Heroína

22 As loiras são geladas, mas as morenas esquentam mais


Notas iniciais
MAYARA RETORNA EM UM PERÍODO RAZOÁVEL DE TEMPO E PEDE PERDÃO PELO CAPÍTULO ENORME eu queria terminar em um acontecimento específico mas ficou gigantesco é isto desculpa Espero que estejam gostando!!! Heroína é meu amor, eu amo escrever essa história, as coisas vão ficar bem intensas ♥ Prometo não demorar taaaanto mais, ok! Obrigada por todo o apoio, os comentários, favoritos, tudo isso significa O MUNDO pra mim ♥ E, claro, a Bruna, que mesmo cursando DUAS FACULDADES (ela é o amor da minha vida eu amo uma garota esforçada) ainda tem tempo pra ler as coisas que eu posto e surtar com 94859 mensagens

Estou te dizendo para se arriscar

Pode ser assustador

Corações vão ser partidos

Porque não temos tempo para lamentar

Então, querida, seja o centro das atenções

— Life of the party, Shawn Mendes

—Capítulo XXII–

As loiras são geladas, mas as morenas esquentam mais

Os dias que se seguiram trouxeram uma paz atípica, poucas vezes experimentada por Hinata. Desde o incidente – era assim que insistia para que chamassem, em vez de atentado, como Shion gostava de lembrar –, não teve notícias de Kiba, tampouco foi procurada pelo garoto. A ausência de notícias deixava-a apreensiva, e não conseguia aproveitar por inteiro o período de tranquilidade do qual desfrutava.

Shion estava certa – felizmente, não tinha quebrado nenhuma costela, mas precisou deixá-las imobilizadas por uma semana para que as fraturas começassem a se recuperar. Conseguiu convencê-los a não levá-la ao hospital, de maneira que não tinha certeza da extensão dos ferimentos; doía quando respirava e era incômodo ao sentar, contudo, era suportável, e melhorou com o tempo. Trocava as talas na hora do banho e as mantinha firmes com uma faixa elástica, por baixo da roupa. De qualquer maneira, se recusava a ficar em pleno repouso – como eles orientaram enfaticamente —, e seguiu com sua rotina.

Uma estranha relação tinha se formado. Embora Naruto tivesse insistido, Shion foi irredutível em sua decisão de Hinata ficar hospedada em sua casa – como já era usual, embora a Hyuuga não se sentisse a vontade em abusar da amiga –. Mesmo contrariado, o Uzumaki teimou em levá-las de carro e carregar Hinata como uma boneca – ela jamais admitiria que ficaram dormentes os lugares em que seus dedos tocaram a pele –. Depois de ajeitá-la na cama de dossel com mais travesseiros que seria necessário, ambos saíram para buscar seus pertences. Hinata tinha ficado apreensiva todo o tempo, preocupada com o que Kiba poderia fazer se estivesse em casa, a espera deles. Retornaram quase meia – angustiante – hora depois, com caixas de roupas amassadas e uma pilha de todos seus livros de estudo. Shion disse que cacos de vidro ainda estavam espalhados pelo chão, além de manchas de sangue e almofadas. Hinata tentou não pensar na destruição e em todos os bens que deixou para trás; se estar segura significava abandonar a casa que lutou para construir, então que assim o fosse.

Depois de acomodada e devidamente limpa, anestesiada e enfaixada, Hinata não ficou um momento sequer sozinha. Shion ficava consigo na cama, abraçando-a e apoiando sua cabeça contra os ombros, para acariciar seu cabelo; assistiam séries de comédia e filmes de animação, os preferidos da loira. Pela noite, Hinata não conseguiu comover seu coração o suficiente par fazê-la não ir trabalhar; foi então que se surpreendeu ao ver Naruto entrando quando ela estava prestes a sair. Trocaram algumas orientações e despediram-se casualmente.

Foi difícil para Hinata não surtar. De alguma maneira, Naruto e Shion abandonaram toda e qualquer desavença, ressentimento e diferenças para se dedicarem exclusivamente a ela; como se ela fosse o elo que os unia, ligados unicamente para cuidar dela como se fosse uma frágil criança acidentada. Quer dizer, o sentimento era bom, mas ela não gostava de se sentir fraca. Shion estava simplesmente exultante; o fato da Hyuuga ter, finalmente, dado o primeiro passo para terminar com Kiba a alegrou como um presente de natal. Era constrangedor. Enquanto isso, Naruto a rodeava como uma mãe preocupada e obsessiva – qualquer coisa, qualquer coisa que Hinata falava era lei – ele literalmente saiu às duas da manhã para procurar analgésicos e sorvete de nozes. Ignorando seu coração constantemente palpitando e o nervosismo adolescente incessante, definitivamente poderia se acostumar a ser mimada.

