile-o à sua própria casa, para ele nunca mais sair de lá. Deixe ele apodrecer lá dentro.

— Tem certeza? Eu poderia mandá-lo para a terra dos Hwangbo. Isso vai contar como punição?

— Tenho certeza. Eu quero ele perto, vivendo à sombra do palácio, olhando para cá do quintal da própria casa. Assim ele vai continuar vivendo na desgraça e sabendo que, mesmo tão perto, ele nunca terá a mim ou ao trono.

Ela ainda não olha para ele, então ela não vê como os olhos dele se cerram num misto de preocupação e confusão. Ela só escuta quando So responde, ainda incerto com a ideia dela de como lidar com Wook.

— Eu acho melhor só matar ele logo.

— Wook é responsável pela morte de muita gente. Ele fez Jeonjong mandar você caçar Eung-Wangjanim e a Lady Park Seon Deok, e agora eles estão mortos. Ele teria matado você também, você e o seu terceiro irmão. Que nem ele matou Hyejong. Que nem ele usou Won, que manipulou Chae Ryung para fazer o trabalho sujo por ele. — Ela se vira para ele com olhos frios, sua voz ficando mais grave quando ela explica, — Só matar ele não vai ser o suficiente, não vai lhe ensinar nada. Faça ele pagar pelo resto da vida, e assim vai haver alguma forma de justiça para todos os que sofreram nos últimos anos.

Soo aparenta estar furiosa e So acha que tem algo mais irritando-a além da sentença de Wook. Então ele pergunta com uma voz mais delicada.

— Como Chae Ryung estava?

— Devastada, mas pelo menos ela vai viver. — Seus olhos se desviam e perdem o foco de novo, — Eu não acho que Wook ou a família dele teriam ficado quietos se ela não tivesse ido embora do palácio. Eles teriam tentado usá-la de novo, manipulando a garota para cometer ainda mais crimes por eles.

— E você tem certeza que ela foi embora de Songak?

— Se ela não foi, não posso fazer nada. Mas tenho quase certeza que ela foi. A gente ainda vai ter que fazer uma cena triste minha, juntando os pertences dela e mandando para a família, — ela explica e então retoma o assunto original da conversa, — É melhor você prender ele logo ao invés de prolongar a investigação e perder o interesse do público.

Isso significa que caçar mais provas para condená-lo à morte está fora de questão, eles vão ter que se virar com o que têm.

No entanto...

— Isso vai te fazer se sentir melhor?

Vai ser o bastante? Vai saciar sua sede por justiça? Vai ser justiça mesmo? Vai ser justo com você?

Soo sabe todas as perguntas que ele quer fazer, mas que não vai dizer em voz alta para não abrir as feridas dela. Ela sorri agradecida, mas é um sorriso triste que deixa um gosto amargo em sua boca.

— Eu duvido que qualquer punição vá me fazer sentir melhor. É por isso que eu quero que dure, pelo menos. Que o prejudique por um longo tempo, ao invés de acabar com um único golpe. — Os olhos dela voltam para ele, mas ao invés de tristes, eles estão determinados, — Manche o nome da família dele se for preciso. Deixe que os outros nobres saibam que há destinos piores que a morte.

So acena quietamente, finalmente entendendo o ponto dela, mesmo que ele ainda queira punir o homem da forma que lhe foi ensinada ser a melhor. Mas apenas alguns segundos depois em reflexão ele ri, falando com ferocidade, seus olhos brilhando com malícia.

— Bem, acho que não machucaria minha imagem de cão-lobo se eu passasse essa sentença.

— Depende de sua entonação, — Soo complementa com um sorriso, e a preocupação nos olhos de So se transforma em terror.

— Tá, agora eu estou preocupado de verdade. Você vai dar uma pausa.

— O quê? Pyeha!

— Não, nada de falar de política durante as refeições, é lei agora. — Ele começa a empilhar comida na tigela de arroz dela para reforçar o ponto, e até leva um pedaço de frango até a boca dela, numa tentativa de silenciar qualquer discussão futura, — E além do mais, nada de debater sobre éditos e decretos reais, nem punições reais. Vamos comer nossas refeições como se fossemos um casal normal que não precisa se preocupar com tramas e conspirações.

— Mas nós não somos um casal normal, — ela provoca e sorri um sorriso travesso.

Como se, Soo-yah! — O Rei brada exasperado e Soo ri da reação dele, — Como se fossemos um casal normal! O que quer dizer, que vamos conversar sobre coisas normais. Por exemplo, o que você comeu no almoço hoje?

— A gente almoçou juntos hoje.

— Bem, o que foi? Eu já esqueci.

❊❊❊

— Você não precisa fazer nada disso.

