Heroína

27 O amor vai destruir você, querida


Notas iniciais
SIM EU VOLTEI DE VERDADE Geeeeeeente, que semestre insano foi esse??? Bem que diziam que o terceiro ano era o pior de todos, mas UFA Agora vem TCC ♥ Mas enfim, ninguém quer saber das minhas desculpas esfarrapadas né? Como estamos passando por aqui? Esse capítulo me deu trabalho, tanto pela profundidade do assunto, quanto para desenvolver ele. É bem pesado, confesso. Essa música foi a única que consegui imaginar escrevendo o capítulo, mas, se conhecerem outras, me mandem! Na contagem regressiva para o último capítulo!!!! Depois de tanto tempo, não estou pronta para me despedir dessa história, mas estou ansiosa para que saibam tudo que tenho preparado!! Estou de férias da faculdade e logo logo entro de férias do trabalho, então espero atualizar todas e postar mais ficzinhas ♥ Espero comentários e suas impressões! Obrigada por me acompanharem nessa jornada até aqui ♥ AVISO: Violência.

Ele costumava me chamar de Veneno

Como se eu fosse Hera Venenosa

Eu poderia ter morrido ali mesmo

Porque ele estava bem ao meu lado

Jim me levantou

Ele me machucou mas pareceu amor verdadeiro

Jim me ensinou que

Amá-lo nunca seria suficiente

— Ultraviolence, Lana Del Rey

—Capítulo XVII–

O amor vai destruir você, querida

Hinata sentiu que desmaiou e acordou várias vezes. Sem iluminação ou qualquer coisa que pudesse indicar a passagem do tempo, não saberia dizer que horas seriam, ou em que momento do dia se encontrava – sentia que a madrugada já havia chego, mas não tinha certeza.

Muitas coisas aconteceram naquele pequeno período, mas nem todas assegurariam seu pleno estado de lucidez. Era como se transitasse ininterruptamente entre a fantasia e a realidade; um mundo de ilusões e o mundo real. Àquela altura do campeonato, sequer saberia identificá-los corretamente. Enebriada, circulava entre ambas as impressões, perguntando-se, em alguma parte perdida de sua mente, se não seria uma maneira de distrair-se da própria dor excruciante que agora sentia.

Seu rosto inchou, como previu que aconteceria. Já não enxergava com o olho direito, enquanto o esquerdo abria-se em uma pequena fenda, que a permitia ver apenas alguns metros a frente. A pele repuxava em torno dos hematomas em seu rosto, a têmpora e o maxilar inchados, e a dor de cabeça insuportável e a sensação úmida em seu couro cabeludo indicavam um possível corte. Seus pulsos estavam doloridos, provavelmente já começando a descamar em torno das cordas que a prendiam. Era difícil respirar, ou mexer mais que alguns milímetros do pescoço. Não sabia há quanto tempo estava sem comer, mas, se pudesse sentir fome, certamente o faria – seu estômago estava embrulhado com uma constante vontade de vomitar.

Se pudesse fazer uma média dos pensamentos que passaram por sua cabeça – fossem eles lúcidos ou em forma de devaneios –, grande parte deles se voltaria para o pequeno bebê em sua barriga. Aquele minúsculo ser se formando, indefeso, dependente. Hinata queria protegê-lo com todas suas forças, embora soubesse que ele não teria sequer centímetros de tamanho. Um amontoado de células se desenvolvendo, mas que, de alguma maneira, já eram capazes de estabelecer em si um sentimento tão fugaz de amparo, zelo e devoção.

Nos momentos em que sentia-se acordada, alerta, preocupava-se unicamente com o bebê. Tentou soltar-se, sem sucesso, das amarras, ou, ao menos, melhorar a posição em que estava sentada. Quando se mexeu, cada músculo, célula e membro queimou impiedosamente, seus olhos queimando por lágrimas que não era capaz de chorar. Sabia que precisava se alimentar, ainda que não sentisse fome. Tinha que lutar por ela, e também por seu filho.