Não era como se, de repente, as coisas voltassem a ser como antes, um mar de rosas, e ela e Naruto reatassem como um casal apaixonado. Não, Hinata sabia que estava fodida, física e psicologicamente – aquele tipo de cicatriz não curava de uma noite para outra. Estava reaprendendo a sensação de ser cuidada, de ter pessoas se importando consigo. O futuro era desconhecido, e, por enquanto, conhecia as muralhas que tinha construído – todavia, assim como com Sakura, poderia, enfim, dar uma chance.

Não tendo outras opções a não ser ficar de molho pelos primeiros dias – até que respirar não fosse mais insuportavelmente doloroso –, Hinata se distraía lendo as referências bibliográficas para sua iniciação com Asuma, assistia televisão e conversava por mensagem com Sakura, sem lhe dizer o real motivo de estar faltando nas aulas. Praticava alguns exercícios de paciência, lidava com as zombarias sarcásticas de Shion e controlava seu maldito suor toda vez que Naruto entrava pela porta.

Talvez nunca tivesse estado tão bem.

Em uma das noites, no terceiro ou quarto dia desde que tinha se mudado temporariamente, Hinata estava deitada no sofá, com uma almofada nas costas e as talas apertando suas costelas. Os hematomas estavam quase desaparecendo por completo, contrastando em um amarelo doentio com a pele pálida. Usava uma camiseta velha e rasgada, e já não se lembrava quando tinha sido a última vez que usara maquiagem. Sentia-se cansada e entediada; Shion tinha saído mais cedo, sob os protestos acusatórios de Hinata, aos quais ela não se deu ao trabalho de escutar. Não demorou muito, e Naruto entrou pela porta, sem tocar a campainha.

Como sempre, a Hyuuga reprimiu um suspiro. Vê-lo entrar era como assistir um comercial em câmera lenta. O cabelo estava parcialmente úmido, e a camiseta despojada ressaltava seus músculos, deixando-o ainda mais blasé. Parecia até injusto que o universo a estivesse testando daquele jeito.

— Você tem a chave? – perguntou, enquanto o via colocar uma caixa de papelão em cima do balcão, junto do chaveiro de seu carro – Eu demorei quatro meses para conseguir uma cópia, isso é ridículo. – resmungou, mal humorada, e sua careta piorou quando ele riu.

— Não conhecia esse seu lado ciumento, Hina. – alfinetou, jogando-se ao seu lado e puxando seus pés para cima de seu colo. Ela ignorou a corrente elétrica que percorreu seu estômago quando os dedos fizeram cócegas em seu calcanhar.

— Você é ridículo. – repetiu, em voz baixa. Naruto parecia imune a qualquer tipo de humor ruim, ostentando aquele sorriso estúpido de dentes brancos.

— Como está a fratura? – perguntou, o tom de voz tão doce e preocupado que fez Hinata ter vontade de socá-lo no rosto. Por algum motivo, ela corou.

— Tão bem quanto estava há três dias, quando insisti que conseguia me virar sozinha. – respondeu, cruzando os braços. Naruto a fitou com a sobrancelha arqueada, como quem sabe quando se conta uma mentira – Está bem, já não dói tanto quando eu me mexo. Está feliz?

— Ficarei quando estiver curada. – cantarolou, irritando-a e deixando-a com embrulho no estômago. Ele estava perto demais, o suficiente para sentir seu perfume; era o mesmo de tantos anos, inebriante e viciante – Trouxe pizza para nós. O que quer assistir?

— Não sei. – respondeu, verdadeiramente abismada. Não era acostumada a escolher, e não sabia o que gostava de ver para matar o tempo – Por favor, nada de comédias românticas. – grunhiu, completando, e Naruto riu alto, como se fosse realmente a coisa mais engraçada do mundo.

— Que tal algum lançamento? – ligou a televisão no catálogo de filmes, zapeando distraidamente pela lista de recém-incluídos.

— Que tal alguma ficção científica? – sentia que seus olhos estavam brilhando. Naruto a encarou por alguns segundos, subitamente enebriado com aquele fulgor. Então, sorriu, repuxando a bochecha sem mostrar os dentes; um sorriso que tomava todo seu rosto. O sorriso dela.

