Notas iniciais
AVISO: indícios de violência e abuso (embora nada realmente aconteça). Início e fim dos trechos marcados de negrito.

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yeah, you made me what you wanted me to be
so here i am, don’t turn away from me.
before you turn and run away,
you can’t forget the price i paid.
you can try to lie and hold the truth,
but it always comes if i want it to
(red – only fight)

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Dez meses de casamento com Wook são como uma vida inteira no inferno.

Claro, o homem não é o único culpado dela se sentir assim, uma vez que seu terceiro irmão contribui – e muito – para o fardo que Soo agora chama de vida. E ainda assim, ele é o único que continuamente se torna o alvo do seu ódio crescente.

Soo duvida que alguém se sentiria diferente se estivesse no lugar dela.

No presente momento, o inferno tomou a forma de um banquete de aniversário. O banquete do aniversário dela, mais especificamente.

Nos últimos anos, o aniversário dela tinha sido só um dia como os outros, e poucas pessoas deixaram suas coisas de lado para parabenizá-la ou até mesmo presenteá-la. E os presentes que ela ganhava eram mais lembranças de valor sentimental do que posses preciosas e caras.

Agora, com sua posição social de uma mulher casada – e ainda por cima com um príncipe – e seu status de nobreza restaurado, parecia que essas simples comemorações não seriam mais adequadas. Na verdade, não seriam nem um pouco aceitáveis, e seu marido moveria os céus e a terra para garantir que ela terá uma grande festa, e que será o centro da atenção de todos em Songak.

Sim, o 8º Príncipe está planejando uma grande celebração para o aniversário dela. E para garantir que todos – literalmente todos – estarão presentes no banquete do ano, ele a arrasta pelas mansões e pelo palácio para visitar os convidados dele.

(Sim, os convidados dele. Soo não fez nenhuma contribuição na escolha dos convidados que ele decidiu chamar, já que ele prometeu que só chamaria as pessoas necessárias para solidificar sua posição como sua esposa.)

Mesmo antes deles chegarem ao palácio, os pés dela já estavam doendo, sua cabeça latejando de irritação. E o tempo todo, sem se dar ao trabalho de dizer nada além dos cumprimentos obrigatórios, Soo só ficava pensando que isso era um inferno. Certamente era. Não podia ser qualquer outra coisa.

Mas pensando melhor, talvez fosse melhor não afirmar aquilo tão cedo. Porque embora aqueles últimos meses de casamento tivessem definitivamente sido um tormento, o pior ainda estava por vir.

E o pior ia chegar como um tapa na cara.

Mas sim, Soo estava mentalmente dizendo que sua vida era um inferno a manhã inteira – mesmo que ainda não soubesse o quão certa ela estava. E ela continuou a fazer isso quando eles caminhavam pelos diferentes prédios dentro das paredes do palácio.

Wook caminhava na frente, guiando o caminho e cuidadosamente explicando coisas e pessoas para ela – como se ela não tivesse trabalhado por anos no lugar, como se ela não conhecesse muito bem aquelas pessoas. Ele agia como um guia prestativo, mas ela só podia vê-lo como um carcereiro condescendente, especialmente quando ele tentava segurar sua mão de vez em quando, usando as escadas e as rampas como desculpa para tocar nela.

Soo caminhava no meio, mantendo sua expressão desinteressada e entediada, ignorando todas as palavras que o 8º Príncipe achava que ela queria ouvir, evitando ao máximo a necessidade de ajuda para caminhar. Ela agia como se fosse apenas uma dama da corte atendendo outro convidado real, sendo cortês o bastante para não chamar atenção desnecessária, mas sem ser cordial o bastante para ser considerada amigável.

Raeyoun caminhava atrás, se sentindo inteiramente deslocada. Daeun esconderia melhor o desconforto se estivesse ali, mas Wook não tinha o hábito de solicitar por ela quando ele saía com Soo. O que Soo jamais diria a ninguém era que, embora ela não pudesse confiar totalmente em Raeyoun, ela preferia muito mais ter a garota com ela do que Daeun ou Soobin. Raeyoun não fingia ser alguém que não era, mesmo que parecesse insegura e ficasse boquiaberta ao olhar em volta para o palácio.

Em suma, essa é a postura dos três visitantes do palácio, que incluía Soo. E é nessa ordem que eles andam quando se encontram com o 4º Príncipe.

— So! Que surpresa! — Wook fala em voz alta, olhando para uma direção que Soo não se deu ao trabalho, e ela imediatamente congela, seu corpo esfriando com a menção do nome do 4º Príncipe, — Eu não sabia que você estava de volta na Capital.

Ela ouve passos se aproximando deles, e ela luta, ela aguenta, ela resiste à atração magnética que a puxa para ele. Ela ordena aos seus pés que fiquem colados nos chão, que não se movam, que ignorem seu coração palpitante e sua vontade ardente. Ela trava seus olhos no espaço vazio mais próximo, sabendo com certeza que se ela ousar olhar na direção que Wook está olhando agora, ela vai correr até ele e envolvê-lo em seus braços.

— Eu só vim resolver um mal-entendido com o Rei. — A voz dele. Ah, a voz dele! A voz dele, grave e suave, fazendo arrepios subirem pelo seus braços e descerem pela sua espinha. Ela mal registra o significado de suas palavras porque ela está focada demais na sua voz, no som que ela desejou ouvir por mais de um ano e que ela nem percebeu que sentiu tanta falta até agora.

É a voz que ela vinha ouvindo apenas nos seus sonhos até agora, e eles não lhe fizeram justiça.

Ao seu lado, ela consegue perceber que Wook acelerou um pouco o passo para acompanhar seu irmão. Então, embora ela continue a segui-lo, ela faz questão de ficar um pouco mais longe, temendo que o disfarce deles vai cair por terra se ela se aproximar demais dele.

— Você veio no momento perfeito, — o 8º Príncipe diz, e a voz dele soa estranhamente perigosa para ela, e agora ela sente que vai ser mais perigoso ainda mover os olhos para outro espaço vazio, — O aniversário de Hae Soo é semana que vem, e nós ficaríamos honrados se você se juntasse a nós no banquete especial.

— Eu não vou estar aqui, vou embora amanhã. — A voz de So demanda a atenção de todos os presentes, e ainda assim Soo só consegue olhar para suas botas, no máximo, — Não tenho tempo de celebrar esses míseros eventos.

As palavras dele são tão frias quanto da primeira vez que ele veio ao palácio. Ele soa insensível e quase agressivo, sem deixar qualquer espaço para cordialidade ou para proximidade com os outros. So soa frio e fechado para o mundo, como se estivesse vivendo em ira e ressentimento mais uma vez. E isso parte seu coração, mesmo que ela continue repetindo seu último poema na mente.

— Que pena, — Wook diz, embora todos vejam que ele não lamenta nem por um segundo, e continua o fingimento com um sorriso educado e palavras gentis, — Então talvez quando estivermos todos vivendo na nova Capital?

— Tenho certeza que Pyeha já terá uma outra tarefa para mim. — Soo quase pode ver os olhos penetrantes de So encarando seu irmão, dispensando a troca de palavras hipócritas e corteses, — Eu tenho que ir agora.

Ele se vai da mesma forma que chegou, passos firmes e apressados, sem demora ou hesitação. Soo ouve seus passos sumirem à distância, esperando que Wook volte a caminhar, ainda olhando para nada em específico.

Ela não olha para ele. Ela não acha que conseguiria suportar ver a sua forma desaparecendo ao longe. Não sem correr até ele e fazê-lo ficar.

❊❊❊

O resto da estadia deles no palácio é inteira em silêncio absoluto, para o desespero de Raeyoun. A pobre serva segue seus mestres mais lentamente do que antes, e até mesmo Hae Soo sente seus pés pesando-a ao andar.

Até Wook está quieto. E embora Soo seja grata por não ter mais que suportar suas balbuciações incessantes, ela se sente ansiosa. Ela se sente ansiosa e fica se perguntando exatamente o quê o 4º Príncipe tinha vindo resolver com o Rei. Ela se sente ansiosa e tenta analisar o humor do 8º Príncipe depois do breve encontro com seu irmão. Ela se sente ansiosa, e a vida já infernal que ela viveu até aquele momento parece que está prestes a piorar.

O sangue dela ainda está frio quando eles finalmente terminam a turnê no palácio. E nem sequer uma vez desde que eles se encontraram com So a mente dela conseguiu se aquietar do caos que se formou no instante que ouviu a voz dele.

O sangue dela ainda está frio quando eles voltam para a casa dele, apesar da adrenalina correr nas suas veias e deixá-la ciente de cada movimento à sua volta, apesar de seus ouvidos zumbirem com cada fôlego que ela inspira, apreensiva. O sangue dela ainda está frio, e ela está mais resguardada do que esteve no dia do seu casamento.

Porque Wook está quieto, e Soo já ouviu falar sobre o que acontece no mar antes de uma grande tempestade.

A mente dela está uma bagunça, seus pensamentos um barulho alto enquanto seus sentidos tentam encontrar respostas para perguntas que ela não esperava. As peças no seu tabuleiro foram todas embaralhadas quando uma variável inesperada entrou na equação. E em meio a tudo isso, ela continua antecipando a explosão do barril de pólvora.

No instante em que eles entram na residência, Wook já está ordenando a Raeyoun que sirva o jantar deles nos seus aposentos. A garota sai correndo com a ordem, aparentando estar aliviada por ter sido dispensada. E Soo sabe que não é uma boa ideia tentar protestar o comando dele agora, então ela o segue em silêncio.

