Heroína

26 O silêncio dos culpados, a ignorância dos inocentes


Notas iniciais
Gente eu sei que não parece MAS EU TAMBÉM SOU UMA UNIVERSITÁRIA DESESPERADA NO MEIO DA GRADUAÇÃO Tudo que eu escrevi esse mês foi relatório de iniciação científica eu não aguentava mais que saudade das minhas fanfics Tirando a parte do surto, VAMOS AOS REFRESCOS espero que gostemmm Eu já disse como amo essa história? Eu amo Faltam nove capítulos pra acabar e tem TANTA COISA pra acontecer misericórdia Obrigada por todo o apoio, acompanhamentos e comentários, todo o esforço vale a pena porque eu posso escrever e é maravilhoso ❤

Annie, você está bem?

Você nos dirá que você está bem?

Há um sinal na janela

Ele golpeou você — um estrondo, Annie

Ele entrou em seu apartamento

Ele deixou a mancha de sangue no carpete

Então você correu para o quarto

Você foi golpeada, foi o seu fim

— Smooth Criminal, Michael Jackson

—Capítulo XVI–

O silêncio dos culpados, a ignorância dos inocentes

Naruto tentava se concentrar em uma aula realmente boa de História da Arte Contemporânea. Seus pés balançavam inquietos debaixo da mesa, enquanto ele mordiscava nervosamente a ponta de uma caneta já castigada pelo tempo. Simplesmente não conseguia absorver as palavras do professor, como uma bolha acústica em um universo distante. Puxou o celular do bolso e chegou as notificações – tão frustrante como há trinta segundos atrás. Nada.

O garoto definitivamente não queria fazer o papel de ex – ou atual – maníaco perseguidor, mas Hinata não respondia suas mensagens há mais de vinte e quatro horas, e, àquela altura, faltava muito pouco para ter uma síncope nervosa. As coisas estavam acontecendo muito rápido, e sua mente não conseguia desassociar os recentes acontecimentos com sua necessidade quase obsessiva de cuidar da Hyuuga.

Ele não estava esperando pela gravidez – muito provavelmente a própria garota estava –. A notícia o pegou desprevenido, contudo, o que mais o deixara surpreso fora a atitude da garota de contar. Ela poderia ter escondido – não duvidava que o fizesse, até ter entrado sem bater, naquela tarde –, mas não o fez. Foi sincera, contou sobre seus medos e receios, deixou-se ser vulnerável. Foi naquele instante que Naruto teve a certeza de que aquele bebê teria o pai mais dedicado do mundo. Porque ele não deixaria Hinata; nunca mais. Ficaria ao seu lado, e criaria aquele filho como se fosse seu próprio. Pouco importava o passado da Hyuuga, seus erros ou acertos. Tudo que ele queria era fazê-la feliz, e, se ela tinha lhe dado a oportunidade, a agarraria com todas as suas forças.

Deveria estar se sentindo mais desesperado — mal tinha vinte anos, a vida toda pela frente. Uma criança era uma dependência com contrato vitalício, todos os cuidados, atenção, preparação, gastos financeiros e emocionais. Qualquer garoto sensato da faculdade estaria em surtos; todavia, de alguma maneira, Naruto estava estranhamente calmo. Sua mente divagava para roupinhas de bebê, e, em suas fantasias, ele segurava uma menininho rechonchudo, de cabelos negros e pele alva, como a mãe. E sorria com a cena.

Claro, nada disso seria possível sem Hinata, que não o respondia há um dia.

A inquietação voltou com força total, e Naruto concluiu que não conseguiria ficar nem mais um minuto dentro daquela sala, sentado. Arrumou sua bolsa e saiu pelos cantos, desculpando-se silenciosamente com o professor. Ao ar livre, inspirou fundo, pegando o telefone para mandar mais uma mensagem. Depois, enquanto andava até o estacionamento e procurava pelo contato de Shion para ligar, sentiu o aparelho vibrar com uma ligação.