— Como se eu pudesse negar ser torturado por três horas. – brincou, já digitando na barra de busca – Os sacrifícios que a gente não faz por amor.

Hinata baixou os olhos, enrubescendo. Como aquele idiota falava coisas assim, daquele jeito?

Naruto riu consigo mesmo, analisando as reações da Hyuuga. Era estranho vê-la despida da máscara usual de frieza; estranho e fascinante. Não podia negar que gostava de deixá-la constrangida, contudo, o fazia apenas por saber que, de alguma maneira, ela retribuía. Sentia o mesmo.

O incidente com o desgraçado tinha lhe tirado o sono por algumas horas. Não teve tempo de lidar com o choque da informação de que Hinata e Shion se conheciam – mais que isso, eram melhores amigas –. Assim que a loira entrou em seu apartamento, impetuosa como uma tempestade, Naruto deixou de lado todas suas dúvidas e questionamentos, focando em ser seu auxiliar e ajudar Hinata da melhor maneira que podia. Percebeu, sem grandes surpresas, que nada além da recuperação da garota lhe importava mais.

Observou sua dinâmica, como se comportavam uma junto da outra, quanto zelo e preocupação dividiam em pequenas trocas de olhares e carícias íntimas. Hinata sentia-se plenamente a vontade perto de Shion, confortável; segura. Talvez muito mais do que um dia se sentiu junto a ele. Aquilo não o deixou entristecido – apenas mais motivado a se tornar um homem melhor, um amigo melhor. Reconquistar a segurança de Hinata.

Não fez perguntas que não eram da sua conta. Insistiu para que ambas ficassem em seu apartamento – era maior, mais cômodo e melhor localizado, caso necessitassem de algum medicamento. No entanto, Shion foi intransigente— ele devia ter esperado por isso –. Concordaram, então, que elas ficariam em sua casa, próxima ao prédio de Hinata, mas que a Hyuuga não ficaria sozinha em nenhum período. Quando a loira precisasse sair, Naruto assumiria seu posto, até que as fraturas em sua costela melhorassem o suficiente. Não aceitou aquilo apenas para ficar perto de Hinata – ele não seria tão cretino. Tudo que sentia era preocupação, raiva daquele filho da puta, mas preocupação, acima de tudo. Durante o tempo em que ficassem juntos, ele aproveitaria para mostrar que estava disposto a ser um bom amigo, acima de tudo.

E, claro, não perderia a chance de flertar sempre que possível – poderia assistir suas maçãs corarem lentamente pelo resto de sua vida –. Não o faria se percebesse que aquilo a deixava desconfortável, ou triste; Hinata sempre o xingava ou revirava os olhos, sorrindo algumas vezes, então sabia que estava tudo certo. Do mesmo jeito, tinha conhecimento de que não reatariam nenhum tipo de relacionamento agora, e nem era isso que ele queria. Seu desejo era, sobretudo, a recuperação de Hinata.

Colocaram um documentário sobre a Teoria da Relatividade – e algumas outras coisas incompreensíveis a Naruto, mas que deixaram Hinata com os olhos brilhando em êxtase. Acomodaram-se com pratos de pizza no colo, assistindo ao filme com a luz da cozinha acesa. O Uzumaki desistiu na primeira meia hora, preferindo admirar as reações da garota. El a assentiu, crispava os lábios e suspendia as sobrancelhas como se o narrador falasse diretamente com ela. Sua mente viajou para muitos anos antes, quando costumavam fazer aquele tipo de programa. Ficavam em seu apartamento, ou na sala de estar da casa dos Hyuuga, e Hinata o convencia a assistir algum longa-metragem chato sobre ciência. Depois, iam para a sacada, e, em seu telescópio, ela apontava e ensinava sobre diferentes astros e estrelas.

— Algumas coisas mudam, e algumas não mudam nunca. – comentou, absorto. Hinata desviou os olhos para ele, com uma fatia na metade do caminho.

— Grande citação, Morpheus. – suas sobrancelhas estavam erguidas, mas ela segurava o riso. Naruto revirou os olhos; não era porque era seu filme preferido que deixava de ser verdade. Mais que isso, Hinata ter lembrado o deixou agradavelmente surpreso – Mas você sabe que é o contrário, né?

— E que diferença faz? – retrucou, de boca cheia – Ainda estamos aqui assistindo esse filme chato. – alfinetou, rindo quando ela bufou.

— Acho que eu não seria capaz de te impedir de sair. – apontou para o próprio abdômen imobilizado.