Ela o segue em silêncio, o acompanha em silêncio, o observa em silêncio enquanto ele silenciosamente se delicia em sua refeição. E quando as servas se vão com as bandejas de pratos e comida, a tempestade finalmente chega.

— Sabe, — ele começa devagar, sua voz um pouco mais alta que um sussurro, suas pálpebras pesadas enquanto seu olhar a prende no lugar, — Eu estava com esse pressentimento, e estranhamente, as coisas estão se alinhando.

Soo retorna seu olhar, sem mover um músculo, sem ceder um centímetro. Ela tem uma ideia de onde ele está querendo chegar, e ela quer esperar até entender melhor seus pensamentos e sentimentos antes de mostrar uma reação.

— Eu ficava pensando que, — ele continua seu monólogo depois que ela não diz nada, — Se vocês dois ainda sentissem alguma coisa um pelo outro, então ele voltaria para o seu aniversário. Eu ficava dizendo a mim mesmo que a falta de notícias sobre o retorno dele para Songak era um sinal de que tudo estava realmente acabado entre vocês.

— Wangjanim... — Ela suspira, porque já está claro para ela que ele realmente não sabe de nada. Ela fala, tentando impedir seu raciocínio, tentando fazer ele calar a boca. Se ela conseguir fazer ele parar de falar, vai ficar tudo bem. Mas ele não lhe dá ouvidos.

— Mas agora, ele está aqui. Em Songak. Alguns dias antes de seu aniversário. Sem nem sequer mandar avisar. — Ele sorri, mas seu rosto logo fica sério novamente, — Não é uma coincidência enorme?

— Wangjanim, você não está fazendo sentido...

— Então Yeon Hwa estava certa esse tempo todo? — Ele explode, se levantando de sua cadeira e começando a gritar, caminhando até ela com uma postura intimidadora, — Aquelas cartas! E aquele grampo de cabelo! O que mais dele você guardou?

— Nada. — Soo responde firmemente, controlada, sem se acovardar sob seu olhar, — Não consegue ouvir o quão irracionais são as suas suposições?

— Então como você explica o que aconteceu hoje mais cedo?

— O 4º Príncipe nem olhou para mim.

— E como você sabe? Você estava olhando para ele?

Dizer que ela está perplexa com a confrontação é um eufemismo.

Claro, Soo estava esperando algumas perguntas. Ela estava esperando que ele ficasse desconfiado, irritado e enciumado. Ela até estava esperando algum tipo de reação negativa, alguma espécie de castigo no mínimo.

Mas que ele ia agir de forma tão paranoica e agressiva estava além de suas expectativas. E a linha de pensamento paranoica dele, não importa o quão correta, estava levando a situação numa direção que assustava Soo ainda mais.

— Eu sei porque ele jurou nunca mais olhar para mim novamente. E não, eu não me dei ao trabalho de olhar para ele também; meu orgulho não me deixaria, — ela fala lentamente, tentando fazê-lo ver o quão irracional ele estava sendo, — E também, você não o ouviu dizer que ele vai embora? Que ele não vem para o banquete de celebração? Que ele nem quer vir aqui?

— Não minta para mim! E não se faça de boba! — Ele grita e ela se arrepende de ter deixado Raeyoun e Soobin irem embora, — Eu já sei de tudo.

— O que é que você sabe? O que mais tem para você saber que eu já não tenha contado? — Ela se levanta devagar, fazendo sua voz soar impaciente e indiferente às suas acusações, mas se põe de pé com firmeza e fala em um tom autoritário, — O quê? Você acha que eu mantive um relacionamento romântico com ele? Está mesmo implicando que eu estou tendo um caso com So-Wangjanim?

— Não diga o nome dele.

— Por que não? Eu já te disse, Wangjanim, nós nos vimos pela última vez no dia que o 10º Príncipe morreu. Eu não teria como ser infiel a você com ele.

Soo só queria frisar um aspecto da situação. Ela só está tentando usar um pouco de psicologia reversa, esconder a verdade à vista. Ela só está tentando controlar a situação, controlar o homem que ela foi forçada a se casar. Ela só está tentando manter sua fachada o quanto for necessário, sem passar daquele limite invisível que finalmente vai fazê-lo surtar.

Soo só está tentando manipulá-lo um pouco, para que ela possa sobreviver mais um tempo.

É por isso que ela não reage quando ele agarra seu pulso. É por isso que ela não luta quando ele a arrasta pelo quarto. É por isso que ela não oferece resistência quando ele a joga em sua cama.

No instante que ela cai sobre o colchão ele já está subindo em cima dela, e é aí que sua mente finalmente recupera o controle sobre seu corpo.

Soo tenta lembrar de qualquer dica de auto-defesa que Go Hajin já possa ter visto, qualquer coisa que ela tenha aprendido só por observar e ouvir os Príncipes, qualquer tipo de golpe de qualquer tipo de luta. Ela tenta lembrar de cada ataque e juntar cada grama de sua força enquanto luta contra ele, empurrando, chutando e arranhando. Mas o 8º Príncipe ainda é muito mais forte do que ela.

Ela não luta por muito tempo, porque depois de apenas alguns segundos se debatendo, ele já a imobilizou e a segura com firmeza.

— Então finalmente você perdeu a paciência? — Ela murmura com os dentes cerrados, suas palavras queimando sua garganta ao saírem. Ela não se incomoda mais em manter seu discurso formal, não tem mais sentido.

Ela podia gritar, mas quem viria ajudá-la?

— Você é minha. Eu não sei por quê eu deveria ser paciente, — Wook argumenta e se reclina sobre ela.

A boca dela se fecha com força e ela contém seu grito, suas mãos se contorcem sob ele e ela tenta e falha em manter seus lábios fora do alcance dele.

Antes que ela finalmente arranque o lábio dele com uma mordida, ele se afasta dela para respirar. Ele aparenta estar lívido e satisfeito, e ela se sente tentada a cuspir na cara dele na hora.

Mas ao invés disso, ela opta por fazer algo que vai feri-lo ainda mais.

— O 4º Príncipe beija melhor, — ela declara com uma expressão desdenhosa e ganha um olhar irritado dele que a deixa bem contente.

— Não mencione ele.

— Por quê? Te incomoda?

— Ele não tem direito algum sobre você! — Ele rosna com raiva e se inclina para os lábios dela novamente. Mas dessa vez, Soo consegue se esquivar de sua boca invasiva, virando seu rosto de lado.

As suas palavras anteriores o abalaram com sucesso, o bastante para ela conseguir libertar um de seus pés. Soo tenta usá-lo para se afastar dele, do seu toque. Mas ela só consegue fazê-lo parar de beijá-la.

Ele continua a segurá-la, e quando seus lábios estão fora de alcance, ele começa a beijar sua clavícula, fazendo ela se arrepiar de repulsa quando sua boca entra em contato com sua pele.

Ela se contorce e se debate, o que apenas o ajuda a desfazer parte de suas roupas, e ela luta para não deixar o pânico dominá-la e nem perder a racionalidade.

— So-nim... — ela geme em voz alta e fica aliviada quando sua tática funciona.

— Pare com isso!

Wook se afasta, finalmente, seu semblante lívido e sem fôlego. Soo está tremendo, mas ela se levanta da cama, segurando lágrimas e palavrões.

Ela podia gritar, mas quem viria ajudá-la?

Seus olhos cuidadosamente calculam a distância até a porta, tentam medir se ela consegue correr rápido o suficiente, se ela tem como se esquivar dele caso ele vá atrás dela. E ainda assim, ela mantém a máscara de frieza, se recusando a deixar que seja ele a quebrá-la.

Não assim. Ela não vai ser destruída assim.

Ela se recusa a deixar que ele a destrua.

— Não há futuro para vocês dois, — Wook declara às pressas, quase em pânico, chamando a atenção dela para ele. Então ele continua um pouco mais calmo, embora ainda iludido, — Mesmo que eu me divorcie de você, ele não se casaria com você. Ele não pode te proteger; ele não pode fazer nada por você. Ele só está te usando, Soo-yah.

— E daí? Você acha que alguma coisa que você diga sobre ele vai mudar como me sinto por você? — Soo ri, ainda preparada para correr até a saída, — O 4º Príncipe me deixou anos atrás, e eu sei quando parar de correr atrás de alguém que não me quer. Eu não sou patética que nem você.

Ela não vê o ataque vindo, então ela não tem como se preparar para ele. Ela também não antecipa que o impacto seria tão forte, então seu corpo não tem nenhuma resistência. Na verdade, ela estava tão investida naquele debate sem sentido que mesmo o movimento não-tão-sutil de sua mãe e o andar não-tão-lento de seus pés passou despercebido por ela.

Então, como que acertada por um raio, Soo se encontra no chão em um piscar de olhos. O som do tapa parece ecoar sem fim no quarto, e a súbita dor no seu rosto faz com que lágrimas comecem a queimar seus olhos.

Há um segundo de silêncio atordoado enquanto ela assimila o que acabou de acontecer, seguido de outro enquanto ela lentamente vira o olhar de volta para ele. O breve movimento parece se arrastar por uma eternidade, e ainda assim, ele termina assim que ele começa, assim que Hae Soo está novamente em pé, o encarando desafiadoramente.