— Mas eu quero! — Hae Soo protesta, se recusando a aceitar outra coisa além de um sim de Woo Hee. E antes que a mulher possa recusar educadamente de novo, ela começa a argumentar de forma lógica, — É sério, eu quero você por perto. Embora eu saiba o básico da vida na corte e como funcionam as tramas e a política, eu ainda não tenho prática em viver como alguém da realeza. Então sim, eu preciso fazer isso. Eu preciso ter você ao meu lado.

— Huanghu...

Soo se levanta da mesa onde estava fazendo bolinho de arroz, o movimento abrupto fazendo as mãos de Woo Hee pararem no ar em sua própria mesa. E antes que a antiga gisaeng possa dizer ou fazer qualquer coisa, a Rainha se senta na frente dela fazendo bico, choramingando que nem uma criança que insiste em pedir algo a mãe mesmo depois de receber um não, e ela não vai parar tão cedo.

— Você me ajudou a dobrar lençóis no Gyobang, Woo Hee-yah! Por favor, não me trate desse jeito! Eu já tô de saco cheio de Baek Ah agindo todo reverente do nada. Esqueça todas essas formalidades e venha ser minha dama de companhia.

O comportamento juvenil faz a mulher rir e voltar a modelar os bolinhos. Já faz um tempo desde que elas tiveram uma conversa descontraída, e mesmo antes elas carregavam fardos pesados que não estavam prontas para dividir. Então é revigorante ver Hae Soo agindo como a garota que Woo Hee nunca teve a chance de conhecer no passado.

E é divertido para a antiga Princesa ver a recém coroada Rainha de Goryeo dar pouca importância ao protocolo real e à etiqueta,

— Bem, se eu aceitar sua oferta e ficar ao seu lado, nós teremos que seguir o protocolo adequado. E mesmo que eu não tenha aceitado, eu não posso simplesmente ignorar sua posição e tudo o que você lutou tanto para conquistar, — Woo Hee brinca, sua postura elegante nunca vacilando, nem mesmo quando ela provoca a amiga, — O que significa que eu terei que chamá-la de “Huanghu”.

— Isso não é justo. — Soo faz bico de novo, e embora rir dos outros não seja o comportamento de uma dama, Woo Hee não consegue segurar a risada ao ver a reação da Rainha à sua declaração.

E porque ela realmente considera a mulher como sua amiga, ela se inclina para perto e sussurra conspiratoriamente.

— Mas eu não vou me curvar em privado.

Soo sorri, feliz por Woo Hee não estar impondo mais um limite na amizade delas. Mas então ela ataca a concessão da mulher, intencionalmente fazendo parecer que é uma concordância ao seu pedido anterior.

— Então você vai aceitar, não é? — Os olhos dela brilham, fazendo ser mais difícil recusar a sua oferta. E Woo Hee suspira, porque não é por falta de afeto que ela se sente atribulada e em conflito.

— Eu não sei, Soo-yah. Esse lugar... Eu deixei Hubaekje para destruir esse lugar e agora...

— Olha, eu sei que seu povo está sofrendo muito. E que não importa o quanto Pyeha tente, eles nunca vão confiar nele. Mas eu posso fazer alguma coisa. E eu vou.

A Rainha soa séria dessa vez, ao invés de petulante e insistente como antes. Ainda assim, Woo Hee tem dificuldade de acreditar nas suas palavras, não consegue ter fé de que tudo poderia ser tão fácil, que seria necessário algo menos que uma missão suicida da parte dela.

Suas mãos param de modelar os bolinhos e ela abre mão de vez da tarefa.

— Huanghu...

— Eu não estou te subornando nem te chantageando, você sabe, não é? É só que.. — Soo se apressa em se explicar, mesmo embora a ideia de isso tudo ser um suborno nunca tivesse passado pela sua cabeça, — Você não está mais em perigo. Park Yeong Gyu se foi, e você pode me ajudar a melhorar as coisas para você e para o seu povo, mesmo que eu não possa devolver suas terras. E também, você vai ficar perto de Baek Ah-nim. As pessoas podem se opor a um príncipe se casando com uma antiga dançarina, mas eu duvido que eles achariam estranho um príncipe se casar com uma dama próxima da Rainha.

— Agora é você quem não está sendo justa, — Woo Hee murmura depois que Soo menciona o 13º Príncipe.

A Rainha dá risada sem demonstrar remorso, mas então fica séria, pega a mão de sua amiga e fala de um jeito mais entusiasmado e empático.

— Eu só estou mudando a Vontade dos Céus, Woo Hee-yah. Estou conquistando esse pouco de felicidade para nós duas, — Soo aperta a sua mão com força e implora baixinho, — Por favor, se permita ser feliz. Você já deu muito de si para desistir agora.

Ser feliz? Essa é uma noção estranha para a antiga princesa.