— Mas nem fodendo. – respondeu antes mesmo de deixá-la terminar – Não vou sair mais do seu lado. – apertou a perna, onde sua mão repousava. A intensidade com que disse aquela frase, a ambiguidade, a deixou sem contestação.

O som da televisão foi o único barulho no cômodo por um tempo. Naruto terminou de comer e deixou o prato de lado, atraído pelas imagens coloridas e psicodélicas do filme; Hinata mastigava devagar, pensativa, já sem prestar atenção no documentário. Pegou mais duas fatias, surpresa com seu próprio apetite. Seguiram acordados noite adentro.

— Quando eu melhorar, vou ter engordado cinco quilos. – resmungou, entregando seu prato para Naruto levar na pia. Aproveitou para se alongar e mudar de posição, com cuidado – Ah, que maravilha. – gemeu quase pornograficamente quando esticou as costas, estralando o pescoço com ela.

— Fico feliz que esteja melhorando. – o loiro comentou, voltando ao sofá e puxando o cobertor sobre eles.

— Nesse ritmo, vou poder voltar para a aula essa semana. – a perspectiva era realmente muito boa.

— Nada de exagerar. – alertou em tom paternal.

— Tudo bem, mãe. – rolou os olhos, rindo. Aquela foi uma das muitas noites boas.

Já era maio. Há muito tempo Hinata não tirava alguns dias de folga como aqueles, sem preocupações ou trabalho. Na segunda-feira, além de se sentir bem mais disposta fisicamente, tinha espairecido a mente; meditado, como diziam, mas de um jeito muito menos religioso e mais prático. Tinha organizado seus pensamentos e definido suas prioridades – recusava-se terminantemente a continuar vivendo com medo da própria sombra, apenas pela possibilidade de Kiba fazer alguma coisa –. Além disso, a semana sabática longe da universidade ajudou a dispersar as fofocas sobre ela; as pessoas tinham mais com o que se preocupar.

Acordou cedo, desvencilhando-se do abraço de uma Shion ainda adormecida. Tomou um banho quente, sozinha, e desenrolou as talas em suas costelas. Respirar já não incomodava mais, embora sentisse uma pontada ou outra. Acreditava no poder de regeneração de seu corpo – e rezava para que não morresse –. Deixou que as boas lembranças do fim de semana tomassem conta dela, servindo como estimulante. Enxugou-se devagar, principalmente na região abdominal, e enrolou faixas limpas, apenas para garantir.

No quarto, abriu a gaveta do guarda-roupa onde tinha colocado algumas das peças que Shion trouxera. De repente, sua preocupação passou a ser o que vestir. Não se sentia confortável em usar as velhas camisetas de banda e as minissaias com botas de salto alto. Não sabia mais com o que se identificava. Pegou uma das poucas calças jeans que ainda restavam, e afanou uma camiseta lisa de Shion – ficou um tanto justa no busto, mas serviu bem. Penteou o cabelo e prendeu com uma faixa. Era estranho ver seu rosto refletido tão limpo e tão vulnerável.

Pegou a jaqueta de couro e os óculos escuros, deixando uma mensagem para a loira. Jogou a bolsa-carteiro no ombro e saiu, atravessando a rua para o ponto de ônibus. Teve vontade de comprar um café, puro e forte; há dias não consumia cafeína. Também teve vontade de fumar um cigarro; há dias também não o fazia. Naruto a tinha proibido dos pequenos prazeres, dizendo que afetariam a eficácia dos analgésicos – ele não tinha realmente proibido, apenas se recusava a pegar, e Hinata não conseguia pegar sozinha. A ânsia por um pouco de nicotina tinha diminuído, ainda que sentisse falta da fumaça e da entorpecência.

O ônibus estava lotado, como sempre. A Hyuuga percebeu como sentia falta daquelas coisas; o horário de pico, as pessoas se acotovelando, pagar contas, trabalhar. Estava feliz por voltar à sua velha rotina, até mesmo as aulas entediantes de Administração. Quando chegou na UK, o estacionamento já começava a se apinhar, e ela constatou, satisfeita, que ninguém se dignou a encará-la.

Disfarçou-se com a multidão e chegou, com sucesso, até sua sala. Sabia que não conseguiria evitá-los por muito tempo – tampouco agia como uma covarde. Convenceu-se que só queria manter sua paz por mais algumas horas, e mergulhou toda sua atenção nos slides monótonos e no seu caderno de anotações.

