-Filha? — disse meu pai, atrás de mim, entrando no quarto.

Eu estava olhando pela janela. O sol radiante, as crianças andando de bicicleta e as avós conversando em certo lugar da calçada. Essa é a típica rua sem saída de uma cidade do interior, onde todo mundo se gosta e o único barulho que existe são as risadas. Como eu não iria sentir falta disso?

-Está na hora? — eu me virei, pegando minha mochila estampada, que continha algumas roupas delicadas, que precisavam ficar em uma mala separada.

Ele assentiu com a cabeça e pegou minha mala de rodinhas. As minhas outras coisas já se encontravam no carro, e foi horrível ver o meu quarto – aquele mesmo quarto que me acolheu na noite em que seu saí da maternidade – vazio. Sem meus livros, meus ursinhos, minha bagunça.

Em todo o caminho que percorremos até chegar à porta de entrada, eu fiz questão de memorizar. As fotos, a cor da parede, os móveis de madeira. Eu sabia que, daqui a um ano eu voltaria para cá, e que durante esse período viria visita-los – meu pai e minha madrasta – mas é que... É diferente. É como deixar um pedaço de si para trás.

Ajudei meu pai a colocar as duas malas no porta-malas e me despedi de todo mundo. Fiz questão de abraçar todos, e de prometer mandar notícias através do meu pai.

-Vamos? — disse meu pai, abrindo a porta do carro, para mim entrar.

Naquele momento senti vontade de me agarrar ao poste e fazer birra até o meu pai desistir da ideia de que seria bom pra mim morar com um tempo com a minha mãe.

Mas eu apenas assenti e entrei no carro, com o coração na mão, sentindo vontade de chorar. Pode até parecer drama, mas é que, é difícil aceitar a ideia de passar um longo período com alguém que você definitivamente não se dá bem. Ou largou você e o seu pai para viajar pelo mundo e namorar com caras diferentes.

-Annabeth, não fique triste. Vamos conversar todos os dias, e vamos ir te ver umas três vezes por mês. – disse minha madrasta com sua voz doce. Porque não posso ficar aqui com ela? Considero-a tanto. Ela é a mãe que eu pedi a Deus.

-Promete que vamos nos falar todos os dias? — eu falei, com uma voz chorosa.

-É claro! – disse ela, sorrindo.

Meu pai entrou no carro e nós seguimos viagem. Seria umas seis horas de viajem torturosas, mas que me ajudariam a me acalmar. É claro que eu dormi quase a viajem inteira, mas logo que eu acordei já me sentia melhor.

De acordo com o GPS, faltavam apenas minutos para nós chegarmos ao nosso destino. Via a cidade de New York passar rápido diante dos meus olhos, e percebi que era totalmente diferente daquilo que eu estava acostumada. E isso foi ruim, porque eu não gosto de muvulca, não gosto de cidade grande e muito menos de pessoas metidas.

Ele começou a ir mais devagar quando nós chegamos a uma determinada rua. Ao que passávamos, só conseguia ver casas grandes e bem estruturadas... Casa de pessoas ricas, para ser sincera. Casas com paredes de vidro, jardins com mil tipos de flores, BMW estacionadas na garagem.

Até que paramos em frente a um sobrado, com um ar meio rústico. Eu achei elegante e tudo mais, só que não tive coragem de admitir. Meu pai buzinou e poucos segundos depois uma mulher alta, um pouco bronzeada e de cabelos pretos ondulados apareceu do lado de fora da casa, com um sorriso estampado no rosto.

Meu pai e minha madrasta foram cumprimenta-la, o que foi proposital, porque eu queria adiar aquele reencontro. Não conseguia dizer para mim mesma “essa é a minha mãe.”, o que foi frustrante, principalmente na hora em que ela veio me abraçar e eu não consegui retribuir.

-Olha só para você, Annabeth. Está uma moça! – disse ela, com um sorriso estampado no rosto, me analisando da cabeça aos pés.

Aquela frase me quebrou, porque era desse jeito que pessoas que eu não via há anos – amigos do meu pai, parentes distantes – falavam comigo. Só consegui sorrir, e ficar parada, até que alguma alma boa desviasse do assunto.

-Entrem! Fiz café – ela disse, olhando para meu pai e minha madrasta.