Em um outro milênio, quando ela era uma pessoa diferente, ela teria batido nele também. Ela teria partido direto para a briga, sem se importar por um segundo que ele era bem versado em artes marciais nem que ele era muito maior e mais forte do que ela. Go Hajin não hesitaria por causa do título ou do poder dele, e ela não se intimidaria com a reação dele diante de seu repente.

Mas Goryeo a havia domado um bom bocado, então ela cerra os punhos e contém o impulso de contra-atacar. Ela contém seus sentimentos explosivos em um pote de raiva e refreia seu corpo para que ele não reaja. Ela não precisa de mais provas contra ela, não com a ameaça de uma sentença por regicídio ainda pendente sobre sua cabeça.

Ao invés disso, ela mantém a cabeça erguida e segura as lágrimas, exibindo seu rosto com orgulho, agora provavelmente marcado com uma marca vermelha.

— Você também batia na minha Unnie? — Ela pergunta, porque Goryeo não a havia domado por completo, — Ou violência é um hábito novo seu?

O segundo ataque é antecipado, então quando Wook acerta sua cara de novo ela não recua, não cai. Seu olhar salta de volta para o dele sem demora, e ela quase sorri com a expressão perturbada dele depois da menção à Myung Hee.

Quase.

— Não envolva ela nisso.

— Você devia tê-la valorizado mais. Talvez levado ela para longe da cidade, — ela murmura entre dentes cerrados, e ainda assim é quase como se ela estivesse gritando com o quão perto ele está, — Quem sabe? Talvez ela tivesse vivido mais. Se não, pelo menos ela não teria passado seus últimos dias sofrendo. — Ela está praticamente cuspindo suas palavras, uma amargura do tamanho de sua prima se espalhando no seu coração.

— Você também foi responsável! — Ele grita, tentando direcionar a culpa de volta para ela. Infelizmente para ele, ela já tinha bastante.

— Sim, eu fui. — Soo nem pisca antes de retrucar, — Mas eu já me arrependi e já paguei pelos meus pecados. E você, Wangjanim? Quando é que vai pagar pelo que fez e receber o que merece?

— Você é minha...

— Eu não sou sua de verdade, Wangjanim, — ela o interrompe, sem medo de erguer a voz, cansada daquela tolice, — E nem jamais serei. É o que estou te dizendo esse tempo todo.

— Mesmo que não seja de verdade, você é pela lei. E portanto...

— Antes de me ameaçar, por favor se lembre por quê o Rei aceitou seu pedido de casamento. — Suas palavras são corajosas, mas seu âmago começa a convulsionar e se revoltar com a imagem mental dele se deitando sobre ela mais uma vez, — Eu estou sob a guarda atenta dele, e eu posso ser usada como bode expiatório pelo envenenamento do falecido rei. Mas eu posso a qualquer momento ir até a corte e declarar que eu o matei, sob as suas ordens.

Seus olhos se arregalam quando chega a vez dela fazer ameaças, mas ele pisca e parece estar são mais uma vez.

— Você seria executada, — ele diz num tom sarcástico, como se estivesse desafiando seu blefe.

(Não era um blefe.)

— Bem, sim, eu certamente morreria. Mas você certamente também seria nomeado um traidor e perderia tudo, incluindo aquele trono que tanto deseja e a sua vida.

— Você não ousaria.

— Uma vez eu cortei meu pulso para me livrar de um casamento, — ela o lembra e então dá de ombros, como se não tivesse sido nada demais e ela não tivesse quase morrido, — O que mais você acha que eu não posso fazer?

O 8º Príncipe finalmente se afasta dela e ela permite que seus ombros relaxem um pouco, embora seus joelhos ainda estejam prontos para fugir. Seus olhos estão ardendo com lágrimas que não caíram, seu rosto está doendo dos tapas que ele deu nela, mas ela continua firme.

— Um dia você vai entender, — a voz doce de Wook é tão enjoativa quanto as suas palavras, — Casar comigo era o único jeito de você sobreviver. Quando não nos casamos, você acabou sendo levada para o palácio e forçada a trabalhar como uma serva.

— Você não entende, não é? Você nunca entendeu, — Soo ri com escárnio quando mais uma compreensão tardia vem até ela: o fato de que ele nunca se preocupou com ela estar sendo casada contra sua vontade naquele dia, só com ela estar sendo casada com um outro homem.

O 8º Príncipe teve a coragem de parecer confuso, e ela se pergunta se seria tão ruim assim dar um soco nele, só de leve. Então ela funga, tirando sua mente do passado distante, focando no predador à sua frente.

Ele olha para ela com expectativa, como se ele fosse inocente, mesmo embora ele tenha acabado de fazer o que fez – mesmo embora as roupas e o cabelo dela estejam bagunçados, seu rosto marcado e provavelmente já inchado. E para ser sincera, ela não pode deixá-lo esperando.

— Recusar seu pedido de casamento e esquecer de você foram as melhores decisões da minha vida inteira, Wangjanim.

— Soo-yah...

— Mas se casar comigo? Esse foi o pior erro que você poderia ter cometido. E eu vou te fazer pagar por isso.

Wook franze o cenho e solta uma risada curta, sem acreditar em uma palavra que ela diz. Então faz uma outra declaração atrevida e iludida, a qual ela não responde e nem ouve. Soo apenas o encara, os punhos cerrados ao lado do seu corpo.

Um servo então chama à porta, dizendo que um recado urgente chegou da mãe dele. Por dentro, Soo chora de alívio, mas ela mantém o rosto frio e firme quando ele sai. A chegada oportuna do servo lhe dá a chance de finalmente deixar o quarto dele, voltar às pressas para sua cama, para encontrar o consolo nos poemas vagos que ela guarda na sua cabeceira.

Ela pede uma vasilha com água morna e começa a lavar seu rosto, seu colo e seus pulsos, seu pescoço e até mesmo o seu cabelo. Sua respiração fica errática, conforme a adrenalina vai passando e o choque se espalha por suas veias. Mas ela se recusa a pedir que uma serva fique para ajudá-la.

Não há ninguém nessa casa que ela vá permitir que veja essa expressão assustada que finalmente quebra sua máscara.

Ah, a vida dela é um inferno sim. Agora ela tem certeza absoluta disso.

E ela vai fazer da vida dele um inferno também.

❊❊❊

No dia seguinte, o Rei manda chamá-la.

Não, é claro que Soo não quer ir. Ela não quer nem levantar da cama, mas ninguém diz não para o Rei. Então, ela se levanta contrariada da cama e encara o espelho antes de se deixar apresentável.

Os machucados no seu olho e na sua bochecha não estão mais inchados, e ela agradece mentalmente a Oh Sanggung por ter sido tão determinada e feito ela aprender as propriedades curativas de cada erva ou mato que crescesse nas redondezas de Songak.

As manchas escuras são um problema mais simples de resolver, e ela se parabeniza por ter sido persistente ao optar pela carreira de maquiadora em uma vida passada. Então ela pega um pincel e começa a pintar sobre os roxos e os azuis que maculavam seu rosto pálido.

Se não fosse pelo fato de ela não querer demonstrar qualquer fraqueza ou fragilidade na frente de Jeonjeong, Soo as teria deixado à mostra para a residência toda ver. Que os servos e as visitas, até mesmo os parente distantes sussurrassem e fofocassem sobre a esposa do 8º Príncipe, espalhando todo tipo de rumor pela cidade!

Mas o Rei mandou chamá-la, e o Rei não era bem do tipo magnânimo.

Soo põe o pincel de volta no lugar, apreciando e inspecionando seu rosto de porcelana. Nem mesmo Wook seria capaz de dizer que ela tinha apanhado na noite anterior, então ela se sente segura para se apresentar diante do Rei.

Então ela verifica seus pulsos, para ver se a brutalidade de seu marido deixou também algum ferimento neles. A única marca, porém, é sua velha cicatriz.

Ela já sarou faz um bom tempo, e ela praticamente nem pensa mais nela. Mas desde a noite anterior, ela vinha pensando muito no antigo corte. Muito mesmo. E mesmo que a cicatriz não seja a causa de ela não ter dormido à noite, ela estaria mentindo se dissesse que ela não lhe causa nenhuma preocupação.

Droga, eu só dou azar...

Quando as servas chegam para lhe ajudar a se preparar, ela já está vestida e maquiada. Mas ela se senta imóvel enquanto elas arrumam seu cabelo, mastigando casualmente as frutas que serão a única coisa que ela vai comer essa manhã. E quando elas saem, ela ordena que elas preparem imediatamente a comitiva que vai levá-la para o palácio.

Ainda é cedo, e o Rei não especificou um horário para sua chegada; ele provavelmente nem estava pronto para vê-la ainda. Mas ainda assim, ela vai partir imediatamente. Ela não quer ficar mais tempo que o necessário na residência Hwangbo, e apesar de também não estar muito ansiosa para ir para o palácio, pelo menos ela tem a garantia de que ninguém vai tentar impedi-la de sair. Assim ela vai ter alguns momentos para respirar, mesmo que seja em uma gaiola diferente.

Soo encara o espelho mais uma vez antes de ir. Sua aparência é bela, graciosa e frágil. Que nem uma menininha inocente e indefesa, apesar de sua máscara de frieza. Uma boneca de porcelana, uma linda flor, emoldurada cuidadosa e delicadamente.

Ela agarra a faca que as servas trouxeram com sua refeição, pequena, mas afiada. E sem pensar muito, ela a esconde debaixo de suas roupas, perto do peito, sobre o seu ombro: o lugar perfeito para o alcance de sua mão direita.