As próximas quatro horas foram deliciosamente torturantes. Hinata simplesmente odiava aquela matéria, mas a sensação de estar estudando novamente, ocupando a cabeça com alguma coisa, era aliviante. Na hora do almoço, demorou o máximo que pôde guardando suas coisas e postergando no celular. Não teve escapatória – teve de atravessar o corredor em direção ao refeitório, no bloco ao lado do seu. Sendo sincera, não estava realmente com fome; contudo, se Shion – ou pior, Naruto – descobrisse que ela não tinha comido, estaria ferrada.

Caminhava devagar, pelos cantos, mas foi descoberta assim que atravessou o saguão. Pouco a frente, reconheceu o cabelo exótico e chamativo de Sakura – foi a primeira coisa que seus olhos viram, além da camiseta colorida. Ela estava acompanhada de Naruto, Sasuke e uma garota loira cujo nome Hinata não se lembrava. Estacou., planejando dar meia volta e fugir, mas ela a viu assim que se virou.

— HINATA! – gritou, sacolejando os braços. Hinata praguejou, alisando a calça nervosamente. Naruto parecia ter a mesma expressão em pânico. De longe, a viu dizer alguma coisa para o outro casal e puxar Naruto pelo pulso, rebocando-o até onde estava. A medida que se aproximava, a Hyuuga pensava em mais desculpas minimamente convincentes para que conseguisse escapar – Nem pense que vai conseguir escapar de mim agora! – acusou, resfolegando. Olhou da morena para o Uzumaki, e alternou algumas vezes. Hinata quase podia ver aquela pequena cabeça maligna trabalhando – Você sumiu por semanas!

— É, pois é. – arrastou a voz, tentando parecer culpada – Eu tive alguns problemas de saúde. – Naruto confirmou rapidamente, e Sakura os encarou, desconfiada.

— E não podia responder uma mensagem sobre o que era? – frisou, cruzando os braços. Hinata encolheu os ombros, com uma careta – Quer saber, depois nós vamos ter uma longa conversa sobre isso. – apontou – Estou feliz que tenha voltado. – abriu um largo sorriso de repente. A Hyuuga soltou o ar, aliviada, sorrindo também – Agora podemos falar sobre você ir na festa sábado.

— QUE? – Naruto tossiu e engasgou. Sakura se assustou com o grito, o xingando – Quero dizer, Sakura, acho que não é uma boa ideia ela ir em uma festa agora. – corrigiu-se. Hinata o fitou, como quem dizia “muito obrigada”. Naruto respondeu “por nada”, tão silenciosamente quanto.

— Deixa disso. – rolou os olhos – Vai ser bem tranquila. É para arrecadar fundos para a Comissão de Eventos dos cursos de ciências sociais, às dez da noite, open bar só de cerveja. Mais suave que isso só almoço em família. – gesticulou como se seus argumentos fossem realmente irrefutáveis. Hinata suspirou, sabendo que estava em apuros.

— Tudo bem, será que eu posso te responder depois? – propôs. A Haruno assentiu, animada.

— Vai ser tão divertido! – bateu palmas – Vou deixar vocês conversarem, mas vê se responde minhas mensagens, ok? – saiu, como um furacão muito elegante e muito barulhento.

Hinata sentiu-se exausta de repente. Massageou a testa, sentindo os olhos de Naruto cravados em seu rosto. A menor chance de ter aquelas safiras intensas analisando suas reações a deixava nervosa.

— Você sabe que ela não aceita um não como resposta, não sabe? – o Uzumaki pontuou, fazendo-a resmungar.

— É, eu sei. – suspirou – Eu já tinha dito que ia pensar quando ela comentou da primeira vez.

— Eu realmente não acho uma boa ideia. – sua voz soou um tanto histérica e engraçada – Quer dizer, eu pesquisei, e diz que precisa de, pelo menos, um mês para curar costelas fraturadas! – sussurrou com emergência, certificando-se de que ninguém ouviria – Mal passaram duas semanas.

— Eu agradeço a preocupação, mas não sou criança. – retrucou, com uma carranca – Sei o que é melhor para mim. – enfiou a mão no bolso lateral e puxou uma cartela velha de cigarros. Colocou um na boca e acendeu, tragando profundamente. Naruto a fitou incrédulo, como quem dizia “sabe mesmo?”. Ela revirou os olhos para ele, mal humorada – Eu nem disse que ia!

— Eu definitivamente vou agora. – comentou, convicto – Alguém precisa cuidar de você.

— Você não tem nenhuma aula para assistir, nada para estudar, não? – ergueu a sobrancelha.