— Oi, mãe! – saudou, momentaneamente distraído, sorrindo.

— Lembrou que tem pais, filho desnaturado? — a voz de Kushina ralhou em uma meia bronca, meia brincadeira. Naruto fez uma careta para o vento.

— Minha culpa. – admitiu – Desculpa, mãe, as coisas andam corridas por aqui.

— Eu imagino mesmo. — sua aparente raiva durou exatos trinta segundos – Me conta, eu quero saber tudo! Como vai a faculdade? Seus amigos? Está visitando sua pobre avó, como prometeu?

— Está tudo ótimo! – contornou propositalmente a última pergunta, incriminado – O curso é ótimo, o pessoal continua o mesmo. Está tudo indo muito bem. – recostou no carro.

— E como está a Hinata? — Naruto sorriu com essa. Da última vez, seu coração tinha apertado, e ele teve de admitir que ela já estava em outra.

— Melhor impossível.

— Então vocês estão juntos? — sua mãe não deixava nada passar; que mulher incrível ela era.

— Acho que sim. Estamos nos resolvendo. – como se não pudesse sentir o sorriso dele através de sua voz. Quando falou, sua mãe também parecia verdadeiramente feliz:

— Finalmente um pouco de paz para sua velha mãe. Naruto, não deixe aquela garota escapar de novo. Você não vai encontrar outra igual.

— Pode deixar, mãe. Eu não vou. – prometeu, determinado – Mas por que só estamos falando da minha vida? Como está você e o papai? – perguntou, subitamente com saudade.

— Está indo de vento em popa, meu filho! Também está morrendo de saudade de você. A galeria foi um sucesso aqui em Londres, vamos embarcar para a Grécia semana que vem. Você sabe que pode vir conosco a hora que quiser, não sabe?

— Eu sei, mãe. Mas eu tenho a minha vida aqui, a faculdade, meus amigos. Curtam a lua-de-mel em paz, eu juro que estou bem sozinho. – Naruto não atrapalharia o merecido descanso dos pais, nem mesmo se quisesse; estava atado à Konoha como nunca antes – Não se preocupem.

— Ligue mais vezes para sua pobre mãe. — dramatizou, e o Uzumaki riu. Kushina aparentemente não se importava com tarifas internacionais de ligação abusivas.

— Eu vou. Amo vocês.

— Amo você, querido. Tome cuidado.

Quando desligou, sentia-se mais leve. Lembrou-se dos pais exemplares que tinha, e como os amava com sua própria vida; será que ele conseguiria ser um bom pai também?

Lutou para não se render novamente aos devaneios, e ligou para Shion em seguida, novamente preocupado. Ela atendeu no segundo toque, aparentemente também esperando por algum contato.

— Naruto? — sua voz não era das melhores, causando arrepios indesejáveis em sua espinha.

— Oi, Shion. Você tem notícias da Hina? – dispensou formalidades – Ela não me responde há bastante tempo. – ouviu a respiração hesitar.

— Você pode vir aqui?

— Chego em cinco minutos. – retrucou, sério.

Desligou e deu a partido no carro em tempo recorde. Dirigiu de um jeito que sua mãe recriminaria e lhe renderia algumas multas, mas não se importou. Shion parecia ansiosa no telefone, e ele sabia que ela não ficava ansiosa. As garotas eram melhores amigas – mais que isso, como uma irmandade secreta e sagrada –, então, se alguma coisa tivesse acontecido, a loira saberia. O mero pensamento fez Naruto estremecer.

Cruzou a cidade, parando impacientemente nos semáforos. Olhou para a biblioteca municipal, lembrando-se da primeira vez que ele e Hinata se reencontraram – quando ele a avistou e a viu, tão diferente. Quantas coisas tinham mudado em tão pouco tempo. Atravessou a rodovia e seguiu até a casa insolitamente deslocada entre os prédios comerciais. Estacionou e não se deu ao trabalho de ativar o alarme, entrando em dois passos.

