Heroína

21 A queda livre não assusta alguém que já está em pedaços


Notas iniciais
Eu deveria ter atualizado Quimera, ou Famous, mas eu estive em um bloqueio tão horrível que a única história que eu consegui desenvolver foi essa, me desculpem :( Consegui um trabalho novo e minha vida esteve uma loucura, mas agora vou tentar me reestabelecer e atualizar todas minhas histórias apropriadamente. Obrigada por todo o apoio ♥ Espero que gostem desse capítulo (eu gostei bastante dele!). Eu FINALMENTE terminei o roteiro dessa fic e vou dar só um spoilerzinho: só vem tragédia pela frente rs Ouçam a playlist da fic e deem uma olhada na pasta de inspirações do Pinterest! ♥ Link playlist do Spotify: https://open.spotify.com/user/12181997845/playlist/7bhYns4WjKVuwzb867Q3wH Link Pinterest: https://br.pinterest.com/erohime/hero%C3%ADna/

Não há amor por aqui

Eu te amei uma vez, mas isso me fez burra

Agora estou vendo isso muito claro

Você me machucou tanto e por isso eu fiquei sem tempo

Para sentir qualquer tipo de dor

Eu fui seu jogo

Apenas assumindo a culpa por muito tempo

Saia daqui

Não olhe para trás, não voltarei

Não posso mais fazer isso

— Trust my lonely, Alessia Cara

—Capítulo XXI–

A queda livre não assusta alguém que já está em pedaços

Era difícil enxergar através das lágrimas que transbordavam em seus olhos. A imagem de Kiba estava borrada, mas Hinata ainda conseguia ver seus ombros curvados e o sorriso arrogante. Mais que isso, era sádico – ele sabia que a estava machucando, e sentia prazer com isso. Eram naqueles momentos, especialmente naqueles, que ela se sentia afundar, e debatia-se desesperadamente por ajuda. Era, então, o Inuzuka quem estava por perto, pronto para lhe estender a mão.

Pressionou as mãos contra o estômago, com pontadas físicas tirando-lhe o fôlego. Conseguia sentir um ataque de pânico se aproximando, tomando, lentamente, seus braços, suas pernas e sua percepção. Debateu-se, procurando manter a racionalidade. Ela não podia ceder. Recostada contra a porta, agora fechada, a sensação de asfixia tornou a tomá-la, mais forte que antes. Nunca tinha gostado daquele apartamento; as janelas eram pequenas demais, com grades enferrujadas e vidros opacos. Hinata gostava de ver a luz do sol entrar, como em sua velha sacada. As cores descascavam, as portas eram sufocantes. Tudo era sufocante.

Lembranças antigas embaralharam-se com as atuais. Eu sou o único que você tem. Era verdade, não era? Uma batalha interna tentava tomar o controle de seu raciocínio. Por um lado, concordava com aquelas palavras, afinal, e as aceitava de bom grado, desistindo de lutar contra o que não podia vencer; por outro, no entanto, reprisava nomes e rostos com cada vez mais frequência, lembrando-se que, se ela estava viva hoje, era porque outras pessoas se importavam. Elas se importavam.

Fechou os olhos por um momento, derrubando algumas das lágrimas, que escorreram, quentes, até seu queixo, perdendo-se em sua roupa. Abraçando lateralmente o corpo, tentando se proteger, Hinata buscou por ar. Aquela não era a primeira vez – nem a segunda, nem a terceira. Ela já tinha passado por aquilo antes. Já tinha ouvido aquelas palavras, já tinha sido atingida. As vezes literalmente, as vezes figurativamente. E continuava a voltar, e voltar, e acontecer novamente. Por que? A pergunta pairou, e ela parou. Por que? Por que continuava acontecendo? Hinata conhecia suas dependências, conhecia seus limites e suas amarras. Conhecia seu passado e seus erros. Contudo, por que ele tinha de ser tão cruel?