Naruto deu uma risadinha, saindo e tocando seu ombro. Hinata estremeceu, praguejando internamente. Inalou longamente, usando a nicotina para se acalmar. Aquele garoto conseguia ser tão irritante às vezes. Ela sequer estava com vontade de ir nessa droga de festa – não que tivesse opção agora, porque Sakura a obrigaria de um jeito ou outro –. Ela se lembrava da última festa que foi; as coisas não tinham terminado muito bem. Estremeceu, lembrando-se da substância correndo todo seu corpo, chegando em suas veias e seu sangue, atingindo sua mente. Não queria repetir aquilo tão cedo. Por outro lado, depois de tantos anos, não sabia mais aproveitar uma festa tranquila. Beber cerveja, dançar, conversar com as pessoas, curtir as músicas do momento.

Tentou dispersar esses pensamentos a caminho da iniciação científica. Tinha trocado alguns e-mails com Asuma, explicando sua situação – ou parte dela –, então aquela seria sua primeira reunião oficial. Estava se sentindo esperançosa, apesar de tudo; as coisas começavam a se acertar.

Como esperado, Asuma estava tão ávido quanto ela. Ficou satisfeito dela ter lido todas as referências bibliográficas, e não perderam tempo no escritório; ele a levou até o laboratório de estudos, e Hinata ficou fascinada por todos os instrumentos, telescópios tão caros e tecnológicos que ela jamais sonharia em manusear, uma abóbada de vidro que dava acesso desimpedido ao céu, palanques para anotações quilométricas e lousas de vidro com anotações de todos os analistas. Não havia dúvidas – era aquilo que ela queria fazer. Nada de contabilidade ou tarefas ridículas de escritório.

Foi embora tarde da noite, embora o combinado fosse sair as cinco. Hinata não se importou nem um pouco; quase todas as luzes dos blocos estavam apagadas, e o céu estava brilhante. Pegou um táxi, em vez da linha noturna, e chegou mais rápido na cidade. Pagou com duas notas e puxou sua própria chave de casa, sentindo-se flutuar. Estava despreocupada, e feliz.

Abriu a porta, encontrando Naruto e Shion conversando na cozinha. Naruto estava do lado de dentro, mexendo em algumas panelas, usando uma camiseta regata; Shion estava sentada, debruçada sobre o balcão, e falava alguma coisa. Usava roupas casuais, e não as roupas de sair – o que deixou Hinata satisfeita.

— Boa noite. – cumprimentou, as sobrancelhas erguidas apenas para provocar. Naruto atrapalhou-se, ficando um pouco vermelho, e ela teve vontade de rir.

— Ah, chegou a margarida. – Shion, por outro lado, não se importou nem um pouco. Desceu da banqueta e pegou sua bolsa, deixando um beijo rude em seu rosto. Hinata tirou os sapatos e soltou o cabelo, suspirando de alívio – Custava ter ligado para avisar que ia atrasar? – esbravejou.

— Desculpe, eu me distraí. – se justificou, sentando no outro banco. Teve uma visão privilegiada da bunda definida de Naruto dentro de uma samba-canção laranja, enquanto ele cozinhava. Mordeu os lábios, seu corpo reagindo muito antes do seu racional – Acho que eu estou te vendo bem mais do que eu gostaria. – alfinetou.

— Tudo isso é medo de não resistir? – devolveu, piscando com um olho. Hinata bufou, sorrindo. Era estranho pensar que, alguns meses antes, ela o evitava por medo do passado; rancor, talvez. Agora, sua consciência estava tranquila, e era grata por tê-lo de volta.

Esse é um pensamento muito perigoso, Hinata.

— Shion, o que acha de irmos a uma festa esse sábado? – propôs, de repente. A loira se inclinou, curiosa.

— Convite repentino. – mordeu a bochecha – Acha bom ir em uma festa nesse seu estado?

— Não. – Naruto respondeu, ao mesmo tempo que Hinata dizia:

— Cale a boca, eu estou bem. – o Uzumaki fez uma careta – Não sei se é uma boa ideia, foi Sakura quem convidou. É para levantar fundos para a comissão de eventos.

— Uh, festa de faculdade. – a loira umedeceu os lábios – É com seus velhos amigos. Isso está me cheirando problema. – sorriu feroz.

— Vocês são doidas. – Naruto grunhiu, separando as porções de macarrão que tinha acabado de temperar.

— Vai ser em alguma das boates do Toneri? – a pergunta pegou Hinata desprevenida. Com um olhar de incerteza, ela procurou por Naruto, que negou com a cabeça, firme.