Soo olha para o espelho uma última vez. Sua aparência ainda é bela, graciosa e frágil. Mas o peso discreto sob sua roupa a faz se sentir menos frágil que uma boneca, menos delicada que uma flor. E isso basta para que ela possa sair sem sentir medo.

Talvez ela carregue a faca por aí com mais frequência. Quem sabe? Talvez assim ela consiga dormir à noite?

Soobin volta, pronta para acompanhar Soo em sua visita ao palácio. E mesmo embora ela seja leal a Wook, é um grande alívio que não seja Daeun que vai acompanhá-la. Soo não está com paciência para tolerar o comportamento alegrezinho de Daeun. E também, Soobin lhe dá privacidade quando ela pede, ao invés de ser insuportável.

O Rei já é insuportável demais para sua mente cansada e estressada.

Mas nem todo o chá e a calmaria do Damiwon poderiam tornar sua experiência de lidar com Jeonjeong melhor. Nada que ela fizesse antes ou depois poderia aliviá-la ou lhe oferecer algum conforto para as interações entre eles. Já se passaram anos, e ainda assim Hae Soo sente que esses encontros só pioram à medida que os dias passam. E a tendência é que eles fiquem ainda mais caóticos à medida que sua loucura lentamente devora sua mente cruel.

Claro, alguns dias são melhores que outros. Mas hoje é um dia horrível.

Hoje Jeonjeong grita e xinga, quebra xícaras e joga a comida pelo quarto, fazendo Soo se apavorar por dentro e se encolher aterrorizada toda vez que ele estica o braço para pegar mais alguma coisa na bandeja ao seu lado. E o tempo todo ela fica se perguntando quantas coisas ele ainda tem para quebrar.

Demora um tempo insuportavelmente longo para ele acabar de desabafar suas frustrações, e Soo imagina se as damas da corte que lhe serviam passavam por esse mesmo estresse todos os dias.

(Ela só quer encontrar algum lado ligeiramente positivo de sua situação atual; um lado pequeno, só para não ceder ao tratamento bruto do Rei.)

Ele grita com raiva o tempo todo, e só quando já tirou toda a sua frustração acumulada do peito se acalma e começa a falar como um vilão ao invés de como um vilão insano. Mas quando ele fala, ao invés de relaxar de alívio, Soo apenas se contorce internamente, se preparando para um novo soco depois que ela acaba de relatar as notícias sobre o clã Chai.

O banquete que ele tinha ordenado que ela comparecesse não tinha lhe fornecido a informação que ele queria. E embora Soo seja apenas uma emissária, isso não o impede de atacar. Na verdade, ela tem certeza que o fato de que, no momento, ela é um alvo mais fácil do que o clã Chai é um incentivo maior para ele descontar sua raiva nela.

É por isso que ela não é pega de surpresa quando ele agarra seu antebraço, encarando-a com olhos lívidos. É por isso que ela não se assusta, nem sequer vacila quando ele o aperta com força, o torce com brutalidade, tudo isso enquanto descreve toda a dor e sofrimento que ele vai infligir sobre seus inimigos. É por isso que ela não chora quando ele finalmente solta seu braço, nem quando a força do movimento a faz cair sobre a bandeja e quebrar uma tigela de biscoitos.

Mas a dor lacinante faz ela fazer uma careta de dor. E essa pequena expressão de desconforto parece ser o bastante para o satisfazer e fazê-lo se acalmar.

Mas quando ele sorri, Hae Soo ainda não se sente aliviada.

Pelo contrário, ela observa cautelosa enquanto ele serve mais um copo de chá e se reclina na sua cadeira. Um sinal do começo de mais um temido papinho com ela, um hábito que ele insiste em manter – para seu próprio entretenimento, é claro.

— Aliás, — ele começa, mesmo embora esteja trazendo um assunto inteiramente novo para a conversa, — Eu queria perguntar se você soube que So estava no palácio ontem.

— Ah, eu soube. Meu marido o encontrou e eles tiveram uma conversa deveras agradável, — ela responde com um tom monótono, o que parece deixá-lo ainda mais feliz.

— Ah, eu também soube dessa, — ele ri e então fica completamente sério de novo, dessa vez para provocá-la, — Como eu queria ter visto isso pessoalmente. Eu só posso imaginar como meu oitavo irmão reagiu a essa surpresa.

Ela resiste à vontade de revirar os olhos, e só suspira discretamente. Sua paciência e os seus limites estão claramente sendo testados ultimamente, e ela se pergunta por quanto tempo ela vai conseguir se conter.

Mas a sua falta de reação não o impede de continuar a provocação.

— Sabe, quando eu contei para So que ia te dar em casamento, ele não reagiu. Nem piscou. Só ficou com aquela cara distante e irritante dele... Ah, aquele olhar me dá nos nervos toda vez.

— E isso te decepcionou?

— De fato, afetou muito negativamente o meu humor. Acho que parte de mim estava torcendo por vocês dois, especialmente depois da corajosa rendição dele depois que Mu-hyungnim morreu. — Ele toma um gole de seu chá para fazer uma pausa dramática, mas ela não morde a isca dele e espera em silêncio pela sua conclusão, — Então sim, eu fiquei decepcionado por So não ser tão leal quanto eu pensei que ele fosse. Afinal, se ele não quer você, eu não tenho motivo para mantê-la mais como refém contra ele.

Ele olha para ela com expectativa, esperando para ver como ela vai reagir, como ela vai se portar diante da ameaça sutil.

Enquanto isso, ela nem pisca.

— Então por que não me mata logo?

Yo dá de ombros, desdenhosamente.

— Também não teria graça. Não tenha medo, a traição do seu amado me deixou irritado, mas também me deu uma ideia. — Ele faz outra pausa de novo, mas dessa vez ele olha meditativo para ela, fazendo uma decisão ao invés de tentar provocá-la. Então ele sorri, que nem no dia que ele anunciou o seu casamento, e um arrepio desce pela sua espinha, — Soo-yah, lembra daquela conversa que a gente teve antes?

— Sobre a reunião na casa dos Hwangbo?

— Não, isso não. — Ele balança uma mão com desdém, mas continua sorrindo mesmo assim, — Aquela até que foi uma conversa interessante... Mas eu me referia à possibilidade de você ser liberta de seu marido intolerável.

Ah, aquilo! Hae Soo pensa irritada. Desde que ele fez aquela proposta elusiva ele vinha provocando ela. Toda vez que eles se encontram ele a lembra do poder que possui, e do quanto ela pode se beneficiar com tal poder.

Desde que ela siga as regras dele.

— Achei que essa oferta vinha com uma condição.

— E eu me recusei a dizer qual era a condição antes. Bem, eu quero reverter isso agora.

Ele se levanta de seu assento e Soo precisa se forçar a não se encolher, não fugir. Ela se esforça para ficar imóvel enquanto Yo caminha até um baú que está bem atrás dela, e ela continua prendendo o fôlego quando ele pega um pergaminho de lá de dentro.

Jeonjeong estende seu braço, oferecendo-o a ela, e, depois de alguns segundos de hesitação, Hae Soo ergue a mão para pegá-lo.

Ela fica confusa quando o pega e o abre, especialmente quando o Rei continua olhando diretamente para ela, seus olhos escrutinadores. Mas então ela o lê e sua confusão se torna incredulidade.

— Um decreto?

— Só nós dois sabemos que ele existe, então você não precisa usá-lo imediatamente. — Ele ri, mas não afasta seus olhos do rosto dela, — Você nem precisa usá-lo. Vou te dar um tempo para ponderar suas opções. Isso é, se você precisar de tempo.

Soo consegue manter a máscara de frieza, mesmo ao enrolar o pergaminho e devolvê-lo ao Rei.

— Incrível, — ela declara com o mesmo tom sem emoção que vinha usando desde que entrara nos aposentos dele, — Você vai me dar tempo para escolher entre uma vida com um homem que me ama, mas que eu odeio, e uma vida com alguém que é bem capaz de me matar por um capricho.

Ele apenas ri, como se ela tivesse acabado de contar a piada mais engraçada do mundo, e guarda o pergaminho de volta no baú.

— Nunca diga que Jeonjeong não é misericordioso e magnânimo, — Yo proclama enquanto volta para seu assento e seu chá esquecido, — Então, o que você prefere, Hae Soo? Liberdade ou poder? O que você vai escolher? Eu estou curioso.

O decreto já foi guardado, mas Soo ainda lembra das palavras.

Se alguém tivesse lhe perguntado essa manhã o que ela faria para se livrar de Wook, ela teria dito: Qualquer coisa.

Mas agora que ela tem a escolha, mesmo que ela queira dizer sim, pegar o decreto e nunca mais voltar para aquela casa medonha, ela não pode. Não se a outra alternativa...

Ela olha para o chão e suspira, e uma parte de sua hesitação escapa de sua máscara. Ela exibe alguns sinais de medo, de indecisão, de desamparo. Então ela pisca rapidamente, tentando ver qual seria a melhor jogada nessa situação.

Se ela puder deixar Wook agora, então isso não é nem uma pergunta, não é?

Mas se ela aceitar o decreto, então...

Ela move sua mão distraída e lentamente toca no seu pulso. Não o que Wang Yo torceu antes, mas o com a cicatriz. Aquela maldita cicatriz que vinha afligindo sua mente desde a noite anterior.