Se Hinata bem se lembrava – e ela o fazia –, em seguida ela se humilharia. Decidiria que sua paz não valia mais algumas horas de discussão, gritos, agressões e acusações. Ela se deixaria acreditar no que Kiba dizia, porque, entre outras coisas, acreditava ser verdade. Sem ter a quem recorrer, sucumbiria à solidão que a acompanhava por tantos anos. Ela se desculparia, e imploraria por nada mais que migalhas. Kiba esperava que ela suplicasse por carinho, por reconhecimento. Queria que ela se rebaixasse para ele. Ele a feria, e se prostrava de braços abertos para lhe dar a cura.

Eu sou o único que você tem.

Hinata abriu os olhos, com vertigem.

Algo se quebrou.

— Saia da minha frente. – fungou, limpando os olhos com a mão trêmula. O sorriso de Kiba vacilou, cerrando os olhos ligeiramente.

— O que?

— Você me ouviu. – sua voz saiu mais clara. Arrumou a postura, com as pernas vacilando. Com o olhar repentinamente desafiador, não procurou pensar na maquiagem borrada, nas roupas amassadas, nos pedaços quebrados – Saia da minha frente.

Hinata não saberia dizer o que tinha mudado. Não daquela vez. Sempre houvera um resquício, ínfimo, da garota que costumava ser. A rebeldia, a raiva armazenada, o senso de independência. A velha Hinata. Havia momentos, muito pontuais, em que deixava essa garota sair e tomar as rédeas da situação. Era quando ela reagia. Ou quando se recusava a obedecer – nos momentos em que Shion precisava dela, ou quando aceitou a bolsa de iniciação científica que Asuma ofereceu. Ainda que continuasse com Kiba, que dependesse do amor entorpecente e doentio que ele lhe proporcionava, Hinata jamais se deixara subjugar completamente.

Naquele instante, o menor pensamento de implorar para ser amada a deixara simplesmente enojada. Receber as migalhas de afeição que Kiba lhe dava, como se não passasse de um animal. Ficar feliz por ele se importar com ela, por aceitar seus pecados, por lhe dar a honra de seu companheirismo. Não. Ela não lhe daria esse prazer.

— Pense bem nas suas próximas palavras, Hinata. – Kiba sibilou em som gutural, caminhando em sua direção com os punhos tremendo. A Hyuuga engoliu em seco, temendo por novos açoites, mas não se deixou mostrar abalada. Continuou a encará-lo com o queixo para cima.

— Chega. – viu seu rosto desmontar, lentamente, até os olhos se tornaram arregalados e os lábios finos, entreabertos – Quer saber, Kiba? Chega. Eu não vou mais deixar você me tratar assim. – sentiu um calafrio, e, de repente, se viu presa novamente pelas mãos do garoto. Seus dedos apertavam seu pulso com força, e ele a chacoalhou como uma boneca. Hinata estava com medo, paralisada, mas também se sentiu corajosa, porque Kiba parecia, acima de tudo, aterrorizado.

— O que você está dizendo, Hinata? O que você está dizendo? — gritou, e todo o som reverberou pelo cômodo.

— CHEGA! – berrou de volta, com mais lágrimas se formando nos cantos, desta vez de raiva – Eu não quero mais te ver enquanto você não mudar essa atitude! – cuspiu.

— Você não vai terminar comigo. – agora soou como um sussurro agressivo, e Hinata preferiu que ele tivesse gritado. Vacilou, perdendo-se, por um momento, no brilho perigoso nos olhos dele. Costumava olhar naqueles olhos e pensar que eles refletiam todo o sentimento que precisava para se sentir viva. Agora, tudo que via era o monstro pelo qual acreditava estar apaixonada. Mas não mais.

— SAIA DA MINHA FRENTE!

Debateu-se, tentando desvencilhar do aperto. Jogou seu corpo para frente, desequilibrando Kiba, que, por sua vez, afrouxou os dedos. Hinata viu sua chance de se livrar e sair correndo para longe daquele lugar, para longe de Kiba. O homem parecia ter uma ideia diferente; assim que recuperou a estabilidade, furioso, tornou a puxá-la, sem dificuldade. A morena gritou, o cabelo ricocheteando contra seu rosto. Puxou o braço, sentindo algo estalar. Kiba, cego de ódio, tentou trazê-la até ele, as mãos apertando. Hinata, desesperada, procurou formas de se soltar, enquanto o pânico começava a tomar conta de suas reações.