Lá dentro, adaptou os olhos para a luminosidade, e fechou a porta atrás de si. Shion estava de pé, no centro da pequena sala de estar, andando em círculos como se fosse abrir um buraco no chão. Seu celular estava firme entre os nós brancos dos dedos, e Naruto soube, imediatamente, que algo não estava certo.

— O que houve? – sua voz arranhou a garganta. Ela o fitou com as sobrancelhas estoicamente frisadas, os lábios crispados e as roupas amassadas, sem ter se dado ao trabalho de trocá-las.

— Acho que alguma coisa aconteceu com Hinata.

Naruto teve de lutar muito para permanecer impassível, ainda que seu estômago tenha dado um nó, e o chão tenha desaparecido de seus pés.

— Ela foi ontem para Komu, sozinha, buscar o resultados dos exames da clínica. – explicou rapidamente, gesticulando enquanto se sentava na poltrona, as pernas tremendo.

— Como assim, por que ela foi sozinha? – foi seu primeiro questionamento. Naruto sabia que Shion jamais deixaria Hinata ir desacompanhada, ainda mais naquelas condições. Ela teria ligado para ele levá-las, como na semana anterior.

— Eu sei, mas ela insistiu em ir de ônibus. – mordeu o lábio, como se ponderasse dizer algo ou não – Ela queria fazer uma surpresa. – soltou, por fim. O loiro se aproximou, confuso, ainda em pé – Sobre o resultado. Ia mostrar quando chegasse. Ela me ligou quando estava saindo da clínica, e parecia feliz. Me disse que estava grávida de quase três semanas.

Naruto não entendeu o que aquela informação tinha a ver com qualquer coisa. Precisou deixar que sua mente processasse por vinte segundos, enquanto Shion o encarava com um olhar significativo – foi só então que seu rosto se iluminou, a boca entreaberta e os olhos arregalados.

Hinata estava grávida de três semanas – não seis, ou oito. De maneira que ela não estava grávida de Kiba, porque estavam separados há mais tempo que isso. Ela estava grávida dele. Era seu filho. Quando finalmente alcançou a verdade, sua cabeça fez contas rapidamente, repassando o dia da festa, a noite que passaram juntos – e o dia seguinte –, há quanto tempo estavam juntos. A contagem fazia sentido.

Por isso a surpresa – porque ela insistiu em fazer um teste mais preciso em uma clínica na cidade vizinha. Porque quis buscá-lo sozinha, e porque estava tão ansiosa. O Uzumaki precisou sentar, apoiando a cabeça entre as pernas enquanto era invadido por um sentimento translúcido e maravilhoso. Tudo estava brilhando. Estava certo quanto a sua decisão de permanecer ao lado de Hinata independente de tudo, e criar aquela criança como sua – mas, agora, sabia que era realmente sua. Seu bebê. Seu bebê com Hinata.

A Hyuuga sequer levantou a possibilidade, quando conversaram, todavia, imaginou que ela suspeitava. Sequer era capaz de idealizar o tamanho da aflição que ela sentiu ao descobrir a gravidez, e a possibilidade de estar gerando um filho do Inuzuka – tampouco, poderia presumir o alívio ao descobrir que não era ele o progenitor. Naruto estava em posição de assumir-se em boa cota com Hinata, pelas últimas semanas. Sabia que ela também tinha ficado feliz, como Shion confirmou.

Ao lembrar-se da loira, Naruto voltou seus olhos para ela, emocionado. No entanto, tudo que encontrou foi uma feição angustiada, e, como um balde de água fria, ele retornou para a realidade. Hinata tinha ligado para Shion assim que saiu da clínica, mas, aparentemente, não tinha voltado ainda.

— Ela disse que já estava saindo? – confirmou, a voz rouca de emoção.