Quando desfalecia, em meio a sonhos e pesadelos, era, na maioria das vezes, os olhos topázio e os fios muito loiros que preenchiam sua mente. Sonhava com Naruto, por vezes bom, por vezes mau. Sonhava tentar alcançá-lo, mas, sempre que chegava perto, ele corria mais para longe. Seus dedos esbarravam na pele quente, sem conseguir tocá-lo verdadeiramente. Era nesse momento que despertava, aflita. Com sorte, tinha vislumbres bons, e, se conseguisse se concentrar, podia sentir seu perfume, seu toque sobre ela, abraçando-a – abraçando sua barriga, com o olhar afetuoso.

Hinata estava com medo. Sua cabeça era traiçoeira, e, por mais que tivesse sonhos bonitos ou lembranças acalentadoras, aquilo não mudava sua situação. Estava à mercê de Kiba, e não sabia o que ele planejava para ela. Não sabia se sairia viva daquele lugar.

O Inuzuka não retornara desde a última vez que estivera ali – isso não a impedia de tremer toda vez que o vento sacolejava a estrutura de metal. Preferia morrer de fome, abandonada naquele lugar fétido e gelado, a ter de vê-lo novamente. Não temia os tapas, os socos e os chutes – a dor física não se comparava nada com a agonia de seus próprios temores. As palavras ácidas, o sorriso vil. Kiba era seu maior pesadelo, seu inferno, seu demônio. Se tivesse de apanhar, não ligaria se o fizesse vendada, e jamais precisasse encarar aqueles olhos desumanos de novo.

Tinham vivido juntos por quase três anos. Hinata sabia quando ele estava irritado – e, por Deus, ele estava muito irritado. Quando Kiba era violento, ela conseguia identificar duas situações distintas, e as dividia, basicamente, entre segura e perigosa. Se ele gritava, quebrava coisas, socava a parede, desfiava palavrões – incrivelmente, era seguro. Não passava de um acesso de raiva, um momento de birra. Depois de extravasar, Hinata sabia que ele dormiria como uma pedra e, no dia seguinte, agiria como um mártir arrependido.

Agora, se ela ficava calmo, era perigoso. Não gritava, não jogava coisas contra a parede. Permanecia tranquilo, falando baixo, a voz gutural e comedida. Unia seus dedos e os apertava, sorria mostrando os dentes. Era desse Kiba que Hinata tinha medo. Ele era cruel, despreocupado e disposto a enfrentar as últimas consequências. Não havia uma lembrança sequer que a Hyuuga conseguisse esquecer – todas as palavras frias, as acusações, as verdades dolorosas, a manipulação emocional. Mesmo agora, amarrada, exposta, Hinata ainda conseguiria sentir resquícios de uma culpa que ele a fazia sentir.

Deveria ter esperado por aquilo. Kiba jamais teria aceito tão facilmente a separação. Nenhuma ameaça, nenhuma confusão – muito tranquilo. Ela deveria ter previsto, ter se preparado. Ter ficado alerta. Foi ingênua, estúpida. Shion a teria dito para não confiar na própria sombra – ah, Shion. Lembrar-se da amiga a deixou ainda mais preocupada. A última memória que tinha antes de apagar – possivelmente antes de Kiba a drogar com alguma substância poderosa em uma seringa que ele afanou do estoque ilimitado e conveniente dos pais – era ter ligado para Shion, lhe contado sobre a gravidez, o filho de Naruto que estava carregando. Ela tinha ficado tão feliz por ela. Mesmo com todas as adversidades, Shion sempre ficou ao seu lado, e, agora, ela estaria desesperada procurando por ela, e Hinata queria que ela não se metesse no caminho do Inuzuka, para não acabar ferida também.

Naruto provavelmente estaria com ela naquele momento. Os dois tão preocupados, sensíveis como eram. Quase riu, sozinha. Talvez estivesse começando a delirar. Quanto tempo tinha se passado, agora.