Foi jogada para o lado, gritando, e Kiba apoiou os pés no chão, fincando-os de forma segura no piso. Com o impacto, impulsionou força nos braços no mesmo momento em que Hinata puxou o peso para fora. O Inuzuka a girou, como se brincassem de cabo de guerra. Aconteceu rápido demais – Hinata só teve tempo de sentir o impacto de suas costelas contra o balcão da cozinha. Ofegou, o ar escapando completamente. A dor a invadiu de dentro para fora, embaçando sua visão e enfraquecendo suas pernas.

Kiba tropeçou para trás quando o corpo dela se chocou no granito. O impulso voltou para suas pernas, e Hinata, lutando contra cada partícula de dor que imobilizava seus pensamentos, aproveitou-se desse pequeno deslize para puxar todo seu pulso, agora arroxeado e marcado. Choramingando, ela o empurrou para trás, o vendo cair contra o sofá e rolar para o chão. Era sua chance. Sem tempo para protestar a agonia, puxou sua bolsa de qualquer jeito, esquecendo as roupas ou os livros – precisava sair dali. Abriu a porta, escancarando-a, sem se preocupar com os vizinhos que estariam, provavelmente, atentos a mais uma das discussões protagonizadas pelo casal.

Hinata se arrastou pelo corredor, arfando e pressionando as costelas. Apertou os botões do elevador compulsivamente, olhando para trás como quem espera pela morte. O universo resolveu colaborar, porque estava parado em seu andar. Ela entrou, fechando as portas de metal na velocidade de um piscar de olhos. Pensou ter ouvido Kiba gritar seu nome, mas não se preocupou em tirar a dúvida. Apoiou-se no espelho, rezando para dar tempo de chegar ao saguão com vida. Enfiou a mão dentro da bolsa, tateando cegamente em busca do celular. Puxou o aparelho, vendo que ainda tinha bateria, e apertou a discagem rápida.

Tocou, tocou, tocou, até cair na caixa postal. Com um resmungo lamurioso, apertou de novo, os andares diminuindo gradativamente. No térreo, mal esperou a porta se abrir para arrastar suas pernas débeis saguão afora. Agradeceu silenciosamente quando viu a movimentação significativa no térreo – Kiba não seria capaz de fazer uma cena em público, com tantas testemunhas, mas, não disposta a descobrir, saiu abrindo caminho pelas pessoas. Cada passo a deixava mais sem fôlego, e ela nem queria imaginar o estado do seu rosto. Baixou a cabeça e continuou até estar do lado de fora do prédio. Com o celular pendurado na orelha, continuou tentando ligar, sem sucesso.

— Vamos, Shion, atende. – implorou. Na quarta tentativa, percebeu que não daria certo. Arrastou-se por meio quarteirão até perceber que não aguentaria muito mais. A dor se tornava insuportável, e sua visão turva denunciava um possível desmaio a qualquer segundo. Encostada contra a padaria que ficava na esquina – onde ela comprava cigarros e café todas as manhãs –, apertou o segundo botão de emergência, sem ter outra escolha.

Naruto passeava distraído por seu próprio apartamento. No período da tarde, indisposto para qualquer atividade extracurricular, dirigiu de volta ao seu prédio, ficando sozinho com seus pensamentos. Resolveu empenhar-se em transformar aquele lugar novamente em um lar. Acabou com as caixas de papelão que ainda resistiam à mudança. Organizou a cozinha com todos os potes, pratos e copos disponíveis, junto das panelas intocadas e dos eletrodomésticos pouco utilizados, mas que sua mãe fazia questão de que ele tivesse. Na sala de estar, montou os porta-retratos, limpando a poeira dos que ficaram. Acrescentou algumas fotos de seus amigos da América, substituiu as fotos velhas de Sakura e Sasuke e, depois de uma discussão internamente particularmente acirrada, moveu a foto dele com Hinata para frente – uma das últimas que tinha tirado, ele e a garota faziam careta para uma selfie, com o parque da cidade ao fundo. Ela usava franja longa e uma blusa de alças, e ele tinha o boné virado para trás. Talvez fosse masoquismo, talvez fosse burrice; ele não queria se livrar daquela lembrança, ou de nenhuma outra.