— Sim. – a loira confirmou com um murmúrio – Disse que ia pegar o próximo ônibus de volta. Era para ser o das nove horas, e, quando ela não chegou, imaginei que tinha perdido e esperado pelo próximo, só na hora do almoço. Nada. Esperei o dia todo, e, a noite, tentei mandar mensagem e ligar. Tocou até cair na caixa postal. Hoje eu devo ter ligado umas cinquenta vezes. – seus dedos apertaram o aparelho como se quisesse quebrá-lo, culpando-o pela falta de resposta. Naruto massageou as têmporas, a respiração pesada. Pensamentos obscuros o impediam de ver a situação com imparcialidade, temendo o pior.

— O que pode ter acontecido? – uniu as próprias mãos, suando, embora o tempo estivesse fresco.

— Eu já pensei em todas as possibilidades. – Shion parecia frustrada – Hinata não deixaria de dar uma resposta, um aviso. Estava a ponto de ir eu mesma para Komu, quando você ligou. – parou, fechando os olhos, subitamente muito cansada. Quando os abriu, Naruto viu neles o reflexo de uma agonia quase palpável – Estou com medo de... – hesitou.

— De? – esperou.

— De Kiba ter feito algo com ela.

A simples menção do nome do canalha fez os cabelos da nuca de Naruto eriçarem. seus punhos se fecharam, enquanto imaginava o miserável a espreita, ameaçando Hinata. Tentou controlar a raiva e pensar racionalmente, analisando quais as possibilidades.

— Komu é grande, é movimentada. Acha mesmo que ele tentaria alguma coisa no meio do dia? Ainda mais depois de tanto tempo? – as perguntas eram como ar tóxico, rondando-os. Shion mordeu o lábio, assentindo.

— Você não conhece o cretino como nós. – disse, com asco – Ele estava muito quieto, muito sumido. Kiba jamais teria aceito o término ‘numa boa, desse jeito. Hinata estava com medo dele aprontar alguma coisa, e eu também. Podemos esperar tudo daquele psicopata.

— Já faz mais de vinte e quatro horas, vamos dar queixa na polícia! Avisar sobre ele, conseguir um mandado de busca! – exclamou, ávido. Shion, por outro lado, mal balançou a cabeça.

— Nós já tentamos isso antes. – soltou uma risada sem humor – A família de Kiba é influente demais, conhecida demais. A polícia é só mais uma das suas cadelinhas. Prisões por agressão, porte de armas, tráfico, violência. Uma grande pasta de nadas. – o loiro grunhiu, a ira crescendo. Imaginar aquele doente com as mãos em Hinata o deixava enjoado, e o medo crescente sucessivo o cegava.

— O que vamos fazer? – rosnou, entredentes. Simplesmente não podia ficar parado, não enquanto sentia a aflição, o ódio e o temor paralisarem seu corpo. Tinha que ir atrás de Hinata, tê-la de volta em seus braços, segura.

— Vamos no antigo apartamento deles. – Shion se levantou, já procurando por sua bolsa – É o lugar mais óbvio. Se ele tiver planejando algo, encontraremos lá.

Naruto a imitou, pondo-se de pé e a acompanhando até a porta. A loira parou, subitamente, e virou para trás. Seus olhos estavam mais suaves, ainda que sua postura continuasse elegantemente rígida.

— Nós vamos encontrá-la. – a firmeza de suas palavras deu ao Uzumaki mais confiança. Ele assentiu, colocando a mão em seus ombros e a guiando até o carro.

Hinata piscou duas vezes, não tendo certeza se acordava de um sonho ou de um longo cochilo. Sua cabeça pendeu para frente, a sonolência perturbando seus sentidos. A escuridão atípica dificultou identificar seu redor, e, por um momento, pensou que tinha dormido no sofá, porque seu pescoço estava dolorido. Seus pensamentos confusos, pouco a pouco, foram entrando em sintonia, quando percebeu que suas mãos estavam atadas atrás das costas.

Despertou, alerta.

Mexeu as mãos, puxando-as, e sentiu um estalo incômodo nos punhos amarrados firmemente atrás de uma viga de metal. Com o desespero surgindo de dentro de seu peito, uma exclamação de socorro morreu no fim de sua garganta; sacudiu os braços, puxando-os para cima e para baixo, como quem precisa ter certeza do real. Quando sua consciência finalmente entendeu que estava amarrada, olhou para o redor, tentando localizar-se. Não se lembrava de nada, tendo apenas uma dor de cabeça desconfortável e uma dormência nos braços como recordação.