Com os pensamentos navegando entre Kiba, Shion, Naruto e o pequeno bebê em seu ventre, estava prestes a dormir novamente, quando ouviu um barulho alto. Despertou imediatamente, alerta. Piscou repetidas vezes. Era diferente das outras vezes em que delirou sobre os sons. Era alto e enferrujado.

Não estava errada. Trancas pareciam estar sendo abertas, e a pequena porta de metal a sua frente foi arrastada copiosamente, como um filme de terror. Dela, agachado, surgiu Kiba, com o rosto pacífico – e terrivelmente assustador. Hinata se encolheu mais ainda, se fosse possível. Ele entrou com toda pompa e circunstância as quais era permitido, usando um novo conjunto de roupas sociais que, de alguma maneira, tornavam seu torso ainda mais inchado.

Ele se aproximou, sem dizer nada. Buscou a mesma cadeira do dia anterior – dia? – e abriu, rangendo, para que se sentasse, dessa vez de frente, cruzando as pernas e exibindo um belo par de sapatos lustrados. Tudo em sua aparência gritava luxo e superioridade, desde as mangas dobradas até o cinto em sua calça.

— Me deixa ir, Kiba. – implorou, baixinho. Enquanto pudesse, imploraria para que ele, por alguma espécie de milagre, a deixasse livre.

— Te deixar ir? Por que eu faria isso? – retrucou, apoiando a cabeça em uma das mãos. Hinata não conseguia ver totalmente seus olhos, alguns fios escapando para frente da sua visão, já debilitada. Sentia todo o corpo tremendo – Não, não, não posso te deixar ir.

Ele deu uma pausa, como se saboreasse o silêncio coberto de medo. Umedeceu os lábios, puxando algo dos bolsos e rodando entre os dedos. Hinata não pôde identificar o que era, mas pareciam caixinhas – parte dela se perguntou se tinham tamanho suficiente para esconderem uma arma, e se ela preferia que houvesse uma arma.

— Infelizmente, Hinata, nós temos contas a prestar. – voltou a falar, a voz aveludada. Mesmo com a portinhola entreaberta, nenhum feixe de luz entrava no pequeno cômodo, além do que os vitros antigos e emperrados acima permitiam.

— Por favor, Kiba. – choramingou, piscando com força – Por favor, eu não fiz nada para você!

— Não fez nada? – repetiu – Oh, não. Você fez sim, Hinata. É por isso que estamos aqui agora. Você fez algo muito, muito errado. – falava como um professor que corrigia o aluno do maternal. A Hyuuga estremecia a cada palavra.

— Por favor, Kiba. – sussurrou novamente, sem conseguir entender onde tudo aquilo levaria.

— Por mais que eu ame te ouvir implorar, – comentou, quase em êxtase – não posso te libertar antes de nós consertarmos nossa situação. Veja, querida, você me machucou muito. – seu rosto se converteu em uma careta magoada – Magoou meus sentimentos, alguém que só queria seu bem. E, mais que isso, você manchou minha reputação. – sua voz se tornou mais sombria.

— S-Sua reputação? Kiba, por favor, e-eu nunca fiz isso! – tentou argumentar, suplicante.

— Nunca fez? Meu amor, você fez sim. – nesse momento, Kiba se inclinou para ela, afastando suavemente os fios sobressalentes com a ponta dos dedos. Quando tocou sua testa, com a pele fria, Hinata estremeceu furiosamente, procurando não encará-lo nos olhos. Não obteve sucesso, pois o Inuzuka fez questão de mover seu queixo na direção de seu olhar – Como acha que eu fiquei quando você terminou comigo? Quando me enfrentou e me trocou por ele? – a cada palavra frisada, um sibilar diferente. Seu rosto parecia pleno, mas o aperto em sua mandíbula era excruciante.

— E-Eu sinto muito. – gaguejou, a voz falhando.