Seu quarto já tinha a cama montada, o guarda-roupa limpo e a escrivaninha desocupada. O livro de obras, já velho e amarelado, residia como em um altar, mantendo consigo várias de suas melhores memórias. Quando decidiu que era o suficiente para se sentir bem, tomou uma ducha gelada e vestiu uma bermuda confortável. Estava voltando da lavanderia quando escutou o telefone tocar, em cima do sofá. Estranhou o número desconhecido brilhando no visor, não Sakura ou o Teme. Atendeu, receoso.

— Pronto?

— Naruto? – ele reconheceria aquela voz em qualquer lugar.

— Hinata? – sua postura mudou, agora alerta. Apesar de ser ela, sua voz parecia entrecortada e ofegante. O barulho de rua não ajudava – Hinata, é você?

— Naruto, você precisa me ajudar. – seu coração se apertou, e ele já caminhava para o quarto e buscava uma camisa, pegando a carteira e as chaves do carro no caminho.

— Onde você está, Hinata? – ela não estava bem. Ele sabia disso. Sentia isso. Vestiu a camiseta de qualquer jeito, calçando chinelos e correndo pela porta, batendo-a atrás de si sem se importar em trancar. Apertou o botão do elevador com impaciência.

— Sabe a padaria perto do... – parou, respirando fundo – perto do prédio onde você me deixou outro dia? – parou, parecendo ter dificuldade em respirar e falar ao mesmo tempo – Estou aqui na esquina.

— Eu me lembro. Em cinco minutos estou aí. – já estava a caminho do subsolo.

— Por favor. – soou como um último rogo antes de desligar. Naruto passou a mão pelos fios rebeldes, grunhindo. Saiu para a garagem, correndo em direção ao seu carro e destravando.

Sequer colocou o cinto antes de sair em disparada. Fez uma manobra que provavelmente mataria seu pai do coração e lhe renderia duas ou três multas – não tinha a menor importância. Só precisava chegar rápido onde Hinata estava. Se perguntou o que tinha acontecido, e sua mente fértil simulou o rosto furioso do namorado miserável dela. Inconscientemente, suas mãos se apertaram no volante. Pegou um atalhou e passou o sinal vermelho, entrando no bairro mais afastado. Lembrava-se vagamente de uma padaria, um quarteirão abaixo, e rezou para estar certo.

Avistou o estabelecimento assim que entrou na rua principal. Estacionou do lado contrário, descendo e deixando as janelas abertas. Seus olhos varreram o local, movimentado, e pousaram em Hinata quase um segundo depois. Atravessou a rua correndo, em direção a ela, e fez uma análise geral. Não parecia ter marcas visíveis de agressão, embora seu rosto estivesse manchado de maquiagem. Tinha os olhos fechados e a boca entreaberta, fazendo uma careta ou outra. Quando estava próximo o bastante, percebeu que ela apoiava as mãos contra a barriga, e seus punhos tinham marcas roxas de dedos.

— Hina! – chamou, sem querer assustá-la. Hinata abriu os olhos imediatamente, agradecendo silenciosamente – Vem, eu te ajudo. – passou um dos braços por sua cintura, e o outro apertou logo abaixo da costela. Ela soltou um grito de dor, e Naruto a fitou preocupado – Calma, vem. – sem fazer perguntas, não segurou no local, procurando apoiou na cintura. A ajudou a atravessar até seu carro, desviando de buzinas alvoroçadas. Abriu a porta do carona e a colocou no banco, dando a volta com pressa.