— Eu posso me matar e não escolher nenhuma das duas opções, — ela responde e torna a olhar para ele.

Dessa vez é ela quem espera por uma reação, espera que sua expressão mude e que a máscara dele caia.

Mas os olhos dele apenas brilham.

— Você não vai, — ele desafia o seu blefe, nem um pouco surpreso com sua declaração ousada, — Você se arriscaria numa decisão perigosa, mas você não iria simplesmente desistir e cair fora.

(Aí, é nisso que dá ela ter passado anos construindo uma imagem de resiliência.)

— Por que você abriria mão de mim desse jeito?

— Ah, mas eu não vou te largar, — seus olhos escurecem perigosamente apesar do seu sorriso, — Não importa o que você escolha, você ainda vai ser meu passarinho. Se não gosta disso, eu mesmo te mato. — Ele faz mais uma pausa, dessa vez para saborear seu chá, — Mas é interessante assistir você. Provocar você. Que tipo de pandemônio você vai criar agora, hein?

❊❊❊

Eu vou assistir você se rastejando e depois vou assistir você queimar.

É esse o tipo de pandemônio. Eu vou assistir você sufocar lentamente nessa gaiola que sugou tudo o que eu tinha.

E não só você, mas sua querida mãe também. E todo o resto do seu clã. Eu vou assistir vocês correndo perdidos, e antes que vocês saibam quem acabou com vocês, vocês não serão nada além de cinzas.

Vocês vão pagar pelo que fizeram – pelo que estão fazendo; e eu vou garantir que será de uma forma dolorosa. E eu não vou desviar meu olhar, nem por um instante. Eu vou assistir vocês serem completamente queimados, até que as brasas se esfriem.

É esse o tipo de pandemônio que eu vou criar agora.

❊❊❊

— Precisa de ajuda com isso?

A mão dela vacila quando ela se assusta com a chegada inesperada, e a atadura que ela estava envolvendo em seu antebraço folga e cai no seu colo.

— Desculpa. — Woo Hee sorri sem graça, certamente um pouco surpreendida pelo olhar defensivo de Soo.

— Não se desculpe, — Soo pisca rapidamente, saindo do seu estado selvagem e feroz quando ela percebe que não há nenhuma ameaça real, e então ela sorri, com uma ponta de tristeza, e finalmente relaxa na presença da amiga, — Não há nada para desculpar.

Woo Hee sorri de volta, embora seus olhos estejam tristes e simpáticos. E mesmo que Hae Soo não diga nada, ela se aproxima e se senta ao seu lado, pegando a atadura em suas mãos.

A mulher cobre seus novos machucados com movimentos graciosos, e Soo só consegue observá-la e imaginar onde ela aprendeu a manter sua pose. Foi quando ela ainda era uma princesa? Foi depois dela se tornar uma dançarina? Foi em algum momento durante sua vida como dama da corte?

Elas se sentam imóveis e em silêncio, mesmo depois que o curativo já foi feito, com apenas um pequeno movimento da cabeça como um sinal de gratidão de Hae Soo. Já faz um tempo desde que elas se encontraram dessa maneira, já que Woo Hee nunca mais se aproximou dela em suas visitas ao palácio, já que ela estava sempre acompanhada.

Ao contrário de agora.

Agora Hae Soo está completamente só. Ela está completamente só e à mercê da violência de homens cruéis em altas posições, e nenhum de seus poucos e escassos aliados pode fazer algo por ela. Pelo menos não agora. E certamente não Woo Hee, para quem até mesmo uma simples tarefa como se sentar e ajudá-la com ataduras requer uma grande quantia de coragem.

As lágrimas que ela segurou quando estava diante do Rei fazem seus olhos arderem de novo.

— Você já chegou no seu limite? — Woo Hee nota sua luta interna e pergunta calmamente, suas mãos delicadas agora começam a arrumar seu penteado para um semblante mais composto.

E mesmo embora Soo realmente queira chorar, fica claro que sua amiga entendeu errado a causa de suas lágrimas.

— Se eu já cheguei no meu limite? Eu já passei do meu limite. — Soo finalmente deixa suas emoções virem à tona, raivosamente começa a botar para fora palavras que Go Hajin costumava falar há muito tempo atrás, — Eu já tô por aqui. Eu só... Aff! Quem é que aguenta viver assim?

— Ninguém, — Woo Hee não se surpreende com sua raiva, mas suas palavras vão de relaxantes para apaziguantes, tentando controlar seu temperamento que só piora, — Você só cerra os dentes e espera que acabe logo.

E então elas caem. As lágrimas caem que nem elas caíram ao lado de um lago em um mundo há mil anos de distância.

— Sabe, quando eu estava no Gyobang, eu achava que estava vivendo a pior parte da minha vida. E quando eu superei aquilo, eu achei que nada mais poderia me derrubar. — As lágrimas caem, mas seus punhos ainda estão cerrados, sua voz tingida por um sentimento agridoce, — Sinceramente, desde que o falecido rei Taejo morreu, eu nunca pensei que minha vida acabaria ficando desse jeito.

— Ninguém nunca pensa que vai. Mas é assim que a vida é. Feia e deformada.

Woo Hee acaricia seu próprio braço então, seu pulso que Soo sabe que está coberto de cicatrizes. Uma dor parecida com a de Soo, mas multiplicada em um nível que ela não poderia sequer imaginar.

Elas duas estavam deformadas de algum jeito. Elas estavam deformadas, e agora elas escondiam suas cicatrizes da vista de todos, sob tecidos, sorrisos e máscaras. Que nem o 4º Príncipe fez pela maior parte de sua vida.

Esse pensamento causa um estalo na mente de Soo.

— Então a gente precisa mudar isso.

As lágrimas param de jorrar assim que milhares de outros pensamentos vêm subitamente à sua cabeça. Sua amiga, no entanto, não parece perceber como os olhos de Soo se arregalam e cintilam – dessa vez de esperança.

— E como poderíamos mudar a Vontade dos Céus? — Woo Hee pergunta com um toque de maturidade, que nem a mãe de Go Hajin fazia quando ela dizia algo bobo.

E mesmo que sua pergunta seja retórica, Hae Soo já está tentando encontrar uma resposta.

Sua vida não vai mudar só porque você quer que mude. Talvez se você morrer e voltar à vida...

Ela tinha visto o quão rápido a vida de uma pessoa podia mudar, ela tinha testemunhado em primeira mão o quão rápido as pessoas viravam as costas para as outras, pensando no próprio bem. Ela tinha visto isso acontecer consigo mesma, tanto no Século XXI quanto no Século X. Ela tinha visto isso acontecer com outros, como So: ela tinha visto o quão facilmente as pessoas podiam atirar pedras a ele em um dia, e se ajoelharem em reverência no outro.

Como alguém pode mudar a Vontade dos Céus?

— Você faz o que quiser, e depois diz que foi tudo obra do Céus, — Soo murmura quando a descoberta vem a ela aos poucos, — É até fácil. Eu já fiz isso antes.

Woo Hee franze o cenho, surpreendida pela sua epifania em voz alta, e Soo quase vê uma centelha de esperança nos olhos de sua amiga, mas ela é logo coberta e afogada, a moça com medo demais de se decepcionar novamente.

— Não é tão simples, Soo-yah.

— Quando você toma o seu destino nas suas mãos, é sim, — ela insiste que sua amiga saia de sua concha quebrada, insiste que ela não abra mão da esperança, e ela reacende sua própria determinação dentro de si, — Eu não estou dizendo para você fazer uma decisão importante agora, mas você precisa se preparar.

— Soo-yah...

Ela pega o braço de Woo Hee, o mesmo que a moça estava tocando há alguns instantes. Ela não as vê, mas ela pensa nas cicatrizes que a princesa cativa precisa esconder e tenta passar alguma forma de paz para a mulher.

— Nós só queremos um pouco de felicidade, não é? Então temos que lutar por isso.

Os olhos de Woo Hee lacrimejam, mas ela sabe que dessa vez não é apenas por medo e desespero. O pequeno brilho retorna, um pouco menos tímido, e Soo jura que não vai tornar apenas sua própria vida uma vida melhor, mas também a dela – a de todo mundo.

❊❊❊

Eu vou virar o palácio de cabeça para baixo.

Eu vou escandalizar todo mundo ao desafiar as lógicas desse lugar perverso. Eu vou distorcê-las e retorcê-las até que tudo esteja no lugar certo.

O jogo começou, mas eu não vou seguir suas regras: eu vou só jogar suas peças fora do tabuleiro. Eu vou trazer o caos fazendo exatamente o oposto do que vocês esperam que eu faça.

E ainda assim, eu vou fazer exatamente o que vocês fazem.

Eu vou manipular e mentir. Eu vou enganar e trapacear em todas as minhas rotas. Eu vou copiar todos os seus métodos e nenhum de seus objetivos. Eu vou usar suas estratégias e subterfúgios, só para ver vocês sendo derrotados naquilo que se destaca.

Eu vou realizar o que Go Hajin não pôde, e todos vocês ficarão boquiabertos com as mudanças que estão por vir.

Eu vou virar esse lugar de cabeça para baixo; eu vou mudá-lo de baixo para cima. E nenhum de vocês escapará incólume.

Eu vou revirar tudo para que nenhum de vocês possa machucar outra Go Hajin – outra Woo Hee, Chae Ryun, Oh Soo Yeon – de novo.

