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may the angels show you their boundless love
like the mother, not the wife
but i can’t, and i won’t
i’m leaving, i’m healing, i’m growing, i’m loving
cause you won’t, and you can’t
(alev lenz – may the angels)

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É uma visão patética.

Quando ele era um príncipe, Wang Yo sempre mantinha uma postura erguida e orgulhosa. Ele sempre se portava com uma aura elegante e intimidadora, sua aparência sempre arrumada e polida, seus movimentos cuidadosos e graciosos. Seus olhos eram sempre penetrantes e escrutinadores, brilhando em triunfo às vezes, como os de um predador que encurralou sua presa. Sua voz, não importava o tom que tomava, sempre fazia calafrios descerem pela coluna dela, e ela sempre temia o que ele diria a seguir. Um exemplo ideal de um príncipe maquiavélico, um grande jogador, e uma das peças principais dos jogos da corte.

Mas agora, como um rei, Jeonjong é apenas uma sombra do homem que um dia foi. Ele se senta esparramado na cama, com dificuldade para se manter acordado e são. Ele luta contra seu próprio corpo para continuar sentado, contra sua própria mente para não declinar em insanidade novamente. Seu cabelo está assanhado, provavelmente intocado desde que desfaleceu. Ele está vestido em suas roupas de baixo, que estão manchadas com um líquido vermelho que Soo presume ser remédio derramado. Seus olhos estão constantemente fora de foco, e sua voz está tão fraca e rouca que ela precisa se aproximar dele para ouvi-lo direito.

Ele parece tão patético no fim.

A Rainha Yoo não veio para o seu lado; ela estava com medo demais dele. Jung provavelmente está com ela agora, correndo pelo palácio e garantindo que o clã dela não perderá o trono. Ele tem uma esposa e um filho, mas eles não são próximos ao ponto de virem cuidar dele, nem para se despedir.

Enquanto isso, o homem deixado para morrer estava com uma febre alta e olhos vermelhos. Ele havia ordenado que todos os servos e ministros o deixassem à sós, até mesmo os médicos. E embora ele esteja com uma aparência deveras fraca — prestes a cair e se desintegrar — ninguém ousou desafiar o seu comando.

Ninguém exceto Hae Soo.

Wook tinha partido dois dias antes, e sem a sua guarda constante era mais fácil para Soo escapar da residência Hwangbo: ela só precisava murmurar a palavra Damiwon e duas servas leais (de Myung Hee) – In Hye e Na ri – preparavam tudo. O palácio Cheondeokjeon já era mais complicado de navegar, mas ela só precisava pegar a bandeja de chá para o Rei, e apareciam várias damas da corte contentes em abrir as portas e guiar o caminho para ela.

E foi assim que Soo conseguiu arranjar uma reunião privada com o Rei.

(Afinal, até mesmo reis moribundos podem ser úteis. E ela nunca foi do tipo de desperdiçar recursos.)

Jeonjong não a mandou embora. Na verdade, no momento em que ela entrou no seu quarto ela já tinha toda a atenção dele. Ele também não disse nada, só ficou encarando ela com expectativa, esperando para ver que experiência ela lhe forneceria hoje.

Mas ao invés de falar, Soo só pôde olhar em silêncio para a visão patética por alguns momentos.

— Você é boa em fingir agora, — Wang Yo tenta sorrir, mas parece mais uma careta de dor, — Você nem parece estar feliz em me ver sofrer.

Hae Soo ri com desdém, achando difícil ser intimidada pelo rei decrépito que já foi abandonado até mesmo pelos seus.

Ela não está fingindo nada. Ela não parece estar feliz porque ela não está feliz. Ela não está triste, é claro, mas ela está fascinada demais pelo paralelo que sua mente fez dele para ficar feliz. Ao invés disso, a antiga Sanggung só consegue se maravilhar com o quão rápido e o quão baixo (o quão forte) o homem diante dela caiu.

A imagem é bizarra demais, estranha demais; os dois lados da moeda opostos demais, contradizentes demais. É impressionante olhar para o passado e ver quanto poder ele costumava ostentar e o quão patético ele é agora.

É como assistir uma árvore frondosa tombar.

(Como observar as ruínas dos séculos passados.)

— Eu não me alegro com o sofrimento dos outros, — Soo simplifica ao máximo tudo que está passando na sua mente, mas Yo não se engana.

— Mas isso é diferente, — ele dá de ombros, ainda ansioso para conseguir uma reação interessante dela, — Você me detesta. Você quer que eu morra.

— Não tanto quanto eu detesto meu marido. Mas isso não vem ao caso.

Soo também dá de ombros. Já que hoje é o último dia que ela vem ver a cara dele, ela não vai se dar ao trabalho de se ater ao protocolo adequado nem com quaisquer expectativas que ele tem para com ela.

Hoje ele não tem poder sobre ela.

Ela se senta no chão em frente à sua cama, que nem ela faria na casa de um amigo próximo. Então ela serve casualmente duas xícaras de chá, sem ligar para sua postura, nem para o fato de que ela não podia beber algo que foi servido para o Rei, muito menos na companhia do Rei.

Yo está doente demais pra ligar para isso mesmo. E ele até se estica um pouco para pegar a xícara que ela lhe oferece. A mente dele é um delírio turvo, e ainda assim ele sempre quer uma xícara de chá.

Eles se sentam em silêncio por um tempo, formando mais uma imagem estranha e contraditória. O opressor e sua vítima, relaxando numa tarde tranquila, bebendo um pouco de chá, descansando no clima ameno.

Ela daria risada se não estivesse vivendo nela.

— Você sabe que a culpa é sua, não sabe? — Yo finalmente fala, mas suas palavras apenas fazem Soo imaginar que ele finalmente perdeu toda a razão e está completamente louco, — Tudo que aconteceu com Wook, So e os outros. Até mesmo comigo.

— O quê?

— Tudo isso começou quando você decidiu cobrir a cicatriz dele e deixar que ele ascendesse para um lugar que ele não deveria. — Ele põe sua xícara de lado com força, deixando ela cair de sua mão para o chão, — Começou com você.

Soo espera pelo momento que ele vai começar a rir, pela explicação para o ponto que ele quer chegar, pelo suspiro exasperado com a falta de reação dela às provocações dele, mas ele continua a encará-la com olhos acusadores. Ela olha de volta para ele desconfiada, tentando decidir se Yo está falando sério, se ele realmente acredita no que acabou de dizer.

Então quando fica claro que sim, ele acredita, ela sente pena de sua pobre mente, que já se deteriorou mais do que ela tinha imaginado.

— Está dizendo que tudo estaria bem se eu não tivesse feito nada? Todos vocês estariam tomando suas refeições na sombra do Damiwon, brincando juntos e vivendo como uma família feliz? — Soo deu uma risada seca, lembrando de que era isso o que ela mais desejava quando ainda era uma criança, — Você estava cego, Pyeha. Você só está com raiva porque o que eu fiz revelou a verdadeira natureza dos seus atos e da sua família, e você detesta o que vê. Não é mesmo? Agora você consegue ver, e você não suporta. Você não suporta nenhum deles.

O Rei olha para ela com olhos brilhantes de novo, mas dessa vez, ela percebe, é por causa de suas lágrimas.

Ele engole o que resta de seu chá, e sua voz rouca soa quase amarga quando ele fala.

— Minha mãe veio aqui ontem, me implorando para nomear Jung como meu herdeiro. Ela já estava com o papel e o pincel prontos, eu só precisava assinar, — os olhos dele estão voltados para ela, mas eles estão fora de foco, sem direção, provavelmente ainda presos no momento de rejeição, — Acho que para ela eu sempre fui uma ferramenta. Agora acho que sei como você se sentiu. Todos vocês.

Uma lágrima solitária cai, complementando a visão absurda diante de Hae Soo que nunca, em todos os anos que viveu em Goryeo, viu o 3º Príncipe chorar. Um sinal da dor e da rejeição, tão claro e evidente que a choca; a faz lembrar do quão surpreendente havia sido ver uma expressão semelhante no rosto do seu quarto irmão muitos anos atrás.

Ele realmente é uma visão patética, mas Soo o conhece bem demais para se comover com aquele discurso ou com aquela lágrima.

— Você não está tentando usar isso como desculpa, está?

— O que foi que Wook fez com você? — Ele reclama exasperado estalando sua língua, a lágrima ainda descendo na sua bochecha, — Não tem nem mais graça zoar com você.

— Perdoe-me por não entretê-lo.

Soo ergue uma sobrancelha em desdém, petulante demais agora, no fim. Mas Yo apenas dá de ombros, superando sua decepção e se recusando a desistir em atiçá-la.

— Por que você está aqui, afinal? Todo mundo que tem uma fração de juízo está mantendo distância do palácio, agora que o Rei está prestes a morrer. — Ele ri e indica seu estado com um gesto, o olhar divertido voltando aos poucos, — O quê? Você acha que posso servir de proteção para você, nesse estado? Ou você acha que pode me usar para controlar o Príncipe obcecado por você?

— Eu vim buscar o decreto.

— Oh?

Uma risada fraca retumba em seu peito, mas o bastante para fazer seus olhos parecerem mais vivos por alguns segundos. Isso é o suficiente para saber que ele conseguiu arrancar algo dela, que ele encontrou nela uma fonte de diversão, que ele a forçou a tomar uma decisão para deixar tudo interessante para ele. E é suficiente para irritá-la, fazê-la se sentir como um bichinho de estimação preso que acabou de obedecer comandos e fazer truques.

Bem, ele tinha dito que ia ser divertido para ele, não importava fosse a sua escolha.

Yo move a mão, indicando o baú onde ele guardava o decreto que usava para provocar Hae Soo, ao mesmo tempo em que acena para lhe dar permissão para ir pegá-lo.

(Ela teria ido mesmo que ele não tivesse autorizado.)

Soo abre o pequeno baú, prendendo a respiração quando finalmente toca no pergaminho, sentindo ele pesado contra sua palma embora seja mais leve que a bandeja que ela trouxe mais cedo. Ela força sua máscara a continuar fria e distante, a não rachar, a não ceder.

Não se mover nem mesmo quando o Rei cantarola atrás dela.

— Então você escolheu o cão-lobo afinal! — Yo exclama empolgado, satisfeito com a reviravolta, — Por quê? Você acha que pode domá-lo antes que ele a mate por forçá-lo a se casar com você?

Soo se vira para encará-lo, mantendo tudo dentro de si. Depois de um breve olhar em sua direção ela o abre, verifica o conteúdo, tenta se convencer de que isso é real, de que isso está acontecendo. Que ela está com ele e que ninguém pode tomá-lo.

Eu, Jeonjong, concedo à dama Hae Soo permissão de divórcio, e que os laços matrimoniais entre ela e o 8º Príncipe Wank Wook estejam inteiramente terminados. E que a dama Hae Soo case-se com o 4º Príncipe Wang So, com todas as bençãos e autorizações da coroa.

Soo quer abraçar aquele decreto, mas ela se força a carregá-lo com indiferença enquanto volta para o seu lugar no chão.

— Eu não vou usá-lo de verdade. Eu só preciso dele para ameaçar e controlar o 8º Príncipe, — ela dá de ombros, como se continuar casada com Wook não fosse o seu pior pesadelo, e sair correndo até So não fosse a única coisa que ela quisesse fazer no momento, — Ele odeia perder, ainda mais para o 4º Príncipe. Ele vai fazer de tudo para que eu não o deixe.