Dentro do carro, fechou os vidros e ligou o ar-condicionado, dando-lhes privacidade. Exalava inquietação, sobretudo. Hinata recostou a cabeça, recuperando o fôlego. Tinha um corte no lábio, como se o tivesse mordido demais. O cabelo bagunçado e o rosto pálido, com dor. Naruto não queria ser invasivo, mas também queria saber como ajudar.

— Puxa, eu deveria ter começado a pedir sua ajuda mais cedo. – arriscou uma brincadeira, em meio a ofegos. Tentou sorrir, mas se transformou rapidamente em uma careta. Isto, somado ao aperto forte na costela esquerda, era o bastante para deixar Naruto alarmado.

— Hina, você está ferida. – não era uma pergunta.

— Vou ficar bem. – arfou – Só... vamos embora. – implorou silenciosamente. Naruto assentiu, arrancando a saída, com uma das mãos no volante e a outra segurando a de Hinata. Ela não soltou.

Pegaram a saída principal e ele acelerou, atravessando a cidade mais rápido que antes, se é que era possível. Estava preocupado com as caretas doloridas que Hinata fazia, e seus lábios começavam a perder a cor. Queria levá-la para um hospital, mas não tinha certeza se a garota concordaria. Pegou um caminho muito conhecido por ambos, e, em silêncio, continuou apertando seus dedos, cada vez mais forte. Entrou pela garagem com cuidado na rampa, estacionando o mais próximo do elevador. Parou, saindo com rapidez, e, antes que Hinata pudesse se mover, ele abriu a porta do passageiro, passando o braço por baixo de seus joelhos e apoiando seu pescoço.

— Ei! – reclamou, e ele fingiu não ter ouvido, enquanto fechava a porta do carro com o pé e chamava o elevador.

Novamente na cabine, o aço laminado espelhava o casal, ainda sem falar. A adrenalina esvaiu de seu corpo, e Hinata sentia latejar cada uma de suas células. Respirava com dificuldade, os pulmões dando pontadas, e suspeitou de algo quebrado – não seria a primeira vez –. Não acreditava na própria sorte, embora não quisesse, realmente, ter pedido ajuda a Naruto. Ela efetivamente se atreveria a andar por trinta quarteirões antes de aceitar que ele a carregasse, contudo, assim como muitos aspectos, ela notara, a teimosia de Naruto ainda era a mesma.

Sentia-se confortável em seus braços. Estavam mais fortes, e mais firmes. Mas também mais cuidadosos. Com as mãos sobre a barriga, a morena lutou contra todas suas forças para não abraçar seu pescoço. Já estava difícil resistir com tamanha aproximação, ela não precisava de mais motivos para lhe tirar o sono. Estava muito ciente – obrigada – da respiração tranquila em sua pele, dos dedos que a seguravam como se ela fosse a coisa mais importante que andava na Terra. Era intenso, e assustador. E bom.

Chegaram no andar do apartamento de Naruto, e ele abriu a porta, destrancada. Hinata não deixou de seu surpreender com a claridade e como os cômodos pareciam amplos. O cheiro de produtos de limpeza alcançou seu olfato, algo de lavanda e álcool. A estante estava reorganizada, os tapetes estavam novos e as cortinas estavam abertas, revelando uma janela muito transparente. Os mesmos móveis, contudo, das lembranças da garota. Ela engoliu em seco, o coração batendo muito forte.

Naruto a repousou no sofá, estendendo suas pernas. Em seguida, sentou-se ao seu lado, no carpete, afastando delicadamente os fios de seus olhos. Os encarou sem medo, mergulhando as pérolas em seu oceano pacífico. Cauteloso, sem querer assustá-la mais do que ele mesmo já estava assustado, moveu a ponta dos dedos por sua camiseta.

— Eu preciso dar uma olhada nisso, Hina. – se desculpou silenciosamente, e ela assentiu, respirando fundo.