❊❊❊

Quando a noite chega e ela está na segurança de seu quarto (do quarto de Myung Hee), Soo finalmente tira sua maquiagem.

O processo é longo – mais longo que o normal – e às vezes doloroso – quando ela aperta um hematoma com muita força – mas ela consegue terminá-lo sem precisar chamar ajuda nem chorar.

Não que fosse um problema chorar, uma vez que ela está completamente só. Mas ela teria considerado seu choro uma perda, mesmo sem ninguém exceto seu rosto amargo refletido no espelho por perto.

(Se ela não cede, ele não ganha.)

Seu rosto está pálido como sempre, o que faz as marcas roxas e azuis se contrastarem e ficarem evidentes, mesmo sob a luz fraca das velas. Elas já estavam apagando, mas Soo sabia que elas continuariam lá por mais uns dias.

Ela suspira, já antecipando o que aconteceria na manhã seguinte, quando ela não teria a audiência com o Rei como desculpa para sair. Se lembrando de que ela não pode ceder, não pode vacilar, não pode mostrar qualquer tipo de fraqueza na frente de ninguém.

(Se ela não cede, eles não vencem.)

As marcas são um símbolo de humilhação, uma lembrança de que ela está sob o domínio de seu marido, um sinal de que ele a quer domada e comportada, submissa apenas a ele.

Hae Soo vai usá-las como combustível para as chamas que ela vai espalhar no palácio e nessa casa.

Ela ainda está encarando as marcas quando Yeon Hwa entra, caminhando orgulhosamente, como se aqueles fossem os aposentos privados dela e como se não houvesse um motivo para ela não estar ali. Ela entra e fica parada, sem qualquer saudação ou cumprimento. Soo continua sentada, sem nem se virar em sua cadeira.

Elas não se dão ao trabalho de dizer um oi ou qualquer outra coisa, apenas se encaram pelo reflexo do espelho. E ainda assim, Soo não deixa de notar os punhos da Princesa se fecharem com força quando seus olhos se demoram um pouco mais nos hematomas.

O silêncio entre elas fica mais denso, e Yeon Hwa tenta e não consegue olhar para outra coisa que não seja o corpo marcado de Soo, e no fim isso é tudo que ela consegue ver. Soo sente o olhar carregado nela, mas ela não se move, não se encolhe, não deixa nada da fragilidade que a vem deteriorando por baixo da máscara vir até a superfície.

Ela deixa o silêncio cobrir a sua vergonha, enxugar qualquer lágrima que ainda teime cair, e temperar seu espírito na grande forja que queima tudo.

Enfim, a Princesa não consegue mais ficar em silêncio.

— Eu não reconheço meu irmão.

— Não se sinta mal por isso, Gongjunim, — Hae Soo murmura, sem desviar seus olhos do espelho desde que mulher chegou, — Eu também já achei que o conhecia uma vez.

Soo não pensa por um instante que a mulher esteja preocupada com ela, nem que ela se sinta mal ou incomodada com a situação dela. Mas ela sabe que sua cunhada não pode suportar a ideia de que seu irmão seja um completo desperdício de um ser humano.

— Isso é tudo culpa sua, você sabe, não é? — Yeon Hwa finalmente declara e Soo precisa revirar os olhos para não explodir com a Princesa.

— Não me culpe pelo péssimo caráter do seu irmão.

— Ele não era assim antes. Esse comportamento só começou depois que ele se envolveu com você, — ela luta para construir seu argumento fraco, — Orabeonim sempre foi um bom homem. Ele jamais seria tão brutal.

Soo vira um pouco seu rosto, colocando outra marca na linha de visão da outra mulher: a que começava perto de sua orelha e descia por baixo de seus robes em direção ao seu peito.

— Ele sempre foi. Ele só nunca deixou você saber, — Soo respondeu lentamente, como se estivesse explicando coisas para uma menininha inocente que não sabe nada do mundo, — Máscaras gentis e belas sempre enganam mais do que as fortes e confiantes. Elas são mais maleáveis. Elas nos fazem aceitar o engano delas, só porque nós preferimos acreditar numa bela mentira do que aceitar uma verdade horrorosa.

E a verdade é que seu irmão é um monstro, Hae Soo complementa internamente, Não que você também não seja um. E eu sou a prova.

Suas palavras silenciosas parecem estar também ecoando na mente de Yeon Hwa.

— Se você nunca tivesse vindo para cá...

— Gongjunim! — A mulher estremece quando Soo a interrompe com uma voz severa, — Claramente sou eu quem está com o rosto machucado, então sou eu quem deve melhor saber que tipo de homem seu irmão é.

— Isso é tudo por causa do que você disse, — Yeon Hwa argumenta e começa a sacudir a cabeça vividamente, ainda se recusando a aceitar a verdade nua que está à sua frente, — Você disse para ele ter cuidado com o 4º Príncipe. Que se ele ficasse no caminho do Príncipe Wang So, ele morreria.

— E daí? — Soo ri, completamente chocada pela atitude da mulher, embora não verdadeiramente surpreendida. Ela se permite revirar os olhos e se virar na sua cadeira, encarando sua cunhada diretamente, — Honestamente, Gongjunim, minha afeição e minha preocupação com o 8º Príncipe eram genuínas, foi ele quem falhou comigo. Ele falhou comigo quando duvidou de mim, e ele falhou comigo quando me deixou para morrer sozinha.

— Ele tinha um bom motivo!

— Então me diga por quê! — Soo grita, se levantando de sua cadeira e indo até a Princesa, sua frustração já exercendo os maiores dos níveis, o que faz Yeon Hwa piscar e recuar enquanto Soo marcha à frente, — O que eu fiz para merecer isso? O que foi que eu fiz que justifica tudo isso? A tortura, o exílio, por que essas coisas aconteceram comigo? — Ela ergue e estende o braço com as ataduras, — E isso aqui? Cortesia do Rei. O que foi que eu fiz? Hein? O que eu fiz para merecer isso? O que foi que eu fiz para vocês quererem me destruir?

— Você não entende...

— Por quê? Por que vocês são assim? — Sua raiva não deixa Yeon Hwa formular outra desculpa, e seus gritos continuam, — Você realmente acredita que seu poder justifica essas coisas? Que não importa quem sofre as consequências desde que você se mantenha no alto do palácio?

— Eu sofri as consequências primeiro! — Yeon Hwa grita de volta, e seu brado é tão ridículo quanto seus argumentos calmos de antes, o que apenas provoca ainda mais a sua cunhada.

— E isso te dá o direito de ser cruel?! — Soo ri novamente, dessa vez fazendo um som de raiva e de zombaria, — Você é tão ruim e odiosa quanto seu irmão, Gongjunim. Não é de se espantar que se dêem tão bem.

— Você... — Yeon Hwa ofega, ainda encurralada contra a parede, e Soo se sente enojada demais para continuar olhando para ela.

— Tema a ira dos Céus, Gongjunim. Um dia ela virá por você.

Soo se vira, voltando para o seu espelho e para os seus hematomas, contendo as chamas que tinham se inflamado dentro dela, até que fosse a hora de deixá-las correrem livremente. Ela vira sua atenção para si e somente para si, sem nem sequer notar o momento que a Princesa sai correndo do quarto de Myung Hee.

Ela respira fundo, desfrutando de toda e qualquer vitória, e se prepara para o grande ato, dizendo a si mesma que só precisa ser paciente por mais um tempinho.

Frustrar Yeon Hwa é um jogo, mas Soo acha que esse é o melhor que ela já jogou até agora. Ele sempre a deixa com uma sensação de justiça e satisfação.

❊❊❊

Aparentemente, depois de bater nela, Wook se sentiu um pouco culpado pelas suas ações. E isso é só uma forma de dizer que ele percebeu que ser violento só vai afastá-la ainda mais, e pensou que se ele lhe der algo que ela quer, seus atos serão perdoados e esquecidos.

Isso lhe dá vontade de dar um tapa nele – tudo lhe dá vontade de dar um tapa nele, para ser sincera – e ainda assim ela não reclama.

Claro, ela não o agradece por ganhar o direito à privacidade e à recusar ser acompanhada quando ela não quer companhia. Ela só continua em silêncio, e quietamente se alegra pela chance de passear livremente pelos jardins da residência, não importa o quão tarde fosse. Só se passaram dois dias, e ele já criou o hábito de ficar ali por horas, então ninguém mais vinha atrás dela depois do sol se pôr. Ela nem precisa de uma lanterna para guiar seu caminho de volta aos aposentos, e nenhuma serva vinha orientá-la também.

Ela não pode passar dos muros da residência sem uma escolta, e ela sabe que fugir não seria uma boa ideia. Mas os jardins da propriedade são bem vastos, e têm árvores o bastante para lhe dar a sensação de privacidade e conforto, além de um pouco de ar fresco. E silêncio. Tudo o que ela precisa agora.

Soo pensa na tarefa que o Rei lhe deu dessa vez. Jeonjeong foi vago ao dizer o que ele queria dela, mas Soo não pode deixar de imaginar o que é que ele quer descobrir. Ele está sondando uma possível ameaça? Tentando testar algum aliado? Ele está só tentando entender os movimentos de seus oponentes?

Ela não vai obter respostas só com essas conjecturas. Mas o que Soo aprendeu é que ela pode fazer planos e formular estratégias para as possíveis mudanças que podem surgir no futuro. Ela está ficando cada vez melhor nisso. O bosque lhe faz companhia enquanto ela desenrola todos os possíveis cenários na sua mente. E quando ela volta de seus devaneios, ela percebe que o céu já está escuro.