— Vai ser em um clube do pai da Karin. Não nos meteríamos com eles. – a Hyuuga abrandou internamente.

— Então eu acho que vamos. – conclui, olhando para Shion. A garota concordou enfaticamente. Hinata voltou a encarar Naruto, sustentando seu olhar intenso, embora sentisse ondas de calor espalharem-se por seu estômago.

— Acho que não tenho escolha.

No sábado, Hinata já não tinha mais certeza se queria fazer aquilo. Shion tinha concordado em ir para ficar de olho nela, e Naruto ia para ficar de olho nas duas – que trio estranho eles formavam –. Ao longo da semana, a Hyuuga se perguntou diversas vezes se era realmente uma boa escolha. Mesmo estando melhor, Naruto continuava a frequentar a casa da loira, e nem se importava em ter um pretexto; era justamente por todos os calafrios em sua espinha sempre que suas peles friccionavam que ela considerava ir uma péssima decisão.

Terminou de traçar o delineador no espelho do banheiro. Analisou a simetria entre os dois olhos e conclui que estava aceitável. Soltou o cabelo e ajeitou a franja. Fez um biquinho com os lábios vermelho-cereja. Voltou para o quarto, onde Shion se arrumava com um vestido tubinho capaz de fazer qualquer pessoa duvidar a própria sexualidade. O corpo de modelo ressaltava as curvas proporcionais, e, ainda descalça, continuava mais alta e mais esbelta.

— A de couro ou a de brilho? – ergueu um par de cada, e a loira fitou ambas por meio segundo.

— A de couro. – concluiu. Hinata teve uma sensação de dèjavu enquanto calçava as botas de salto alto.

Eram dez horas, e esperavam por Naruto – tentaram discordar, mas ele foi inflexível, e as pegaria de carro em frente a casa –. Conforme os minutos passavam, Hinata ficava mais apreensiva. Já tinha fumado um cigarro inteiro momentos antes, e não queria ficar fedendo. Pela primeira vez em muito tempo, sentia-se bonita, desejável. As cores pretas ainda eram predominantes, mas seus brincos brilhavam em arco-íris contra a luz, e os escritos rabiscados em sua blusa eram a primeira verdadeira sombra de cor que usava em semanas.

Ouviram a porta destrancar, e o Uzumaki entrou, sem bater. Hinata engoliu em seco, questionando a própria sanidade – é claro que ele tinha que ficar gostoso para caralho usando uma camisa social tão apertada que ela não sabia como os botões simplesmente não rasgavam para fora. Aqueles bíceps deveriam ser um atentado ao pudor. Shion soltou uma risadinha irônica, provocando-a, e Hinata a fuzilou. Virou para ele, satisfeita com seu olhar sobre o decote nada generoso em seu colo. Talvez não precisasse negar tanto; juntos, eles pegavam fogo.

— Estão, hm, estão prontas? – pigarreou, colocando as mãos no bolso da calça jeans escura.

— Só um minuto. – Shion entrou no banheiro, encostando a porta para poder se maquiar. Sozinhos no cômodo, a atmosfera ficou pesada.

Hinata não sabia o que esperar daquela festa. Estava determinada a não dar vexame ou exagerar – queria curtir relaxada. Não tinha pensado em lidar com as antigas pessoas em sua vida, ou com os olhares de todos os outros que a conheciam de nome. Queria espairecer, se distrair. Enquanto encarava Naruto despudoradamente, percebeu que aquela era uma faca de dois gumes. Queria se distrair dele, queria se distrair com ele.

— Se você não estiver se sentindo bem, é só me avisar, e nós vamos embora. – avisou, preocupado. Hinata teve uma vontade súbita de chorar; por que ele tinha que ser assim?

— Tudo bem. – murmurou, a voz falhando.

Às vezes, tinha saudade de Kiba. As vezes, pensava que tinha sido sua culpa, e que as coisas teriam durado se ela tivesse se esforçado. As vezes, dormia se lembrando dos momentos bons, e não queria chorar por aquilo. E, as vezes, ela comparava tudo aquilo com o que tinha acontecido quatro anos atrás – era o mesmo modus operandi. Os mesmos sentimentos. O mesmo remorso. A mesma saudade. A mesma sensação de estar solitária, e de ter fodido tudo. Mas, então, Naruto voltava. E Hinata entendia; ela entendia que não tinha nada, absolutamente nada, de igual. Kiba não era Naruto; nunca tinha sido, e nunca seria. Seu relacionamento tinha sido abusivo, tóxico e cada migalha de carinho que um dia recebeu não compensava os anos de sofrimento que tinha suportado. Com Naruto, era fácil. Quente como o sol. Ela sofreu tanto porque era bom. Era bom o tempo todo, e cada pequena lembrança que tinha deles era boa. Ele era bom, e gentil, e se preocupava com ele. Ele a amava de verdade.