O Uzumaki puxou a barra para cima, tomando cuidado para não expor mais do que o necessário. De qualquer maneira, não foi preciso passar muito além do busto – manchas arroxeadas chamavam atenção no contraste com a pele de porcelana. Específicas em um ponto entre as costelas da esquerda, pintavam uma cena nada agradável. Naruto grunhiu, sozinho, tentando não imaginar aquele desgraçado agredindo-a.

— Eu me lembro de estar nesse sofá em situações melhores que ultimamente. – as piadas lhe ajudavam a lidar com os tremores ansiosos. Naruto soltou uma risada anasalada antes de passar para o sofá, sentado perto de seus pés.

— É, eu gostaria que fosse como antes, se você não se importar. – alfinetou de volta, a fazendo corar um pouco. Em seguida, suspirou – Eu sinto muito, isso está muito feio.

— Já estou acostumada. – respondeu tão casualmente que fez Naruto cerrar os punhos – É sério, não está tão ruim quanto parece. – no fim da frase, a falta de fôlego traiu sua afirmação, porque a dor a deixou arquejante.

— Não está tão ruim? Precisamos ir para o hospital! – argumentou, irritado; não com ela, mas com aquilo. Era errado, e o deixava possesso.

— Nada de hospital. – rebateu, estremecendo e arfando. Estava doendo demais – Quer saber? Pega meu celular e aperta a discagem rápida. – Naruto se levantou, puxando a mochila que arrastou junto do carro.

Pegou o aparelho e discou #1. Tocou duas vezes antes de ser atendido.

— Hinata? Hinata! – uma voz estridente e alarmada atendeu – Por tudo que é mais sagrado, me perdoa! Meu celular estava carregando e eu cochilei. Por favor, me diz que você está bem! – falava rapidamente. Naruto tinha a impressão que conhecia aquela voz, só não se recordava da onde.

— Hm, aqui é o Naruto. – houve uma pausa do outro lado.

— Oh.

— A Hinata está bem... quase bem. – virou-se para ela, como quem pedia orientações. Leu seus lábios formando as palavras “vir aqui” e assentiu – Eu estou com ela no meu apartamento, em Shinjuku. Ela me pediu para ligar e perguntar se você pode vir.

— Claro, eu sei onde fica. Já estou a caminho. — desligou, sem mais. Naruto baixou o celular, ainda um pouco confuso. Como aquela garota sabia onde era seu apartamento? Resolveu que não queria descobrir. Em vez disso, se voltou para Hinata, que tentava controlar os espasmos, encalcando a lateral do abdômen.

Mesmo que pudessem se tocar, e certamente estivessem compartilhando calor, sentiam-se mais próximos do que jamais antes, desde que Naruto voltara. Para Hinata, era intimidante. Estava nua, entregue, dependente, e isso assustava. Como se não fosse o suficiente, as palavras de Kiba continuavam a rondar sua mente. Ela tinha dado um basta, mas provavelmente ele não desistiria, e tinha medo de ceder, por ter medo de se deixar soltar. Tinha medo de ter medo, e tudo era uma merda. Ela não precisava de Naruto confundindo seus pensamentos, suas reações e seu coração.

Ela estava sóbria e definitivamente não odiava Naruto – era o bastante para ele se sentir feliz. Veja bem, o loiro não comemorava aqueles hematomas e possíveis fraturas, muito pelo contrário. Seu desejo era sair daquele apartamento imediatamente e quebrar o Inuzuka em dois. Mas Hinata precisava dele, e ele estaria ao seu lado até que ela o mandasse sair. Era o primeiro dos momentos que partilhavam juntos sem que houvesse uma absurda carga emocional pairando sobre o ambiente. Ele via como seu rosto estava entristecido, e tinha conhecimento que nada era tão simples. Mas já era um começo, e isso era o suficiente.

Hinata, distraída, passou os olhos pelo cômodo. A cozinha continuava igual, dali, mas as caixas de papelão tinham desaparecido. A decoração da sala estava de dar inveja, com uma televisão nova e videogame. Nada de vasos de plantas ou enfeites, apenas porta-retratos nas prateleiras. Riu sozinha com as fotos do loiro e a Sakura. Algumas pareciam recém-tiradas, outras eram antigas – como as dele com Minato e Kushina. Foi somente quando chegou no topo que viu, e sua garganta se fechou.