— E por que não se divorcia dele logo? É a melhor chance que você vai ter.

Soo não teme mais Yo.

Ela não o teme, mas ela não baixa sua guarda completamente com ele. Ela nunca deixa nenhuma fraqueza à mostra na frente do Rei, mesmo que ela não esteja preocupada com o protocolo ou com ele fazendo birra. Ela nunca deixa a máscara cair porque ela sabe que, apesar do comportamento atrevido dela, ele não é totalmente inofensivo.

Ele tem toda a autoridade – o poder e a loucura – de retirar o que disse e escreveu, de simplesmente escrever um novo decreto que determina o exato oposto do que ela segura em suas mãos. Por capricho, só para ver as coisas ficando mais interessantes.

Então ela ri, que nem quando ele ria quando ela lhe dizia algo inesperado. E ela revira os olhos como se ele tivesse acabado de dizer a coisa mais ridícula e estúpida do mundo. Então ela explica com calma, meio divertida, meio séria.

— Mais do que tudo, eu desprezo covardes e desertores. Foi por isso que troquei o 8º Príncipe pelo 4º Príncipe, e foi por isso que decidi valorizar apenas eu mesma depois que So-Wangjanim me abandonou. Eu não quero passar o resto da minha vida com Wook-Wangjanim, mas no palácio eu ficaria vulnerável de novo, — ela continua e acaricia o pergaminho de leve, finalmente deixando um sorriso escapar da sua fachada de durona, — Com esse pergaminho eu pelo menos terei poder o suficiente para viver em conforto, sem ter que sacrificar nada.

— Então você vai usar Wook como sua ferramenta? — Ele olha fascinado para ela, prestando atenção seriamente na sua explicação. Então ele ri de novo, gostando das reviravoltas do enredo, — Isso é ótimo. Eu sabia que você não ia tomar uma decisão tosca e me desapontar. Eu simplesmente sabia. — Ele se reclina para frente, apoiando o queixo com a mão, — Agora, me responda. Você vai continuar tentando ganhar mais poder e influência na corte? Eu sei que você tem o conhecimento necessário para orquestrar as coisas ao seu favor.

Eu tenho? Eu posso mesmo fazer isso?

Ela com certeza estava prestando atenção. E sim, ela ganhou uma quantidade considerável de conhecimento durante seu tempo como espiã do Rei, o que apenas agregou aos anos de experiência que ela tinha como Sanggung. Ela estava observando o jogo de perto, ela aprendeu como as peças se moviam e conseguia ver os pontos fracos e fortes de cada lado. Ela sabia onde atacar e o que evitar.

Mas ela poderia fazer isso?

— Sua família é um veneno, Pyeha. É por isso que nenhum de vocês é feliz, — Soo pensa em voz alta quando percebe que tipo de ideias espreitam na mente dela, e o quanto a antiga Hae Soo os odiaria, — Seu pai e sua mãe causaram a morte de Oh Sanggung, e agora você e seus irmãos vão causar a minha.

Os olhos dela não vacilam com a sua proclamação, nem os de Yo ao ouvi-la. Pelo contrário, quando suas palavras são registradas ele começa a refletir.

— Minha família é só mais uma vítima, — ele retruca em uma voz baixa, e sai cambaleando da cama, murmurando enquanto vai na direção da mesa em que ela costumava colocar seu chá e seus lanches. Agora só restam alguns papéis, um pincel que ele pega e mergulha numa tábua de tinta fresca, provavelmente deixados pela Rainha em sua última visita. — Minha família é uma vítima. O trono é o veneno, nós somos viciados demais e não podemos escapar. E agora que eu estou morrendo por causa dele, eu tenho que passá-lo para outro pobre irmão. Quem deveria ser?

— Isso é mais uma pegadinha?

— Eu só estou pedindo um conselho. Minha mente está turva e eu não consigo pensar direito, — ele reclama, apontando o pincel para ela numa atitude autoritária, — Quem deve ser o novo rei, dentre os meus irmãos? É melhor eu nomear seu marido e fazer de você uma rainha? Ou talvez Jung? Ou Baek Ah?

— O 4º Príncipe Wang So.

A resposta vem sem hesitação e é um milagre que ela tenha conseguido manter o rosto neutro e a voz distante quando disse. A pergunta veio do nada, então ela teve que pensar rápido, teve que usar todo o seu desdém. E ainda assim, o espanto do Rei não é inesperado, seus olhos agora brilhando de curiosidade.

— Oh? Por quê?

Ter o Rei pedindo que ela nomeasse o seu herdeiro não era algo que ela estava esperando. Soo só queria pegar o decreto e sair de fininho, esperar nas sombras até o próximo momento que ela tivesse que agir. Mas ele tinha pedido, e uma gama inteira de possibilidades foi colocada diante dela.

Soo se reclina, apoiando o corpo com uma mão e saboreando seu chá com a outra. Pensar rápido. Sim, ela havia dominado a arte de pensar rápido, de improvisar. Ela havia dominado a arte de mentir descaradamente, de ir inventando histórias à medida que ela falava. Yo podia ser mais útil do que ela tinha esperado, mas ela teria que ser mais convincente do que nunca para isso.

Então ela fala friamente, ela deixa suas pálpebras se relaxarem e contorce seus lábios para formar uma expressão de desdém – um olhar de desprezo.

— Ele odeia o trono e o palácio. Ele sempre me pedia para casar com ele e ir embora de Songak. Dizia que se sentia um prisioneiro aqui. E o 8º Príncipe ficaria arrasado, já que se tornar rei é o maior objetivo dele, — ela ri em escárnio, seu tom arrogante ao explicar sua lógica de uma forma que vá agradar e convencer o Rei, — Eu quero que o homem que me deixou presa fique confinado a uma jaula. Eu quero que o homem que me privou de minhas vontades perca seu objetivo. Então eu vou dizer para eles que fui eu quem disse para você fazer isso, e eles vão saber que não deveriam ter me subestimado. Eles acharam que podiam me controlar, eu vou mostrar a eles que estavam errados, — Soo ri e oferece um brinde, — Isso não é uma vingança adequada para uma ferramenta?

Yo acena com a cabeça. Primeiro devagar e depois rápido – o mais rápido que seus músculos permitem. Ele acena e pega sua xícara, aceitando o brinde e terminando a bebida em um gole.

Ele termina a bebida e pega o pincel de novo, escrevendo seu último edito freneticamente. Seu rosto mostra a alegria de um menino travesso que aprendeu um novo truque. Sua expressão revela que ele está contente, satisfeito com essa nova postura rebelde, certo de que ele está movendo e manipulando todas as peças à sua volta.

Soo só fica observando um olhar sóbrio.

— Até mesmo as ferramentas podem retaliar, não é mesmo? Mesmo no último fôlego elas podem se revoltar e esmagar. — Yo ergue o pedaço de papel e lê com calma as letras que começam a secar, rindo, — O 4º Príncipe Wang So será o próximo rei, e eu só espero viver tempo o suficiente para ver como minha querida mãe vai reagir.

❊❊❊

Quando Hae Soo deixa os aposentos do Rei, já tem soldados montando guarda do lado de fora.

Se ela ainda fosse uma serva, sua presença teria passado despercebida. Mas como ela é a esposa de um príncipe, ela atrai os olhos de todos no recinto. Os guardas a encaram, e ela vê perguntas se formando em suas mentes, mesmo que eles não ousem fazê-las em voz alta. Mesmo que eles não se movam.

Eles não vão se mover a menos que o seu superior ordene que eles se movam, e o General não ordena nada por um bom tempo. Ele só fica olhando para ela chocado, já que nem sabia que ela estava lá dentro. Ele tenta fazer uma cara de desinteresse para mostrar que ele não está surpreso. Ele tenta, mas ela o conhece bem demais para ele conseguir enganá-la. E ela sabe que ele não vai tentar prendê-la.

O 14º Príncipe hesita por alguns segundos, as mesmas perguntas que inundam a mente de seus homens estão aparentes no seu rosto. Mas então Hae Soo olha no fundo dos seus olhos, fazendo um pedido em silêncio, e ele desperta do seu estupor. Sinalizando para seus homens continuarem em seus postos, ele a segue até o corredor.

Jung não está feliz de vê-la ali, isso é evidente. Mas acima de tudo, ele está confuso e preocupado, ele quer respostas e quer garantir que ela está bem. Então as perguntas saem rapidamente, uma cortando a outra antes que ela tenha tempo até de formar uma resposta.

— Você ficou louca? Por que veio para cá? Você sabe o que está acontecendo no palácio agora? Você sabe que se não fosse eu de guarda, você poderia ter sido morta?

A última pergunta faz ela rir e quase revirar os olhos, e é apenas porque eles estão em público que ela mantém o decoro. Ainda assim, ela não consegue resistir ao uso do sarcasmo.

— Como se a Rainha fosse se aquietar se fosse outro na guarda.

— Soo-yah... — Jung tenta argumentar, tenta ser otimista, tenta continuar cego às intrigas do palácio, tenta ser apenas um soldado quando ele é na verdade um príncipe.

Bem, Soo não vai deixar. Não mais.

— Ela quer colocar você no trono, não importa quem seu terceiro irmão escolha, — ela diz incisivamente, que nem quando ela costumava lhe dar broncas quando eles eram jovens, — Ela vai lutar por isso, ela pode até planejar matar alguém. Ela é capaz de sacrificar o próprio neto se for para continuar sendo Rainha Mãe.

O Príncipe quer negar, quer dizer que não é bem assim. Soo vê isso na forma que seus lábios tremem, no jeito que seus punhos se fecham.

— Eomonin não pode fazer muita coisa...

— Ela pode fazer o bastante. O apoio do seu clã dará o poder para ela fazer o que quer.

— Pyeha ainda não se decidiu, — ele tenta um argumento diferente, tenta preservar sua esperança inocente, — Ele pode...

— Ele assinou um edito. Ele escolheu um herdeiro e assinou um edito, e eu tenho que ir discretamente informar o Astrônomo, — Soo lhe confia essa informação, sabendo que ela não vai correr perigo se contar para ele, — Pyeha vai lhe contar tudo quando for a hora, ou você vai descobrir quando ele falecer.

— Você sabe quem é.

Os olhos de Jung são acusatórios e seu tom também é. Ele soa quase traído por ela estar envolvida em tudo isso depois de anos condenando as ações das pessoas do palácio. Sua expressão é de magoado, e faz Soo se lembrar de quando ele era jovem e puro, descuidado – quando ele não entendia a dura realidade.

— Sim, — é tudo o que ela diz, sua máscara ainda meio que no lugar, sua posição sem ceder um centímetro; ela não vai lhe dizer mais nada, mesmo que ela o ame como um irmão, — É por isso que sei o que sua mãe vai fazer. O que ela vai pedir para você fazer.

Então há culpa nos olhos dele, porque Jung também sabe que tipo de pessoa sua mãe é, mesmo que ele a ame muito.

— Soo-yah, eu...

Ela coloca uma mão no seu braço para interromper qualquer desculpa que ele tenha. Não há tempo para isso agora, não com Yo no seu leito de morte.