— Ah, eu imagino que sinta. – afastou o aperto, dando dois tapinhas em sua bochecha – Mas agora é tarde demais, Hinatinha. Você precisa pagar pela humilhação que me fez passar. Por ter atingido minha moral, minha honra. Eu não vou deixar que você suje minha imagem para as outras pessoas. Com que cara eu ficaria? Eu não seria mais respeitado, pense só. – o discurso continuava com o mesmo tom indignado, quase teatral. Hinata puxou os pulsos, na intenção desesperada de se soltar e sair correndo para longe dele.

— Me deixe ir embora, por favor. – continuou se debatendo – Eu prometo que saio da cidade! Você nunca mais vai me ver! – tentou negociar, em uma última tentativa insana. Kiba riu baixo, quase comicamente.

— Não, isso não bastaria. Eu aprecio sua disposição, meu amor, mas a situação já foi longe demais. Não se trata mais só sobre você e ele. – levantou-se, apoiando o peso em um dos joelhos e estendendo o braço em direção à barriga dela.

— NÃO ME TOQUE! – gritou, tentando, sem a menor chance, não deixar ser tocada por aquelas mãos. Kiba, achando graça, acariciou seu abdômen.

— Como se não bastasse a traição, você ainda está esperando um filho dele. Hinata, Hinata. – suspirou, ficando de pé, coçando as têmporas como se estivesse subitamente exausto – Você não entende, não é? Não posso deixar como está. Simplesmente não posso.

Tão rápido quanto anteriormente, Hinata foi incapaz de ver de onde o golpe viria, até que a dor a atingisse, alguns segundos atrasada. Em um ofego agudo, tossiu copiosamente à medida que a agonia se espalhava pela região onde o pé de Kiba atingira, bem em sua barriga. Querendo vomitar, ela teria sido capaz de rasgar os próprios punhos para se livrar e proteger seu bebê da violência daquele homem.

Embora pensasse que não fosse possível, lágrimas surgiram em seus olhos, enquanto ela gemia de dor. Kiba caminhou para os lados, afastando a cadeira. Ele não gritava nem tinha o rosto contorcido de raiva – era o que Hinata mais temia. Seu pior pesadelo se tornando realidade.

— Eu vou atingir onde mais dói a ele. – outro chute, desta vez na lateral de seu torso, próximo às costelas e ao pulmão. Hinata gritou fortemente, sentindo a falta súbita de ar. Choramingou, com os órgãos em brasa.

Kiba se agachou, segurando novamente seu rosto com as mãos, desta vez com demasiada força, e o virou em sua direção. Seus dedos afundaram nas bochechas dela, tão profundamente que ela sentiu gosto de sangue em pequenos pontos que os dentes perfuraram a pele. Era como um adulto apertando uma criança, fazendo careta com seu rosto, mas com agulhas perfurando cada pedaço de rosto.

— Fazer você pagar não é o suficiente. – pela primeira vez, sua voz estava animalesca, sibilando com verdadeiro ódio. Hinata já o tinha visto falar daquela maneira com seus subordinados, e lembrava-se de rezar para que nunca fosse ela a estar naquela posição – Ele vai ter que pagar também. – cuspiu a palavra como um nome proibido, nojento – Eu vou atingir onde ele mais teme. Seu bem mais precioso. – aproximou-se, quase a beijando – Vocês vão se arrepender, Hinata. Você vai se arrepender.

Soltou seu rosto com brutalidade, tornando a batê-lo contra a coluna de metal a qual estava amarrada. Com um gemido, Hinata fechou os olhos quando sentiu o impacto, e o líquido quente embrenhou-se em seu cabelo. Mal teve tempo de compreender o que, de fato, estava acontecendo, e outro chute a tirou de consciência. Atingindo diretamente o centro de sua barriga, ela cuspiu sangue, manchando o chão e parte da sua roupa.

Não saberia dizer quanto tempo se passou. Pela próxima hora, ou três, Kiba foi absolutamente brutal. Em uma descarga animalesca de fúria, ele a chutou, socou e agrediu de todas as formas possíveis. Hinata não teve quaisquer alternativas, a não ser suportar.