-Ah, não, não podemos ficar. Vamos visitar uma tia minha, que mora aqui perto. Mas agradecemos o convite – disse o meu pai, abrindo o porta-malas.

Eu achei estranho ele não mostrar ter guardado nenhum rancor dela. Mas, de certo modo, percebi que ele não havia feito isso. Ele tinha a Anna e ela era boa o suficiente para curar qualquer coisa.

-Ah, sim, entendo – disse a minha mãe, forçando um sorriso.

Ela e o meu pai foram levar as minhas coisas para a sala da casa da minha mãe, enquanto eu fiquei parada perto do carro com a minha madrasta, fazendo-a prometer que não ia ficar um dia sequer sem me ligar ou mandar uma mensagem, seguido logo de um longo abraço, que só foi interrompido com a chegada do meu pai e de Atena.

Depois de uma longa despedida, eles entraram no carro, me deixando sozinha e desolada. Foi de partir o coração quando eu vi o carro desaparecendo à medida que ele avançava. Mas eu não ia chorar.

-Bem, filha, vamos entrar, está frio aqui! – disse ela, convidativa.

Então eu fui um pouco nervosa e ansiosa. Entrei na casa e percebi que era tão rústica quanto à fachada – coisas de madeira e mil porta-retratos – e senti um arrepio quando vi, na mesa de centro, uma foto minha quando eu tinha uns 5 anos de idade. Eu estava sentada perto de um cachorro vira-lata, com uma tiara na cabeça e um vestido rosa bebê. Como ela tinha essa foto? Ela já tinha nos largado.

-Seu pai me mandou por correspondência, há alguns anos atrás. – ela disse, logo que percebeu.

-Ah.

-Vamos para a sala de jantar – disse ela. – Fiz café e um bolo de chocolate.

Então, depois de ajuda-la a colocar as xícaras na mesa, nós nos sentamos, um pouco desconfortáveis com a situação.

Ela colocou um pouco de bolo em um prato, e estendeu-o para mim.

-Obrigada – eu disse, quase em automático.

-Vejo que o seu pai te deu uma boa educação – ela disse, sorrindo.

Achei o comentário um pouco indelicado, mas, mesmo assim, sorri. Ela não me via há quase 14 anos, como ela podia querer ter qualquer tipo de intimidade comigo?

-Bem, filha, se você quiser eu te ajudo a colocar as suas coisas no lugar. – ela falou, colocando café nas xícaras. – E espero que você não se importe de que nós tenhamos algumas visitas amanhã.

-Tudo bem – eu falei, tomando um pouco de café. – Quem virá?

-Ninguém de importância. Só alguns vizinhos. É que eles estavam ansiosos por conhecer você, e, como tem alguns garotos e garotas da sua idade aqui na rua, achei que seria uma boa ideia. Ao menos que você não queira.

Pelo menos nessa a minha mãe acertou. Estava um pouco triste de viver solitária até que as aulas começassem, daqui a duas semanas.

-Ah, tudo bem. Legal. – tentei parecer animada.

Então se seguiu uma longa e chata conversa chata sobre a escola e as coisas que ela perdeu. Eu só respondia, mas não fazia questão de perguntar nada sobre ela. Por enquanto, não tinha o menor interesse na sua vida.

Depois de mais ou menos uma hora e meia de conversa, nós fomos arrumar minhas coisas. Foi rápido, porque tudo estava dobrado direitinho na mala, e o resto era só colocar nos cabides. Meus livros já tinham um lugar, e amanhã só me restaria arrumar alguns sapatos e brincos.

Coloquei meu pijama – pois estava exausta demais para ter qualquer outro tipo de conversa com a minha mãe. – e deitei-me na cama. Antes dela apagar a luz, ela disse:

-Eu sei que pode ser difícil, no começo. Mas vou tentar ser a sua mãe, tá? Eu prometo.

-Tudo bem... – eu falei, um pouco desconfortável. Eu não tinha o que responder.

-Boa noite, filha.

-Boa noite... Mãe. – eu disse, reunindo todas as forças que eu tinha. Duvidava da hipótese de gostar dela. Mas esperava que ela se esforçasse, só assim ela poderia recuperar a simpatia que ela havia perdido desde... Sempre.