— Eu sei que você é uma boa pessoa e que tem sempre boas intenções, então vou confiar que você fará o certo. Vou confiar que você colocará o país em primeiro lugar. — Um rápido relance ao redor do corredor lhe confirma que eles estão à sós, mas Soo ainda baixa o tom de voz e sussurra as palavras seguintes com extremo cuidado, — O 8º Príncipe Wang Wook está conspirando para ser o próximo rei, e ele está disposto a derramar sangue para isso. Da última vez, você chegou tarde demais. Não demore dessa vez.

Os olhos de Jung escurecem, toda a mágoa, acusação e inocência desaparecem. Ele se vira e caminha para a porta dos aposentos do Rei. Seus ombros estão rígidos e sua postura sólida como uma rocha quando sua voz ressoa no espaço fechado.

— Capitão! Fortaleça nossas defesas externas. O Rei está vulnerável demais no momento. Espere um confronto armado.

— Sim, senhor. — O homem a quem ele se dirigiu sai com dois outros soldados, sem mais perguntas. Os homens que permanecem ficam mais tensos ao ouvir as palavras do General, e a cena faz Soo se lembrar de como as duas últimas trocas de poder foram complicadas.

Ela precisa ser mais rápida dessa vez.

Depois que eles já se foram, Jung volta para ela na discrição das sombras, seus olhos mais uma vez preocupados e confusos.

— E você? Posso fazer algo para te ajudar?

— Você pode ser um soldado antes de ser um filho?

— Eu sei qual é o meu dever, — Jung diz depois de um segundo de hesitação, seus olhos demonstrando uma determinação dolorosa, resolutos.

— Então não deixe sua mãe se aproximar do Cheondeokjeon. Não deixe nem que ela descubra que há um herdeiro por enquanto. — Soo respira fundo e então fala com sua voz de irmã mais velha, mesmo que dessa vez ela não esteja tentando ser mandona, apenas lhe dar um conselho, — Eu ajudei seu pai a colocar seu primeiro irmão no trono. Agora vou fazer o mesmo. Você pode fazer o que o seu quarto irmão fez naquele dia? Pode manter sua posição?

— Eu sou um General do Exército Real, — ele declara, sem um pingo de incerteza, — Vou servir o próximo rei como sempre servi.

❊❊❊

Os abutres cercam o palácio.

Hae Soo nota que teve sorte assim que chega na área externa do palácio. Não tem como ninguém se aproximar do Rei; não agora, com tantos soldados guardando o palácio. Então, embora eles ainda estejam longe, os abutres estão à espreita e esperando pela hora de atacar.

Eles querem atacar, mas eles também querem informações sobre a saúde do Rei. Eles estão observando, cercando a área, e eles vão pousar em qualquer pedaço de carne que se aproxime deles.

Nessa analogia, Soo é o pedaço de carne: a fonte mais confiável, a última a ver o Rei. E o que quer que ela tenha para dizer pode influenciar na balança da luta pelo trono. Ela conhece bem esse jogo, ela já o jogou uma vez antes. Mas naquela vez ela saiu rastejando pelas sombras, agora ela caminha com um passo confiante e uma postura orgulhosa.

Que venham, é o que ela diz para si mesma.

Bem, não demora muito para eles chegarem.

Soo é parada por cinco indivíduos no seu trajeto para o Damiwon, a esposa do Lorde Chai sendo um deles. Eles se aproximam com sorrisos e palavras gentis, pedindo notícias de seu marido, mandando lembranças à sua sogra, perguntando o que a traz ao palácio naquele dia.

Ela sorri e é tão gentil quanto eles. Ela responde que seu marido está bem de saúde/teve uma febre uns dias atrás, e que ele estará de volta na cidade muito em breve/daqui a um bom tempo. Ela agradece seus recados e garante que suas palavras amáveis serão passadas para a Rainha naquela mesma noite/em alguns dias. E também, ela diz a eles que tinha vindo visitar sua sogra/visitar o Damiwon/tomar um pouco de ar fresco.

Ela os confunde. As pessoas que se aproximam dela com cordialidades não são tão influentes na política, só a estão usando para proteger suas posições. Elas estão tentando decidir quem vão apoiar, quão posição será mais vantajosa para elas. A informação dela pode afetar suas jogadas e os status de seus clãs, mas não vai mudar nada para os clãs maiores e mais fortes.

As que se aproximam para falar com ela depois que ela chega na sua antiga casa já são outra história.

Soo tem tempo o suficiente para passar uma nota para In Hye em segredo e sussurrar suas instruções – explicar o caminho para a Torre do Astrônomo e o que dizer quando chegar lá. E depois que ela vai, ele chega.

Ela está indo para um quarto para tomar um pouco de chá quando Park Yeong Chu a cumprimenta, fazendo ela parar para cumprimentá-lo de acordo com a etiqueta adequada. E Soo sorri ao fazer isso, contendo a vontade de ignorá-lo ou de bater nele por tudo o que ele fez com Woo Hee.

— Já que você está desacompanhada, é melhor ter cuidado, — suas palavras soam um conselho preocupado, mas seus olhos estão vazios e frios, — Esses são dias sombrios e ninguém está seguro. Tenho certeza que sabe disso, especialmente depois de ter falado com o Rei, não é verdade?

— Ah, eu não falei com o Rei, — Soo responde no mesmo tom e tema, deixando um pouco de confusão evidente na voz para dar credibilidade à sua mentira, — Eu só fui entregar uma mensagem para o 14º Príncipe, Grande General da guarda do Rei. E só aconteceu de ele estar guardando os aposentos do Rei.

Ela não tem como saber se Park Yeong Gyu acredita nela. Mas ele não tem prova de que ela conversou com o Rei, nenhuma evidência de que o homem está prestes a morrer, nem mesmo de que ela tem qualquer tipo de informação privilegiada. Seu comentário era apenas uma tentativa de fazê-la admitir algo, induzi-la a vazar algum detalhe acidentalmente.

Ele podia esperar sentado.

— Eu serei cuidadosa, senhor, — Soo continua depois que o homem continua lhe encarando sem dizer nada, — Mas eu não estou necessariamente desacompanhada.

— Servos e damas da corte não são o tipo de companhia a que eu me referia, senhora, — ele refuta, — Tenho certeza de que sabe como é fácil se livrar de um deles.

— Ora, senhor, é claro que sei, — Soo sorri cínica, — Venenos e facas são poderosos o bastante para derrubar um ministro, que dirá uma mulher indefesa.

Park Yeong Gyu não diz nada, não demonstra qualquer emoção em seu rosto. Ele apenas se vira e a deixa, e ela espera que seja para sempre. E Soo continua a caminhar para uma sala privada, já desejando uma bebida quente e a chance de descansar suas pernas.

❊❊❊

Ela mal se sentou quando a porta abre e outro abutre revoa e pousa em cima dela.

— Lady Hae Soo.

— Lorde Yoo Nam Seon.

Os cumprimentos sucintos são seguidos por um longo silêncio, e eles dois estudam e analisam o outro. Eles nunca tiveram muito contato antes – nenhum, na verdade – então eles estão navegando em águas desconhecidas, medindo o quão profunda, o quão violenta essa próxima corrente pode ser.

Depois do longo dia, Soo está cansada. Mas ela estava esperando esse momento desde que pegou a bandeja de chá medicinal do Rei, e agora que ele chegou a adrenalina está correndo solta pelas suas veias.

E ainda assim, ela não demonstra nada quando ele se aproxima da mesa. Ela não diz nada quando ele se senta na cadeira vazia à sua frente. Ela nem pisca e só espera ele fazer sua jogada primeiro.

— Bem, — ele começa, sua voz num tom neutro, como se estivesse falando sobre o clima, — Eu soube que você conversou com o Rei.

— Os aposentos do Rei estão cercados de soldados.

— E alguns soldados são leais ao clã Yoo, então é melhor não tentar mentir e dizer que foi só ver o 14º Príncipe.

Soo ergue uma sobrancelha, sem se impressionar com a ameaça.

— Se é assim, então você pode perguntar a eles sobre o estado do Rei. Melhor ainda, vá ver Pyeha você mesmo. Você é parente dele, não é mesmo?

Nam Seon respira fundo, seu rosto finalmente mostrando um pouco de irritação.

— O Grande General proibiu qualquer um de sequer se aproximar dos aposentos do Rei, e apenas o Médico Real teve permissão de entrar no seu quarto. Tenho certeza que sabe disso, não sabe?

— Sim, eu sei. Eu aconselhei Jung-Wangjanim a ter cuidado com todo mundo.

A sobrancelha de Nam Seon treme quando ela menciona o nome do primo dele de forma casual, mas ele controla seu temperamento.

— Por que você faria isso?

— Acha que estou tramando alguma coisa, Lorde Yoo? Você acha que eu corrompi o Príncipe para garantir um golpe bem sucedido?

— Escute, garota, — Nam Seon explode, — Nesse momento você é uma presa fácil para todos os clãs no palácio. Eles vão destroçar você e arruinar a sua vida se você continuar jogando esses seus joguinhos. O clã Yoo pode te ajudar.

— Me ajudar? — Soo pergunta num tom confuso, um pouco de insegurança aparecendo na sua voz, e Nam Seon acena veementemente com a cabeça, um sorriso paciente aparecendo em sua expressão irritada.

— Você se casou no ano passado, não foi? É claro que você deve estar com medo do que possa acontecer com seu marido.

Seu tom condescendente faz ela estremecer de raiva por dentro, mas por fora, ela só pisca rapidamente, fazendo uma cara inocente quando as lágrimas (falsas) ameaçam cair.

Ela odeia se sentir vulnerável, mas acha que a máscara da garota frágil é um excelente recurso para lidar com esse tipo de situação – quando ela quer se ver livre de suspeita, quando ela quer que as pessoas a subestimem.

— Ele viajou há dias e não deixou nenhuma instrução, — ela confessa com uma voz chorosa, — E agora está tudo um caos.

— Nós vamos proteger o seu marido.

— Vão mesmo?

— Mas é claro, — ele a assegura com um sorriso falso, — Ele não tem sido nada além de valioso para nós.

Soo segura a risada, deixando só um pouco da sua expressão de incredulidade escapar da máscara que ela pôs desde que o homem começou a falar. Porque não importa o quão inocente ela finja ser, não tem como ele esperar que ela acredite nessa.

E ainda assim, isso não o impede de repetir seu argumento.

— Veja bem, o Rei não estaria no poder se não fosse por ele. Então é óbvio que somos gratos a ele. Certamente seu marido vai querer manter a aliança com o irmão.

— Sim, ele ama muito os irmãos.

— Mas você precisa nos ajudar primeiro, — o tom de Nam Seon fica mais assertivo e dominante, — Por que o Rei está isolado? O que você disse para o 14º Príncipe não deixar ninguém entrar?

Soo conta até cinco, para parecer que ela está hesitando e reunindo a coragem para falar. Então ela olha para suas mãos, fazendo uma expressão de vergonha.

— Eu não falei para ele fazer nada, ele decidiu tudo sozinho.

Aquela resposta claramente não é a que Yoo Nam Seon esperava, então ele fica boquiaberto, pego de surpresa.

— Mas por que ele...? O que você disse a ele?