O escuro é bom. Significa que Wook não vai ter ninguém de olho nela quando ela voltar para o quarto. O escuro é seu amigo, sua proteção; ele já vinha sendo há algum tempo, desde que ela era uma Sanggung e trabalhava sob o rei Hyejong. Embora antigamente ela tivesse motivos muito mais simples para sair se esgueirando por aí.

Os velhos hábitos se mostram úteis agora, e seus pés se movem silenciosamente sobre as folhas caídas no seu trajeto. Ela não vê muita coisa à sua volta e usa as lâmpadas distantes e a luz da lua para se orientar. Não é muita coisa, mas serve. Seus passos são lentos, mas firmes. E ela caminha com confiança na trilha familiar, que ela conheceu quando ainda era só uma criança.

Ela baixa sua guarda, embora não inteiramente, já que ninguém sobrevive muito tempo nas condições dela se estiver totalmente vulnerável. Mas não é o suficiente para prepará-la para ser agarrada e arrastada de volta para as sombras.

Soo tenta gritar e imediatamente descobre que sua boca está sendo tapada com força, e braços fortes a seguram com firmeza. Ela entra em pânico, já lutando para se libertar da pessoa alta que agora a tem cativa.

— Soo-yah! Sou eu.

O corpo dela se derrete assim que o sussurro dele chega aos seus ouvidos. Seus joelhos enfraquecem quando ela percebe que é o 4º Príncipe que a está segurando agora.

— Ah... — É tudo o que sai de seus lábios (e honestamente, o que mais ela poderia dizer?). Mas então seu cérebro volta a funcionar e ela fala num tom esganiçado, — Wangjanim!

Os dois sorriem quando se beijam. Um beijo longo e lento que é pouco para saciar a saudade que eles estavam sentindo esse tempo todo, mas que eles aceitam prontamente. Eles se prendem desesperadamente a esse momento, tão breve e perigoso, porque é o único que eles têm em tanto tempo.

Mas então eles têm que interromper o beijo, embora eles não se soltem. Então ele apóia sua testa na dela e respira fundo antes de finalmente falar.

— Eu estava com tanta saudade.

— Eu sei. Eu também estava. — Soo aperta seu rosto no peito dele, sem ligar para mais nada exceto ele, sua presença, seu corpo, seu cheiro. Ela saboreia esse breve momento que a pegou de surpresa, e mesmo que ela tenha sentido saudades dele nos últimos meses, o peso real desse sentimento só parece afetá-la agora. Ela até quase chora. — Sinceramente, por que você não me impediu quando eu tive essa ideia ridícula?

— Eu falei pra você vir comigo... — Ele a aperta um pouco mais forte, provocando-a e curando sua saudade ao mesmo tempo.

— Você também disse que ia me sequestrar e começar uma guerra.

Ele a carrega um pouco, ficando atrás de uma árvore mais frondosa para evitar que eles sejam vistos da casa, e ainda ter luz o suficiente para conseguirem se verem.

Sim, não é o bastante, mas Soo vai aceitar esse pouco com grande alegria. Ela não vai nem se importar de ficar com folhas presas no cabelo, desde que ele fique acariciando suas costas e sua cintura daquele jeito.

— Por que você tá com uma faca? — Ele se afasta e pergunta, confuso, e ela se xinga mentalmente por ter esquecido da arma escondida que agora ele está apalpando por cima das suas roupas.

— Só pra prevenir. — Soo dá de ombros, sem querer preocupá-lo, mas ele vê através de sua mentirinha branca.

Ele consegue ver através de tudo e seus olhos já estão escurecendo, seu abraço se apertando ainda mais. No entanto, So consegue não sair marchando imediatamente na direção da casa e matar seu irmão, ele fica parado bem ali com ela.

Ainda assim, ela consegue sentir que a resistência dele contra esse impulso é bem frágil.

— O que foi que Wook fez?

— Nada que eu não possa resolver.

— Soo-yah, — ele diz mais severamente, suas mãos cuidadosamente erguendo seu queixo para ela olhar para ele, seus olhos faiscando de fúria, — O que foi que ele fez?

Ela pisca com força, sentindo as malditas lágrimas ameaçando cair de novo, mas consegue sorrir.

— Está tudo bem.

— Não, não está. — A voz de So fica mais grave à medida que o impulso anterior fica mais forte e ele se solta dela, — Eu vou matá-lo. Eu vou matá-lo agora.

— Espera! — Ela agarra o seu braço e quase grita, sua urgência faz ele congelar, — Espera, deixa eu te ver direito primeiro. — Ele dá uma risada baixa e sem graça com o comentário. Mas ele se derrete um pouco, especialmente sob o olhar afetuoso de Soo, que dura uns cinco segundos. Depois, ela o solta sem cerimônia, — Pronto, pode ir matar ele agora.

— Agora eu quero te ver direito.

So a puxa para perto pela cintura de novo, baixando o rosto para mais um beijo longo e lento, deixando sua raiva de lado. Ele ainda está tenso e irritado, mas felizmente está focado apenas nela, deixando seus sentimentos mais agressivos para outra hora.

— Você não devia estar aqui, — Soo diz finalmente, estourando a bolha de felicidade deles com um toque afiado da realidade.

— Eu não ligo.

— Eu estou falando sério, — ela reclama, sem dar corda para a birra e as provocações dele, mesmo que ela queira conversar sobre qualquer coisa exceto a opressão que eles vivem, — Você está conspirando contra o Rei! Isso é traição, você pode acabar sendo morto! Ele já suspeita que você está tramando alguma coisa, e agora você fica em Songak mesmo depois de ele ter te despachado pra Seokyeong há semanas? Se alguém te ver aqui, ele não vai precisar de provas para tirar sua vida.

So olha para baixo, seriedade tomando seu semblante. E ainda assim suas mãos se movem afetuosamente sobre seus ombros.

— Está tudo pronto, — ele admite quietamente, claramente se sentindo terrível por não ter atacado ainda, — Eu vou invadir em breve. Só preciso do momento certo.

Soo acena compreensiva. Essas coisas demandam tempo, e ela não o culpa por se mover com extrema cautela, mesmo que demore muito.

E ainda assim ela faz um biquinho, deixando a fragilidade finalmente tomar conta dela, sua fachada de durona regredir um pouco. Tudo bem ela ser vulnerável na frente dele. Ela gosta de ser vulnerável na frente dele.

— Então me leva com você, — ela murmura, seus olhos brilhando com lágrimas e o seu eu diminuto e assustado vem à tona.

Ele se encolhe e ela sabe qual vai ser a resposta dele, mesmo que ele tenha lhe feito a mesma oferta dois minutos atrás.

— É perigoso demais. Eu não posso. — Ele toma o papel que Soo costuma tomar, o de dizer a coisa lógica a ser feita, apesar do que gostariam de fazer, lembrar a ela que há um motivo para eles passarem por tudo isso. So acaricia seu rosto, enxugando lágrimas que não caíram, e então fala com uma voz calma e reconfortante, — Fique aqui, proteja-se. Lute se for preciso. Eu vou ser o mais rápido que eu puder.

Soo acena lentamente, sentindo que o breve momento já chegou ao fim. A despedida amarga chega até seus lábios, mas ela não a diz, ela não quer dizê-la. Ela não quer nem se separar dele de novo, ela não quer dizer nenhuma palavra que faça isso ser mais difícil do que já é.

— Certo. — Ela sorri dizendo isso para os dois, abraçando-o apertado uma última vez pela última vez, — Vai ficar tudo bem.

❊❊❊

O banquete, como sempre, foi um evento terrível. Ela foi com seu marido e ficou sentada ao lado dela durante toda a refeição. E ao contrário de como ela se comportava na residência Hwangbo, ela comeu alguns bocados da comida servida e bebeu alguns goles do chá. Ela ficava de boca cheia quando necessário e entrava em conversas quando preciso.

Era uma atividade tediosa e exaustiva, mas Hae So ficou lendo o humor e os temas das conversas das pessoas sentadas perto dela, analisando seus comportamentos e verificando se o que ela via ia de acordo com o que ela sabia. Logo a cabeça dela começou a doer, e ela teve que se controlar para que seu humor não viesse à tona no seu rosto e ela fizesse uma careta.

De vez em quando ela tinha que se distrair com alguma esposa ou com alguma filha, fazer um breve comentário sobre maquiagem ou roupas, e falar alguma coisa sobre a comida e as bebidas.

Soo nunca tentou sondar essas mulheres. Elas eram águas não mapeadas para ela, e ela não queria afundar antes de sequer zarpar.

O evento acabou antes que ela cedesse ao desejo insistente de gritar a plenos pulmões. E embora tenha sido quase insuportável, ela tinha que admitir que ele foi até produtivo, bem como informativo. Aliás, no tempo que ela levou para chegar em casa ela já tinha conseguido formular um relatório para o Rei. Mesmo que ela fosse esperar semanas para poder entregá-lo.

O clã Chai poderia ser um problema, sim, mas apenas para o 8º Príncipe. E isso porque a lealdade dos Chai era para com o clã Yoo.

Claro, Soo contou para o Rei que eles eram leais somente a ele, esquecendo de mencionar que o líder do clã seguiria muito bem qualquer outro filho dos Yoo, seja um homem em um trono ou um homem no campo de batalha. Ao invés disso, ela preferiu afirmar – tomando certas liberdades, é claro – que eles estavam sentindo que sua posição no reino não estava muito segura e que eles poderiam ser facilmente dissuadidos a se aliarem a outros clãs.