Uma parca luz entrava na janela gradeada no alto da parede que estava à sua frente. Uma única porta, pequena o suficiente para se passar apenas agachando, era a única forma de entrar e sair no que parecia um cubículo, uma cela malcheirosa, com poças úmidas e fétidas do que Hinata suspeitava ser urina. Não fazia ideia de que horas seriam, porque a luz do sol não a alcançava. Tentou espreguiçar as costas, sentindo a frieza do aço contra sua pele. Estava sentada sobre o chão, baixo, de maneira que seus membros todos reclamavam de cãibra.

Procurando não deixar a ansiedade cegar sua racionalidade, buscou na memória tudo de que se lembrava antes do apagão. Tinha ido à Komu, na clínica de exames, buscar o resultado do teste. Subitamente, sentiu vontade de cobrir a barriga com as mãos. Seu bebê, seu bebê com Naruto – precisava protegê-lo. Ligou para Shion, em felicidade plena – por um pequeno período de tempo, ela não pensou no compromisso, na dificuldade e nos problemas; tudo que importava era a imagem perfeita de uma criança dos olhos tão azuis quanto os dele –, e depois andou até o ponto de ônibus, para voltar à Konoha. Em seguida, o nada.

O que tinha acontecido? Como foi parar ali? Por que suas mãos estavam amarradas, e sua cabeça doía como uma pancada? As perguntas a deixavam aflita, mais até que o próprio desconhecimento. Respirou fundo, alongando os ombros e tentando mudar de posição. Por muito pouco não conseguiu ficar de pé, desistindo quando as amarras cortando seus pulsos. Seus olhos marejaram e ela engoliu em seco.

A realidade visível não lhe dava nenhuma pista, mas Hinata tinha medo de confiar em sua própria intuição – seu coração estava apertado, gritando um único nome, capaz de explicar a insanidade daquela situação. Ele, e apenas ele, seria perigosamente perturbado o suficiente para armar aquele circo – uma pitada de dramaticidade e loucura a gosto –.

Como se o destino respondesse seus questionamentos e temores, a porta rangeu. Hinata se encolheu – como se, de alguma maneira, pudesse se esconder – e esperou a figura aprumar a própria postura. Seus olhos capturaram o rosto tão rápido quanto sempre fizera, aqueles traços finos e harmoniosos escondendo a verdadeira máscara de crueldade; um anjo demoníaco.

— Que bom que acordou.

Ele se aproximou com os dedos ocupados, limpando algo que ela não identificou. Parou de modo que pudesse ver seu semblante sem forçar o pescoço, e estava calmo. O cabelo continuava impecavelmente bagunçado, crescendo até a nuca, com mechas para todos os lados, cobrindo o castanho claro e amendoado de seus olhos frios. A camiseta social tinha as mangas dobradas até os cotovelos, com sapatos encerados e calças justas – como se tivesse acabado de sair de uma social com o pessoal do trabalho e ido direto para encontrá-la, casualmente no fim de tarde.

Aquela visão – exatamente aquela, naquela posição, naqueles detalhes – definiam o inferno pessoal de Hinata.

— Kiba, o que- o que está acontecendo? – sacudiu as mãos novamente, fazendo barulho contra o metal – Por que está aqui? Por que eu estou aqui? – seu tom de voz subiu, beirando a histeria.

— Calma, calma, gatinha. – brandou, com a voz de seda. Agachou-se, nivelando a altura de seus olhos e acariciando sua bochecha com o indicador. Hinata virou o rosto, para longe do toque, o que, de alguma maneira, pareceu diverti-lo – Achei que precisávamos passar um tempo de qualidade juntos.