— Nada demais, eu juro, — Soo responde imediatamente, seu tom ficando mais urgente enquanto que o dele fica mais impaciente, — Depois que eu saí do quarto, ele me puxou de lado e me perguntou sobre a saúde do Rei. Eu sei que Jung-Wangjanim se importa muito com o irmão, então eu disse a ele que Pyeha estava muito doente e perto de morrer. Aí ele mandou o Capitão fortificar as defesas e me pediu para não contar para ninguém sobre a nossa conversa.

Nam Seon não parece estar satisfeito, mas ela sabe que é porque ele queria conseguir uma resposta com ela, não mais perguntas e dúvidas.

E apesar de Soo não gostar de atirar Jung aos leões desse jeito, ela só o faz porque ela sabe que nada vai acontecer com ele por causa de sua pequena mentira. Se for para alguém se prejudicar por contar que o Grande General estava agindo de forma suspeita, só seria ela. Mas isso só vai acontecer se Nam Seon tiver como confirmar o que ela acabou de lhe dizer, e ela conhece Jung bem o suficiente para ter certeza de que o Príncipe não vai contar nada para o primo.

Então, tudo o que Yoo Nam Seon vai conseguir ao incomodá-la é a dúvida sobre as ações e a lealdade de Jung, e a certeza de que o Rei está morrendo e eles estão muito perto de perder o poder.

— Obrigado, Lady Hae, — ele não soa nem um pouco grato, — Tenho certeza que será abençoada por ter nos ajudado hoje.

— Mesmo? — Soo pergunta entusiasmada, olhos brilhando um pouco, embora ainda pareça insegura, — Como?

— Você vai entender quando seu marido chegar, — Nam Seon murmura e vai embora.

❊❊❊

Surpreendentemente, a próxima pessoa com quem ela fala não puxa a conversa primeiro.

Soo conseguiu tomar o resto do seu chá em paz depois que Yoo Nam Seon foi embora e ela estava passeando pelo jardim do Damiwon quando o viu. Eles já não se viam a um tempo, então por um instante, ela mal conseguiu reconhecê-lo, lutando para associar um nome ao rosto. Mas quando ela consegue, ela sorri por dentro.

— Por que não estou surpresa de encontrá-lo aqui, tio?

Ela surpreende o homem e Hae Hong Ha Jin se vira e olha para ela, incrédulo.

— Ah, então agora você se lembra de mim? — Seu tom não é receptivo, mas Soo vai até o seu lado no gazebo, observando as flores junto do homem.

Suas ações são casuais, mas suas palavras são amargas.

— Agora, depois de você me vender para o Rei? Com certeza. Mesmo que eu já não o veja faz um tempo.

— E a culpa não é sua, menina ingrata? — Ele estala a língua, irritado com a presença dela, mas Soo já está acostumada a ser uma companhia indesejada, — Eu arrumei para você ser a esposa de um rei, e o que você fez? Desonrou todo o nosso clã, isso sim. Por sua causa, nós estivemos em vergonha e não aparecemos na capital todos esses anos.

— Eu já fui punida por isso, não?

Ela foi. Por isso e por muito mais. Até pelo o que ela nem fez também. Ela foi punida muito mais do que merecia, ela levou a culpa no lugar de pessoas que ainda vivem bem e intocadas.

Mas não é sobre isso que ela veio falar, e Hong Ha Jin sabe muito bem.

— O que você quer? Você não teria vindo falar comigo sem motivo.

Soo enrola um pouco, aferindo a profundidade antes de mergulhar.

— Já escolheram quem vão apoiar?

— Quem conseguir o trono. — Sua voz é uniforme, seu tom é resoluto. O clã Hae pode não ter uma influência forte na mudança de poder, mas eles não chegaram na posição social atual deles sendo idiotas, — Nós não podemos nos dar ao luxo; não temos dinheiro nem exército para lutar por um candidato específico. Eu não posso ofender ninguém.

Se tem algo que ela sabe sobre abutres, é que eles só se aproximam de sua comida quando ela está morta e não apresenta nenhuma ameaça. Eles se esbaldam em cadáveres e carcaças, pegando o máximo que conseguirem. Hae Hong Ha Jin é um verme. O que quer dizer que ele só vem mais depois, quando ninguém mais quer da refeição.

Soo não pode culpá-lo por abanar o rabo para quem quer que esteja no poder, por não demonstrar resistência desde que seu bem-estar esteja garantido. Mas ela pode desprezá-lo por ser um parasita covarde, que ofereceria uma sobrinha adolescente para um idoso, esperando que ela conceba um filho. E depois deserdar essa mesma menina, deixando-a para sobreviver sozinha.

Não que ela quisesse voltar com ele, mas isso não vem ao caso.

Sinceramente, ela nem teria se dado ao trabalho de conversar com o homem, mas se ela conseguir a cooperação dele, as coisas vão ficar mais fáceis para ela. E já que ele a usou uma vez no passado, ela vai retribuir o favor agora.

Então Soo tira o pergaminho de dentro da manga do seu hanbok, o decreto que ela acabou de receber do Rei, e o entrega para ele, indicando para ele ir frente e lê-lo. E ela observa sua expressão facial mudar com cada palavra.

— Qual é o seu problema com casamentos? — A irritação de Hong Ha Jin chega a um novo nível, quase se transformando em frustração, e ele fecha o pergaminho e o devolve em um movimento abrupto, — Por que nós estamos passando por isso de novo?

— Nós? — Soo ri seca, — Você não está passando por nada...

— Não? Então por que me mostrou isso, hein? — Hae Hong Ha Jin também sorri, questionando-a sardonicamente, — Você recebeu isso em privado, senão todo o palácio já saberia.

Um verme, mas um verme esperto, afinal.

— Vamos ajudar um ao outro, — Soo oferece, — Só dessa vez.

❊❊❊

Eles esperam na frente da porta dos aposentos da Rainha enquanto a dama da corte entra para anunciar a presença deles. Junto com eles, três ministros que têm afinidade com Hae Hong Ha Jin. Soo não sabe o quão próxima é essa afinidade, nem o porquê desses laços. Hoje, seu tio finalmente vai contribuir com alguma coisa, e ela vai fazer bom proveito de suas conexões.

— Ah, enquanto a gente estiver lá dentro, — ela sussurra para ele às pressas, como se tivesse acabado de lembrar, — É melhor você não mencionar o 4º Príncipe. Eu apanhei do meu marido só por passar perto dele esses dias. Quem sabe o que ele faria com você.

Hae Hong Ha Jin se vira para olhar para ela, seu cenho franzido em confusão, algumas perguntas já se formando nos seus lábios. Mas antes que ele possa dizer alguma coisa, a dama da corte está de volta e diz para eles entrarem, que a Rainha os espera.

Então Hong Ha Jin engole as perguntas e lidera o grupo para dentro. Ele também não pode se dar ao luxo de deixar a Rainha esperando.

Soo esperava que Yeon Hwa estivesse lá com sua mãe, especialmente depois de ouvir o que o 8º Príncipe disse antes de ir embora da capital, mas a Princesa não se encontra. No entanto, o primo da Rainha, Hwangbo Seung Woo, está sentado ao lado dela na mesa de jantar vazia.

— Olá, Huanghu, — Soo cumprimenta sua sogra casualmente, depois que seu tio demora demais para falar alguma coisa, — Espero que não estejamos interrompendo nada importante.

— Mas é claro que não, — a mulher olha para seus convidados, todos de pé no meio do quarto fazendo uma fila, com Hae Hong Ha Jin entre sua sobrinha e os outros homens. A voz dela é convidativa, mas seus olhos mostram que ela está surpresa e não sabe onde as coisas vão chegar, especialmente com os ministros presentes, — Estávamos apenas passando um tempo em minha família, e como minha nora, você é mais do que bem vinda a se juntar a nós.

— Na verdade, eu vim trazer algumas notícias para você. — Ela olha incisivamente para o seu tio e ele se vira para olhar para ela.

— Tem certeza que quer prosseguir com isso? — Hae Hong Ha Jin encara e pergunta baixinho numa voz irritada, e Soo responde com um aceno determinado. O tio dela suspira, provavelmente se arrependendo da decisão de acompanhá-la, mas ele cumpre sua parte no acordo; ele dá um passo adiante e diz, — No nome da Lady Hae Soo, eu trago um decreto real, que os ministros que me acompanham atestaram ser autêntico e válido.

— Eu, Jeonjong, — ele começa a ler devagar, para garantir que as palavras do Rei estão sendo entendidas, — Concedo à dama Hae Soo permissão de divórcio, e que os laços matrimoniais entre ela e o 8º Príncipe Wank Wook estejam inteiramente terminados.

Hong Ha Jin pausa e Soo se pergunta se ele vai ser descarado o suficiente para continuar lendo; se ele vai ignorar o seu aviso e declarar que o decreto também proclama um casamento. Mas, como esperado, ele pára e fecha o pergaminho, estendendo a mão e devolvendo-o a ela.

Ele não podia se dar ao luxo de ofender o 8º Príncipe, nem mesmo com o homem do outro lado do país.

Mas depois que ele acaba de ler, seguem-se longos segundos de silêncio, e os dois alvos da bomba que Soo acabou de soltar assimilam o que acabou de acontecer.

— Isso foi obra sua, menina? — A sogra dela pergunta incrédula e chocada, mas um ministro responde antes mesmo de Soo abrir a boca.

— É o decreto do Rei, Huanghu, — ele diz num tom ríspido, — E a vontade do Rei é a vontade dos Céus.

A Rainha e o seu primo olham um para o outro, incertos sobre o que fazer, já que o problema inesperado veio a eles de uma forma inesperada e num momento inesperado. Soo pode ver que eles estavam focados na sucessão ao trono e que eles não sabem como prosseguir.

E como nenhum deles ousa resolver nada, Shinjeong tenta evadir e furtivamente fazer eles desistirem.

— Esse tipo de assunto deve ser resolvido pelo meu filho, já que ele é o responsável pelo clã.

— Eu sei disso, mas eu imaginei que seria melhor vir até você do que ele, pelo interesse de ambas.

As duas mulheres se encaram fundo nos olhos – um oceano se encontrando com outro oceano – e elas tentam mergulhar fundo o bastante para entender a mente da outra. É um longo confronto silencioso e evasivo, e depois que a Rainha já avaliou a jogada da Soo e as suas próprias cartas, ela olha para o primo e acena com a cabeça.

— Nós reconhecemos o decreto do Rei. Podem ir, — Seung Woo diz solenemente, e os ministros se curvam antes de se retirarem. O quarto continua em silêncio até que o último deles se vai e as portas se fecham; é aí que Seung Woo decide continuar ignorando Soo e se dirige ao tio dela, — Lorde Hae, devo presumir que vai receber sua sobrinha de volta?

— Estou aqui hoje para pagar minha dívida com minha falecida sobrinha, Hae Myung Hee, nada mais. Quanto ao que acontece com essa menina ingrata, não interessa a nós Haes, — o tom de Hong Ha Jin é decisivo e sua decisão quanto a Soo é final, — Eu tentei fazer ela ver a razão. Eu até disse que a aceitaria de volta no clã se ela se convencesse a continuar casada com o 8º Príncipe, mas enfim...