Depois de determinado ponto, ela não poderia reclamar – o destino foi realmente piedoso. Ela já não mais sentia os golpes, ou a dor. Semiconsciente, era como se estivesse anestesiada, a visão obstruída por uma neblina narcótica, os músculos adormecidos. Seu rosto inchou poucos minutos depois, ambos os olhos como bolas de golfe, a boca cortada, dentro e fora, com quantidades exorbitantes de sangue cobrindo-a.

Em seus pensamentos, foi transportada para um cenário feliz. Imaginar foi tudo que lhe restou. Gostaria que sua última lembrança antes de morrer fossem as pessoas que ela amava. Pensou em uma realidade onde ela e Naruto seguravam seu pequeno filho, rindo. Shion estaria com ela, xingando alguma coisa ou mimando o bebê.

Seu bebê. Seu bebezinho. Pensar nele a trazia de volta para sua situação, para a dor e o desespero, porque Kiba batia e chutava sua barriga, impiedosamente. Ela queria protegê-lo. Daria sua vida por isso. Não precisou de semanas ou meses para amá-lo – bastaram algumas horas.

Estava quase desfalecendo, em sua bagunça de sangue, hematomas e ossos quebrados. Sentia tanta dor que, de alguma forma, já não mais sentia nada. Não percebia o que acontecia ao seu redor, e não foi capaz de dizer quando Kiba parou. Ele se afastou, ofegante, a camisa social perfeita com respingos em tons doentios de vermelho, os pés doloridos e a barra da calça tampouco intacta. Respirando fundo, ele afastou o cabelo da testa suada, voltando a se sentar.

Hinata se perguntou, em algum momento entre a lucidez e a inconsciência, de onde vinha tanta raiva. Tanto ódio. Tanta fúria. Kiba teve bons pais, amorosos e preocupados. Teve uma boa infância, boas oportunidades. Ele parecia tão gentil. Dedicado. Um amante impetuoso, um namorado perfeito. Mesmo quando os sinais começaram a aparecer, ela não percebeu. E, quando percebeu, procurou por desculpas. Contudo, ainda assim, ela não conseguia entender. Por que ele a odiava? Por que sentia prazer em destruí-la, de dentro para fora?

Kiba já tinha conseguido quebrá-la uma vez, sem precisar, sequer, encostar nela. Suas palavras ficariam marcadas para sempre, como, quem sabe, as cicatrizes que ficariam espalhadas por seu corpo. Se ela sobrevivesse, é claro – não tinha esperanças quanto a isso. Naquele momento, implorava para que a morte a levasse. Seria um fim mais digno e menos doloroso. Era tudo que queria. Descansar.

Tossiu, afogando em algo pastoso que subia de sua garganta; talvez bile ou sangue. Gemeu, e cada pequeno movimento era doloroso como o inferno. Em algum momento, talvez tivesse urinado, porque suas roupas estavam molhadas e fétidas. Havia perdido o controle do próprio corpo, e também a dignidade.

— Uau. Isso foi libertador. – a voz de Kiba soou longe, como um sonho distante – Sinto que começamos a nos entender. Você está uma verdadeira bagunça, Hinata. Veja só o que me fez fazer, tsc.

Queria desmaiar. Perder o resto de consciência que tinha sobrado, esquecer onde estava, quem era. Toda aquele sofrimento, ardendo, queimando. Sua cabeça tombava para baixo, pêndula, e seu abdômen era o lugar que, definitivamente, mais agonizava.

— Estamos quase terminando por aqui, querida, não se preocupe. – em algum lugar, seu cérebro identificou as mãos do Inuzuka em seu queixo. Hinata sequer teve forças para estremecer com a aproximação – Estamos quase quites. Agora, o problema maior. – ele entreabriu sua boca, e um filete de sangue com saliva escorreu por seu pescoço. Ela sentiu os dedos mexendo em sua língua, e algo pastoso, de gosto ruim, ser colocado sob ela.

— N-Não... – murmurou, tentando cuspir o que quer que ele tenha colocado; no entanto, sem forças para lutar, ele segurou sua boca fechada, enquanto os comprimidos dissolviam.