Ela se lembrava daquele dia. Droga, ela se lembrava de todos os dias. Também tinha uma cópia daquela foto, guardada em uma caixa lacrada e escondida. Só não esperava que Naruto também a tivesse ainda, e, mais que isso, a colocasse exposta na frente de todas. Tão sorridentes, tão entregues – mal faziam ideia do que o futuro lhes reservaria. Eram dois adolescentes apaixonados, vivendo cada dia como se não houvesse um amanhã. Hinata costumava pensar que foi por isso que o amanhã doeu tanto para ela.

Naruto acompanhou seu olhar um segundo mais tarde, e viu o que ela encarava. Culpado, engoliu em seco e se apressou para desculpar-se:

— Não foi de propósito, não queria te ofender nem nada do tipo. – se levantou para baixar o quadro, mas, surpreendentemente, Hinata o segurou pela barra da camiseta. Seus olhos estavam brilhando com o que provavelmente seriam lágrimas, mas ela não as deixaria cair. Balançou a cabeça.

— Está tudo bem. – pigarreou, limpando a garganta – Não se preocupe, está tudo bem. Eu gosto daquela.

A Hyuuga convenceu a si mesma que era seu sentimental fraco que a deixara daquele jeito. Uma simples foto, foi o que bastou para ela sentiu seu coração sair pela garganta, e seu peito se aquecer como fogo em brasa. Uma foto, e apenas isto. Poderia não significar nada – mas ainda estava ali, e Naruto olhava para ela todos os dias, quando vinha pelo corredor. Estava no alto, com uma moldura bonita. Ele se importava. Ele realmente se importava.

E então, dessa maneira, Kiba estaria errado, e haveria outras pessoas. E ela poderia começar a se libertar.

Naruto, surpreendido demais, agradeceu quando a campainha tocou. Hinata deixou o braço cair vagarosamente, e ele foi até a porta para atender. Quando abriu, sentiu seus olhos arregalaram para fora da órbita, a boca escancarada de uma maneira particularmente cômica. Parada na aldrava, uma figura feminina bastante conhecida esperava, impacientemente, para entrar.

— Shi-shi-shi-shi-shi-

— Sim, isso mesmo, agora sai da frente. – ela revirou os olhos, empurrando-o sem dificuldade.

Naruto permaneceu atônito, vendo a garota atravessar sua sala direto para se ajoelhar ao lado de Hinata. Sua cabeça deu um nó, principalmente porque ele pensou ter que dar algum tipo de explicação – porém, agora, as duas garotas conversavam como se fossem velhas amigas. Vagarosamente, fechou a porta, permanecendo afastado enquanto a cena se desenrolava.

Hinata respirou aliviada quando Shion entrou, como um furacão de cabelos loiros. Seu rosto parecia culpado, e ela se aproximou, com a mão em seu rosto. Acariciou suas bochechas, e a morena inclinou-se sobre ela, feliz, apesar de tudo.

— Me perdoa, eu devia ter atendido. – desculpou-se, e Hinata balançou a cabeça.

— Não se preocupe. O Naruto fez um bom trabalho. – indicou com a cabeça o garoto que ainda parecia fora do corpo. Shion o fitou por alguns segundos antes de suspirar e concordar.

— Obrigada. – resmungou. O Uzumaki pareceu voltar em si, se aproximando com estarrecimento.

— Espera, espera, espera! – gesticulou, jogando-se na outra ponta do sofá, encarando as duas garotas – O que está acontecendo aqui?

— Ele continua o mesmo. – Shion rolou os olhos, inclinando-se na direção de Hinata para darem risadinhas. Risadinhas.

Naruto não estava acreditando que aquilo realmente estava acontecendo. Não via Shion há o que, cinco, seis anos? – a não ser pelo dia no mercado, quando se encontraram por acaso –. Quais eram as possibilidades dela e Hinata se reconhecerem? Mais que isso, serem amigas!