Isso é mentira. Não a parte de convencer, a parte de aceitá-la. Em nenhum momento ele ofereceu refúgio a ela. Sua demonstração de caridade é uma mentira, e ele só quer garantir que os Hwangbo não se ofenderão contra o clã mais uma vez por causa de suas ações.

Ela deixa.

— Tem certeza disso, Hae Soo-yah? — Shinjeong se dirige a ela mais uma vez, seus olhos calmos tentando convencê-la do contrário ou pelo menos fazer Soo falar mais, — As coisas estão prestes a mudar. Esse casamento é uma chance de sobrevivência.

Hae Soo apenas sorri, palavras doces caindo de seus lábios.

— Eu sobrevivi sozinha por um bom tempo. Tenho certeza que eu consigo.

— O Rei não será rei por muito mais tempo.

— O decreto dele ainda será válido, — Soo retruca o argumento de Seung Woo e contra-ataca em um tom condescendente, — O clã Hwangbo já se tornou tão poderoso ao ponto de não sofrer nenhuma retaliação por contrariar a vontade do falecido Rei?

— Um rei louco que...

— Um rei ainda assim, — ela o interrompe e volta a ignorar a presença dele, — Vamos ser sinceras, Huanghu. Mesmo que o 8º Príncipe se torne um herói para o povo por derrotar Jeonjong, o restante dos líderes dos clãs não verá assim, especialmente os Yoo e seus aliados. Eles também têm possíveis candidatos ao trono, e não vão se aquietar até conseguirem revogar a reivindicação do 8º Príncipe. Um decreto real rejeitado? Você só vai dar mais fundamentos para eles protestarem contra a posição dele.

— Se você me recusar a carta de divórcio, tenho certeza que o 8º Príncipe não vai hesitar antes de descartar isso, — Soo ergue o decreto para fazer um ponto e continua sua narrativa, — Ele será teimoso e nós continuaremos casados. Ele provavelmente também vai recusar outras esposas numa vã tentativa de me agradar. E eu também serei teimosa. Eu vou continuar me recusando a lhe dar um filho, não importa o quanto ele ou o restante de vocês tente me dissuadir. — Ela pausa e suspira, começando a resumir tudo em uma lista enumerada, contando com os dedos para melhor ilustrar seu ponto, — Um Rei sem filhos, sem perspectiva de herdeiros, com uma reivindicação dúbia ao trono, e ainda rejeitando as palavras de seu predecessor... Quanto tempo os Hwangbo vão conseguir mantê-lo no poder?

A Rainha não parece estar feliz, mas ela nunca parece quando Soo traz política para a mesa. Seung Woo, por outro lado, apenas sorri e chega a dar uma risada depois que ela acaba de falar, sua expressão de zombaria.

— Você passou uns anos no palácio e agora é especialista em política?

— Eu só sei que reis morrem com muita facilidade por aqui, então vocês precisam ter cuidado. — Soo sorri também; ela está acostumada a ser alvo de zombaria, e ela também sabe zombar dos outros, — Você não tem motivo para contestar o decreto e me fazer ficar ao lado do seu Príncipe. Você quer se livrar de mim, e eu quero me livrar dele. Se você pedir que ele se divorcie de mim, ele vai te ignorar. Se eu apresentar o decreto real a ele, ele vai rejeitá-lo. Mesmo que ele se torne rei, ele não ficará seguro e eu não ficarei satisfeita. — Ela ri que nem Seung Woo riu e continua num tom paciente, — É uma equação simples, na verdade. Não preciso ser especialista para entender algo fundamental e básico.

A Rainha olha para ela com olhos penetrantes. Ela não vê o que Hae Soo planeja obter fazendo isso, e ela duvida que a jovem iria a esse extremo só para se livrar de Wook. (Embora sim, ela iria). Mas Hwangbo Seung Woo, por outro lado, não a toma por nada além de uma tola. Ele é como o tio dela nesse aspecto. Ele vai subestimá-la. E ele vai se arrepender disso mais tarde.

No entanto, eles não têm nenhum argumento para replicar, e Soo também sabe que eles estavam loucos por uma chance de se livrar dela. A oportunidade servida numa bandeja de prata é oportuna demais para recusar, e ainda assim...

— Um rei que perdeu sua mulher também não é bem visto.

— Vocês se preocupam mesmo com isso? — Soo questiona Seung Woo impacientemente, seu tom beirando a insolência. E depois que a Rainha e o seu parente a encaram em silêncio, ela suspira, — Muito bem. Eu não vou divulgar nada por um tempo.

— Quanto tempo?

— Quanto tempo vocês acham que vai levar para o 8º Príncipe tomar o trono?

Eles se entreolham novamente e Soo se certifica de não parecer que ela está interessada na conversa silenciosa que eles estão tendo agora. Ela continua na mesma posição e mantém a mesma expressão.

— Dez dias, — Shinjeong finalmente diz, — Você pode divulgar tudo em dez dias, ou quando o próximo rei for coroado.

— Isso é uma condição?

— Sim. — Os olhos de Seung Woo dessa vez estão sérios. — E Wook vai ser o menor dos seus problemas se você não cumprir sua parte do acordo.

Soo acena, satisfeita com os termos.

— Depois de um ano, dez dias são como dez segundos — ela diz com um sorriso aliviado.

— E também seria melhor se você não retornasse à residência.

— Imaginei que me pediria isso, — ela responde a Rainha, — Todos os meus pertences pessoais cabiam numa caixa. Eu já trouxe tudo comigo. Pode queimar o resto.

A Rainha acena, também satisfeita, e indica a mesa ao lado com papel e tinta para o seu primo. Seung Woo se levanta e, no silêncio pesado que paira sobre o quarto, começa a trabalhar na carta de divórcio.

Todos os olhos estão fixos nele, e Soo observa com atenção o pincel que passa sobre o papel, sentindo seu coração ficar mais leve a cada traço.

— Lorde Hae, Huanghu, — ele pede depois de escrever por um tempo, — Se importariam de assinar como testemunhas?

❊❊❊

— Eu não acredito que fez mesmo isso, — o tio dela murmura depois que eles saem dos aposentos da Rainha, passando o pergaminho para ela.

— Nem mesmo depois daquela primeira vez? — Soo sorri, achando divertida a atitude irritada dele, segurando sua liberdade com cuidado nas suas mãos.

— Acho que eu pensei que você teria aprendido alguma coisa à essa altura, — ele argumenta e depois sorri de volta de maneira sardônica, — Mas tem gente que é burra demais, não é mesmo?

— Ora, Lorde Hae, — ela ergue uma sobrancelha e fala com leveza, mesmo que ele tenha insultado ela na cara, — Talvez eu esteja na verdade tramando para colocar meu campeão no trono, e isso seja só uma parte de um esquema maior.

— Se é nisso que quer acreditar, menina, por favor, faça o que quiser, — Hong Ha Jin para de sorrir, — Só não reclame quando tudo desabar em cima de você de novo. E não venha atrás de mim. Lembre de suas palavras.

Soo acena, ficando séria também, e ela repete os termos do acordo entres de maneira solene.

— Sim, tio. Eu nunca mais vou me envolver com vocês Hae nem com seus assuntos, e vocês nunca se darão ao trabalho de me ajudar de novo. Eu te garanto, minha memória é muito boa, embora você reprove meu intelecto.

Hae Hong Ha Jin bufa e se vira, deixando-a para trás. Os ombros dele relaxam aliviados, provavelmente pensando que acabou de se esquivar de uma bala.

Soo também deixa acreditar no que ele quiser. Ela já tem tudo o que ela queria; ela também não vai mais ligar para sua família biológica.

❊❊❊

Hae Soo não vai embora do palácio depois disso.

Sim, ela gostaria muito de voltar para o Damiwon e ficar só esperando em segurança até tudo acabar e todo mundo se acalmar, mas ela ainda tem mais uma coisa para fazer.

Ou melhor, mais uma pessoa para conversar.

Soo está planejando como se aproximar da última pessoa de sua lista mental, se perguntando qual curso de ação seria o melhor, quando o dito cujo se aproxima dela primeiro.

O pôr-do-sol se aproxima, e ela está com fome e cansada. Agora ela não pode voltar para a residência Hwangbo para uma refeição, um banho quente, nem para trocar de roupa. E já que ela concordou em não revelar o divórcio, ela não pode nem se mudar oficialmente para uma nova casa.

(A pobre In Hye deve estar preocupada, tendo sido mandada de volta para casa sem mais nenhuma explicação. Mas Soo ainda é uma isca e está vulnerável demais no palácio, então ela não pode fazer a mulher continuar com ela.)

Ela é uma sem teto, mais ou menos. As damas da corte do Damiwon lhe deram algum conforto e a Sanggung também ofereceu um esconderijo para ela passar a noite se quisesse. Mas ela vai ter que partir logo. Ela só precisa lidar com mais essa coisa.

Mais esse abutre.

— Você também? — Ela fala com um grunhido quando ele interrompe o passeio dela, encurralando-a em um ponto isolado do palácio, e ela expressa de maneira clara que sua paciência está por um fio.

— Imagino que teve um dia longo, — Shin Ju Kang brinca, sem se incomodar com a reação agressiva dela à sua mera presença.

— Mais longo que o de costume, — ela concorda fazendo uma careta, e depois ela abana as mãos, indicando para ele se apressar, — Então vá em frente, pode perguntar. Me faça revelar todos os segredos sórdidos do palácio. O que é que vocês acham que eu sou, afinal?

A resposta dela só o faz rir.

— Não tem medo de se machucar?

— O que mais eles podem fazer comigo?

— Você é corajosa. Gosto disso, — Shin Ju Kang acena em aprovação e Soo luta contra a vontade de vomitar, — Você também não se dá ao trabalho de entrar em joguinhos. Também gosto disso. Então por que não joga tudo pro alto e me conta tudo sobre o Rei?

— O que eu ganho com isso?

— A pergunta é, o que você tem a perder? — Ele questiona com um sorriso, achando o temperamento dela engraçado, incitando sua postura indiferente e frustrada, — As coisas vão mudar logo em breve, quer você me conte tudo ou não. E sua tentativa de controlar as coisas não vai lhe servir de nada. Por que não acende uma faísca e fica vendo tudo pegar fogo?

Ah, como Hae Soo ama essas palavras.

Não apenas porque sim, uma faísca é exatamente o que ela quer. Mas também porque a promessa dele é irônica. A faísca já foi acendida e agora ela está vendo o pavio da bomba que ela colocou no palácio diminuir; o efeito em dominó já está preparado, uma vez que ela já colocou todas as peças na ordem correta. Quando a primeira cair, vai levar todas as outras consigo.

E vai ser lindo de ver, com certeza.

Ela precisa conter o sorriso vitorioso. Se Shin Ju Kang está aqui, e tentando manipular ela ainda por cima, só pode significar que ele também não faz ideia da bagunça que ela andou fazendo no palácio o dia todo.

— Interessante. — É tudo o que ela tem a comentar sobre a oferta dele, — Ver tudo pegar fogo é justamente o que eu queria.

Shin Ju Kang não esconde seu sorriso vitorioso, e nem sequer tenta. Isso só deixa Soo mais contente.

— Então me conte, — ele traz a conversa de volta ao assunto principal, — Como ele estava?