— Meu amor... – Kiba sussurrou, acariciando seu rosto inchado e irreconhecível – Tudo poderia ter sido diferente. Nós teríamos sido felizes, trabalhando juntos nas empresas dos meus pais, morando em nosso apartamento. Era a vida perfeita. Mas você tinha que ser teimosa. – suspirou, desabafando. Hinata sentia as pílulas desaparecendo sob sua língua, e um incômodo começou a tomar seu lugar. Sua boca adormeceu – Agora, tem que lidar com as consequências. Não se preocupe. O remédio faz efeito rápido.

Remédio? Ele iria, finalmente, matá-la?

Ao contrário do que desejava, seus sentidos começaram a retornar, um pouco; o suficiente para gemer de dor, incomodada, e para sentir o beijo que Kiba depositou no alto de sua testa. Doentio, ele se afastou, arrastando a cadeira consigo. Passou pela pequena porta, sem se importar em fechá-la.

O cômodo continuava sujo e com odores ruins – o sangue fresco se misturava com suor e urina, enquanto as substâncias secavam sobre os ferimentos abertos. Hinata tentou adormecer e esperar pela morte, mas o incômodo cada vez maior não deixava que ela se afogasse em inconsciência.

Não enxergava nada, e cada movimento para respirar se assemelhava com mil facas entrando em seus pulmões. Talvez tivesse uma ou duas costelas quebradas. Quanta dor um ser humano conseguiria suportar? Já não havia mais espaço em seu rosto para inchar, seus braços e pernas estavam cobertos de hematomas arroxeados, mal podia se mexer. Quase sentiu falta dos tapas irados, depois de uma noite de álcool e cocaína.

Hinata queria rir. Estava realmente deplorável.

Poucos minutos se passaram até começar a acontecer – claro, ela não conseguiria dizer isso. Para ela, durou uma eternidade. Mas, então, as dores retornaram, mais intensas. Na região do abdômen, bem abaixo de seu ventre. Hinata não teria estranhado se sentisse aquelas pontadas em um dia normal, porque pareciam muito com cólicas menstruais.

Abusada, agredida, destruída, Hinata foi capaz de raciocinar com velocidade e precisão impressionantes. De fato, o pensamento que cruzou sua mente foi como um lampejo, rápido como um cometa, atroz como uma bala.

Se tivesse lágrimas, elas estariam descendo em abundância por seu rosto.

De todas as acusações, ações e delírios de Kiba, Hinata jamais imaginou que ele poderia ser tão desumano. Sentiu um enjoo descontrolado, querendo cuspir os comprimidos que tinham dissolvido em sua saliva. Desesperou-se, sem ter como se mexer, como se defender, como defender a ele.

Não tardou, por fim, que um sangramento começasse, lento e gradual. Sua barriga começou a queimar, mas Hinata não sabia se eram pelos chutes ou pelo remédio. Não havia nada que pudesse ser feito, agora.

Se existia um Deus, há muito ele a tinha abandonado. Sem forças, deixou-se levar pelo luto. Naquele momento, mais do que nunca, desejou que Kiba a tivesse matado; uma morte rápida, com uma arma. Não teria sofrido, e, sobretudo, não teria tido a chance de pensar no que perderia no futuro. Mesmo que sobrevivesse, jamais voltaria a ser a mesma. Finalmente, ele a tinha destruído de todas as maneiras possíveis e imagináveis.

As pilulas abortivas que Kiba enfiou embaixo de sua língua não demoraram para fazer efeito. Hinata não conseguiu imaginar se elas teriam sido necessárias, depois de tudo. Decidida a abandonar cada resquício de destemor que a impeliu a continuar viva, ela se deixou levar pelo cansaço, pelo suplício e pela desilusão.

Só queria não ter tantos arrependimentos. Ter tido a chance de dizer adeus. Não ter experimentado tanta felicidade, para depois perdê-la. Ter sua redenção.

Ser salva.