Por muito tempo a felicidade era algo que ela tinha deixado para trás. Desde a morte de sua família e a conquista de sua terra natal, o objetivo da sua vida tinha sido o de se vingar, lutar pela honra do seu povo, morrer pelo bem do seu povo. Felicidade pessoal era sempre algo secundário, algo que ela não podia se dar ao luxo de ficar se distraindo, algo que nunca se tornaria realidade, algo que seria arruinado antes de tudo.

Por isso que tinha sido tão difícil aceitar o pedido de casamento do 13º Príncipe, por isso que o mais óbvio a fazer era deixar Songak. Por isso que, apesar da possibilidade de arruinar seu relacionamento com Baek Ah, ela aceitou a oferta de Park Yeong Gyu e Jeonjong.

Ela poderia mesmo abrir de seu passado desse jeito? Só pela sua felicidade pessoal?

— Soo-yah...

— Eu sei, eu sei. Não parece certo que você esteja aqui quando eles não estão; nenhum deles está. Nunca vai parecer certo, — a amiga dela acena e Woo Hee quase consegue ver lágrimas nos olhos dela também, — Mas desde que você viva e lute, então uma parte deles vai continuar vivendo também. Lute por eles e por seu povo, Woo Hee-ah, mas lute por si mesma também. Nós vamos te ajudar nessa jornada. Só pegue minha mão dessa vez.

A jovem estremece sob o olhar da Rainha, mas não de medo. Não, Woo Hee se sente completamente exposta, como se a máscara que ela vinha usando desde que fora forçada a deixar Hubaekje tivesse sido subitamente arrancada. Ela sente que está sendo despida pelas palavras da mulher, e que não há mais nada a esconder.

Mas é Hae Soo, então ela não está com medo.

É Hae Soo, a nobre que caiu para a posição mais inferior do palácio só para ascender à mais alta, só porque ela se importava com a justiça para as pessoas comuns. A amiga em quem ela se permitiu confiar, porque ela sempre a viu como algo a mais do que o peão político que ela podia ser.

É Hae Soo, então ela acena com a cabeça. Relutante em se agarrar a algo tão fugaz e transitório quanto esperança e felicidade, mas ansiosa em aceitar uma ajuda.

— Eu só quero deixar claro que estou fazendo isso por Hubaekje, não por mim, — ela complementa rapidamente, antes que a Rainha se empolgue de novo.

E embora essa não seja a resposta que Hae Soo estava esperando, ela sorri, apertando sua mão com mais força ainda.

— Um passo de cada vez.

❊❊❊

— Estava me esperando, Pyeha?

— Sim, Huanghu. Eu te esperei o dia todo, — So reclama. Ele tinha se retirado para seus aposentos há um tempo, então ele já está vestido em sua roupa de dormir, com o rosto limpo e o cabelo solto, reclamando com sua esposa atrasada, — Eu achei que a gente ia tomar um chá juntos à tarde, mas você me largou para fazer bolinho de arroz.

Ele diz o nome com ódio, mas eles dois sabem muito bem que ele vai devorar todos os bolinhos e não vai deixar sobrar um grão. Ele sempre devora todos os lanches que ela faz, e nunca sobra nada para ela dar para os outros. E ele também fica muito feliz e grato por ela ter tirado um pouco do seu tempo para fazer uma surpresa para ele, mesmo que ele finja estar irritado agora.

E, porque ela gosta de provocar ele um pouquinho, ela ignora a sua mão erguida, que a convida para se deitar ao lado dele. Ao invés disso, ela vai até o espelho na prateleira, removendo com cuidado os grampos de cabelo que ainda restam, os acessórios e os restos de maquiagem, além das camadas pesadas do seu hanbok.

— Perdoe-me, então, Pyeha, — ela responde à sua reclamação com um tom formal e inflexível, — Vou me garantir de não fazer nenhum bolinho de arroz na próxima vez.

— Absolutamente não. Eu vou morrer se não comer dos seus lanches com frequência, Huanghu.

Ela ri do termo que ele usa para se dirigir a ela, sentindo as borboletas voltando à vida dentro do estômago, como se fosse a primeira vez que ela escuta ele chamando ela por esse nome. Parece bobo, mas ele sorri de volta para ela, seus olhos se encontrando no reflexo do espelho.

— É estranho te ouvir me chamando assim.

— Sério? Eu acho ótimo. — So se reclina sobre o cotovelo, apoiando a cabeça com a mão para olhar para ela direito enquanto reflete com um sorriso, — Mas eu tenho que dizer, eu preferiria te chamar de “Buin”.

Uma parte dela que se chama Go Hajin também sorri, fantasiando com ele chamando ela de “Jagiya” ou “Yeobo”, mas Hae Soo apenas suspira, tentando e falhando em aparentar aborrecida.

— Por que não me chama pelo meu nome?

— Só se você me chamar pelo meu.