— Eu não sei. Ele não falou muito quando eu estava lá, então eu não captei o bastante para ter certeza, — Soo franze o cenho, fazendo um esforço visível para se lembrar, — Assim, ele parecia estar cansado e doente e tudo, mas ele ainda tinha força para caminhar pelo quarto e escrever umas coisas.

— Escrever? — A atenção de Shin Ju Kang se aguça.

— Sim, — Soo acena, — Pouco antes de me mandar sair, na verdade. Ele escreveu alguma coisa num pergaminho e me mandou ir embora. Ele parecia que ia me atacar, então eu saí correndo.

O homem acena em silêncio por um tempo, provavelmente já descobrindo coisas que ela não disse, tentando notar detalhes que ela não percebeu. Muito ocupado fazendo suas tramas para notar que é tudo mentira.

Então ele sabe que o Rei escolheu um herdeiro, mas não que Soo sabe quem é, nem que é justamente o filho adotivo do clã dele. Não, ele vai inferir que é ou o filho do Rei ou o 14º Príncipe. E ele não vai ter outra escolha a não ser se esforçar mais para que o 4º Príncipe ascenda ao trono.

— Você é mesmo uma garota esperta, — ele diz depois de se perder em pensamentos por alguns segundos, — Eu lhe garanto, poucos podem saber disso no futuro, mas hoje você fez uma grande contribuição para a História.

— Ah, Lorde Shin. Eu não ligo para nenhum legado histórico, — ela sorri agradecida, — Eu só quero ver tudo pegar fogo.

❊❊❊

Soo estava na cozinha do Damiwon, fazendo um lanche, quando o jovem se aproximou dela.

Ele fez isso discretamente, entrando com um saco de pepinos igual a qualquer outro entregador faria. Ele não falou muito e foi direto ao trabalho, arrumando os outros sacos no canto do recinto. Só depois que ele se certificou de que não tinha mais ninguém ali – nem perto – ele falou com ela.

— Lady Hae Soo.

— Sim.

— O Astrônomo Choi Ji Mong pede desculpas por não vir pessoalmente. — Ele estende a mão e lhe oferece um pedaço de papel dobrado, e ela quase o arranca da mão dele.

Já faz algumas horas desde que ela mandou In Hye com uma mensagem, e ela estava começando a ficar preocupada com a falta de resposta. Então sim, ela está se sentindo um pouco ansiosa e está louca para ver o que ele tem a dizer.

Para sua decepção, mas não para sua surpresa, o recado não diz muita coisa. Não que Soo ligasse tanto assim, mas ela estava esperando receber mais detalhes, conseguir mais informações para mover as peças no palácio.

O recado só diz para ela ir ver ele. Sim, ela entendeu. Sim, ela dá conta. Mas ainda assim, ela queria fazer mais alguma coisa antes de ir encontrar o 4º Príncipe. No entanto, se Ji Mong pediu para ela ir, então isso quer dizer que não tem mais ninguém que possa. Se ela não for, as coisas podem se complicar.

Especialmente com o 8º Príncipe chegando em dez dias.

No entanto, dez dias foi o que a Rainha Hwangbo disse. Ela poderia muito bem estar adicionando uma margem de erro na conta... Na verdade, não, ela definitivamente adicionou. Não tinha como ela contar para uma pessoa de fora do clã – especialmente uma que acabou de se divorciar e não gostava nem um pouco da família – a data exata que o 8º Príncipe era esperado.

Nesse caso, ela não pode desperdiçar tempo.

— Qual é o seu nome? — Ela se vira subitamente para o homem, e ele pisca surpreso, travando um pouco antes de responder.

— Kim Do Yun, senhora.

— O Astrônomo lhe deu mais alguma instrução?

— Eu tenho que levá-la ao acampamento do 4º Príncipe em segurança.

Soo acena com a cabeça e relê o recado, tentando ver se tem mais alguma coisa, mais algum detalhe ou mensagem secreta que ela ainda não notou. E quando ela se dá por satisfeita ela pega a vela mais próxima, segura o papel perto da chama até que ele seja apenas cinzas na sua mão.

— Quanto tempo leva daqui para lá? — Ela pergunta, sua mente já a toda velocidade com ela se preparando para mais uma corrida contra o tempo.

— Um dia e meio.

— E quanto tempo leva se eu pagar a mais?

❊❊❊

Levou uma noite.

Kim Do Yun ficou dizendo que ele poderia levar menos tempo se fosse durante o dia e sozinho, mas Soo tinha que partir imediatamente e ele teve que viajar com peso extra e no escuro. Não era seguro, ele tentou argumentar no começo, mas ficou muito disposto a concluir o trabalho quando Soo pegou umas peças de prata de suas economias escondidas.

Soo deixou o resto de suas coisas com a Sanggung, também confiando na antiga dama da corte para lhe emprestar umas roupas simples, e então partiu com o mensageiro do Astrônomo. Eles fazem breves pausas ao longo do caminho, trocando de cavalo em certas paradas, ela nem sequer pára para prestar atenção nas estrelas que costuma observar todas as noites. Sua mente está focada na sua missão, e ela não vai conseguir descansar, nem admirar as coisas belas da vida, até que o 4º Príncipe esteja sentado no trono.

Eles chegam no acampamento no fim da noite.

As barracas foram montadas no meio de uma pequena vila abandonada, e Soo logo nota que os homens estão usando alguns dos prédios antigos como alojamento. Ela se preocupa em como vai fazer para encontrar So no meio de todas as pessoas e prédios no acampamento. Ela não faz ideia nem onde começar a procurar, e para sua surpresa, Do Yun guia seu cavalo com tranquilidade pela vila.

Mas é só quando ele pára e a ajuda a descer do cavalo que passa pela mente dela que Do Yun deve saber onde o 4º Príncipe está. E é só quando ele se aproxima da porta de uma casa e bate na madeira em um padrão específico, que ela tem certeza que ele definitivamente já fez aquela viagem antes.

Não há resposta, mas Do Yun abre a porta e indica com a cabeça para ela entrar. E, ignorando a sensação de que isso poderia muito bem ser uma armadilha, Hae Soo entra no quarto escuro.

Seus olhos já tinham se ajustado à escuridão, então não demora muito para ela notá-lo no canto, lendo alguma coisa com a luz de uma única vela. O cabelo dele está solto, caindo abaixo de seus ombros, e seu rosto não tem nenhuma maquiagem. Ele não tira os olhos do pergaminho na sua mão, então ela aproveita alguns segundos para admirá-lo, um sorriso genuíno e sincero se formando nos seus lábios.

É uma visão linda, e ela não tem vergonha de dizer que está sem fôlego e prestes a chorar só de olhar para ele.

— Wangjanim, — ela o chama com um suspiro contente, seus ombros se desfazendo da tensão, seus pés doloridos leves como plumas quando ela praticamente corre até ele.

A cabeça dele se levanta num estalo, uma expressão chocada no seu rosto, e ele se levanta bem a tempo de pegá-la em seus braços.

— Soo-yah? O que está fazendo aqui? — Ele pergunta com urgência, mãos acariciando seus ombros, seus braços, sua cabeça, seu rosto, tentando ver se ela está bem, se ela está ferida, — O que aconteceu? O que ele fez?

— Nada. Não foi nada, — ela sorri, seus próprios braços envolvendo ele, abraçando sua cintura, — Eu só vim trazer uma mensagem do palácio.

Mas ao invés de passar a mensagem, ela se estica na ponta dos pés, alcançando os lábios dele com os dela. Ela o beija devagar, sentindo a saudade acumulada finalmente sendo curada, apertando o abraço em volta dele que nem ela vinha fantasiando desde que recebeu o decreto do Rei. Ela o beija com alegria e alívio, e depois de se assegurar de que ela está bem, ele corresponde, também ansioso para cumprimentá-la adequadamente, e eles se perdem no beijo por alguns minutos.

Então ele se afasta, seu cenho franzido com preocupação e reprovação.

— Você não devia estar no palácio. Você não sabe que Yo está...

— Eu sei. Eu sei, eu estava lá. Mas eu tinha que ir ao palácio, e depois eu tive que trazer essa mensagem. É urgente.

É urgente, sim, mas toda a preocupação e ansiedade que a acompanharam o dia todo parecem se dissolver quando ela vê o rosto dele. É urgente, sim, mas alguns minutos se reunindo direito com o amor da sua vida não vai fazer diferença. E é por isso que Soo se inclina para mais um beijo, mais um momento de pura alegria com esse homem de quem ela tinha sentido mais saudade do que tudo no mundo. Mas ele volta a dar uma bronca nela antes que ela consiga.

— Por que você é tão imprudente? E se alguma coisa tivesse acontecido?

— Você me salvaria, — Soo sorri, abraçando a cintura dele com mais força, — Me tiraria de lá. Me sequestraria.

Os olhos dele ficam semicerrados quando ela diz isso, como se estivesse tentado pela oferta, mas está resistindo e precisa ser racional.

— Você ainda é uma mulher casada, não?

— Só até umas horas atrás. — Ela ri da sua expressão de confusão, então se afasta para pegar o decreto debaixo de seu robe.

So o pega com um olhar curioso, seus olhos indo do pergaminho para o rosto dela com suspeita antes mesmo de abri-lo e lê-lo. E quando ele finalmente o lê, ele precisa relê-lo mais algumas vezes antes de olhar de volta para ela, seus olhos agora surpresos.

— Como?

— Foi escrito e assinado pelo Rei, e os ministros já o reconheceram, — Soo explica, seu sorriso um pouco mais tímido agora que ela está dizendo em voz alta, — Eu tenho permissão para me divorciar do 8º Príncipe e me casar com o 4º Príncipe. A Rainha Hwangbo estava ansiosa para me expulsar, então eu já tenho a carta de divórcio. Agora só falta metade do decreto para cumprir.

Ele parece estar ainda mais chocado e confuso depois da explicação dela.

— O que você está dizendo?

— Quer se casar comigo, Wangjanim?

— Soo-yah, eu...

Ela não se sente rejeitada pela sua hesitação em responder. Especialmente porque, depois de lê-lo de novo e novo, ele ainda parece estar atordoado pelo fato de que esse decreto existe e está bem nas suas mãos. Tudo ainda parece muito surreal até para ela, apesar de ela saber da existência do decreto há meses. Aliás, ela o carregou o dia todo, e a ficha ainda não caiu pra ela ainda.

Ela está divorciada, e sim, ainda parece um sonho.

Tudo está acontecendo rápido demais; ela não pode parar para processar tudo, senão ela vai surtar e ficar louca.

— Eu sei que eu prometi que ia esperar até você se tornar rei, mas então eu tive a oportunidade e eu...

— O que você fez? — Ele a interrompe e ela vê que sua primeira reação real é se preocupar com ela. De novo. — Como conseguiu isso?

— Ah, você sabe... Eu meio que ia para uns lugares e ouvia umas coisas, e depois eu tinha que contar tudo pro Rei, senão ele me mataria. E no fim, eu meio que manipulei ele para me dar o decreto, — ela admite relutantemente, coçando a nuca e desviando seus olhos. Mas assim que So respira fundo para lhe dar outra bronca, ela o interrompe, — É, eu sei que foi perigoso, mas ele escreveu sem qualquer influência minha. Ele só queria me provocar, brincar comigo. E aí eu comecei a pensar na minha cicatriz, e como o decreto poderia resolver tantos problemas, então eu tinha que pegá-lo e eu não ligo se foi arriscado. Valeu a pena. Eu estou solteira agora, e nós temos permissão para casar, tudo ficou mais fácil.