Soo sabia que, embora não muito grande, caso o clã Chai removesse seu apoio aos Yoo, logo outros clãs menores os seguiriam, seja para apoiar a oposição ou para se manterem neutros em qualquer conflito. E se o clã Yoo estivesse sob a impressão de que havia uma chance de eles perderem os Chai, eles fariam qualquer coisa para manter um deles no trono. Só para que pudessem garantir o apoio de um clã que na verdade era inofensivo.

(Ou então o Rei tinha outros espiões lhe passando informações mais corretas. Mas Jeonjeong seria mais capaz de rir da ingenuidade dela do que de puni-la por fazer insinuações incorretas.)

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De qualquer forma, esse fato ia ser mais uma complicação para os Hwangbo, que, apesar de terem fortes aliados, não tinham muito o que fazer para persuadir clãs menores para o seu lado. Nesse aspecto, eles estavam sendo lentamente derrotados pelos Chai. E ninguém consegue ser Rei se continuar perdendo. Nem mesmo as pequenas batalhas. Para falar a verdade, se seus aliados continuassem sofrendo ataques, o 8º Príncipe nunca encontraria o momento certo de avançar e tomar o trono.

Pobre Wook! Ah, se ele soubesse porquê seus planos eram sempre frustrados...

❊❊❊

Soo estava feliz pelas pessoas na Goryeo do Século X não terem o hábito de celebrar aniversários de casamento. Assim, o dia que marcou o primeiro ano do seu matrimônio foi mais um dia qualquer na residência dos Hwangbo.

Depois da farsa que foi o banquete do seu aniversário e do banquete que ela teve que comparecer no palácio, ela está cansada de celebrações. E embora já tenha passado alguns meses, ela está certa de que qualquer um concordaria que uma só celebração com o 8º Príncipe já era demais para uma vida.

Mas sim, o dia foi bem normal. Na verdade, até um pouco chato. Ela teve o privilégio de comer suas refeições sozinha naquele dia, e Daeun nem apareceu para ser irritante. Ela passeou pelo jardim antes do almoço, mas não encontrou Gunwoo nem Minsoo, e chegou na cozinha antes de sua refeição ser servida. Até mesmo as fofocas do palácio tinham sido meio chatas, quase sem conteúdo nenhum, e ela não teve nada para ocupar os pensamentos a manhã toda.

À tarde ela pintou paisagens aleatórias, quase desejando que o Rei a chamasse, só para ter alguma coisa para fazer. E à noite, ela decide ir para a sala de visitas tomar um chá.

Ela está olhando para um ponto distante aleatório, saboreando sua bebida e comparando-a com a que ela costumava servir no palácio. O dia tinha sido longo e tedioso, e ela estava apenas esperando por um horário que fosse aceitável para ir dormir e o dia finalmente acabar.

É nesse momento que o marido dela entra na sala.

Seu semblante parece alarmado, quase como se ele tivesse testemunhado uma tragédia. Ele caminha com passos apressados, seu cabelo e seus robes desalinhados, o que não era seu costume. Seus olhos não deixam os dela enquanto ele se aproxima e se ajoelha ao lado dela, surpreendendo Soo e deixando-a confusa.

— Tenho que viajar para resolver alguns assuntos do clã. É urgente e eu não sei quando estarei de volta, — Wook diz como se alguém presente ligasse e então continua em um tom que é uma mistura de ordem com conselho, — Não saia de casa.

— Eu não tenho para onde ir, — ela murmura distraída, tentando imaginar o que exatamente está acontecendo com o clã Hwangbo que poderia fazer o 8º Príncipe se comportar de forma tão descuidada.

O tom dela não o incomoda, já que ela praticamente nem lhe tinha dirigido a palavra desde que ele batera nela. Mas ele não se move de seu lugar e a voz dele fica mais passional.

— Vá ver sua Unnie, então.

Uma careta se forma no rosto em branco de Soo, a repulsa de ouvi-lo mencionar Myung Hee fazendo sua máscara rachar.

— Eu sei que me comportei mal, mas eu vou ser melhor agora, eu prometo. — Isso é tudo que ele tem para dizer sobre os últimos meses de opressão, e Soo desvia o rosto, sem se incomodar em sequer olhar para ele. E ainda assim, nada disso parece desencorajá-lo, — Quando eu voltar, você será uma rainha, e tudo vai ficar bem.

Aquelas palavras finalmente arrancam uma reação e os olhos de Soo voltam para ele instintivamente. Ela analisa sua postura e seu comportamento, tentando ver o quanto ela pode inferir dessa informação. Ela está com medo do que tudo implica, o silêncio na cidade, a falta de convidados e a falta de notícias, e agora o 8º Príncipe partindo às pressas.

Ela está com medo, e ela está aliviada porque a hora finalmente chegou.

— Eu acho que isso seria bom, — Soo diz vagarosamente, sua expressão morta não revela quantas várias coisas se passam ao mesmo tempo na sua mente, — As coisas precisam voltar a ser como deviam ser.

— E elas vão, eu prometo. — Ele se inclina para beijar a testa dela e ela cerra os punhos para não estrangulá-lo. — Eu prometo, — ele diz novamente, como se alguém presente acreditasse nele.

Wook vai embora, finalmente, pronto para tomar ação.

Que pena que ele já está atrasado.

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O chá esfria sobre a mesa, intocado desde que Wook a deixou. Os olhos dela, antes vazio e sem foco, brilham de determinação. As mãos dela estão ansiosas e ainda assim ela espera até que o som dos cascos sumisse à distância. Quando a comoção do lado de fora se acalma, ela finalmente se move.

Soo se levanta, caminhando com passos firmes e decisivos, seu rosto em branco finalmente mostrando um resquício de emoção, a apreensão e a expectativa começando a solidificar no fundo do seu estômago. Mas ela nem chega perto da porta quando outra pessoa entra no cômodo.

— Eu só não sei exatamente qual é o seu plano. O que você quer obter? O que motivaria alguém como você? — Yeon Hwa fala depois de sair de onde estava escondida, emergindo das sombras como um stalker que se revela. A cena é assustadora e engraçada ao mesmo tempo, um tipo de anacronismo, e Soo não consegue se sentir intimidada.

— Desde que você chegou aqui, — a Princesa continua, apesar do silêncio da sua cunhada, — Você finge odiá-lo e até mesmo rejeita o apoio do clã. Mas é tudo uma trama, não é? Você sempre foi boa nisso.

Soo se alegra com a acusação. Ela ainda é uma novata em tramas e manipulações, já que só teve um ano para se familiarizar com essas manobras. Ser chamada de boa por alguém que estava no jogo há muito mais tempo que ela na verdade é um elogio.

É por isso que, ao invés de negar e chamar a Princesa de doida, Soo acena, reconhecendo que sim, é tudo uma trama, mas sem admitir o quê exatamente ela está tramando. Soo deixa a mulher tirar suas próprias conclusões de seu ponto de vista limitado.

— Mas eu nem sempre fui boa, — ela complementa quase imediatamente e sorri, sem conseguir resistir à vontade de provocar Yeon Hwa, — Eu só prestei atenção e me familiarizei com os movimentos de vocês no jogo. Eu sou assim, Gongjunim. Sempre que estudo uma coisa eu aprendo mais dez no processo.

Soo dá de ombros, demonstrando que nem foi tão difícil assim se tornar o que ela é hoje. Os movimentos dela são leves, já que ela não sente remorsos, não tem culpa na sua consciência, não tem amargura no seu coração. E sua atitude tranquila parece irritar sua cunhada ainda mais.

— Você é uma mulher horrível, sabia disso? — O fato de ser Yeon Hwa, de todas as pessoas, quem diz isso quase faz ela rir em voz alta, mas ela se contenta com um sorriso sarcástico.

— Eu sou que nem você, eu só quero proteger meu coração e minhas pessoas. Qual o problema nisso? — Soo ergue uma sobrancelha e murmura, — Mas ao contrário de você, eu não mato ninguém.

A Princesa não parece ouvir essa última parte, já que mantém a expressão arrogante e proclama numa voz orgulhosa.

— As coisas não vão terminar como você espera.

— Você ouviu seu irmão, Gongjunim, — Soo suspira, já cansada dessa conversa, — Quando ele voltar, eu serei uma rainha, tudo vai ficar bem, e as coisas vão voltar a ser como deveriam ser. Enquanto isso, você ainda vai ser uma mera irmã de um rei.

Soo vai embora antes que o silêncio dure tempo demais. Não que ela não se importasse de ficar mais tempo discutindo com a Princesa, mas agora ela tem coisas para fazer, segredos para revelar e peças para mover. Era a última partida, e no fim Yeon Hwa só conseguiu atacá-la três vezes antes de ser finalmente neutralizada.

Era até uma decepção, agora que Soo parou para pensar.

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sim, você me fez o que você queria que eu fosse
então aqui estou, não desvie o olhar
antes de você tentar fugir,
não pode esquecer o preço que paguei
você pode tentar mentir e esconder a verdade,
mas ela sempre vem à tona quando eu quero

Notas finais
Eita, que eu nunca mais lembrei de link de música... Enfim Opiniões são bem-vindas. Elogios sempre aceitos. Críticas apreciadas. :)