— Tudo bem, estou pronta. – Shion assustou a ambos quando saiu do banheiro. Naruto a elogiou enquanto segurava a porta para que ela passasse, e a loira o provocou quanto ao seu cavalheirismo fora de época e como ele era um bom mentiroso. Hinata riu assistindo-os, e percebeu como estava feliz naquela noite.

A Hyuuga foi na frente, trocando as estações de rádio, enquanto Shion opinava sobre as músicas. Naruto, fingindo estar concentrado na estrada, tentava não sorrir largamente. Mesmo que fosse pouco tempo, a diferença era perceptível; Hinata sorria mais, ria mais, e, mesmo usando as mesmas roupas escuras de antes, ela parecia brilhar mais.

Chegaram no clube pouco depois das dez e meia – Naruto disse que chegar atrasado era elegante –. Desceram, e a música já era ouvida. Uma pequena fila se formou na entrada, enquanto os organizadores recolhiam os convites. Hinata pensou reconhecer a garota da bilheteria de alguma de suas aulas, mas não se lembraria qual. Quando se aproximaram, o outro cara indicou a entrada lateral, dizendo que seus convites já tinham sido entregues – provavelmente por Sakura –. O trio passou pelo corredor escuro, iluminado apenas por uma luz artificial vermelha, e avistaram a pista de dança.

Era um espaço razoavelmente grande. O teto estava claro com luzes estroboscópicas, embora o bar estivesse com as lâmpadas normais acesas. Uma boa quantidade de universitários já tinha chego, e dançavam e conversavam com copos de plástico vermelho na mão. Hinata analisou todo o salão rapidamente, localizando os melhores pontos para ficar observando. De repente, seus olhos passaram por um determinado grupo de pessoas, onde Sakura acenava loucamente.

— Aqui! – gritou, acima da música. Hinata deu dois passos até ela até perceber quem a acompanhava.

Paralisou. Identificou Sasuke Uchiha, imediatamente a sua direita, com uma camiseta polo e blazer. Ao seu lado, o cabelo ruivo de Gaara era inconfundível – seu estômago caiu de nervosismo. O Sabaku a encarava ligeiramente surpreso, usando uma camiseta social como a de Naruto, e jaqueta. Também estavam Ino Yamanaka e Shikamaru Nara, que Hinata conhecia das aulas de cálculo e se lembrava vagamente como namorado da irmã de Gaara.

Todos seus velhos amigos. As pessoas com quem conversava, com quem saía. Pessoas cujas casas passava a noite e cujos pais ela cumprimentava no mercado. Pessoas que afastou quando conheceu Kiba. Pessoas que exclui das redes sociais e parou de encarar nos corredores da UK. Hinata sentiu sua garganta fechar. Repentinamente, não se sentia mais tão confiante quanto àquela noite. Ela tinha sido uma péssima amiga, e tinha afastado a todos eles.

Naruto percebeu que a morena travou. Acompanhou seu olhar e entendeu do que se tratava; o reencontro seria difícil. Nem todos eram uma força da natureza como Sakura, e ela certamente estaria preocupada com o que pensariam dela. O loiro só queria apertá-la forte em um abraço e dizer que todos estavam tão felizes em vê-la de novo, e que as coisas seriam fáceis como eram antes.

Estendeu sua mão e pegou a de Hinata. Ela se virou, assustada, encarando o aperto. Naruto manteve os lábios comprimidos em um pequeno sorriso, os olhos firmes. A Hyuuga sentiu a velha corrente elétrica despertá-la. A mão de Naruto ainda era grande e cálida.

Algumas coisas nunca mudam.

— Vamos pegar uns copos de cerveja e dançar até cair, que tal? – inclinou-se para que ela pudesse ouvir. Revirou os olhos e sorriu.

Virou o rosto para Shion, que a encarava com a sobrancelha arqueada. Estendeu o braço em gancho e ela o pegou, unindo-se ao casal. Juntos, retomaram a caminhada em direção ao grupo, próximo do bar, na parte resplandecente do salão. O medo se dissipou dela. Independentemente do que acontecesse, Hinata se divertiria naquela noite, como há muito não fazia.