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— Eu não ligo para sua cicatriz, — ele lhe diz com um tom reconfortante, segurando seu rosto com uma das mãos, a outra ainda segurando o pergaminho. Porque é claro que a primeira coisa que ele quer esclarecer depois daquele discurso inteiro dela é apagar qualquer tipo de insegurança que ele acha que ela possa ter, — Você sabe que eu não ligo nem um pouco, não é?

— É claro que eu sei, — o tom dela suaviza e ela segura o rosto dele, alisando a cicatriz dele com o polegar, olhando no fundo de seus olhos. — Mas você sabe como todo mundo pode reagir. Você não é tão popular entre os outros candidatos ao trono. Se você insistir em se casar com uma mulher com uma cicatriz, eles vão se revoltar. Nem mesmo seus apoiadores vão aceitar.

— Você acha que isso pode me impedir?

— Isso pode me impedir, — ela diz e os olhos dele se arregalam, fazendo ela rir antes de continuar, — O quê? Você acha que eu aceitaria de bom grado uma posição que poderia colocar a sua em risco? Que eu seria descuidada com a sua vida?

— Você não precisa cuidar de nada. É minha decisão...

— Bem, em primeiro lugar, Wangjanim. Ela solta o rosto dele e bate no peito dele com um dedo, — Se você estivesse no meu lugar, você faria a mesma coisa, então não comece. Em segundo lugar, foi sua decisão se tornar rei e foi minha decisão apoiar você, então eu vou fazer qualquer coisa para te ajudar a chegar lá. E eu vou continuar fazendo para você continuar no poder, — ela faz uma pausa, percebendo repentinamente o tom solene que ela assumiu, e então reafirma como um juramento, — Qualquer coisa.

O peso das palavras dela o deixa em silêncio por alguns momentos, e ela espera enquanto seus olhos vão de preocupados para compreensivos, e então começam a brilhar quando seus lábios se abrem num sorriso largo.

— Parece que estamos mesmo juntos nessa, não é?

— Eu não sei o que vai acontecer depois que você se tornar rei, mas você não pode contrariar um decreto do falecido Rei, não é? — Soo tira a atenção dele da sua cicatriz e a leva de volta ao decreto, sorrindo timidamente mais uma vez, — E se você se casar antes de se tornar Rei... Bem, ninguém pode fazer você se divorciar de mim, não é mesmo?

So suspira.

— Você percebe que vai ser uma rainha quando isso tudo acabar, não é?

— Eu me preocupo com isso quando a hora chegar, — Soo ri de novo, achando tudo difícil de acreditar; que isso está acontecendo, que eles estão prestes a se casar e ele estar prestes a ser coroado, — Você faz o mesmo.

❊❊❊

O casamento deles acontece com correria demais para ser uma ocasião notável. E assim, Soo se sente nas nuvens.

Depois que eles terminaram de conversar, So vestiu o resto de suas roupas, colocou sua máscara e prendeu seu cabelo num rabo-de-cavalo. Ele disse para ela esperar antes de sair na noite escura. Meia hora depois, ele voltou com três homens, sorrindo que nem um menino que tinha acabado de ganhar doce, pronto para oficializar a união deles.

O tempo urge, então eles não têm como cumprir todas as tradições e ritos de sempre. Um dos homens é um um sacerdote, então ele se certifica de manter as coisas simples e ainda assim oficiais. Ao contrário do seu casamento anterior, esse acaba bem mais rápido, não tem convidados, não tem presentes. Ela está vestida em roupas que pegou emprestadas do Damiwon e ele está vestido na primeira coisa que achou para vestir. Não tem maquiagem, nem penteado, nem joias elaboradas. Os papéis são escritos e assinados, velas são acendidas pelo quarto, uma cerimônia improvisada acontece, e depois de cerca de trinta minutos, Wang So e Hae Soo estão casados. Não há uma grande aclamação quando tudo acaba. Não há festa, não há celebração. E ainda assim, essa é melhor em todos os sentidos.

Soo sente seu peito mais leve, seu coração palpitando junto com as borboletas no seu estômago. E quando ela olha para ele, ele sorri para ela e ela sabe que ele sente o mesmo.

Seus companheiros os parabenizam, lhes desejam felicidade e deixam o casal a sós.

Em qualquer outro dia, em qualquer outra hora, Soo poderia pensar em um evento majestoso, ela poderia organizar uma festa que faria seus descendentes olharem para o passado em admiração. Mas quando So aperta as suas mãos e a puxa para perto para um beijo, ela sabe que isso – que esse homem bem aqui – é bem melhor que qualquer festa que reis e rainhas poderiam idealizar.

Mas o momento deles precisa acabar logo, porque Choi Ji Mong não a enviou para se casar em segredo. Ela precisa contar para ele sobre seu irmão, ela precisa lhe dizer o que aconteceu antes de ela partir de Songak. Soo se afasta lentamente e a contragosto, sem encontrar resistência da parte dele. No entanto, quando ela olha nos seus olhos, ele fala antes de ela ter a chance.

— Esse não é um bom lugar para você ficar. — Ele segura seus ombros com força por alguns segundos e se afasta, vai até sua bagagem e começa a preparar sua armadura. E é aí que Hae Soo percebe que o sol já está nascendo, e que So precisa se preparar para voltar à marcha, — É melhor você ir agora. Eu vou te procurar quando tomar o palácio.

— Não vai haver uma batalha, — Soo diz atrás dele e ele se vira, novamente confuso.

— O quê?

— O Rei já deve estar morto a essa hora, mas ele escreveu e assinou seu último edito antes de eu deixar o palácio, — Soo diz com uma expressão séria e depois sorri suavemente, — Na verdade, era essa a mensagem que eu vim te trazer antes da gente se distrair. Os guardas estão acampados do lado de fora do palácio, esperando o herdeiro do trono. Você só precisa ir para o palácio e caminhar até os portões. Eles serão abertos para você.

O 4º Príncipe não diz nada por um tempo. Ele só fica boquiaberto e olhando para ela com os mesmos olhos esbugalhados de antes, quando ela lhe mostrou o decreto do divórcio. Sua expressão é um misto de confusão, incredulidade, choque e expectativa.

— Soo-yah...

— Eu queria ser a primeira a fazer isso. — Soo cai de joelhos, seu sorriso tão largo que ela sente as bochechas doendo. Ela está tão empolgada que soa quase sem fôlego quando suas palavras saem, — Manse, Pyeha! Manse, manse, manmanse!

Não é alto, mas a entoação parece ecoar sem fim no pequeno quarto escuro. Ela ressoa pelo seu peito, e seu coração palpitante nem parece mais ser físico, ele é apenas luz e calor. Porque ele conseguiu, ela conseguiu. Eles conseguiram, eles estão juntos, e é o alvorecer de um novo dia, e eles estão aqui e eles estão juntos.

Ela não sente os segundos de silêncio passando, mas ela sente a mão dele quando ele toca seus ombros, levantando seu tronco delicadamente para que ele possa olhar nos seus olhos. Os olhos de So estão brilhando agora, brilhando ainda mais do que antes quando ela foi declarada sua esposa. Ele está perplexo, completamente chocado. Ele está olhando para ela com um misto de admiração e reverência, e Soo sente lágrimas saindo de seus olhos e eles dois riem.

— O que você andou aprontando? — A bronca não parece uma bronca quando ele sorri daquele jeito.

— Eu só me assegurei que você derramaria o mínimo de sangue o possível. Eu explico depois de você tomar posse do seu lugar. Agora vá, você precisa preparar suas tropas.

Ela se levanta, colocando ele pé junto com ela. Então ela o apressa, o empurrando de leve e o guiando até a porta. Ela está empolgada e o entusiasmo dela contamina ele, e ele se vira e praticamente sai correndo.

Mas antes de ele sair, no entanto, ele para e se vira para ela.

— Espera, e você?

— Eu vou indo na frente, — ela explica, sorrindo para seu marido (Marido! A ficha ainda não caiu direito...) — Eu quero ver quando você chegar.

❊❊❊

Soo chega de volta em Songak com o pôr do sol.

Kim Do Yun ficou irritado quando ela lhe pediu para fazer outra longa viagem em pouco tempo, e sua falta de sono estava começando a refletir no seu humor. Ela se sentiu mal por ele e por seus pobres cavalos, então ela deu ao homem mais algumas peças de prata, e isso bastou para ele ficar mais bem disposto.

— Quer que eu a leve até a residência Hwangbo, senhora? — Ele oferece com um sorriso largo.

— Não, — Soo responde imediatamente, apontando uma direção diferente, — Tem uma área de banhos por ali. Pode me deixar lá?

— Claro, senhora.

O jovem não faz mais perguntas. Ele é esperto o bastante para entender que quanto menos ele souber, melhor para ele. E também, ele está sendo pago por Hae Soo e Choi Ji Mong para não ser intrometido. Então ele simplesmente a leva para onde ela quer ir, e nem parece incomodado quando ela desce em um lugar escuro e deserto. Ele nem olha para trás quando vai embora.

E então ela está sozinha de novo. E, apesar de suas pernas doloridas, ela precisa continuar andando.

À essa altura o céu já está escuro, mas a lua brilha o suficiente para ela encontrar um galho adequado para fazer uma tocha, e seus anos no Damiwon lhe ensinaram como fazer uma chama com uma pedra. Então ela logo tem luz para iluminar seu caminho entre as rochas. Seu caminho entre as águas e as rochas, de volta para o primeiro lugar que ela viu em Goryeo.

Ela sabia que era arriscado tentar entrar no palácio por aquela passagem secreta. Mas ela também sabe que, nos dois anos que viveu no palácio depois de Jeonjong tomá-lo, o túnel nunca foi fechado novamente. Ele provavelmente foi esquecido, então valia a pena tentar. Afinal, a noite seria longa, e ela sabia, desde que deixou o Songak, que as novas medidas de segurança tornariam quase impossível entrar no Cheondeokjeon.

Soo caminha entre as rochas com cuidado. Rápido, porque ela não quer que ninguém a veja; devagar, porque ela não quer escorregar, cair e bater a cabeça de novo.

Lembrar daquele incidente em particular acaba fazendo ela começar a viajar pelas suas memórias. Sua mente lembra da última vez que ela tinha andado por aquele mesmo caminho no meio de uma noite parecida. Suas intenções eram completamente diferentes naquela época. Ela ainda era mais Go Hajin do que Hae Soo, e ela achava que seu mundo estava acabando e que ela tinha chegado no limite. Ela estava com saudade de casa, se sentindo vulnerável e só, desesperada para voltar.

Desesperada o bastante para caminhar por aquelas rochas só com uma lanterna de papel e depois se afogar numa piscina natural.

Ah, foi também naquele dia que eu vi a cicatriz dele pela primeira vez...

Ela chega no topo e começa a focar no presente, antes que sua mente comece a repetir as memórias mais dolorosas. Então ela foca na entrada, no alívio de encontrá-la aberta. Ela se prepara para a possibilidade de Won ou Wook terem deixado alguma armadilha ou soldados lá dentro e anda com passos pesados. Carregando sua pequena tocha, ela caminha devagar, estudando com cuidados as paredes de pedra.