— Me tira daqui. – vociferou, o cabelo escorrendo para frente dos olhos. Kiba afastou os fios, alocando-os atrás da orelha e causando arrepios desagradáveis em sua pele.

— Por que a pressa, amor? – soprou, e seu hálito tinha cheiro de bebida.

Hinata não respondeu, e o Inuzuka se levantou, voltando a andar de um lado a outro, analisando as próprias unhas. A garota conhecia-o bem – embora não lembrasse, desconfiava que ele estava por trás do apagão repentino de suas lembranças. Estava assustada, mas também com raiva. Kiba jamais a deixaria em paz para seguir sua vida. Culpou-se, ainda mais, por, um dia, ter acreditado nas mentiras que ele lhe disse; não passava de um psicopata manipulador e maníaco, um garoto mimado com muito poder nas mãos.

— Você vai se arrepender disso, Kiba. – seu senso de sobrevivência implorava para que ela ficasse quieta, mas seu instinto natural de rebeldia não conseguia se conter.

— Ora, Hinatinha, que lisonjeiro. – zombou, sorrindo um riso enviesado. Parou de andar – Sabe, é exatamente isso que me atrai em você. Esse espírito, essa fúria. Você não se deixa domar, e é o que torna tudo tão... – lambeu os lábios – desafiador. – Hinata quis xingá-lo de todos os nomes que conhecia, mas comprimiu as palavras, na defensiva – Mas acho que eu te dei liberdade demais, e precisava de um pequeno lembrete. – sua voz era um sussurro agora, e ele estava perto, ainda de pé – Você é minha.

— Eu não sou de ninguém! – gritou, sem pensar – Muito menos sua! Miserável, cretino, ME TIRA DAQUI!

Kiba riu, ignorando seus gritos e ofensas. Estava absolutamente deleitado, como quem assiste seu programa preferido de humor, descansando com os pés para cima. Seus ombros estavam cada vez mais relaxados, a medida que Hinata se enfurecia cada vez mais.

— Sabe, Hina, eu sempre te amei. – divagou, mais para si mesmo. Foi até o fundo da sala e pegou uma cadeira dobrável de metal, que rangeu quando ele a abriu e se sentou, defronte à Hyuuga – Desde criança. Quando eu te via na sua casa, correndo, brincando... eu sabia que você seria minha algum dia. – cruzou as pernas, em pose nostálgica – Mas eu tive que ter muita paciência. Se não te amasse tanto, não teria conseguido esperar todos esses anos. Não teria sido capaz de pegar você para mim depois daquele cara ter te usado. – o nome escorregou por sua língua como um sibilo – Mas eu consegui. Porque eu te amo.

— Você não me ama. Não ama ninguém. Você é um monstro sem coração. – replicou, surpreendentemente calma. Kiba riu, sem humor.

— Ah, não. Está enganada. Eu amo você, gatinha. Sempre amei. Mesmo quando você foi uma garota má. – baixou o timbre, que continuou ressoando pelas paredes de aço – Eu amei você, mas meu amor nunca foi suficiente. Você nunca me amou de volta.

— Eu amei sim! – Hinata não conseguiu disfarçar a aflição em sua voz – Eu te amei, Kiba, mas você destruiu isso, assim como me destruiu! – seus olhos arderam, mas ela não piscou.

— Você continuava apaixonada por aquele cara. – seguiu com o monólogo sem ligar para as interrupções dela – Mesmo quando ele foi embora, mesmo quando ele te deixou. Você continuou apaixonada. Eu fiz de tudo. Fiquei do seu lado, te apoiei. Conquistei seus pais, sua irmã. – a garota estremeceu – Fiz tudo nos conformes. Foi difícil moldar você, mas eu consegui. – sorriu, vitorioso – Claro, foi um descuido menosprezar o Uzumaki, quando ele voltou, e aquela cadela loira.

— Não ouse falar mal dela. – rosnou, debatendo-se e machucando os pulsos amarrados.