Assim como na outra tarde, a garota continuava linda. Usava uma blusa de alças que deixava suas omoplatas a vista. Seu corpo era proporcional, os seios pequenos e as pernas alongadas, como uma modela. O cabelo louro e fino descia em cascata por seus ombros, escorrendo para frente quando se inclinava. Seus olhos, tão claros que quase beiravam o violeta, continham um brilho zombeteiro, mas estava claramente preocupada. Era uma aflição genuína, disfarçada por uma camada de sarcasmo.

— Vocês se conhecem. – soou como uma pergunta, mas era uma afirmação espantada – Como?

— Unidas pelo clube de garotas abandonadas por Naruto Uzumaki. – Shion alfinetou, e Naruto enrubesceu.

— Shion. – Hinata chamou, disfarçando uma risada – Não seja má. – virou-se para Naruto, ofegando quando mudou de posição – Shion é a minha melhor amiga. – o Uzumaki surpreendeu-se com a declaração tão aberta, e a loira, por outro lado, revirou os olhos, parecendo envergonhada – Ela esteve do meu lado, bem, desde sempre. – houve uma segunda frase implícita que ele compreendeu alguns segundos depois, quando avistou as cicatrizes claras no pescoço de Shion, e a maneira que ela dedilhou seu abdômen, com cuidado e atenção.

— Entendo. – murmurou.

De repente, a atmosfera se tornou pesada. Naruto percebeu, novamente, como sua percepção da realidade era diferente. Por quantas coisas aquelas garotas tinham passado? Ainda passavam?

— O que aconteceu, Hina? – Shion mudou de assunto, inclinando-se sobre ela.

— Acho que- AI! – gritou assim que a loira apertou nos hematomas – Ai mesmo. Acho que quebrei. Bati contra o balcão. – grunhiu, afundando a cabeça na almofada.

— Se está quebrado, você precisa ir para o hospital! – Naruto opinou, levando dois pares de olhos fuzilantes.

— Nada de hospital.

Ele ficou quieto. Shion analisou por mais alguns minutos, tomando cuidado com os pontos mais escuros. Hinata arfou uma ou duas vezes, mordendo os lábios.

— Ok, parecem estar fraturadas, mas se conseguirmos imobilizá-las, talvez melhorem sozinhas em uma ou duas semanas. – diagnosticou – Ei, você. – Naruto sobressaltou – Isso, você, idiota. – embora parecesse com raiva, segurava uma risada – Tem uma caixa de primeiros socorros? E talvez algumas talas? – ele assentiu, se levantando e desaparecendo pelo corredor. Hinata e Shion esperaram até estarem completamente sozinhas, e se inclinaram para conversar aos sussurros – Em nome de todos os deuses, Hinata, onde você está se metendo? – bronqueou.

— Eu disse a Kiba que não queria mais vê-lo. – confidenciou, tão baixo que a loira teve de se inclinar para ouvir. Julgou ter escutado errado, e deixou a boca entreabrir.

— Você disse? – havia um brilho curioso em seus olhos.

— Ele surtou. – apontou para as costelas faturadas – Eu não sei, talvez tenha sido um erro. – murmurou, e Shion imediatamente negou.

— Está louca? Hinata, esse é o primeiro passo! Eu estou tão orgulhosa de você. – ela sorriu verdadeiramente – Existem muitas pessoas ao seu redor agora. Você vai conseguir. Eu vou te apoiar. – segurou suas mãos com firmeza – E ele também vai. – acrescentou com uma piscadela, fazendo Hinata corar no momento em que Naruto voltou, com uma grande caixa branca e algumas talas ainda embrulhadas em plástico.

— Sorte a sua minha mãe ser doida e ter me mandado comprar talas. – ironizou, balançando-as em sua mão direita.

Os três riram, e Hinata soltou uma queixa de dor. Eles se apressaram e imobilizaram sua costela, sem perguntas.