Parece que ninguém mais pisou no lugar desde a última vez que ela veio ali.

Ela também tenta não pensar naquela ocasião.

Depois de garantir que o local é seguro, Soo põe sua tocha de lado, diminuindo um pouco as chamas para que a caverna fique numa penumbra mais agradável. Então ela se deita de lado, sem ligar para a terra que vai manchar suas roupas, esperando tirar um cochilo antes da tempestade atingir o palácio amanhã.

❊❊❊

Ela não dorme nada.

Soo fica só caminhando ao redor da gruta – às vezes se senta, às vezes se deita – mas seus olhos não se fecham nem um instante. E quando ela vê a luz fraca da alvorada vindo do lado de fora, ela decide que já descansou o bastante.

O 4º Príncipe vai chegar hoje a qualquer momento. Ela não pode esperar o seu marido em uma caverna escura. Ela vai estar nos portões e vai assistir ele chegar.

❊❊❊

Depois de trocar de roupa e roubar um lanche da cozinha, Soo corre pelos corredores do palácio. Há um número maior de soldados comparado com quando ela tinha ido embora e as pessoas parecem estar mais tensas. Há um silêncio pesado cercando o palácio, o tipo de silêncio que se instaura depois que alguém morre.

Já tendo esperado isso, Soo toma um trajeto discreto para os portões do palácio. E é assim que ela se esbarra em Yeon Hwa. Literalmente.

A Princesa também estava praticamente correndo, só que de uma direção diferente. As duas mulheres estavam tão focadas que elas só perceberam que não estavam sozinhas quando se chocaram uma contra a outra, tropeçando uns passos para trás com o impacto.

Yeon Hwa estava prestes a se desculpar, Soo nota. Ela provavelmente nem tinha percebido em quem ela tinha se esbarrado, mas ela percebeu antes de curvar sua cabeça. E quando ela percebeu ela fez uma careta.

Ah, esse seria o pior pesadelo de Yeon Hwa: curvar a cabeça para mim!

Soo, nesses breves segundos de confusão, estudou o comportamento da outra mulher, sua mente já calculando por quê ela estava com tanta pressa, por quê ela também estava indo para os portões. E quando Yeon Hwa começa a fazer careta, Soo já entendeu tudo.

— Não se dê ao trabalho de ir para os portões, — Soo ri das ações da mulher, — O dono da casa não precisa de permissão para entrar.

É emocionante para ela dizer essas palavras, mas Yeon Hwa apenas franze o cenho – ou de confusão genuína ou de confusão falsa.

— Você perdeu o juízo? Isso é uma questão de vida ou morte. Agora saia do caminho.

Ela não sai. Pelo contrário, ela dá um passo para mais perto da Princesa, fazendo ela ficar onde está. Então Soo faz uma expressão de confusão (falsa) e fala num tom de voz confuso (e falso).

— Eu realmente achei que você lutaria mais pelo 8º Príncipe. As tropas dele também estão se movendo, não estão?

— Como você é tola, — Yeon Hwa sorri com escárnio e com o semblante inquieto, mas ainda ignorante para o panorama completo, — Às vezes, especialmente em momentos de tensão, nós precisamos fazer alguns sacrifícios para alcançar o bem maior.

— Sacrifícios? Escolha interessante de palavras. Então você mataria o seu irmão pelo seu bem maior?

— Não foi isso o que eu disse. Eu jamais...

— Não? Já esqueceu o que aconteceu três anos atrás?

— Como você ousa?

— Como eu ouso o quê? Dizer a verdade? Te lembrar que você foi a responsável pela morte de Eun-Wangjanim? — Soo enfia um dedo no ombro da mulher, fazendo ela tropeçar para trás mais uma vez, e continua falando em um tom raivoso antes que a Princesa tente retrucar novamente, — Gongjunim, você pensa em si mesma primeiro e depois no seu clã. Você não vai hesitar. Você nunca hesitou.

Incapaz de continuar negando, Yeon Hwa apenas suspira e encara Soo, depois retornando para o modo de autoridade total.

— Saia da frente.

Soo levanta as mãos e dá de ombros. E apesar de sua postura zombadora, ela mantém a mesma expressão séria – quase que raivosa – no rosto.

— Eu estava te fazendo um favor, na verdade. Você sabe, para agradecer pela sua hospitalidade. — Ela se afasta, fazendo um floreio com a mão para indicar o caminho livre, — Mas já que você insiste, vá em frente e se humilhe em público.

Yeon Hwa não se move, seu temperamento explosivo aparentemente calmo depois das palavras de Soo. E Soo sorri, cruzando os braços e se inclinando numa coluna, antes de falar com uma voz condescendente.

— Está curiosa agora? Bem, isso é o que você acha que vai acontecer, — ela começa, sabendo que tem toda a atenção da Princesa apesar da mulher se recusar a olhar para ela, — Você vai reunir um grupo de guardas Hwangbo; você vai fazer uma comoção, vai fazer barulho para que todos vejam o que você está fazendo. Então você vai levar seus homens até os portões, vai anunciar em alta voz que você e o seu clã apoiarão o 4º Príncipe e o ajudarão a tomar o palácio sem violência. Então ele vai ser forçado a uma dívida permanente para você. Quem sabe, você pode acabar se oferecendo para ele mais tarde, não é? Usar esse momento de salvação contra ele para conseguir o que quer. Estou correta?

— Eu não sei do que você está falando.

— Ah, mas é aí que seu plano vai falhar, — Soo continua, sem se incomodar com os joguinhos dela, — Primeiro, ajudá-lo a conquistar o palácio não vai ser o bastante para convencer So-Wangjanim a se casar com você. Nunca. Especialmente se ele detesta você, o que vem a ser o caso. Segundo, não haverá qualquer tipo de violência. — Isso faz Yeon Hwa se virar para ela com uma cara de surpresa e, por causa dessa reação, Soo sorri, — Ao invés disso, no momento que o 4º Príncipe chegar ao pátio, Ji Mong vai sair de algum lugar e anunciar que ele é o próximo Rei, nomeado herdeiro por Decreto Real. Então toda a sua comoção e a sua encenação emocionante serão vistos como exatamente são: uma encenação. Nada mais.

Os punhos de Yeon Hwa cerram, suas unhas cravando na carne e seu rosto ficando vermelho com cada frase que sai da boca de Hae Soo. Ela fumega e seu rosto fica vermelho e vermelho, cada reação para as acusações claras e evidentes na linguagem corporal da Princesa.

E ainda assim, ela persiste em negação.

— Você realmente ficou louca e eu estou perdendo meu tempo conversando com você.

— Então por que não foi embora ainda?

Yeon Hwa não tem resposta. Mas Soo não esperava uma.

Porque a verdade é que ela perdeu. Ela perdeu há muito tempo atrás, e agora é tarde demais para fazer qualquer jogada. Ela só pode assistir o desenrolar do jogo e se agarrar a qualquer entulho flutuante para conseguir sobreviver.

Seu clã inteiro perdeu.

Um som tênue, vindo das torres do Cheondeokjeon ecoa pelo pátio, quebrando o olhar entre as duas mulheres.

— Ah, são os sinos. O Rei deve ter morrido, — Soo diz casualmente, retomando sua caminhada para os portões e já sabendo que Yeon Hwa não fará o mesmo. Mas ainda assim, ela olha por cima do ombro e acrescenta empolgada, — Vamos cumprimentar o novo Rei.

❊❊❊

Ela teve que correr para os portões depois de se separar de Yeon Hwa.

O exército já estava dentro do palácio, e de longe ela viu seu marido elegantemente vestido de preto, seu cabelo preso em rabo-de-cavalo, sua armadura brilhando com o reflexo do sol. E ela ficou assistindo à distância quando Choi Ji Mong proclamou o 4º Príncipe como o próximo rei e uma multidão de pessoas gritou em triunfo.

Ela não foi até ele. Ela queria muito ir, mas tinha muitas pessoas observando a chegada do novo rei, e ela ainda tinha o acordo feito com os Hwangbo afinal. Ela honra seus acordos. Ela não vai divulgar seu divórcio e nem seu novo casamento por enquanto.

Ao invés disso, ela vai até o Astrônomo, que depois de declarar o último edito do falecido Rei, ficou de lado e deixou o legítimo herdeiro tomar posse do que era seu por direito. Soo fica ao lado dele, assistindo os homens entrarem nas muralhas internas do Cheondeokjeon.

— Agora tudo vai ser diferente, — Choi Ji Mong diz sem olhar para ela.

Ele não diz mais nada, não oferece nenhuma outra explicação. E mesmo embora ela compreenda do que ele está falando, ela não tem certeza do quanto ele sabe (sobre o passado, o presente, ou o futuro).

— Não, não vai. Vai ficar tudo bem. — Soo também não olha para ele, ela está focada demais no seu marido. Mas as palavras dela não falham e nem a sua convicção, — Ele tem um decreto oficial do rei antes dele, então a coroação não será conturbada. Ele já tem apoio militar e político, então ele não vai precisar de uma aliança com os Hwangbo para se estabilizar. O 4º Príncipe é o próximo rei, como ele deveria ser. Alguns vão pensar nele como um homem cruel, outros vão espalhar rumores sobre ele, mas ele não vai oscilar, não vai ceder. Eu vou garantir que a história não entre em colapso, Astrônomo, — Soo continua com um sorriso brando, assistindo enquanto So sobe os degraus da longa escadaria, — E minha recompensa vai ser a única coisa que eu sempre quis.

O homem fica em silêncio por um tempo, a multidão grita e aclama seu novo rei novamente. E Soo não consegue captar nada do homem, não consegue entender uma única expressão do seu rosto – é tudo branco e vazio pra ela.

— Pode ter certeza que não vai desistir até o fim?

Eu consigo?

Esses últimos dias foram tão alucinantes e vertiginosos... Eu consigo continuar fazendo isso o resto da minha vida?

Aquilo era algo que ela tinha começado a se perguntar com mais e mais frequência desde que Jeonjong lhe pediu para ser sua espiã. E embora ela tenha provado para ele – e para si mesma – que era eficiente no que fazia, ela poderia viver consigo depois? Depois de mentir para as pessoas, depois de manipular as escolhas delas?

Ela poderia fazer aquilo pelo resto da vida?

— No passado, eu não poderia. Mas agora, eu acho que estou pronta para esse lugar venenoso, — Soo disse com convicção. A resposta já tinha sido encontrada há muito tempo e ela não era de desistir depois de se comprometer com alguma coisa. Já que ela não está satisfeita com a justiça tendenciosa daquele lugar, ela vai se levantar e ser a voz da igualdade e da retidão. Ela vai destruir qualquer um que tente se opor a ela de fazer isso, — Vou garantir que todos aqui se arrependam de usar os outros como ferramentas.

.

.

.

.

que os anjos te mostrem seu amor infinito
como o de uma mãe, não de uma esposa
mas eu não posso, e eu não vou
estou partindo, estou sarando, estou crescendo, estou amando
porque você não vai, e você não pode

Notas finais
Eita, que eu sempre esqueço de postar a música... Enfim. Elogios são aceitos, Críticas são bem vindas, Essas coisas aí e talz...