Ele a provoca, já que o Rei sabe muito bem que, depois de quase dez anos chamando ele de “Wangjanim”, ela acha estranho chamá-lo pelo seu primeiro nome. Ainda mais estranho do que ouvir ele chamando-a de outra coisa que não “Soo-yah”. E ela sabe que ele vai continuar pedindo isso, só para ver ela ficando vermelha, então ela costuma ignorar sempre que ele faz um comentário desse.

Mas dessa vez ela se sente ousada o bastante para aceitar a oferta.

— Então tá, — Soo se vira do espelho, tendo acabado sua rotina noturna, e vai até a cama, — So-nim.

Não é a primeira vez que ela faz isso, mas a reação dele é sempre a mesma. Ele estende a mão livre para segurá-la e puxá-la para perto, segura seu rosto para os lábios dela até os dele. Beija ela longa e profundamente, vorazmente, que nem no dia que ela o aceitou pela primeira vez. Desesperadamente, como se ele fosse acordar a qualquer momento e isso tudo fosse um sonho.

Soo sobe na cama com ele e quando ele interrompe o beijo para deixar ela respirar, ela rola de lado e eles ficam deitados bem perto, olhando um para o outro.

— Obrigado, Soo-yah.

— O quê? Por te chamar pelo nome? — Soo ergue uma sobrancelha para as palavras inesperadas.

— Por tudo. Desde a primeira vez que te vi.

Ela ri, apesar do tom sério dele, a memória repetindo na sua mente.

— Você quer dizer a vez que me empurrou do seu cavalo?

— Sim, logo depois de eu ter te salvado de despencar de um penhasco por não prestar atenção.

— Ei, eu achei que você estava me agradecendo, não tirando sarro de mim. — Soo belisca o braço dele de leve em protesto, mas ele nem sente. So só sorri e continua.

— Obrigado por não fugir, obrigado por ficar comigo, e obrigado por lutar comigo, — ele pausa, mas imediatamente complementa seu discurso antes que ela tenha a chance, — Mesmo que eu tenha te jogado do meu cavalo, ameaçado sua vida e sido praticamente um espinho no seu pé quando a gente se conheceu.

Soo ri, mas depois acena, satisfeita com o complemento.

— É, você era bem espinhoso naquela época.

— Disse a mulher que bateu num Príncipe.

— Mas agora eu entendo que todos nós criamos espinhos mais cedo ou mais tarde, — ela ignora o comentário provocativo dele e continua sua fala, — É inevitável, é como sobrevivemos.

— Criar espinhos e machucar os outros para sobreviver, — So reflete nas suas palavras com um olhar distante, seus olhos se desviando dos dela por um segundo, — Parece ser uma vida triste.

— Mas nós também temos pétalas! — Soo interrompe qualquer que seja a linha sombria de pensamentos que está se formando na sua mente, acariciando seu rosto suavemente. Ela traz os olhos dele de volta para os dela, e um sorriso largo e vibrante, um sorriso raro, adorna seu rosto, — Pétalas lindas e coloridas, vibrantes e delicadas como no dia que desabrocharam! Só precisamos escondê-las do mundo lá fora.

— Pra não arrancá-las?

— Pra não nos despedaçar. — Ela acena calmamente, seus braços se enrolando em volta do pescoço dele, — Nossas raízes vão ficar bem, So-nim, desde que guardemos nossas pétalas só pra gente. Eles que fiquem com os espinhos. Nossas pétalas são só pra gente ver, só pra gente admirar. Não vamos deixar que eles corrompam o bem dentro de nós e assim a vida não vai ser tão triste.

Então é a vez dos lábios dele formarem um sorriso e Soo acha que pode ficar olhando pra ele por uma eternidade.

— Agora, essa parece ser uma vida que eu só gostaria de viver com você.

Ela apenas sorri de volta, se inclinando para mais um beijo longo e de tirar o fôlego. Ela não se dá ao trabalho de corrigi-lo e dizer que não vai ser só com ela, que não vai ser só os dois. Ela também não tenta pôr um fim nesse momento. Ela decide que é melhor se preocupar com os problemas que logo vão surgir no palácio, os desafios que eles vão enfrentar na corte, em um outro momento. Ela não interrompe esse momento de felicidade para se preocupar com o futuro.

Soo simplesmente aproveita o presente, a pura alegria de abraçar alguém tão precioso tão perto do seu peito. O êxtase de acariciar suas suaves pétalas escondidas, certa de que nem o vento, nem a tempestade, poderiam soprá-las para longe.

Eles vão ficar bem, ela tem certeza.

Suas raízes estão firmes na terra.

.

.

.

.

e quando tudo desabar,
quando tudo desabar é só começar de novo.
abra seu coração,
tome controle sobre quem você é

Notas finais
Quando eu voltar pra postar o epílogo eu edito os capítulos com links pras músicas. Até lá, valeus