— Ah, eu me esqueci. A fera que defende com unhas e dentes aquela prostitutazinha barata. – afiou a fala, inclinando-se na cadeira – Quem diria que uns tapinhas deixariam vocês tão próximas? – recostou novamente, cruzando os braços divertidamente – Um contratempo infeliz, admito, mas nada que eu não pudesse contornar. E justo quando eu estava prestes a agir, veio a cereja do bolo. – parou, movendo o olhar para baixo. Hinata desesperou-se – Grávida. Que ironia deliciosa! – contornou o lábio inferior, umedecendo-o, enquanto a garota tremia dos pés a cabeça.

— Me deixa em paz, Kiba. – gemeu, implorando – Me deixa sair daqui.

— Eu gostaria muito, amor, mas acontece que eu não posso. – deu de ombros – Você foi uma namorada muito má, egoísta. Partiu meu coração. – dramatizou – E, agora, precisa aprender uma lição. Precisa se lembrar de que nós estamos juntos nessa. – a calma com que ele falava a deixava mais agoniada.

— Eles vão sentir minha falta! – apelou, quase gritando – Vão vir atrás de você, vão trazer a polícia! – ameaçou, sem surtir efeito.

— Amor, amor... – suspirou, levantando-se e afastando a cadeira – Até lá, vai ser tarde demais.

— Tarde demais? O que isso significa? – respondeu de imediato, quando ele virou as costas.

Foi muito rápido. Com impulso, Kiba ergueu a perna direita, girando-a em direção ao rosto dela. O impacto foi preciso – com força e precisão louváveis. ela não teve tempo sequer de processar o que estava acontecendo antes da dor aguda atingi-la. O estalo foi ruidoso, e a velocidade com que sua cabeça virou para o lado provavelmente era o bastante para fazê-la deslocar o pescoço. Hinata ofegou, subitamente sem ar, e sentiu imediatamente o gosto do sangue; deve ter mordido a bochecha, ou quebrado um dente.

Foi um golpe impiedoso. Depois de três segundos, a dor tornou-se insuportável, queimando lentamente todo o lado esquerdo de seu rosto. Seu maxilar formigava, e as lágrimas que tanto lutou para guardar vieram a tona. O inchaço não demoraria a aparecer. Com as mãos atadas, tudo que pôde fazer foi manter o rosto para baixo, tentando se proteger, humilhantemente, com a cortina de cabelo que escorreu para frente. Não queria erguer os olhos e enxergar o sorriso doentio de Kiba. Não queria abrir os olhos – as coisas ficariam mais fáceis se ela conseguisse se convencer de que tudo não passava de um sonho.

Ela sentiu a movimentação, quando Kiba voltou a agachar e agarrou seu rosto com as mãos hostis. Hinata gritou de dor, mas isso não o impediu. Afastou grosseiramente o cabelo, fazendo com que ela o encarasse, independentemente se quisesse. Seus olhos eram profundos e de uma maldade pura. Era cruel, frio e desalmado. Se prestasse atenção para além dos traços sérios e hostis, veria um rosto realmente bonito – talvez aquela tenha sido sua sina.

— Você vai se arrepender, querida. – um filete de sangue escorreu. Uma lágrima grossa e quente escorreu – Vai desejar nunca ter nascido. – cuspiu, empurrando sua cabeça para trás e a fazendo bater contra a viga de metal a qual estava amarrada. Ela gemeu dolorosamente, deixando-se pender para frente.

Antes de ficar inconsciente, pôde ver Kiba saindo pela pequena porta e fechando-a com um estrondo. Em uma miragem nublada, ela implorou ajuda para o garoto loiro de olhos azuis – ele a fitava complacente, pronto para protegê-la de tudo. Hinata queria que Naruto a protegesse de tudo. Queria vê-lo, queria sentir seu perfume e ter a certeza de que as coisas ficariam bem. O super-herói que salvava a mocinha em perigo do vilão perigoso. Era assim que deveria ser.

Com um último pensamento lúcido, perguntou-se, com um quê de humor distraído, se era possível o filme terminar com o vilão matando a mocinha.